Revista O Martelo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DE VOLTA AO TOPO

OZZY OZBOURNE, KORN E BLACK LABEL SOCIETY
Rio Arena, Rio de Janeiro
3/4/2008

Fui ao show com um amigo jornalista e engenheiro. Ele demonstrou toda sua admiração pela obra fantástica que é este Rio Arena (ou HSBC Arena, que já o encampou), uma quadra poliesportiva grandiosa no meio de uma extensa planície a ser desbravada pela especulação imobiliária. “Coisa de primeiro mundo!”, exclamou. Realmente a visão desse novo Rio de Janeiro renascendo dos restos do Panamericano e caminhando em direção a Zona Oeste é algo admirável. Uma espécie de nova Capital nascida no Planalto Central.
A quilométrica fila exibia-se às 17h30 com centenas de milhares de camisas pretas e meninas com os cabelos pintados e descoloridos. Assim que abriram os portões, o primeiro grande momento do pré-espetáculo foi a frenética correria dos fãs em busca de sua Meca particular. Emocionante e imaturo. A visão de uma quadra ladeada por cadeiras vermelhas com um pano gigante da caveira do Black Label Society encobrindo o palco cegou nossos olhos. Os primeiros amigos começaram a aparecer. Os jovens e os eternamente jovens. Olhei para o teto. A impressão de que o som não seria o melhor do mundo não foi errônea.
Na hora programada, o Black Label Society, o quarteto do guitarrista do senhor Ozzy, fez as honras da casa. O impacto dos oito cabeçotes em cada lateral do palco não era reproduzido pelo som estridente do P.A. e estilisticamente a coisa continuou de mal a pior, pois a banda é um arremedo de nada com coisa alguma: Zakk Wylde com sua barba religiosa e insígnias de Hell Angel evangélico cantava monotonamente composições absolutamente iguais. Para piorar, o rapaz emendou um solo de guitarra com wah-wah antes da terceira faixa. Tem gente que não aprende.
Mas ninguém se importava muito com isso. A faixa “Fire It Up” foi bem aplaudida. Zakk terminou seu show fazendo o sinal da cruz duas vezes em frente ao gigante pano negro com o desenho de uma cruz encabeçada por um Cristo com olhar demoníaco e uma freira do capeta. Lembrei de Johnny Rotten e seu epítome nos Sex Pistols: a sensação de estar sendo enganado. Show-business e nenhuma sinceridade. Encenação de estética roqueira com cabelos compridos, jeans, couro e nenhum cérebro.
Sem muitas delongas, os papas do new metal do Korn tocaram com um som ainda pior. Um verdadeiro rádio de pilha gigante. Se antes a guitarra de Wylde era escutada, agora nada se ouvia a não ser a voz de Jonathan Davies e seus requebros de rapper branco desengonçado com saia de grunge de museu de história natural. A formação “brasileira” contava com o baixista Fieldy, o guitarrista Munky, o percussionista Kalen Chase, o guitarrista Shane Gibson, o baterista Ray Luzier e o tecladista Zac Baird. Chase espancava seus tambores e nada. Os instrumentos de corda se perdiam indolentes. Se antes o arremedo de riffs clichezados do Society me fez bocejar, agora o problema era outro, mas similar na essência. Acho que foi por isso que o ex-guitarrista Head         (que mostrou ter alguma cabeça) trocou o Korn por Jesus.
O Korn renovou a cena metálica. Ponto a favor. Mas ao vivo as músicas são absolutamente idênticas assim como as do seu predecessor barbudo e cabeludo. E sem baixo era pior ainda. Quer dizer, renovação nesse caso não passou de engodo. Bola fora. A maioria dos grupos, grandes ou pequenos, se esquece de que a canção tem que prevalecer sempre. Infelizmente é mais pretensão estética e menos foco musical. Para esclarecer: o local começou a lotar a partir do Korn pois os cambistas facilitaram as coisas do lado de fora. Parecia coisa armada.
Exibido nos telões, o vídeo com Ozzy “se introduzindo” eroticamente e ironicamente entre as séries Sopranos, The Office e Lost gerou boas gargalhadas. O clima ficou mais leve. A (ex) entidade do mal assumiu de vez seu papel de bobo da corte. Mas é assim mesmo: Ozzy é um sujeito simpático, que veio de baixo (nem tinha roupa ou sapatos para ir para o colégio) e que ao vivo continua um menino. Um menino que atrai multidões - alguém duvida que 99% dos nove mil presentes não estavam ali para ver o vocalista do Black Sabbath?
A banda de Ozzy era formada por Zakk Wylde, Rob “Blasko” Nicholson no baixo, Adam Wakeman (o filho de quem vocês estão achando que é nos teclados) e Mike Bordin (ex-Faith No More na  bateria). Os graves que antes andavam sumidos do P. A. deram o ar total de sua graça quando o mestre entrou para acabar (ou começar) com a festa. A guitarra estava com o som mais encorpado, ainda sem muito destaque. Estranhamente o som do instrumento estava revestido com uma onda, como a de um phaser, que tornava tudo empastelado. A coisa começou estranha. A voz de Ozzy ressoou em todo o ambiente, clara e bonita. As notas graves dos teclados (com som de Hammond) rangeram poderosas por todo o estádio. “I Don´T Want To Stop” foi a fraquinha canção nova que deu início ao único show da noite. O telão projetava imagens para dar o devido suporte às letras. Depois vieram os clássicos: “Bark At The Moon”, “Mr. Crowley”, “Suicide Solution”, “Crazy Train”.
