EDIÇÃO 23

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Paulo-Roberto Andel é estatístico e escritor. Em 2010, publicou “Do céu ao inferno – A história de um time de guerreiros”, livro de crônicas que narra a trajetória do time do Fluminense nos anos de 2009 e 2010. Escreve regularmente em sites e blogs desde 2001; atualmente atua no blog “Otraspalabras” (http://paulorobertoandel.blogspot.com), no site “Bendito Flu” (http://www.benditoflu.com.br) em parceria com William Vianna e é cronista no site de esportes “Além do Lance” (http://www.alemdolance.com.br)

 

 

Quais as mais fortes lembranças que você tem do primeiro jogo de futebol, que você teve o prazer de assistir na TV ou em um estádio? Minha primeira lembrança é do Maracanã. Não lembro o jogo ao certo, mas que não estava tão lotado e que o placar foi de zero a zero. O placar era antigo ainda, antes do eletrônico, talvez tenha sido em 1974. Provavelmente era um jogo do Fluminense, embora nos anos seguintes meu pai tenha me levado a vários jogos de outros times, clássicos inclusive - não havia futebol na televisão, o prazer em vê-lo precisava ser exercido ao vivo. A seguir, outro logo; minhas principais lembranças eram a de que toda hora me jogavam para cima (o que detestei) e que o outro time tinha uma camisa bem diferente dos demais. A julgar pelas comemorações e pela camisa diferente, concluí futuramente que era uma goleada sobre o Vasco da Gama, em 1975, depois de pesquisar súmulas. Essas são as lembranças dos primórdios. Depois, houve uma fase em que talvez eu não tenha ido ao estádio e, então, me lembro de 1978: comecei a tomar gosto definitivo, a pegar os jornais de meu pai para ler, a escutar os jogos via Jorge Curi, Waldyr Amaral, João Saldanha, Mário Vianna, Kleber Leite e Loureiro Neto - que time! Nos jornais, ainda consegui ler as últimas temporadas de Nelson Rodrigues como cronista de futebol, mais Oldemário Touguinhó, o sensacional Achilles Chirol, Sandro Moreyra e outros. A vitória por dois a zero sobre o Flamengo na Taça Guanabara de 1978, que apenas ouvi. No returno, a goleada deles sobre nós por quatro a zero, que me chateou bastante. Porém, no ano seguinte, veio a forra: Maracanã lotado, os maiores do mundo em campo, o superfavoritismo e aplicamos uma sonora goleada de três a zero, gols de Pintinho de cabeça, Rubens Galaxe num chute forte e o golaço de Cristóvão, entortando Manguito e fuzilando Cantarelli. Antes desse terceiro gol, houve um pênalti para o Flamengo e sua torcida urrava, eram mais de cem mil pessoas no Maracanã. Zico ajeitou e bateu, Paulo Goulart voou no canto esquerdo e espalmou para escanteio. Eu nunca tinha visto ninguém perder um pênalti, aquilo foi muito marcante. E, no final do ano, meu pai me levou para assistir Flamengo x Palmeiras, quartas-de-final do campeonato brasileiro de 1979, a primeira vez em que assisti um jogo que não fosse do meu time, pelo menos conscientemente. Ficamos espremidinhos na torcida alviverde, que achei muito bonita, assim como o time em campo. Foi um show, um jogaço, tanto que nunca mais esqueci a escalação deles: Gilmar, Rosemiro, Beto Fuscão, Polozzi e Pedrinho; Pires, Mococa e Jorge Mendonça; Jorginho, César e Baroninho. Depois entraram o Carlos Alberto Seixas e o Zé Mário, que fizeram gols. O Palmeiras venceu por quatro a um e me lembro da primeira vez de ver tanta gente desolada junta. Ali comecei a entender o que viria a ser o futebol na minha vida. Em 1980 passei a frequentar jogos regularmente, ainda levado por meu pai. Em 81, alguns jogos sozinho ou com amigos. De 82 em diante, virei assíduo de vez. Foi outro dia e já faz tanto tempo, tantas outras lembranças, mas aqui falei das iniciais.

