BOTAFOGO, O BAIRRO MUSICAL DE UM FLAMENGUISTA
Quem te despertou para a bateria?
Tinha 15 anos em 66. O cara se chamava Robertinho, tinha 18 anos, tocava na banda Youngsters. Ele morava no terceiro andar do mesmo prédio que eu no Humaitá, perto do colégio Pedro II, onde estudei. Eu morava no oitavo. O Mamão (baterista do Azymuth) entrou nessa banda depois dele, acho ou foi ao contrário, não me lembro. O Robertinho já tocava nas boates. A gente fazia umas festinhas no prédio, uma farra e ele aparecia para batucar. Aí ele cismou de dar aula. Foi a rua inteira: umas 30 cabeças. Um mês depois só tava eu (ri). O resto achou um saco. Eu levava jeito. Montei uma bateria com as cadeiras, o sofá era o surdo, a cadeira também era o prato. Botava um Beatles na vitrola e fica acompanhando. Eu ia ser engenheiro ou médico e virei baterista. Hoje o Robertinho é advogado aposentado e mora em Petrópolis. Um belo dia no clube Gurilândia, no mesmo bairro, onde a rapaziada se encontrava, o cantor da banda Black Foot me chamou. Por sorte, tinha acabado de comprar minha primeira bateria. De tanto encher o saco da minha mãe, pobrinha, classe média média média, funcionária pública, ela se endividou toda e me deu uma bateria. Meu pai tinha falecido em 63, tinha 12 anos. Ele era gaúcho, durão, advogado, sabe como é. Comprei uma Pingüim de um tom tom só na Casa Clarim, ao lado do Teatro Carlos Gomes na Praça Tiradentes em janeiro. Foi uma fortuna: 1.500 cruzeiros. Ela pagou em 12 meses. Logo depois o cara do Black Foot me chamou, parece que tava escrito. Eu tocava de ouvido, não tinha essa historinha de ler partitura. Fui ficando bom. Em banda de baile são 100 músicas para um show de 4/5 horas. O repertório variado: hit parade, samba, pré-carnavalesco. Éramos adolescentes, novinhos mas a gente se virava. No Black Foot fiquei 2 anos, 67 e 68. Quando o guitarrista e o baixista saíram eu aproveitei e saí também, só queria tocar rock and roll, chega de baile. Uma menina chamada Miléia, uma tecladista muito boa com um Farfisa todo encrementado, que tocava na segunda formação do Black Foot, e que morava no mesmo prédio onde nós ensaiávamos acabou indo tocar com um grupo chamado The Cougars, empresariado pelo mesmo cara que geria os Bubbles e os Analfabitles, mas não lembro o nome dele...Como era mesmo? É o PVC, putaquipariu... Você sabe o que é PVC? A “porra da velhice chegando” (ri)!. Agora virou um pagodeiro miserável. Tocávamos no clube Monte Líbano (no Leblon) abrindo os shows dos Bubbles. As domingueiras e sabadões também rolavam em outros clubes na zona sul, como o Piraquê, o Caiçaras. Também no subúrbio, Cascadura e Méier. Lá tinha altas domingueiras foda. Era lotadaço, começava às 6 e terminava às 10, eram umas 4 bandas. Aí o baterista deles saiu, a Miléia se lembrou de mim e fui para os Cougars. Nessa época ia muito na Escola Americana em Botafogo ver o Bubbles tocar. Eles tinham um baterista chamado Johnny e eu ficava babando. Eles só tocavam heavy metal, quer dizer: Rolling Stones, Cream, essas coisas da antiga que a gente gosta. O Analfabitles era o light e os Bubbles era o pesado. Eu adorava os Bubbles.
Era a única banda pesada do Rio?
Não. Também tinha o Red Snakes da Tijuca, do subúrbio que era na mesma linha.
LOBO DA ESTEPE AO VIVO
Como você entrou na Bolha?
Bolha, não. The Bubbles. Tava fazendo o vestibular para engenharia em janeiro de 70. Tocava com uns meninos ricos, que moravam em apartamento duplex, tinham Mercedes. Aí o trio, baixo-guitarra-cantor veio com uma conversa que ia para os Estados Unidos fazer intercâmbio durante 2 meses. Eles disseram: vamos lá, a gente leva um som na Secondary School. Fiquei com aquilo na cabeça, pensando em comprar uns pratos turcos, nem sabia que era Zildjian; o pedal de bumbo Speed King que era o pedal da moda. Aí fui convencer minha mãe a me deixar fazer o vestibular no meio do ano e bancar minha viagem. Consegui convencê-la. Se dependesse do meu pai, acho que ia ser engenheiro mesmo (ri). O vestibular começou e peguei um avião. Era o 707. Foi tão emocionante que fumei um cigarro no avião, só porque era americano. Foi legal pra caramba. O pessoal gostou de mim, me convidavam para fazer jam sessions na casa dos outros, fora do colégio.
Você assistiu alguma banda?
Aconteceu um negócio mais incrível ainda. A excursão tinha aquelas programações, a gente ia para casa de famíla e tal. Fomos para Miami, ficamos 3 dias depois seguimos para Jacksonville, uma cidadezinha no meio da costa, onde tem uma base naval poderosíssima. Fiquei na residência de um militar em uma daquelas casas americanas com gramadinho com um moleque da minha idade. Até saí em um dos destróieres. Um belo dia vi um cartaz na rua: Steppenwolf. Me tremi todo, fiquei todo arrepiado. Me lembrei que a excursão tinha uma programação com uns cantores da igreja não sei de onde. Rapaz, fiz uma revolução, pedi pelo amor de Deus para nos levarem para o show. A galera da minha idade me apoiou. Metade foi comigo para o show em um daqueles ginásios...
Já existia PA?
PAzaço! De 3 andares de cada lado como é hoje. Depois que vi o show, falei é isso o que eu quero, não tem mais jeito. Quando acabou fiquei sentado na cadeira, não entendi nada. John Kay fazia umas Mis En Scenes meio que flutuando. Fiquei chapado. Fudeu!
Depois íamos até Nova Iorque mas como tinha um metro de neve por lá, preferimos não arriscar, fomos para uma ilhota no sul da Flórida. Do caralho. Achei o máximo, aprendi a velejar, a família tinha um barquinho. Os três riquinhos da banda tinham poder aquisitivo para continuar na excursão, mas eu e o Paulinho, o guitarrista base (que depois cantou no Garganta Profunda) voltamos para o Rio e começamos a fazer um show enquanto a galera não voltava. Ele vivia numa cobertura e eu levei a bateria para lá. Nessa época me liga o Renato Ladeira dos Bubbles e me diz que o baterista Johnny ia sair da banda. Quase caí duro. Tudo o que eu queria na vida. Esse baterista tinha 16 anos era meio maluquinho, só fazia merda. Eu tinha 18. Aí pedi ao Paulinho que desculpasse mas eu iria aceitar, pois era tudo o que queria e falei, quando os caras voltarem dos Estados Unidos diga que eu já fui.
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