DONOVAN FRANKENREITER e BEN HARPER AND THE INNOCENT CRIMINALS
25 de janeiro – Claro Hall – Rio de Janeiro
Se você ama e compreende o que é ter alma conte nos dedos quantos shows iguais a este você vai ter oportunidade de assistir.
Nenhum deve ser a resposta mais sensata.
Posto esta afirmação vamos ao texto.
A casa estava especialmente lotada nessa noite de “good vibrations”, que apesar de não ser estritamente ligada aos Beach Boys tinha muito a ver com praia. Na vida real os artistas da noite pegam uma (ou várias) onda de leve. O público? Saía pelo ladrão, a maioria bem vestida, alimentada e de banho tomado, o que não é muito difícil visto que pegar onda não deixa de ser um banho. Mas é sempre bom tomar uma ducha para tirar o sal.
Sabemos que certos povos não se cruzam nas encruzilhadas da existência pois os estilos de vida são muito distintos. Por isso o interessante dessa noite foi a união das diferenças em uma daquelas noitadas de paz para entrar na história. Bandeira branca amor.

“Whatcha Know” exibiu Donovan Frankenreiter em esplendor e glória, que até aquele momento era para mim um ilustre desconhecido. O cara literalmente levantou a galera, não daquela forma como se vê em shows de pula-pula mas apenas com carisma e muito som. Musicalidade e simpatia puras. Donovan pratica aquele estilo quase inclassificável de rock clássico, soul, hippismo e surf music (!) em um formato caprichado e não muito cabeçudo. Donovan é tão camarada do Jack Jonhson que é como se “Do” fosse uma versão de “Ja” com guitarra e cabelo desgrenhado (inclusive uma música famosa foi escrita em parceria: “Free”).
Curioso como esse tipo de rock – clássico envolto em “nuvens” – tem aceitação entre os de bem com os esportes aquáticos quase como se fosse um novo estilo. O som estava para lá de ótimo, os músicos debulharam seus instrumentos sem afetações como comumente se vê em bandas de guitarristas “estudados” que desconhecem as palavras bom gosto e arranjo. A técnica de Donovan de tocar com os dedos proporciona aquele som bonito de cordas “percutidas”. Bacana. Notas essas muito bem dispostas com sentimento entre vocais sensíveis.
Um detalhe curioso: a correia da guitarra do californiano não passava de um pedaço de trapo sujo. Interessante. “Butterfly” levada com um violão foi uma boa intro para “Make You Mine” (com a participação de George Israel do Kid Abelha no sax), “Free” (é óbvio) e “It Don´t Matter” que fechou a noite com Paula Toller, uma gracinha de chapeuzinho e seu eterno estilo de balas kid.
para os interessados em conhecer mais a música e os trejeitos do rapaz, há um DVD lançado no brasil chamado the Abbey Road Sessions (obviamente gravado no mesmo estúdio que os Beatles gravaram seus discos). infelizmente devo recordar que DONOVAN FAZ PARTE Da trilha sonora do “filme” “Snakes on the Plane” (AF MARIA!) com a não muito conhecida “banda” Fall Out Boys.. isso sem contar um OUTRO TANTO de coletâneas de “surf” NO MERCADO.
Set List Donavon:
Whatcha Know
Byron Jam
Lei It Go
Butterfly
Fool
Make You Mine
Move
Free
It Don't Matter
Agora fala sério...O que foi aquilo? Saí do show do Ben Harper em completo estado de graça, convencido que rock anda ruim das pernas há anos porque a quantidade de negros tocando o estilo é muito pequena. Aqui não cabe uma afirmação “black is beautiful”. Independente da raça, verdade seja dita: ser da “cor” não quer dizer nascer com talento mas que ajuda, ajuda muito. Harper (ou Háper como umas malas anunciaram antes do show) estava com o diabo (ou Deus ou Jah) no corpo. Sua guitarra estupidamente hendrixiana com cotas de Led Zeppelin cuspia labaredas de precisão milimétrica com o slide mais direto do que uma penetração prenha de desejo. A intersecção com Superstition de Stevie Wonder foi mais do que natural. Estava lançada no Rio a pedra fundamental do Both Sides Of The Gun. Seja elétrico ou acústico as execuções arrepiavam. Engraçado que Harper demonstrou menos intimidade com o instrumento quando o tocava de pé. Agora sentado com a guitarra no joelho, o homem é o carcará: pega, mata e come. 