 


O que te fez ser um torcedor do Fluminense?
Quando eu era criança, tinha dois ou três meses, minha mãe (Tricolor, mas que não era muito ligada em futebol no início) comprou duas camisas para mim, brancas, uma com o escudo do Fluminense e escrita "Sou Fluzão" e outra, do Botafogo, escrita 'Sou Fogão". Certamente meu pai interveio e eu só usei a primeira. Sei disso porque, anos mais tarde, eu vi e lembrava das camisas - a do Fluminense, gastíssima, e a do Botafogo intacta. Talvez esse meu início em casa explique o porque da minha simpatia pelo Botafogo e, a seguir, por vários outros times. Mas eu sinceramente não me lembro de quando não era Tricolor. Não houve um dia em que eu resolvi torcer para o Fluminense - já nasci nas arquibancadas com muito pó-de-arroz jogado pelo nosso inesquecível Careca, que era para mim um super-herói. Desde sempre. Minha mãe me deu um radinho de pilha em 1979 num sábado e a primeira coisa que ouvi foi um jogo entre Fluminense e Volta Redonda,  que perdemos por dois a um. Toinzinho fez o gol. Isso foi em 1979, 32 anos atrás. Eu já era um torcedor incessante aos onze anos de idade. É claro que meus pais influenciaram, o que foi muito bom, mas ressalte-se que, desde os doze anos de idade, conta-se nas mãos as vezes que ele foi comigo ao estádio. Ele me deu a paixão, eu a transformei num mega-sentimento por minha conta, talvez.


Depois do vexame na Copa América, fica enfim constatado que o futebol brasileiro é submisso a egos inflados e políticas internas demais, que afetam os resultados? Não fosse o verdadeiro desastre extra-campo, o futebol brasileiro seria obrigatoriamente favorito em tudo o que disputasse, assim como os norte-americanos o são no basquete e nós mesmos, brasileiros, no vôlei, depois de anos de trabalho sério, empreendimentos e dedicação. Nossa matéria-prima ainda é riquíssima, embora a confusão dos clubes tenha ajudado a escassear os grandes talentos. Não é possível crer em ordem com a enorme dívida que os clubes têm. O Rio de Janeiro, celeiro do futebol brasileiro, até quatro anos atrás só tinha um de seus grandes times com um estádio próprio - e o que não faltou foi dinheiro para estes mesmos times. Onde foi parar? Os clubes são desorganizados, muitas vezes administrados por pessoas inescrupulosas, o caos chega até as federações e todos sabemos quem elas aclamam para comandar o futebol brasileiro. Interesses econômicos, políticos, que pouco ou nada têm a ver com a proposta de uma seleção brasileira. O somatório de maus atos leva a situações vexatórias, como a eliminação para Honduras anos atrás e, agora, na Copa América. É que o nosso material humano é privilegiado demais e, por isso, mesmo com toda a caótica situação das administrações, os clubes e a seleção conseguem passar por cima de tudo e fazer resultados - porém, a planejada desordem nem sempre permite.

 


