O MA

EDIÇÃO 23

   P.O. BOX 33132, ZIP CODE 22440.970 RIO DE JANEIRO, BRASIL omartelo@omartelo.com
Google

Translate / Übersetzung / Traduction / Traducción / Traduzione / 翻訳 Click Here

Comunidade: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=69819489


Compartilhar no Orkut    Compartilhar no Facebook    Compartilhar no Twitter

Todo santo dia, ouvimos reclamações sobre corrupção no Brasil e impropérios contra os políticos; todos os anos, o disse-me-disse é grande sobre desvio de grana e péssimo atendimento nos hospitais públicos. Educação, então...  A imprensa e o público vivem de péssimas notícias, um alimenta o outro. Infelizmente, a massa se sente bem com o “quanto pior melhor”. Parece uma terapia coletiva para tirar peso das costas, mas que não resolve absolutamente nada. Contrariamente, os abnegados e os verdadeiros lutadores que agem nos bastidores da vida podem até ser elogiados, mas certamente boas ações, desprovidas de intenções subliminares, não vendem jornal.


Me comovi com a obra ANÁLIA FRANCO – A Grande Dama da Educação Brasileira (Eduardo Carvalho Monteiro – 272 páginas – Madras) e me senti, quase na obrigação, de falar sobre essa mulher, que tanto fez, quase como uma Don Quixote de saias, por esse país tão injusto. Anália soube como poucos, lutar contra a má vontade, a preguiça e os preconceitos. E venceu.


Anália Franco (São Paulo 29/03/1853 - 20/01/1919), educadora e escritora, foi um exemplo de vocação bem direcionada e de completo êxito. Filha de Teresa Emília de Jesus e Antônio Mariano Franco Júnior, casou-se com Francisco Antônio Bastos em 1906. Estudou inicialmente em Resende sob orientação de sua mãe, professora. Em 1861, transferiu-se com a família para São Paulo, onde foi matriculada na escola dirigida pela mãe, tendo se formado como professora, aos quinze anos, em 1868.

 

Foi somente após a Lei do Ventre Livre (28 de setembro de 1871) que a verdadeira vocação de Anália se exteriorizou: a literária. Já era por esse tempo notável como literata, jornalista e poetisa, entretanto; chegou ao seu conhecimento que os nascituros de escravas estavam previamente destinados ä Roda da Santa Casa de Misericórdia. Já perambulavam, mendicantes, pelas estradas e pelas ruas, os negrinhos expulsos das fazendas por serem impróprios para o trabalho. Não eram, como até então, negociáveis, com seus pais e os adquirentes de cativos davam preferências às escravas que não tinham filhos no ventre. Trocou seu cargo na capital de São Paulo por outro no interior, a fim de socorrer as criancinhas necessitadas. Num bairro duma cidade no norte do Estado de São Paulo, conseguiu uma casa para instalar uma escola primária. Uma fazendeira rica lhe cedeu a casa escolar com uma condição, que foi frontalmente repelida por Anália: não deveria haver promiscuidade de crianças brancas e negras. Diante dessa condição humilhante foi recusada a gratuidade do uso da casa, passando a pagar um aluguel. A fazendeira guardou ressentimento à altivez da professora, porém, naquele local, Anália inaugurou a sua primeira e original Casa Maternal. Começou a receber todas as crianças que lhe batiam à porta, levadas por parentes ou apanhadas nas moitas e desvios dos caminhos. A fazendeira, abusando do prestígio político do marido, resolveu acabar com aquele escândalo na sua fazenda. Promoveu diligências junto ao coronel e este conseguiu facilmente a remoção da professora. Anália foi para a cidade e alugou uma casa velha, pagando do seu bolso o aluguel correspondente à metade do seu ordenado. Como o restante era insuficiente para a alimentação das crianças, não trepidou em ir pessoalmente, pedir esmolas para a meninada. Partiu de manhã, a pé, levando consigo o grupinho escuro que ela chamava, em seus escritos, de "meus alunos sem mães". Numa folha local anunciou que, ao lado da escola pública, havia um pequeno abrigo para as crianças desamparadas. A fama, nem sempre favorável da nova professora, encheu a cidade. A curiosidade popular tornou-se de espanto, num domingo de festa religiosa. Ela apareceu nas ruas com seus "alunos sem mães”, em bando precatório. Moça e magra, modesta e altiva; aquela impressionante figura de mulher, que mendigava para filhos de escravas, tornou-se o escândalo do dia. Era uma mulher perigosa, na opinião de muitos. Seu afastamento da cidade principiou a ser objeto de consideração em rodas políticas, nas farmácias. Mas rugiu a seu favor um grupo de abolicionistas e republicanos, contra o grande grupo de católicos, escravocratas e monarquistas. Com o decorrer do tempo, deixando algumas escolas maternais no interior, veio para São Paulo. Aqui entrou brilhantemente para um grupo abolicionista e republicano. Sua missão, porém, não era política. Sua preocupação maior era com as crianças desamparadas, o que a levou a fundar uma revista própria, intitulada Álbum das Meninas, cujo primeiro número veio a lume em 30 de Abril de 1898. O Artigo de fundo tinha o título "As mães e as educadoras". Seu prestígio no seio do professorado já era grande quando surgiram a abolição da escravatura e a República. O advento dessa nova era encontrou Anália com dois grandes colégios gratuitos para meninas e meninos. E logo que as leis o permitiram, ela, secundada por vinte senhoras amigas, fundou o Instituto Educacional que se denominou de Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, no dia 17 de Novembro de 1901, com sede no Largo do Arouche, em São Paulo.

