SentimentalQuem SomosHomeCDs e DVDs
P.O.BOX: 33132, ZIP CODE: 22440-970, Rio de Janeiro, Brasil / OMARTELO@OMARTELO.COM
Stories
Interviews
CDs e DVDs
My Favourite LP, CD, DVD
Bizarre CD, LP, DVD
Shows
Banda Desenhada
Literature, Magazines
Tv and Movies
Ai, que męda...
Pinups
Short Novel
Archives

Fernando Carpaneda da safra de 1970 é o escultor brasileiro mais bombado da cena underground de Nova Iorque. Nascido em Taguatinga, Brasília foi punk nos 80 (contemporâneo das famosas bandas do Distrito Federal), passou os perrengues de sempre (ser preso, arrumar pequenas confusões), até descobrir a paixão pela escultura. Em alguns anos seus trabalhos foram ganhando reconhecimento – no exterior. No Brasil? Esquece... A partir desse fato, nosso herói candango pegou um ita pro norte e foi ver o buraco mais lá em cima. O seu Martelo, sintonizado com os novos tempos, tira a prova dos nove mostrando aos leitores o trabalho e a sinceridade de um talento crescente.

Qual foi a primeira vez que você viajou para fora do país e o que o influenciou na decisão de mudar- se para o exterior?
Viajei a primeira vez para o exterior em 1995, para participar de uma exposição em Nova Iorque. Como fiz muitos contatos após essa exposição e demonstraram grande interesse no meu trabalho, acabei me mudando pra cá.

Em uma das suas entrevistas você se refere ao movimento punk como a sua maior referência. Hoje o punk é apenas um clichê, um termo genérico assim com a palavra blues? Sim e não. Claro que sei que o termo sofreu um desgaste, que muita gente não tem a menor idéia do que significou isso na música e na cultura como um todo. Todavia, o punk ainda traz um conceito que não está inteiramente morto, que não é simplesmente clichê e serve como influência para artistas e jovens de todo mundo repensarem suas condutas e ações dentro da nova realidade que vivemos. A postura punk não é um clichê. E veja que, lá no início, o Malcom (McLaren – agitador cultural e ex-empresário dos Sex Pistols e dos New York Dolls) pensava em moda, em mercado, etc. A desvirtuação não é necessariamente maléfica. Pode servir para uma transformação bacana também.

A sua arte é punk? Não! Minha arte á original. Mesmo no diálogo com outros artistas, outras propostas, ela á original. Nela, o punk está presente como tema, jamais como forma. Como todo artista que valha o nome, procuro traçar um caminho pessoal.

O punk original queria destruir os ícones. Qual o intuito de pegar objetos pessoais dos artistas para usá-los em sua obra? Eu sempre gostei de coletar restos de coisas. Quando era mais pobre do que sou agora, cheguei a pedir dinheiro na frente da boate New Aquarius, em Brasília, para poder entrar. Não tinha como pagar. Daí uma bicha me deu uns trocados e disse: “Toma essas migalhas pra você, seu pobre! Não preciso de restos! Sou rica!”. Fiquei feliz em conseguir o dinheiro e fui me divertir na boate. Então, restos, pra mim, têm valor, um significado especial.

Não seria isso uma atitude anti-punk, que perpetua o culto da personalidade? Engraçado. Não há culto a Sid Vicious? A Patty Smith? E eles não são completamente pessoais na sua maneira de expressar. Usar referências pessoais de maneira inteligente, dando novos sentidos afetivos e artísticos aos bens não reforça o culto a personalidade. Faça uma leitura irônica. Como muitos artistas, eu brinco com a indústria pop. Por exemplo, faço retratos de alguns PUNKS que viraram personalidades e de algumas personalidades que viraram PUNKS, como o Boy George. Fiz um retrato dele e outro dia ele estava varrendo as ruas aqui. Mostro os dois lados da moeda em meu trabalho. Estou trabalhando numa escultura da Daniela Cicarelli. Ela, de celebridade, passou a ser conhecida como puta aqui nos Estados Unidos e no Brasil. Então incluí o retrato dela na minha coleção de personalidades PUNKS. Faça a leitura que desejar.

Qual a imagem que tens hoje do primeiro mundo, já que você reside entre Brasil, Estados Unidos e Inglaterra? A grande diferença que vejo no primeiro mundo é o respeito as leis. Aqui, nos EUA, as leis funcionam mais rápido e são mais rígidas. As pessoas aqui pensam duas vezes antes de fazer alguma merda.

