

Big Star – #1 record/radio city (1972-1973)
A história do Rock and Roll conhece diversas bandas injustiçadas, sem o reconhecimento merecido. Do que se trata esta banda? Rock levemente psicodélico, influenciado majoritariamente pelos Beatles e os Byrds. O primeiro álbum (#1 record - 1972), é uma “batalha” de dois caras apresentando clássicos do pop e do rock, um atrás do outro. Alex Chilton é o lado mais rock, Chris Bell, o mais suave. A exceção é a linda Índia Song, feita pelo baixista Andy Hummel. Deste álbum, podemos ouvir uma versão de In the Street, a mesma que toca na abertura do seriado “That 70’s show”, só que, na tevê a versão é do Cheap Trick. Esta mesma música teve, na época certos problemas de vinculação por conter os singelos versos “Wish we had, a joint so bad”. 
O primeiro disco não deu em nada, falta de promoção e de espaço nas rádios. Abalado Chris Bell disse que ia sair da banda, alegando um excesso de controle de Chilton sobre os processos de gravação e composição. A velha briga de egos.
Com Bell fora, a banda voltou ao estúdio no ano seguinte para gravar Radio City. Hummel passa a compor mais, contudo, é Chilton que fica a frente da banda. O disco soa um pouco diferente ,nem melhor nem pior, soa como um ensaio, com uma sensação de garagem mesmo. Surgem alguns sinais de soul music, possível influência do selo STAX, sem contar a clara influência de David Bowie na faixa Mod Lang, além do velho feeling de Beatles e Byrds.
Por que não deu certo? Bom, podemos pensar na briga de egos que acabou com uma colaboração que tinha muito mais a dar; a falta de experiência da gravadora de lidar com bandas de rock ou até mesmo o meio cultural da época: a briga entre os que adoravam hard rock e os fãs do progressivo. Onde entraria o Big Star nessa história??
Seu “reconhecimento” chegou meio tarde, muito depois da morte de Chris Bell, que jamais imaginaria que seu malfadado projeto se tornaria cult apreciado por diversas bandas indie e college radios, principalmente nos Estados Unidos. A história do rock é cheia de episódios assim.

Black Sabbath – vol. 4 (1972)
Por diversas vezes, li críticas a respeito deste disco dizendo que ele é irregular, não tão bom quanto os antecessores, que é só uma transição para o Sabbath Bloody Sabbath e tudo mais. Considero isso um equívoco decorrente de uma leitura apressada desta obra.
A primeira coisa que vem a mente quando penso sobre este álbum é experimentação. Até esta data, Black Sabbath era uma banda de heavy metal, que, muito por conta de uma estratégia de marketing de gravadora, alimentava uma imagem sombria e obscura, que vigorava no cenário inglês daquela época com bandas falando do “oculto”, como Black Widow e Atomic Rooster, fora as lendas medievais das bandas folk progressivas. Buscando uma outra maneira de compor e de se promover, o Black Sabbath incorpora alguns experimentações no estúdio, incluindo doses de psicodelia, criando atmosferas com os recursos de estúdio, não mais aquela “clima”de chuva caindo, trovões e sinos, mas explorando timbres e recursos de estúdio, como os sintetizadores que criaram um clima de orquestra, servindo de cama para os vocais agonizantes de Ozzy em Changes.
O que dizer dos barulhinhos de FX? Nada a não ser superexposição à psicotrópicos. Mas não se enganem: o lado pesado também está lá com todos os riffs que Iommi tinha direito com aquele timbre tosco e sombrio que ele fazia como ninguém. É só conferir os riffs de Cornucópia e Under The Sun. As letras são mais introspectivas (Wheel Of Confusion) fruto de extensas leituras de ficção científica e clássicos do horror gótico britânico. Até o amor, principalmente o fim dele está na pauta deste disco (Tomorrow Dream, Changes, St. Vitus Dance), e é lógico, os devaneios e efeitos dos psicotrópicos estão no decorrer das faixas, sem muita preocupação de disfarçar (Snowblind, Supernaut). Essa é a atmosfera que perspassa pelo disco, melancólico, lisérgico, e ainda pesado, uma virada do heavy metal para o hard rock do anos 70.È anacronismo ouvir este disco como um disco de heavy metal simplesmente. O Sabbath já havia criado o seu estilo e queria diversificar, este processo sim é iniciado aqui e desenvolvido mais adiante até o último disco da fase Ozzy Osbourne.
Joelho de Porco – São Paulo – 1554/hoje (1974)
O Joelho, e em especial este disco, deve ser a banda mais controversa do rock brasileiro dos anos 70. Enquanto todos estavam numa onda de letras viajantes, no melhor estilo pós hippie, progressivo, ou numa onda mais rock rural com temas mais para clube da esquina e coisas do tipo, eis que surgem uns caras com um som visceral que misturava hard rock com todos os elementos da época. Sintetizadores, violões de 12 cordas, riffs cheios de fuzz com uma atitude debochada e ácida dissertando sobre as ironias do dia-a-dia, no que temos de mais patético, risível, assim como as letras recheadas de duplo sentido. Enfim um escracho se pensarmos que estamos em 1974.