 


Em seguida criou várias Escolas Maternais e Escolas Elementares, instalando, com inauguração solene a 25 de Janeiro de 1902, o Liceu Feminino, que tinha por finalidade instruir e preparar professoras para a direção daquelas escolas, com o curso de dois anos para as professoras de "Escolas Maternais" e de três anos para as "Escolas Elementares". Anália Franco publicou numerosos folhetos e opúsculos referentes aos cursos ministrados em suas escolas, tratados especiais sobre a infância, nos quais as professoras encontraram meios de desenvolver as faculdades afetivas e morais das crianças, instruindo-as ao mesmo tempo. O seu opúsculo "O Novo Manual Educativo" era dividido em três partes: Infância, Adolescência e Juventude.
Em 1º de Dezembro de 1903, passou a publicar "A Voz Matinal", revista mensal com a apreciável tiragem de 6.000 exemplares, impressos em oficinas próprias.


A Associação Feminina mantinha um bazar na Rua do Rosário N o. 18, em S. Paulo, para a venda dos artefatos das suas oficinas, e uma sucursal deste estabelecimento na Ladeira do Piques, Nº 23.
Anália Franco mantinha escolas reunidas na capital e escolas isoladas no interior, escolas maternais, creches na capital e no interior do estado; bibliotecas anexas às escolas, escolas profissionais, arte tipográfica, curso de escrituração mercantil, pratica de enfermagem e arte dentária. Mantinha também Línguas (francês, italiano, inglês, alemão), música, desenho, pintura, pedagogia, costura, bordados, flores artificiais e chapéus, num total de 37 instituições.


Era romancista, escritora, teatróloga e poetisa. Escreveu uma infinidade de livretos para a educação das crianças e para as escolas, os quais são dignos de serem adotados nas escolas públicas.
Produziu a sua vasta cultura três romances: "A Égide Materna", "A Filha do Artista" e "A Filha Adotiva". Foi autora de numerosas peças teatrais, de diálogos e de várias estrofes, destacando-se "Hino a Deus", "Hino a Ana Néry", "Minha Terra", "Hino a Jesus" e outros.


Em 1911 conseguiu, sem qualquer recurso financeiro, adquirir a Chácara Paraíso. Eram 75 alqueires de terra, parte em matas e capoeiras e o restante ocupado com por uma das mais notáveis figuras da História do Brasil: Diogo Antonio Feijó. Nessa chácara fundou Anália Franco a Colônia Regeneradora D. Romualdo, aproveitando o casarão, a estrebaria e a antiga senzala, internando ali, sob direção feminina, os garotos mais aptos para a lavoura, a horticultura e outras atividades agropastoris, recolhendo ainda moças desviadas, conseguindo assim regenerar centenas de mulheres.


A vasta obra de Anália Franco consistiu em 71 Escolas, 2 Albergues, 1 Colônias Regeneradora para Mulheres, 23 Asilos para Crianças Órfãs, 1 Banda Musical Feminina, 1 Orquestra, 1 Grupo Dramático, além de Oficina para Manufatura de Chapéus, Flores Artificiais, etc, em 24 cidades do interior e da capital. Seu desencarne ocorreu precisamente quando havia tornado a deliberação de ir ao Rio de Janeiro fundar mais uma instituição, ideia essa concretizada posteriormente pelo seu esposo, que ali fundou o Asilo Anália Franco.
Profundamente religiosa, optou pelo Espiritismo - fé que dividia com o marido, com quem trabalhou em várias obras espíritas.


Em 1919, Anália Franco morreu de gripe espanhola, doença que também vitimou o presidente Rodrigues Alves, no ano anterior.