Quando Ozzy anunciou “War Pigs” envolto em imagens em preto e branco da Segunda Guerra lembrei no ato do último show do Faith No More no Rio ao ver o mesmo baterista Mike Bordin no palco. Revoltado com os experimentalismos do Faith No More, o público deu-lhes uma vaia histórica. A banda ficou tão desconcertada que para ganhar a simpatia dos presentes tocou... “War Pigs”! Mas nada de semelhante ocorreu pois Ozzy era e ainda é o pai desse filho com dono.
Porém algo estranho começou a acontecer no reino da Dinamarca (ou do bairro da Barra). O baterista Mike Bordin escorregava em pequenos erros durante algumas das músicas. Muitas vezes Zakk Wylde (já com a barba amarrada) encostava nos amplificadores e olhava para o baterista como que procurando o rumo. O guitarrista mandou mais um solo de guitarra, dessa vez mais baseado em acordes misturados e ligados extraídos de “Spanish Fly”, do segundo disco do Van Halen. Foi um negócio tão chato que me cocei todo. “Se emendar em um solo de bateria eu saio correndo”, intuí. O repertório incluiu quatro baladas.
Desnecessário.
Ozzy abaixou a calça para mostrar a “poupança da caixa”. “Há! Há!”, riu. Demorou a afivelar o cinto. O tele-prompter falhou, ele também. Quase imperceptível. O telão caçava moças encantadoras na platéia e só encontrava mestiças mignon de beleza duvidosa.
Antes de tocar a beatlemaníaca “No More Tears” (com o melhor solo da era pós Randy Rhoads) o baixo emudeceu. Ozzy pediu desculpas “Problemas técnicos” e gritou “C´mon!” colocando as mãos nas ancas. O velho menino não tem muito estado de espírito para situações adversas. E tudo seguiu adiante. O vocalista prometeu não demorar tanto a tocar no Brasil e foi aplaudido (pelos meus cálculos o último show foi há 13 anos). Voltaram para o bis-que-não-é-bis com a inexplicável “Mama, I´m Coming Home”, outra da safra “roubo os Beatles, sim, estou vivendo/ Tem gente que não rouba e está morrendo”. Claro, sem o mesmo brilho.
Em seguida, Ozzy anunciou “Paranoid”. Meu amigo jornalista avisou: “Em um DVD, vi ele jogar a guitarra para o público”. Que boquinha, hein? Dito e feito. Se ele jogou ou a guitarra foi puxada as fontes divergem. Vamos partir do princípio que ele a jogou. Pois bem. Era o público do RIO. Não preciso dizer mais nada. A bichinha não voltou. Nem a gritaria dos seguranças corpulentos ou dos gringos mal-encarados assustou os larápios, o instrumento havia sido tragado pelo mar de corpos suados. Ozzy preferiu não parar. “Paranoid” prosseguiu até o fim apenas com baixo e bateria.
Wylde, espumando de ódio, desceu para pegar a guitarra à força. O ranço anti-imperialista teimou em devolver a Les Paul. A última nota paranóica foi tocada. “Thank You. Bless You All”. Somente após o término do show, devolveram o instrumento ao homem, que ainda bufava, sem a cabeça e com as costas violadas por um pisão federal. Ele a exibiu aos índios e escravos do terceiro mundo sem acreditar, ainda fulo da vida. Ozzy exigiu que todos se abraçassem. Wylde continuou olhando para a frente, roxo de ódio, procurando o ladrão destruidor de Les Pauls. Nem sinal do Bin Laden.
Por falar nisso, o baterista Bordin, que é a cara do Bin, passou a mão na cabeça do guitarrista sugerindo que ele se acalmasse. Mas a festa acabara para o guerreiro cabeludo com pulseiras de couro. Lembranças do Rio, with love my friend. Quem mandou solar duas chatíssimas vezes sem respeitar os deuses da música?
Um final inesperado para um show óbvio que todos amam amar.
Notícia de última hora: a equipe do Jornal da Globo apareceu no final do show para fazer um flash ao vivo e dona Sharon, empresária, esposa de Ozzy e mulher-barraqueira disse não.

SET LIST BLACK LABEL SOCIETY
New Religion
Been A Long Time
Suffering Overdue
Bleed for Me
Suicide Messiah
Fire it Up
Concrete Jungle
Stillborn

SET LIST KORN
Untitled Intro
Right Now
A.D.I.D.A.S.
Hold On
Falling Away From Me / Open Up Outro
Coming Undone / We Will Rock You
Here to Stay
Faget
Freak on a Leash
Evolution
Somebody Someone
Got the Life
Blind

SET LIST OZZY
I Don't Want To Stop
Bark At The Moon
Suicide Solution
Mr. Crowley
Not Going Away
War Pigs
Road to Nowhere
Crazy Train
Iron Man/ I Don't Know
No More Tears
Here For You
I Don´t Want To Change The World
Bis
Mama I'm Coming Home
Paranoid

 

(resenha originalmente publicada na Rock Press)

 

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