Você acredita que o povo brasileiro hoje, já não torce como antes pela seleção canarinho? As coisas mudaram, acho. Uma soma de fatores. Quando comecei a acompanhar futebol, a seleção era uma obrigação, até mesmo porque ainda vivíamos numa ditadura. Mas havia o lado bom: nela, jogavam os melhores do país. Acompanhei a seleção de Telê do começo ao fim, um espetáculo maravilhoso. Fui criado em Copacabana, você ia à praia e falava com o Júnior, o Claudio Adão, o Edinho, o goleiro Paulo Sérgio. Havia acesso, havia admiração. Quando um jogador chegava à seleção, salvo raríssimas exceções da conta de todo treinador, em geral ele já era muito respeitado por suas qualidades no futebol brasileiro. O Maracanã lotava, o Morumbi também. A Copa da Espanha e o fracasso naquela competição abalaram de certa forma o amor pela seleção - e que fique claro: sempre se tentou mentir com a falácia de que a Itália, que nos eliminou com toda justiça e jogando melhor, jogava um futebol "feio". Façam-me o favor: Zoff, Scirea, Cabrini, Tardelli, Antognioni, Bruno Conti, Altobelli, Paolo Rossi... só jogadores de alto nível. perdemos porque naquele dia não fomos os melhores. Ponto. Depois, a seleção de 1986 não empolgou, a de 1990 foi um desastre e a de 1994 venceu bem mas não tinha o apoio da forte crítica paulista. Uma década de abalos deixa marcas. A venda de jovens jogadores cada vez mais cedo, sem que se tornem ídolos em seus times e dentro do Brasil; o isolamento dos jogadores, que formam um ambiente de superstars; a própria mudança da sociedade, cada vez menos voltada para o coletivo mas sim para o "eu"; a clara convocação de jogadores que não estão entre os melhores das posições, visando atender outros interesses - tudo isso nem a vitória de 2002 salvou. Hoje, antes dos trinta anos, muitos jogadores de sucesso que poderiam se tornar referências ternas do futebol brasileiro não passam de neoadolescentes em busca de álcool, orgias e mesmo substâncias ilícitas. Longe de parecer um conservador, até porque não sou mesmo, mas se o sujeito quer ganhar milhões como atleta, tem que preservar seu instrumento de trabalho, que é o corpo. Não é o que vemos em vários dos ídolos mais recentes do futebol brasileiro. Dizem que podem fazer o que quiserem quando estão de folga? Não é bem assim: o corpo não aguenta.  Que façam então, mas que estejam preparados para a decadência e o posterior ostracismo.

 

Como ocorreu a mutação do torcedor a blogueiro e na sequência, a escritor? De alguma forma, sempre quis trabalhar com futebol de alguma forma e foi isso que me levou ao curso de Estatísica, onde sou formado e atuo na área há quase vinte anos. Não deu certo. Com os atuais dirigentes, ciência e administração esportiva nunca vão dar as mãos. Com o passar dos anos, escrevi com alguma regularidade em sites e, posteriormente, blogs - sempre gostei de escrever e produzo material a respeito sob diversos temas, não somente futebol. Certo dia, cansado das manchetes supergalácticas dos jornais - que não propriamente tratam hoje da qualidade da informação, mas sim priorizam a questão econômica e o consumo - entendi que poderia também fazer algo com futebol sobre o meu amado Fluminense, tão massacrado pela mídia. Vasculhei por ai e percebi que muitos blogs tinham informações muito boas, mas pecavam na assiduidade e continuidade de informações. Então, em 2007 criei o blog "Crônicas Tricolores" para tratar dos jogos do Fluminense, pensando num acervo de dez ou vinte anos que, no futuro, poderia até gerar um livro, contar a história de um período. Na verdade, eu gostaria de falar de outros times também, mas as exigências de meu trabalho e a falta de tempo me levaram a concentrar as ações no meu Tricolor. Houve quem dissesse algo que considero interessante: "Ué, você vai copiar o que Nelson Rodrigues já fez?". É claro que isso é impossível. Como copiar o Pelé da crônica de futebol? O que me propus foi contar a história dos novos tempos, que não estava sendo valorizada em jornais e revistas - hoje, quase não há espaço para o cronista dos moldes antigos: é preciso ser "engraçadinho" e escrever pouco. Não, isso não; eu queria contar o que vi e vivi durante um longo tempo. Então dei seguimento ao blog e, dada a sensacional campanha contra o rebaixamento em 2009 (2008 também, mas os jornais se esqueceram de lembrar) mais a arrancada para o que viria a ser um grande título, a três rodadas do fim eu propus à editora 7 Letras uma avaliação do material para fins de publicação, porque achei que era um fato digno de blog e livro. Fui muito bem aceito pela casa e acertamos que o livro seria publicado em caso de confirmação do título brasileiro, o que  acabou acontecendo na partida contra o Guarani e, de forma urgente e até inesperada, acabei publicando o meu primeiro livro, "Do inferno ao céu - a história de um time de guerreiros". Desde a publicação, unifiquei meu blog ao de um outro amigo com quem eu já coloborava, Wiliam Vianna e o "Bendito Flu". Então, lá eu publico minhas crônicas sobre os jogos do Fluminense e em meu outro blog, "Otraspalabras", eu trato de outros formatos e temas na literatura. "Bendito Flu" é uma obra em progresso que pretendo manter por muitas décadas ainda, ao menos as que me permitirem (risos). Tenho lidado com várias críticas construtivas sobre meu trabalho e muitos tocedores do Fluminense já manifestaram que choraram - ou sorrirar - muito com as crônicas que escrevi e essa reação é que considero um verdadeiro troféu. No mais, a partir de semana que vem estreio como colunista no site de esportes Além do Lance (http://www.alemdolance.com.br), onde tratarei de jogos, jogadores e histórias do futebol brasileiro nos anos 70, 80 e 90, mais ou menos por aí. É isso. Meu muito obrigado!

