Revista O Martelo

Em 1985 o desenhista espanhol Jaime Martín tornou-se um profissional dos quadrinhos, desenhando tanto para o público infantil como para o adulto. Em 1987 começou a colaboração com a revista El Víbora, onde realizou trabalhos mais maduros, inclusive com conteúdo social. A partir daí seus quadrinhos foram publicados em países como Itália, França, Alemanha, Estados Unidos e Brasil (na extinta revista Animal).
Em 1990 recebeu o prêmio de autor revelação no 8º Salão Internacional de Quadrinhos de Barcelona pela obra "Sangre de Barrio", considerada a sua obra prima. A editora Conrad acaba de relançar as 3 partes de “Vida Louca” (nome no Brasil) em um só livro.
Em 1995 recebeu o prêmio Historieta Diário de Avisos (Tenerife) pela obra  "La Memoria Oscura".
Desde 1992, as possibilidades do computador passaram a ser uma grande ferramenta de ajuda.
Atualmente trabalha em diversas áreas de sua arte, tanto produzindo para imprensa e TV como atuando no campo editorial e desenvolvendo vídeo-jogos.

 

Por Carlos Lopes

A mais conhecida obra de Martín, "Vida Louca" foi (re)lançada com estardalhaço no Brasil. Para muitos, inclusive para o que vos escreve, "Sangre de Barrio" é um trabalho fantástico. Resultado de uma compreensível insatisfação em relação ao mundo, ao mesmo tempo "Vida Louca" é compreensão da realidade dura do jovem sem posses, sem futuro, seja em que grande cidade estiver. Periferia e angústia são palavras rotineiras em todos os lugares. Há idade em que esses elementos tornam o ar irrespirável e é nessa fase que Martín se espelha. A Espanha assim como o Brasil, é um país que viveu anos sob uma ditadura inescrupulosa. Quando ambas as nações foram democratizadas a juventude optou, por uma questão lógica, pelo rock como plataforma de salvação e estilo musical adequado aos novos tempos de liberdade-ainda-que-tardia.

O livro conta a história de Vicen, um garoto que vai morar com a mãe (separada do marido bêbado) e a irmã no bairro de periferia L´Hospitalet de Llobregat em Barcelona. Logo no primeiro dia que Vicen vai dar uma volta para reconhecer a péssíma redondeza, ele se depara com 3 jovens meio marginais, que se tornam seus amigos e protetores. Inclusive o iniciam na arte do sexo, da bebida, maconha e praticam rituais de iniciação para a adesão do jovem na mini-gangue. A partir daí caem na gandaia juntos. Tudo isso ao som do novo rock espanhol da época da nova democracia. O autor descreve os nomes e os autores de cada faixa durante a história, como uma trilha sonora necessária.

A coisa começa a degringolar para os quatro rapazes quando tem início os pequenos furtos. Cepá, o seu protetor e o líder do grupo morre durante um assalto em que Vicen faz parte. O jovem leva uma detenção de presente, que lhe transfigura a vida. Ele aprende a sobreviver em outro universo, enquanto o traço dos quadrinhos também fica mais maduro, menos claro, mais sofrido. Quando é solto descobre que sua mãe já vive com outro. Desde o início Vicen desconfia do sujeito, que após um tempo mostra ser um réles traficante. E da pior maneira. Agora é a mãe de Vicen que tem, mais uma vez, a alma estuprada. Vicen tenta trabalhar com o pai, que mostra ser um tremendo come-e-dorme e entediado rouba uma moto para se divertir. Aí conhece a mulher que mudará sua vida, para o bem e para o mal: Sonia. Duro e mais desesperançado, só resta a Vicen arrumar um dinheiro fácil com extorsão. Ele pensa em agradar Sonia, mas só consegue o desprezo da jovem, que fica entre a cruz e a espada. Vicen ainda mais desiludido, faz um último serviço. Mas essa decisão vai custar tudo ao jovem, inclusive o seu futuro. Negro como a cor dos quadrinhos.

 

ENTREVISTA

Muitos consideram Vida Louca (Sangre de Barrio) a sua obra prima. O que te influenciou a escrever esta história? Foram os fatos políticos na Espanha da época no início dos nos 80? O roteiro se baseia nas suas conclusões sobre os dramas diários vividos na periferia ou foram suas próprias conclusões sobre a realidade?
O editor da revista El Víbora me ofereceu a oportunidade de realizar um álbum com total liberdade. Um trabalho inédito, que não havia sido publicado na revista. Depois de descartar várias possibilidades, optei por escrever a história mais real possível, baseada em personagens conhecidos por mim e pelos meus amigos, porém com alguns elementos ficcionais. Evidentemente, tudo me influenciou: política, música, realidade social... tudo isso também fez parte da minha vida. A polícia que ainda existia do regime franquista, "La Movida", os primeiros filmes de Almodóvar, a eclosão do pop e do rock espanhol... Qualquer um que se dedique a uma atividade criativa se influencia e se conecta a esse tipo de coisas. O consciente e o inconsciente afloram e dão forma a todo o trabalho. O interessante talvez seja o resultado final depois de haver passado pelo filtro pessoal de cada autor.