 

A nossa apatia mental (Anália Franco)


Ainda não faz muito tempo que li um livro sobre os nossos costumes no qual o seu autor, numa linguagem clara e imaginosa, expunha, com toda a sua dolorosa nudez, certas verdades amargas que me impressionaram profundamente e me foram diretas ao coração, por corresponderem a esse peso que me punge, ao reconhecer a nossa falta de gosto, a nossa preguiça mental para todas as elucubrações do espírito. [...] fizeram-me pensar um pouco nos meios de despertar nossas patrícias dessa preguiça mental que as caracteriza em razão da educação que, por desgraça nossa, ainda continua a ser administrada. Entre as múltiplas dificuldades que encontramos em nossa missão educadora, uma delas é a escolha de leituras amenas e agradáveis, que formem o gosto das nossas alunas e as distraiam sem as inquietar. A nossa indiferença sistemática para tudo quanto seja questões de letras ou de artes, tem abafado os raros talentos femininos que se animaram a afrontar a barreira tenaz dos nossos preconceitos tradicionais, de modo que é ainda paupérrima a nossa literatura.
Geralmente os mestres da moderna escola, que nos podiam guiar na senda do bem, amenizando e romanceando os mais rápidos assuntos, só se ocupam em pintar de preferência o que há de mais baixo, de mais triste e desconsolador na Humanidade. Esquecem-se de que é para a mocidade que escrevem, visto que, quase no geral, é ainda só a gente moça quem lê romances. Não podemos deixar de imputar à literatura, cuja influência sobre os costumes é ainda mais ou menos forte, uma grande parte da incerteza e perturbação lançada no pensamento de que proveio a hesitação no cumprimento do dever e, para muitos, o aniquilamento de toda esperança.


E efetivamente essas leituras que todos os anos se publicam na França e Inglaterra aos milhares, e cujas traduções inundam o mundo inteiro, e que matam na alma juvenil a crença sublime de todo o ideal e de todo o grande e generoso amor, deixando-a numa espécie de marasmo intelectual que a esteriliza ou num revoltante cinismo que a corresponde. É por isso que a maior parte de nossa sociedade, mal preparada pela sua educação religiosa, por falta de espírito de livre exame para tudo que exige a ordem, a previdência, o discernimento e a perseverança ao trabalho, vai-se tornando cada vez menos apta para as coisas sérias e profundas. As tendências são de ordinário frívolas e por isso os gostos sérios se fazem raros. [...] Como um antídoto contra a literatura dissolvente de nossos dias, resolvi a publicação de um romance sobre os nossos costumes que se acha no prelo, cujo título é A filha do artista, no qual procuro romancear os exemplos da virtude e das verdades consoladoras; e, ultimamente, vai ser publicado no Álbum das Meninas, A Égide Materna. É muito provável que, pela ideia diferente que faço da Arte, esses dois romances só mereçam muito desdém e muita blague. Consola-me, porém, a ideia de que servirão, ao menos, de protesto contra a ação dissolvente e desmoralizadora da escola realista.


Nesta era de transformações e de incerta claridade, é bom que uma voz se erga e diga bem alto — que a paixão só é criminosa, quando mal dirigida, que o excesso do sentimento só é ridículo, quando mal aplicado, que a abnegação inteira e absoluta tem gozos superiores a todos os gozos da matéria e que as almas boas e as almas grandes descobriram uma linguagem misteriosa, na qual falam com Deus.
Não basta descrever minuciosamente com uma perversão de gosto, deveras deplorável, tudo que há de mau, grotesco ou vicioso na criação; não basta ter em si tão acentuada preocupação horrível, que se deseje ver com o microscópio do naturalista, para bem lhe distinguir os defeitos, as anfractuosidades, as máculas, os vermes, de tudo que, à simples vista, seria harmonioso e belo. Aquele a quem se roubam todas as ilusões salutares, cumpre apontar para algum bem que ainda lhe ficará na terra, bem verdadeiro que o compense de todas as suas perdidas alegrias mentirosas! Não basta negar, é necessário afirmar com convicção robusta; não basta demolir, é preciso ao lado dos edifícios que se derrubam e desmoronam construir novos edifícios mais ricos e mais seguros.

 

 

VOLTA AO TOPO

 


Compartilhar no Orkut    Compartilhar no Facebook    Compartilhar no Twitter

Adquira os CDs do Mustang
Leia mais >

ENTREVISTA COM ESCRITOR PAULO-ROBERTO ANDEL
Leia mais >

ESQUADRÃO DA MORTE
Leia mais >

2011 @ Designed by Claudio Lopes clsa@clnetsys.com