EDIÇÃO 23

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“Estou conservado no ritmo do meu povo/ Me tornei cantiga determinadamente/ e nunca terei tempo para morrer.”

Francisco Solano Trindade, que completaria 103 anos em 24 de julho de 2008, nasceu no bairro de São José (Recife-PE), em 24 de julho de 1908 e morreu no Rio de Janeiro em 1974. Filho do sapateiro Manuel Abílio e da quituteira Emerenciana, mais conhecida como Merença,viveu em um lar católico, apesar de seu pai incorporar entidades às escondidas. “Meu avô se fazia de católico na frente dos outros, mas eu o via dentro do quarto virar no santo e falar ioruba”, afirma a folclorista, artista plástica e escritora Raquel Trindade, filha de Solano.

“Quando eu nasci/ meu pai batia sola,/ minha mana pisava milho no pilão,/ para os angus das manhãs (...)./ Portanto, eu venho da massa, eu sou um trabalhador (...).” Poema autobiográfico.

Solano fez o curso propedêutico da Academia de Comércio de Recife, foi operário e funcionário público federal, no início de sua carreira (Serviço Nacional de Recrutamento). Lançado na década de 1930, “Poemas negros” foi seu primeiro movimento no sentido contrário do descaso da classe dominante em relação aos problemas étnico-sociais. Nos anos de 1934 e 1935, Solano participou ativamente dos I e II Congressos Afro-Brasileiro, respectivamente em Recife e Salvador. Em 1936, fundou a Frente Negra Pernambucana, reafirmando a defesa pela igualdade no Brasil: “Não faremos lutas de raça, porém ensinaremos aos irmãos negros que não há raça superior nem inferior, e o que faz distinguir uns dos outros é o desenvolvimento cultural. São anseios legítimos a que ninguém de boa-fé poderá recusar cooperação", diz o manifesto da entidade. Também em 1936, criou o Centro de Cultura Afro-Brasileira. E começou os anos 40 viajando pelo País, para falar de cultura popular e consciência negra. 

O poeta não tinha religião nenhuma até conhecer sua primeira esposa, Margarida, que frequentava a Igreja Presbiteriana. A paixão pela mulher com nome de flor o conduziu à religião, que abandonou ao ter certeza de que negros não eram tratados da mesma forma que os brancos. “Baseado em um versículo da bíblia que diz ‘Se tu não amas a seu irmão a quem vês como podes amar a Deus a quem não vês? ’ ele saiu da igreja”, explica a filha do artista.

 

Assim que chega ao Rio de Janeiro, em meados da década de 40, filia-se ao partido comunista de Luiz Carlos Prestes, Solano Trindade fundou em Caxias a célula Tiradentes na qual se reuniam operários e camponeses. “Papai tinha um caixote de cebola que ele fazia de estante. Lá estavam juntos a Bíblia e O Capital, de Karl Marx”, relembra Raquel. O Estado Novo o prendeu duas vezes por causa de sua militância. Na primeira oportunidade, estava em um comício e foi solto logo depois. Entretanto, na segunda vez, levaram-no à cadeia os versos da poesia Tem Gente Com Fome, publicada no livro Poema de Uma Vida Simples, de 1944. O poeta ficou desaparecido por alguns dias. “Os policiais chegaram revirando tudo, dizendo que ele guardava armas em casa. A polícia o levou e o manteve incomunicável, minha mãe de prisão em prisão procurando por ele, até que o encontramos em um presídio na Rua da Relação (RJ)”. O artista se desliga das atividades políticas, quase no fim da vida. “Apesar de tudo, papai morreu socialista.”

 

A primeira de suas três esposas, Margarida da Trindade, lhe ensinou o ofício de folclorista. Foi na companhia de Margarida, e do etnólogo Edson Carneiro que, em 1950, Solano funda o Teatro Popular Brasileiro – TPB, com o sonho de esclarecer o povo sobre suas origens. As peças eram basicamente protagonizadas por gente das classes menos favorecidas, como domésticas e operários. Com o grupo, produziu vários espetáculos da genuína cultura popular brasileira, como capoeira, maracatu, bumba-meu-boi, congada, lundu, batuque e jongo, entre outros ritmos e danças que apresentou em turnê pelo Brasil e para companhias estrangeiras. Com isso, teve a oportunidade de levar o TPB para exibições na Polônia e na antiga Tchecoslováquia.