Vicen é tão real que parece um personagem baseado em alguém também real. Foram fatos vividos por você ou por algum amigo ou foi tudo imaginação?
É um personagem fictício, porém baseado em personagens reais. Muitas características de Vicen e dos fatos que ocorrem na primeira parte são inspirados em um amigo. E em uma menina muito próxima a mim. Sempre há uma base de realidade, inclusive na parte final onde aparecem os mafiosos e a seita que desintoxica os toxicômanos.

Como ocorreu no Brasil, a Espanha se democratizou após uma longa ditadura. O rock foi escolhido como a música de transição de um regime político para outro, como ocorreu na Argentina e na Rússia. Você acredita que o rock foi uma escolha natural ou foi uma imposição das gravadoras junto com os governos?
A explosão das bandas de rock foi algo natural e espontâneo. Foi uma válvula de escape e um instrumento de denúncia, assim como ocorreu com os quadrinhos e em outros meios de expressão. Suponho que esse seja o processo natural quando se deixa uma situação nefasta como a de uma ditadura. Todos queriam se expressar depois de tanto tempo onde tudo era proibido. E expressar-se de uma maneira aberta, radical e sem nenhuma censura. Vivi aquela época como adolescente, então essa é a imagem que tenho daqueles tempos: um arrebatamento de liberdade.   

Por que você diz em seu blog que Sangre de Barrio te persegue? É compreensível que não é muito agradável para um artista ser reconhecido por apenas uma obra.  Artistas sempre estão criando e evoluindo. O que você não gosta em Sangre de Barrio hoje, que o público leitor não percebe, não compreende?
Me soa meio estranho que após 20 anos Sangre de Barrio continua sendo reeditado, quando obras mais recentes passam desapercebidas. Estou satisfeito com Sangre de Barrio e contente por sua boa aceitação depois de tanto tempo, porém como autor de outras obras igualmente interessantes e menos conhecidas (como Invisible) me sinto um pouco triste.

Qual é o nome do seu último trabalho publicado? Como estão as análises, as resenhas? Nos conte a história, em que se baseia?
Meu último trabalho publicado foi "Ce que le vent apporte", para a editora franco-belga Dupuis. Sempre gostei de histórias fortes, com personagens que vivem conflitos e situacões limite. Nesse sentido há certa coerência com o que faço agora e esse é o caminho a seguir. A história é ambientada na Rússia pré revolucionária. Conta as andanças de um jovem médico inexperiente que dirigirá um hospital em um povoado distante. A população local rejeita tudo o que seja novo. O medo do desconhecido faz com que se comportem assim. Ocorrem uma série de série de assassinatos nos dias em que o vento sopra. O jovem médico está em meio a esse cenário de loucura e tenta expor as coisas de forma racional para acalmar os ânimos. Não é importante descobrir quem é o assassino, mas sim como o povo raciocina a esses estímulos, qual é a sua visão dos acontecimentos e quando se chega ao final “o que os personagens acham que aconteceu”. As reações da imprensa francesa, em geral, são boas. O melhor é que as livrarias consideram o trabalho interessante e continuam mantendo-o nas vitrines durante bastante tempo. Isso, em um mercado como o francês com ininterruptos lançamentos a cada mês e onde as revistas e livros duram tão pouco tempo nas prateleiras. Essa é a melhor notícia que posso ter tido. Há apenas três dias soube que concorro ao prêmio "Mor Vran" do "8º salon du roman policier et de la BD" em Penmarc'h na França britânica. Aparentemente as coisas correm bem. Não posso estar mais feliz.

Quais são suas músicas e bandas favoritas, cartoons, películas, graphic novels? É muito difícil escolher, sempre esqueço alguns. Minha eleição seria diferente dependendo do estado de ânimo... No cinema "The Shining" (O Iluminado) de Stanley Kubrick, "American Beauty" (Beleza Americana) de Sam Mendes... Nos quadrinhos: "7 vidas" de Josep Mª Beà, "Prince Valliant" de H. Foster, Gipi, David Mazzucchelli, Jordi Bernet, Miguelanxo Prado, Carlos Giménez... Na música: Sade, Bebel Gilberto, Pink Floyd, Motörhead, AC/DC, Megadeth, La Polla Records... Possivelmente umas misturas estranhas. Talvez tenha algum transtorno de personalidade.

Você conhece ou gosta de algum artista brasileiro na área das graphic novels ou nos cartoons? Atualmente estou trabalhando em um projeto com Wander Antunes (http://www.wanderantunes.com). Wander escreveu uma história forte, como as que gosto. Se passa nos Estados Unidos na época da grande depressão. Também continuo trabalhando com Rico (http://ricostudio.blogspot.com), um excelente estreante humorístico com um estilo gráfico prático e elegante. Graças ao blog de Rico estou descobrindo outros autores interessantes.

 

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