As projeções no fundo do palco foram um show a parte: cenas de vitrais e cores psicodélicas envolviam os músicos em um abraço fraterno. A bandeira do Brasil também foi projetada recebendo aplausos vigorosos e a eterna gratidão do músico que confessou ter ótimas lembranças da cidade quando cá esteve em 1998 (citou o “Corcovado” mais claramente). Por falar nos músicos preciso destacar Oliver Charles na bateria, Leon Mobley na percussão e Juan Nelson no baixo de 5 cordas que foram um show a parte. Oliver mandou ver em um solo de percussão simplesmente divino, cheio de suíngue que levantou o Claro Hall. Em adição Juan executou um solo de slap e groove tão impressionante que pareceu que o baixo tinha vida própria. E quando ele resolveu cantar “I Got A Woman”? Nossa senhora! Que timbre aveludado e bluesy!
Agora vamos às reações da platéia pouco acostumada com shows de rock. Muitas vezes percebi uma grande passividade perante os solos quilométricos de Harper. Nada mais natural: a improvisação desenfreada já está há muito tempo perdida na bruma do tempo. Mas como é engraçado assistir alguém que se obriga a gostar: é verdadeiramente patético. O povo estava doido para ouvir um reggae e teve gente que passou o show inteiro pedindo a mala dessa canção, um cancro no repertório do homem (antes que reclamem tem reggae bom é claro. Mas esse não é o caso). O músico postergou a execução da faixa até o final depois que usou e abusou da platéia. Para ele esse povo era pinto comparado com sua batalha poética contra o presidente Bush...
Convidados? Nada de Kid Abelha dessa vez. O “rabino” Matisyahu (primo do Cat Stevens?) cantou em “Get Up Stand Up” e Donovan – todo simpatia - em “Diamonds On The Inside” (tema do sexto álbum de Harper de 2003 que lhe trouxe o verdadeiro sucesso). Foi legal.

Dois grandes momentos: Harper pediu silêncio à platéia (como?) e cantou à capella - a plenos pulmões - sem microfone. Foi a coisa mais linda do mundo. Arrepiou. Para variar um idiota de longe gritou: “Aleluia irmão!”
O segundo momento foi depois do segundo encore quando o povo começou a gritar em massa o nome do baixista: Juan Nelson virou Tim Maia! Isso mesmo que vocês estão lendo. O cara não quis sair do palco, ficou emocionado. O pequenininho do Leon teve que retirá-lo de lá que continuava retribuindo todo o carinho de braços abertos como o Cristo sobre a Guanabara.
Um comentário: Muitas vezes assisti coisas deploráveis como D´Angelo e Macy Gray os esteriótipos do soul, uma pastelaria bizarra de mal gosto e sem o mais importante: alma. Harper é alma pura, rock and roll genuíno. Fechei os olhos e ouvi Otis Redding cantando. Juro. Não era apenas igual mas espiritualmente conectado à essência de tudo o que é mais elevado na soul music de verdade. Se o rock clássico está mais do que caduco a mistura de soul, hard rock, folk e psicodelia que Harper pratica com seus criminosos é uma das portas da salvação para a boa música. Cabe uma comparação: gosto sim de Lenny Kravitz, como não? Mas vejo neste a vontade de agradar por isso sua música é mais formatada para o gosto do grande público enquanto Harper faz o deve fazer. Se faz concessões elas são absolutamente insignificantes: o que importa é sempre a música. Sempre ela e mais ninguém.
Há quase 10 anos Harper não tocava no Brasil: veja quanta falta fez, quantas lições deixou de ministrar. Meu amigo Ben (sem ser o amigo do Michael Jackson ou do Homem de Bem), esse hip-hop mundano tomou conta de todo o mundo mas vejo que não te atingiu, continuas incólume. Isso é bom, certamente fortalece a esperança em tempos melhores.
Set List Ben Harper:
Ground On Down
Gold To Me
Serve Your Soul
Burn to Shine
Please Don´t Talk About Murder While I´m Eating
Black Rain
Morning Yearning
Waiting for You
Forgiven
Steal My Kisses
Burn One Down
Roses From My Friends
Heart Of Gold
Amen Omen
With My Own Two Hands
Encore 1
Another Lonely Day
Walk Away
Encore 2
Blessed To Be A Witness
Where Could I Go
Diamonds On The Inside
Get Up, Stand Up
Better Way
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