 


Esta fase é lembrada pelo pesquisador e produtor cultural Haroldo Costa, que conheceu Solano no início dos anos 50, quando era um jovem estudante do Colégio Pedro II, mas já frequentava o polígono cultural que funcionava no Centro do Rio, entre e a Cinelândia e a Graça Aranha, formado pelo Theatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes, a Biblioteca Nacional, a Associação Brasileira de Imprensa, o Teatro Ginástico e o Palácio Gustavo Capanema, então sede do Ministério da Educação e Cultura (MEC). Em frente ao prédio da ABI havia um restaurante, o Vermelhinho, frequentado por jornalistas, alunos da Escola de Belas Artes, poetas e gente de teatro e cinema. “Era a meca da intelectualidade carioca”, diz Haroldo, relembrando que, nesse período, Solano, Abdias e Ironildes Rodrigues colaboravam com atores iniciantes: — O Solano, que já havia criado o Teatro do Folclore Brasileiro, escreveu dois quadros para o chamado Grupo dos Novos, do qual eu fazia parte e que se apresentava no Auditório da ABI : “Maracatu” e “Os pregões do Recife”. Depois houve um mal-entendido entre ele e a Direção do TFB. Foi então que ele fundou o TPB.
Assim como Haroldo, Raquel Trindade se lembra bem do Vermelhinho:
— Quando minha mãe, eu e minha irmã chegamos do Recife, em 1950, fomos direto ao restaurante. Encontramos o Grande Otelo e minha mãe pediu a ele que avisasse meu pai de que estávamos no Rio. Logo que recebeu a notícia, ele foi nos buscar e a gente foi morar na Gamboa, na Rua do Livramento. Eu era pequena, mas cheguei a frequentar com meu pai o Vermelhinho e a ABI, lugares onde conheci grandes artistas, como o maestro Abgail Moura, da Orquestra Afro-Brasileira.



Quando Haroldo Costa lançou o Teatro Folclórico, também contou com ajuda do artista, que, juntamente com a mulher, passou a ensinar coreografias afro-brasileiras à nova companhia:
— Foi nessa época que ele escreveu “Tem gente com fome”, poema que é a base para a compreensão da poesia negra engajada. Naquele momento, Solano declamou o caráter social profundo dos passageiros dos antigos trens da Leopoldina. O poema funciona como uma importante testemunha daquele período.

No Rio, Solano conheceu Abdias Nascimento, que, na mesma época que ele, morou em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. No livro “Abdias Nascimento — o griot e as muralhas”, o poeta Éle Semog diz que alguns intelectuais, artistas e militantes do movimento negro chegaram a levantar a hipótese de os dois terem sido rivais, devido às propostas do Teatro Experimental do Negro, fundado por Abdias, e o Teatro Folclórico Brasileiro — mais tarde transformado em Teatro Popular Brasileiro —, de Solano Trindade.  A versão é desmentida pelo próprio Abdias, que diz ter conhecido o poeta no momento em que acabara de se desiludir com o integralismo e começara a ter aproximação maior com os negros cariocas, cuja relação com sua cultura, por meio da religiosidade (especialmente o candomblé), era mais expressiva e direta do que em São Paulo.