 

 

Como e por que nasceu o blog que deu origem ao livro “Do céu ao inferno – A história de um time de guerreiros”? Bom, minha ideia era a de publicar um livro sobre futebol em dez ou vinte anos, talvez. Em meu blog pessoal, tenho feito várias experimentações literárias há anos (poesia livre e concreta, prosa, crônica), desde 2001. Em paralelo, como torcedor apaixonado do Fluminense, comecei a fazer em outro blog a crônica dos jogos do time desde 2007. Isso me cativou por algumas razões: primeiro, ter percebido que muitos torcedores também têm blogs mas postam nele sem a regularidade necessária que a história exige; segundo, porque me desagradou desde criança a maneira como a imprensa esportiva sempre tratou o Fluminense por diversas razões e interesses; terceiro, em complemento, porque nos últimos anos tem sido vendida a (falsa) ideia de que o futebol carioca só tem um único protagonista, o maior de todos, o imbatível, enquanto os outros times são meros coadjuvantes (aliás, recomendo reação aos botafoguenses e vascaínos a respeito do tema). Em suma, eu queria contar a história das coisas que vi e vivi em campo e que não consigo ver publicadas nos jornais porque os interesses ofuscam a isenção da grande midia. Então, fiz o meu bloco-do-eu sozinho, pacientemente, esperando o tempo passar e, no pior cenário, ter uma boa memória literária para o futuro.

 

 

Você se considera um saudosista, daqueles que sentem falta dos grandes cronistas? Sim. Não há mais o espaço para os grandes cronistas de antigamente – aliás, espaço há: os jornais é que emburreceram drasticamente. Afora todos estes fatores, uma única coisa me “assustava”: o fato de que meu time de coração teve como seu cronista maior simplesmente Nelson Rodrigues – um bom motivo para que qualquer candidato desistisse da tarefa. Mas então quem contaria as histórias do recente ontem, do hoje e do que vem por aí? Desencanei. Nelson é Pelé da crônica esportiva, não precisaria temer qualquer comparação.

 

Como você se sentiu ao ver o seu clube, o Fluminense, de um time desacreditado se tornar campeão brasileiro? Eu fiz a minha parte do meu jeito, fotografei as palavras do meu jeito e assim seguiria quanto tempo fosse necessário, sem megalomanias. Mas o próprio Nelson Rodrigues dizia que até para se chupar um picolé é preciso ter sorte, e eu tive. Apostei na salvação de 2009, o que todos escreviam ser impossível, e quebrei a corrente. Quando veio 2010, continuei a publicar regularmente, sem falhas e os meses se passaram, até que a chance do título do Fluminense passou a ser uma realidade. Que fique claro: afirmei nas crônicas categoricamente o que eu acreditava, não somente como escritor, mas também como estatístico (bem-fundamentado, pois). A dois dias de faltarem três partidas para o fim do campeonato, tomei coragem e ofereci meus textos à editora, comentando que aquela história do não-rebaixamento até o título poderia resultar num bom livro de crônicas a respeito, crônicas feitas do front, já que eu sou torcedor de arquibancada. Ficou acertado que o livro sairia somente em caso da consolidação do título. O Fluminense venceu seus três jogos finais e, no dia seguinte ao tricampeonato, seis de dezembro passado, ele foi para a impressão. Já se passaram seis meses e ele está tecnicamente esgotado: 90% do estoque já foi vendido e os 10% restantes estão em prateleiras e consignações, verdadeira façanha em se tratando de livros e de um tema ainda tão desprezado pela intelligentzia como o futebol. Enfim, acho que é isso. Talvez isso.

 

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