Hoje ao encontrar pessoas famosas que você só conhecia por livros e fotos , qual é a sua impressão? Acho uma experiência positiva. Com isso destruí vários mitos da adolescência (risos). Pessoas famosas possuem uma parcela da sua vida que é comum a todas as outras. Ser famoso não coincide sempre com ser talentoso. Muitas se escondem atrás dos nomes que têm e usam isso pra ganhar dinheiro. Muitas se mostram de uma forma na mídia e pessoalmente são outra coisa.

Você assistiu ao filme brasileiro Cidade de Deus? Estou me referindo a essa película porque nada me incomoda mais do que esta postura de denuncismo social, para ganhar votos do eleitorado estrangeiro. A sua arte de exclusão não segue o mesmo caminho? Meus retratados são na maioria ex-namorados! Os mendigos e traficantes que fiz são meus amigos. E a grande maioria das esculturas que faço mostrando mendigos representam mendigos americanos que conheço aqui.  Ao contrário do que você afirma, mostro um outro lado do primeiro mundo que muita gente não enxerga. Mostro o outro lado da América em meus trabalhos. Mostro a “Pobreza Americana” e não a “Beleza Americana”. Não faço denuncismo social. Faço Arte. Agora, não vou pegar apenas temas bonitinhos para agradar gente nacionalista ou falar só de mazelas para satisfazer os ranzinzas. Eu represento o que vivo e o que passa por mim e deixa alguma marca. Cidade de Deus é um grande filme!

Dizem que todo fotógrafo de beldades despidas gostaria de levá-las para a cama. Quando você faz uma escultura de um nu masculino consegue separar a arte da sexualidade os as duas são uma coisa só? A melhor forma de se fazer uma boa escultura de um nu masculino é conhecendo o corpo do modelo detalhadamente.

Particularmente acho que você deisifica os ícones roqueiros. Por que voce nao os desconstroí exatamente como fez na escultura em que dois skin-heads neo-nazistas praticam sexo oral? Naquela escultura, os skinheads estão chupando o meu pau. Não me vejo obrigado a desconstruir ou a construir nada. Vou homenagear e criticar quem eu quiser, tomando como critério único a minha própria sensibilidade. Poderia esculpir o Jim Morrison chupando o meu pau e não estar desconstruindo a imagem dele, mas, sim, reforçando um clichê, o do roqueiro transgressor. Retratar ícones do rock é para mim retribuir o prazer que eles me proporcionaram em certos instantes da minha vida. Deixo esse papel de desconstrutor para os acadêmicos e críticos. Eu, baby, sou um artista.

Uma famosa groupie Americana dos anos 60 conhecida como Plaster Caster fez moldes em gesso de pênis de artistas. Em sua biografia ela disse que precisava que os pênis ficassem eretos e por isso havia um trabalho de “preparação”.  Li na sua biografia que sêmem é um dos elementos utilizados nas suas esculturas. Com que finalidade você faz isso? O sêmen tem uma textura ótima para trabalhar em bases de quadros e papeis. Usei sêmen de três modelos diferentes e cada um deles tinha o sêmen com o cheiro e o sabor diferente. O sêmen depois de seco, da uma cor toda especial para a peça, um tipo de amarelo que não se consegue com nenhum tipo de tinta. Estes três trabalhos nos quais usei sêmen eram de homens nus. Existe uma simbologia em relação ao sêmen e a argila. São dois elementos muito fortes que representam a criação: o homem feito de barro e o sêmen que da a vida ao seres. Então retrato o homem nu, surgindo destes dois elementos criados por Deus. Estou preparando a quarta escultura com o mesmo elemento. Vou fotografar todo o processo e colocar as fotos on line.

 Você se considera um ativista do movimento gay? Eu? Não. Você acha que deveria? (risos) 

O Brasil evoluiu em algumas coisas, uma delas é o papel do homossexual na sociedade. Hoje já se discute o casamento gay, e os direitos de casais do mesmo sexo, como o no próprio caso da Cássia Eller ou em programas populares de tv como Big Brother Brasil, ganho pelo homossexual Jean Willis ou nas dezenas de transexuais que aparecem diariamente no programa da apresentadora Luciana Gimenez . Você acredita que a sociedade brasileira um dia aceitará a diferença? Nâo! Não acredito! A palavra “GAY” ainda é piada no Brasil. Existem algumas vitórias, claro, como no caso da Cássia Eller e de algumas  transexuais. Mas o mundo gay não se resume a Drag Queens, Travestis e Transexuais.

voltar para o início

CLIQUE
PARA AMPLIAR

Cds e Dvds