No livro, no capítulo “Aprendendo os caminhos”, Abdias comenta: “Foi uma nova educação para mim, passei a frequentar os terreiros e a conviver com outro tipo de intelectual. Um deles era o poeta Solano Trindade, um amigo querido, com quem eu discutia e brigava por causa daquela sua história de Partido Comunista; mas ele tinha a grandiosidade da cultura negra, ele tinha essa consciência.” O mesmo Abdias diz num texto que escreveu em 1944: “Entre os raros poetas negros que conheço neste Brasil ‘mestiço’, Solano Trindade é o que melhor me satisfaz. Porque Solano Trindade não se encerrou na torre de marfim da arte e tampouco escreveu poesia negra com linguagem de ‘negro-branco’. (...) Ele é Negro, sente como Negro, e como tal cantou as dores, as alegrias e as aspirações libertárias do afro-brasileiro. Para mim Solano Trindade é o brado da raça, maior poeta negro do Brasil contemporâneo.”
“Naquela Noite/ ficou o teu olhar branco/ vagando no escuro/ entre ternura e medo/ teus olhos grandes/ dançavam como loucos/ na música do silêncio” Linda Negra, do livro Cantares do Meu Povo, de 1961.

 


Solano residiu em Embu, São Paulo, entre os anos 60 e 70. Em 1961, recém-chegados da Europa, Solano e um grupo com mais de trinta bailarinos estavam em São Paulo para a apresentação de um espetáculo, quando receberam do escultor Claudionor Assis Dias, o Assis do Embu, um convite para visitar a cidade paulistana. Assis já havia falado sobre Solano Trindade a outro escultor, Tadakio Sakai, ao qual propôs mais contato com o poeta para que Sakai levasse às suas obras a temática negra. A “caravana” na qual também estava a família de Solano, aceitou a proposta de Assis, que fez as vezes de anfitrião hospedando o grupo em sua casa. “Todo mundo dormia amontoado na sala”, conta Raquel. Além de Sakai e Assis, já estavam em Embu artistas como a pintora Azteca e o também escultor Cássio M’Boy. Com a chegada de Solano, montou-se um movimento artístico coletivo no “Barraco do Assis”. “Eles começaram a fazer festas que duravam três dias, faziam espetáculos na rua, exposições na rua, tudo isso em 1961”, relembra a folclorista. Essas manifestações ajudaram a dar origem ao nome Embu das Artes, que fez do município paulistano um lugar conhecido internacionalmente. Em Embu, Solano virou nome de uma rua no centro expandido da cidade. Neste mesmo município, sua filha Raquel criou o Teatro Popular Solano Trindade e, juntamente com ela, netos e bisnetos do artista cuidam para que a memória do Poeta do Povo permaneça viva. No Recife, cidade natal do escritor, uma estátua de Solano em tamanho natural, feita pelo escultor Demétrio, encontra-se no Pátio de São Pedro.  No Rio de Janeiro uma biblioteca leva seu nome.

O poeta — que também teve participação como ator nos filmes “Agulha no palheiro” (Alex Vianny, 1952), “A hora e a vez de Augusto Matraga” (Roberto Santos, 1965) e “Santo milagroso” (Carlos Coimbra, 1966).

Solano faleceu em 1974, aos 66 anos, no Rio de Janeiro, para onde voltou já doente, vítima de arteriosclerose. Foi sepultado no Cemitério da Pechincha, em Jacarepaguá, ao contrário do que dizem relatos recorrentes de que o poeta teria sido enterrado como indigente. “Minha mãe e minha irmã fizeram para ele um enterro decente”, afirma Raquel Trindade.

“A vida é um grande monumental poema/ minha luta são estrofes/ são versos neste grande monumental poema (...)”.
Água do rio e o calor do sol.

 

Os primeiros versos foram escritos nos tempos do Colégio Presbiteriano XV de Novembro, em Garanhuns-PE, mas ainda eram “textos místicos, publicados na revista escolar”, segundo o historiador Emmanuel de Macedo Soares. No entanto, não demorou para ele perceber que os pobres e os negros recebiam tratamento diferenciado até mesmo por parte das entidades religiosas da época. Assim, abandonou a diaconia e começou a traçar caminho próprio, em que o misticismo “cedeu lugar a um sentimento de afirmação da própria raça, bandeira de luta em peregrinações futuras pela Bahia, Minas, São Paulo e Rio Grande do Sul”, conta Emmanuel.

