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Glenn Hughes – Circo Voador – domingo, 28 de outubro de 2007 - Rio

texto: Carlos Lopes / fotos: Marcelo Pereira

Muito shows no mesmo final de semana. Glenn Hughes e Napalm Death no mesmo local só que em noites diferentes. Isso sem contar o Tim Festival com dezenas de artistas fantásticos (ler resenha nesta mesma página). Mas já que estamos aqui pelo Glenn vale a menção: ele merecia casa lotadíssima. Se não a teve pelo menos os presentes estiveram lá de coração. E coração tem tudo e ver com este branco inglês de alma negra que aportou no Rio pela primeira vez. Muito se reclama – “nunca tem show” - mas na hora do-vamos-ver - o povo não tira o rabo de casa. Falta de grana? Desconhecimento? Acomodação? Não se pode culpar o Napalm e nem o Artic Monkeys por isso.
Por volta de 23 horas, Glenn - já reclamando no camarim do Escaleno, a banda de abertura -  empunhou o seu baixo (que não se escutava claramente, apenas sentia-se) decidido a mostrar porque ele ainda é o cara. Era o último show da excursão, segundo ele mesmo, e Glenn tinha gás para mais dez.
Com um trio de luxo (o guitarrista J.J. Marsh, o baterista Steve Stevens e o tecladista Ed Roth – filho de brasileira) Glenn mandou “Stormbringer” na lata.


De cabelos curtos e óculos escuros, Glenn não perdoou os presentes prosseguindo com
“Might Just Take Your Life” e “Mistreated”. A voz perfeita o destacou claramente de Ian Gillan que perdeu a sua, conforme visto e ouvido nos últimos shows. Evoluir como compositor ou cantor, Glenn não evoluiu nada para falar a verdade. Mas isso não faz a mínima diferença: ele já era tão bom desde os tempos do Trapeze que só precisava “tocar o barco”, o que ele soube fazer muito bem. O hard rock setentista não é um estilo melhor do que os outros. Simplesmente sua perenidade se deve a qualidade das composições. O povo, deslumbrado, simplesmente sorria e gritava. A reação foi tão positiva, que Glenn fez o sinal da cruz agradecendo aos céus. Nem precisava.
Logo no início do show, Marshal passou a solar sem interrupção. Glenn pediu aplausos. O publico atendeu. Mas o solo se estendeu além do normal. Glenn colocou a cabeça perto do guitarrista, parecendo ter-lhe sussurado algo como “já ta bom”. De qualquer modo, Marshal tocou muito bem a sua guitarra stratocaster puro Blackmore. Afinal já são 13 anos de trabalho com mister Hughes.


Entre faixas púrpuras algumas pérolas dos últimos discos solo Music for the Divine (a razoável “Steppin’ On”, “Monkey Man” e “You Got Soul”) e Soul Mover brindaram os presentes com mais “funk” como o vocalista gostava de chamar sua música. No máximo ele empregou o termo “hard funk”. Inevitavelmente surgiram solos de bateria e teclado (“hard rock 70” enfim). Ed Roth aproveitou para traduzir - para português de gringo - uma confissão pública de Hughes que disse ter perdido a mulher para o melhor amigo. E acrescentou, que quando ela quis voltar ele agradeceu ao ex-amigo por isso. Fez-se “Don’t Let Me Bleed”, linda.
Em seguida o baixista pediu a todos que rezassem pela alma do falecido guitarrista Tommy Bolin. Daí a banda puxou “Gettin’ Tighter” em total sintonia. Em uma bela improvisação vocal, digna dos mais incríveis soul men, Hughes praticamente “solou” seu melhor instrumento, a voz rasgada em “You Keep On Moving” durante deliciosos e fartos minutos. Aproveitou para dar uma elogiada no “amigo” e autor da música David Coverdale, com quem lutou por espaço dentro do Purple nos anos 70. Mesmo que muitos não entendessem (pois erroneamente se separa soul de rock) houve um respeito quase religioso pela vibração da música. Como se todos estivessem reunidos em uma igreja batista negra no interior dos Estados Unidos. E Glenn mais uma vez agradeceu. Talvez aos orixás.
Antes de se despedir Glenn prometeu voltar em junho de 2008. A vibração estava tão boa que ele afirmou ter certeza de que havia encarnado no Brasil há 200 anos. “As pessoas daqui tem alma”, ele disse. E alma significa soul. E soul é rock. E rock é tudo de bom.
Para encerrar a festa da senzala, “Burn” foi trazida lá do distante 1974 para brindar o nosso 2007, queimando como nunca.

Cds e Dvds