Este álbum veio na esteira do bum de lançamentos nacionais que o mercado fonográfico brasileiro resolveu (sabe-se lá por que) apostar em 1974. Secos E Molhados, Terço, Made in Brazil, Som Nosso de Cada Dia, Mutantes (pós Rita), e mais tarde (1975) O Peso e Casa das Máquinas, para citar alguns. O Joelho havia parecido no cenário no ano anterior com o compacto Se Você Vai de Xaxado, Eu Vou de Rock n’ Roll/Fly América, que contava com os vocais de Dick Petraglia.
Com Próspero Albanese nos vocais, Tico Terpins no baixo, Walter Baillot na guitarra e Flavio Pimenta na bateria, o Joelho entrou no estúdio para gravar este que seria um dos marcos do rock brasileiro desta infame década. Hey Gordão – O álbum começa com uma baladinha irônica sobre os perigos da obesidade e logo passamos para um hard rock sensacional Boeing 723897 sobre a arrogância dos moradores das cidades grande sobre os que vem de outras regiões do país, terminando com um solo em 6/8 que arrebenta.
O lado mais escrachado do besteirol brega rock vem com Mardito Fiapo de Manga e suas insinuações sexuais, bem como México Lindo (depois rebatizada de Golden Acapulco) e Debaixo das Palmeiras. Algo como uma tropicália virada do avesso com as tripas de fora
Se você pensar como seria o Joelho de Porco fazendo uma “canção de amor”, Cruzei os Braços... uma balada hard com todo o estilo Led Zeppelin (faz parte, tava no contexto). Há ainda espaço para as crônicas da vida paulista como Aeroporto de Congonhas, São Paulo By Day, Lâmpada de Eddison e o clássico Meus 26 anos, a mais pesada e memorável canção deste disco, mais tarde regravada pela Patrulha do Espaço.
Depois deste álbum que logo ganhou status de cult, a banda se desfez, outras formações vieram até o disco que seria lançado pela Som Livre (!!!!) em 78, mais produzido, com o “hit” O Rapé, mas sem o mesmo punch deste disco, apesar as memorável participação de Billy Bond (o “contra-regra maluco” para quem assistia os programas de clipes na tevê carioca nos anos 80).
Secos & Molhados (1973)
Quase tudo já foi dito sobre esses caras andrógenos que chocaram o Brasil em 1973 transformndo o rock em fenômeno de massa, com divulgação em cadeia nacional pelo Fantástico, bonequinhos de brinde em postos de gasolina, tudo isso embalado por uma mistura de rock psicodélico, folk, música cigana, MPB e poesia.
Difícil é medir esse impacto mediante a banalidade da (má) sexualidade atual, bem como muitos tabus que ao longo destes anos já foram derrubados. Agora dá pra imaginar aqueles generais à mesa do jantar de domingo com a família vendo aqueles três cabeludos hippies seminus rebolando sem parar com maquiagens andrógenas misturando tradição cigana com ficção científica barata? Pois é, era por aí mesmo.
Os membros - João Ricardo, o principal compositor e quem idealizou o projeto; Ney, a voz e toda a persona poética do grupo e o Gerson... bem o Gerson musicou o poema “Rosa de Hiroshima”. O primeiro disco contou com Marcelo Frias, um baterista argentino que, logo após a gravação, pulou fora, talvez sem saber do sucesso que a banda alcançaria.
O primeiro disco tem de tudo um pouco, um misto de Pink Floyd, Byrds, Joni Mitchell, Cat Stevens e Grateful Dead com toques de MPB e flamenco. Na produção Zé Rodrix, bem como a (sempre boa) participação de John Flavin nas guitarras. Letras e poemas de Vinicius de Morais, Manuel Bandeira e Cassiano Ricardo. Sem dúvida, o sucesso não veio à toa, foi um projeto muito bem elaborado e audacioso, antenado com o que havia lá fora, sem tirar os olhos da nossa cultura e de nossa realidade.
O segundo disco veio na carona do sucesso, como veio também a nefasta influência do show business, fama e dinheiro. Logo surgiram as desavenças financeiras, brigas e brigas e mal deu tempo para divulgar o LP. Ney saiu da banda e os Secos desapareceram tão rápido como surgiram.
O segundo álbum contou com a mesma banda de apoio, com os mesmos elementos de música cigana, rock, poemas, mas a qualidade do repertório já não era a mesma. Com altos e baixos, o disco não causou o mesmo impacto do anterior. Ainda assim guarda bons momentos como Tercer Mundo, baseada no poema de Julio Cortazar, Flores Astrais, um hino psicodélico, mais tarde regravado pelo RPM.
A edição 2 em 1 é um grande achado para os que seguiram a saga, assim como eu, do vinil, passando para as primeiras edições em CD pela gravadora Continental, que nada havia feito além de passar as fitas de rolo originais para o CD, comprimindo os ruídos. Quando se ouve a edição 2 em 1, é possível se dar conta de trechos suprimidos, violões e mais violões perdidos em meio à poeira dos anos.
Passadas todas as polêmicas sobre dinheiro, o possível plágio do Kiss a respeito da idéia da maquiagem e tudo o mais, esse quase registro efêmero da música brasileira é ao mesmo tempo eterno. Ouça a música e desfrute desse banquete.
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