O livro “O poeta do povo”, lançado pela Ediouro, é uma homenagem póstuma dos filhos Raquel Trindade Souza, Godiva Solano Trindade da Rocha e Liberto Solano Trindade. A publicação traz dados biográficos e reúne quatro cadernos de poesia selecionados de “Poemas d’uma vida simples”, “Seis tempos de poesia” e “Cantares ao meu povo”, publicados entre 1944 e 1953. No caderno “Poemas sobre o negro”, os versos remetem o leitor à saga do povo africano no Brasil, à influência religiosa no culto ao candomblé e à figura do líder Zumbi dos Palmares.

O caderno “Poemas de cunho político-social” reúne os versos em defesa da igualdade social e racial, com destaque para as poesias “Também sou amigo da América”, “Advertência” e “Tem gente com fome”, um dos seus poemas mais famosos e que lhe rendeu a primeira prisão política. Os versos foram musicados pelo grupo Secos & Molhados e censurados pelo regime militar — bem mais tarde, Ney Matogrosso gravou: “Trem sujo da Leopoldina/ Correndo, correndo,/ Parece dizer:/ Tem gente com fome/ Tem gente com fome/ Tem gente com fome.../ Mas o freio de ar/ Todo autoritário,/ Manda o trem calar:/ Psiuuuuu (...).”

“Poemas de amor”, como sugere o título, mostra o lado lírico de Solano, em versos criados para exaltar a beleza da mulher negra e o comportamento alegre característico dos afrodescendentes. Já “Poemas sobre a vida do poeta” é dedicado aos versos nostálgicos sobre a infância, a família, o ambiente nordestino, com cenas das festas populares das cidades em que o autor viveu, como “Interrogação”, seu último poema, escrito em 1969, na cidade de Embu.

Os poemas de Solano Trindade foram também reeditados pela Nova Alexandria, nos livros “Poemas antológicos” e “Tem gente com fome”. O primeiro foi subdividido em quatro seções — ‘Vida, nossa vida’, ‘Deuses e raízes’, ‘Amor à flor da pele’ e ‘Resistência e luta’ — e ilustrado por Raquel Trindade. O segundo acabou se tornando um livro infanto-juvenil, com ilustrações de Murilo Silva e Cintia Viana.

"Lincharam um homem/entre os arranha-céus/(li num jornal)/procurei o crime do homem/o crime não estava no homem/estava na cor de sua epiderme..." Civilização branca (TRINDADE, 1961).

 

Solano publicou Poemas de uma vida simples, 1944, Seis tempos de poesia, 1958, e Cantares de um povo, 1963, entre outros. Os poemas aqui publicados foram extraídos de Antologia da Nova Poesia Brasileira (RJ, 1948), organizada pelo poeta (também já falecido) J.G. de Araújo Jorge, para a Editora Vecchi Ltda.

 

 
Canto à Amada

Eu tenho uns versos bonitos
pra cantar pra minha amada
sempre sempre desdobrada
em beleza e formosura

Ontem minha amada estava
dentro da cara da Lua
numa garota da rua
no palhaço da folia

Um dia vi minha amada
nas águas do grande mar
outra vez a encontrei
num belo maracatu

Numa canção ela estava
num samba estava também
estava numa boa pinga
sempre está no meu amor

Eu tenho uns versos bonitos
pra cantar pra minha amada
sempre sempre desdobrada
em beleza e formosura

 

SOU NEGRO
(A Dione Silva)

Sou Negro
meus avós foram queimados
pelo sol da África
minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e agogôs

Contaram-me que meus avós
vieram de Loanda
como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
escreveu não leu
o pau comeu
Não foi um pai João
humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
ela se destacou

Na minh'alma ficou
o samba
o batuque
o bamboleio
e o desejo de libertação...

 

Gravata Colorida

Quando eu tiver bastante pão
para meus filhos
para minha amada
pros meus amigos
e pros meus vizinhos
quando eu tiver
livros para ler
então eu comprarei
uma gravata colorida
larga
bonita
e darei um laço perfeito
e ficarei mostrando
a minha gravata colorida
a todos os que gostam
de gente engravatada...

