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LITERATURA

O NOME DA MORTE - A História Real de Júlio Santana, O Homem Que Já Matou 492 pessoas – Klester Cavalcanti (Editora Planeta)

“Não matar mulher grávida"; "Não roubar bens da vítima"; Não matar outros pistoleiros"; Não fazer nenhum serviço fiado"; Não matar pessoa enquanto ela estiver dormindo"

Por incrível que pareça esses são os 5 mandamentos do pistoleiro; o código de ética da classe. Júlio Santana era um menino normal vivendo com a família no meio da floresta amazônica. Certo dia um tio apareceu para lhe iniciar num serviço escabroso: matar. O garoto se deu por vencido perante os argumentos do parente vindo da misteriosa cidade grande ("estuprador tem que morrer"). Tocaiou a vítima e deu-lhe um tiro certeiro. Rezou pedindo perdão. "Dez ave-marias e vinte pai-nossos" segundo conselho do tio PM. Pouco a pouco a sensação de poder e o dinheiro "fácil" o transformaram em um exímio profissional. A eliminação pura e simples, tornou-se o seu ganha-pão honrado. Mas o destino improvável como ele só, colocou frente a frente esse menino recém chegado à maturidade e um "subversivo" durante o Regime militar nos anos 70. Ambos se encontraram na mata no Araguaia. O menino tinha boa pontaria. Só matou uma moça sem querer porque ela se mexeu quando não devia. Anos depois descobriu-se seu verdadeiro nome: Maria Lúcia Petit. Santana com seus poucos 17 anos não entendia porque estava fazendo aquilo - inclusive simpatizava com os "revolucionários" e não gostava nem um pouco de tortura - mas não questionava as ordens que recebia, apenas fazia o serviço. Um desses "terroristas" está vivo até hoje. Seu nome?José Genoíno. A história impressionou o autor que decidiu checá-la. O político do PT confirmou uma-a-uma as pormenorizadas descrições sobre sua captura em posterior contato com o autor do livro.

Em pouco tempo, o tal menino que havia ajudado o Exército a capturar os comunistas passou a ser chamado para mais trabalhos. Júlio acabou se especializando na área. Para não esquecer os detalhes fez a própria contabilidade anotando cada morte, valor e data de pagamento em um caderninho. Tendo quase atingido a incrível marca de 500 pessoas assasinadas em todo o Brasil decidiu largar essa vida de vez, sob pressão da esposa evangélica que conheceu durante os preparativos para uma "encomenda". Mudou de cidade com a família deixando seu passado para trás. O repórter Cavalcanti cruzou-lhe o caminho remontando os rastros. Confidência após confidência, o jornalista foi ganhando a confiança do entrevistado que decidiu contar sua história em detalhes. O resultado é um livro fantástico e um documento chocante sobre o nosso país; um atestado de incompetência de toda uma Nação que se não mata, morre; a cara de um país onde a justiça se faz com as próprias mãos. E afinal de contas quem manda matar? O contratante acima de qualquer suspeita age movido pelos desapontamentos sentimentais, pessoais e profissionais. É o sujeito de "boa índole", de "boa formação" que não acredita na justiça divina ou na dos homens de toga. E que tem pressa.

Afinal de contas "quanto vale uma vida"? Nas mãos de Santana chegou a custar apenas 3 salários mínimos. Ou menos. Como Júlio Santana conseguiu manter sua "profissão" em segredo durante décadas parece um mistério. Assim como parece um mistério que exista gente que acredite que "dez ave-marias e vinte pai-nossos" possam livrar-lhes de sua própria consciência. (CL)

MEA CULPA – O Depoimento Que Rompe 30 Anos de Silêncio - Doca Street (Editora Planeta)

Não havia uma manchete ou nota de rodapé nos anos 70 que não mencionasse o assassinato passional mais comentado da década. Era o reveillon de 1976. Naquele momento político, durante o Regime dos militares, era inimaginável que uma pessoa bem nascida, da alta sociedade pudesse perder a cabeça, matar a amante, rica e bonita e ser condenada por isso. Era um período de exceções. As discussões foram calorosas. O brasileiro comum, do povo, ficou ao lado do assassino. Ainda havia um sentimento machista muito enraizado no país. A imprensa e o povo usavam os mesmos termos de baixo calão para se referir a Doca Street e a Ângela Diniz, conhecida como a "pantera de Minas". "Ele a matou porque ela era isso..." ou "tem que lavar a honra com sangue mesmo". Era nesse nível.

A defesa de Doca Street conduzida pelo jurista Evandro Lins e Silva argumentou que seu cliente agira sob forte impacto emocional ou em outras palavras: "o marido insultado pode dispor da vida de sua propriedade como bem quiser". O passado escravocrata e o país que lutava contra um regime autoritário encontraram um motivo para se enfrentar. O julgamento teve uma repercussão fora do comum. As opiniões se dividiam mas o pessoal do "tinha que matar" foi se calando. Após muitas idas e vindas, Doca foi condenado a 15 anos.

"Mea Culpa" é o relato em forma de diário que esmiuça a razão que fez o autor abandonar a família para viver com a mulher que o enlouquecia de paixão, assim como os acontecimentos que antecederam o assassinato e sua vida nas prisões cariocas. Por ter se tornado o preso "mais famoso" do sistema carcerário, o que poderia lhe custar a vida, Doca Street teve que aprender a se relacionar com a "baixa" sociedade composta por matadores, estelionatários e estupradores. O diário surgiu para passar o tempo e como contra-argumentação de sua própria consciência.

As histórias de dor e superação contidas neste livro mostram muito sobre os Brasis que como óleo e água nunca se misturam. E quando o fazem o resultado é de tirar o fôlego. (CL)

Leia entrevista com Doca Street nesta edição.

 

 

 


 

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