 

Tem Gente com Fome

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiiii
Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dzier
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio de ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuuu

 

Balada do Amor

É preciso fugir
De todo o amor que faz sofrer
É preciso fugir do amor...
Talvez a chuva lá fora faça bem
Talvez o frio da noite
Seja como alguém...

Negra bonita

Negra bonita de vestido azul e branco
Sentada num banco de segunda de trem
Negra bonita o que é que você tem?
Com a cara tão triste não sorri pra ninguém?
Negra bonita
É seu amor que não veio
Quem sabe se ainda vem
Quem sabe perdeu o trem
Negra bonita não fique triste não
Se seu amor não vier
Quem sabe se outro vem
Quando se perde um amor
Logo se encontra cem
Você uma negra bonita
Logo encontra outro bem.
Quem sabe se eu sirvo
Para ser o seu amor
Salvo se você não gosta
De gente da sua cor
Mas se gosta eu sou o tal
Que não perde pra ninguém
Sou o tipo ideal
Pra quem ficou sem o bem... 
 
Reflexão

Vieste acender o meu fogo poético,
E minh’alma se abriu pras grandes festas,
A música dos teus poemas,
Faz-me dançar o bailado,
Da primeira mocidade...
Eu sinto vontade de não ser sexo,
Para brincar contigo como criança,
E brincar de cirandinha com tu’alma.
Mas como sou sexo,
Vou assistir um espetáculo humano;
A confecção de bandeiras iguais,
Para seres que parecem diferentes.


Canta América

Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador...

 

Conversa

- Eita negro!
quem foi que disse
que a gente não é gente?
quem foi esse demente,
se tem olhos não vê...

- Que foi que fizeste mano
pra tanto falar assim?
- Plantei os canaviais do nordeste

- E tu, mano, o que fizeste?
Eu plantei algodão
nos campos do sul
pros homens de sangue azul
que pagavam o meu trabalho
com surra de cipó-pau.

- Basta, mano,
pra eu não chorar,
E tu, Ana,
Conta-me tua vida,
Na senzala, no terreiro

- Eu...
cantei embolada,
pra sinhá dormir,
fiz tranças nela,
pra sinhá sair,

tomando cachaça,
servi de amor,
dancei no terreiro,
pra sinhozinho,
apanhei surras grandes,
sem mal eu fazer.

Eita! quanta coisa
tu tens pra contar...
não conta mais nada,
pra eu não chorar -

E tu, Manoel,
que andaste a fazer
- Eu sempre fui malandro
Ó tia Maria,
gostava de terreiro,
como ninguém,
subi para o morro,
fiz sambas bonitos,
conquistei as mulatas
bonitas de lá...

Eita negro!
- Quem foi que disse
que a gente não é gente?
Quem foi esse demente,
se tem olhos não vê.

 

Eu gosto de ler gostando

Eu gosto de ler gostando,
gozando a poesia,
como se ela fosse
uma boa camarada,
dessas que beijam a gente
gostando de ser beijada.

Eu gosto de ler gostando
gozando assim o poema,
como se ele fosse
boca de mulher pura
simples boa libertada
boca de mulher que pensa...
dessas que a gente gosta
gostando de ser gostada.

 

Olorum ÈKE

Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu sou poeta do povo
Olorum Ekê

A minha bandeira
É de cor de sangue
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Da cor da revolução
Olorum Ekê

Meus avós foram escravos
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Eu ainda escravo sou
Olorum Ekê
Olorum Ekê
Os meus filhos não serão
Olorum Ekê
Olorum Ekê

 

...) “Eita negro!
- Quem foi que disse que a gente não é gente?
Quem foi esse demente, se tem olhos não vê.”

“Conversa”, Cantares do Meu Povo, 1961.

 

Pesquisa:
http://www.socialismo.org.br/portal/arte-cultura/77-artigo/523-cem-anos-de-solano-trindade
http://www.abi.org.br/primeirapagina.asp?id=2678
Fonte: Círculo Palmarino  (http://www.circulopalmarino.org.br)

 

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