Posts Tagged ‘cd’

DivWebMustangV

Entrevistas no Ar

Posted terça-feira, outubro 27th, 2009

Bastidores da Gravação do CD Santa Fé

Posted terça-feira, setembro 29th, 2009

It´s been a long time since rock and roll - foto de michael meneses

As influências musicais que geraram o Santa Fé são muitas. Beatles é um manancial eterno de idéias. Há bastante coisa nessa história: o punk 77 (The Jam, The Clash, Sex Pistols), soul music sessentista (“Eu Não Faço”) e rock brasileiro dos anos 70 e 80 no estilo Tim Maia e Secos e Molhados, incluindo os sempre presentes Mutantes da fase da Rita Lee.

As letras, criadas depois das melodias, encontraram o seu rumo no início de 2008, quando decidi escrever sobre amor e desilusão. Na verdade, era a única coisa sobre a qual consegui escrever, pois nada se revelou mais importante.  E afinal de contas, o que é mais importante do que amar? As letras sobre paixão, amor e dor, várias alegóricas e outras textuais, retratam uma fase da minha vida, basicamente entre 2006 e 2008, que me deixaram marcas muito profundas e me indicaram os passos a seguir nos dias de hoje. Fase, na qual muitas coisas deixaram de fazer sentido e outras que ressurgiram mais fortes de um período de trevas.

Um amigo me disse que a composição “Dk. Alhzeimer” lhe soava muito mórbida. Não sem razão, pois compus essa música para ter um clima angustiante que mesclasse algo do Álbum Branco dos Beatles, com o primeiro disco solo do John Lennon, que eu amo, misturado com a voz do baterista Keith Moon do The Who,como o Uncle Ernie. Então é claro, optei pela morbidez para passar uma mensagem, que nem tudo pode ser alegre pois a vida não é assim. Mas até mesmo na dor, encontrei humor. Mórbido, humorado e sarcástico.

As vozes foram gravadas em poucos takes, sem afiná-las posteriormente com plug-ins. Muitas das versões definitivas ocorreram entre o primeiro e o terceiro take. É um processo complicado porque no meu caso, durante os ensaios toco guitarra e canto e não me dedico a aprimorar a voz. Só canto mesmo, e solo, em casa. Houve uma sessão, a segunda, na qual não saiu nada. No dia seguinte, percebi que isso devia ser tensão, responsabilidade, preocupação como dinheiro voando e antes de entrar no estúdio,bebi um pouco com os dois técnicos de gravação, uma hora antes da sessão. Carreguei meus CDs de soul, Otis Redding, Sam & Dave e preparei o clima geral para a gravação. A faxineira do estúdio dançou ao som dos CDs e o clima liberou geral. Gravei as duas vozes de “Eu Não Faço”, a principal e segunda voz, de primeira. Mentalizei o Otis Redding com Elza Soares e mandei ver.

A banda que gravou o disco, Vinícius Dantas no baixo e Bráulio Azambuja na bateria entenderam a história e contribuíram de forma espetacular para o resultado final.

A guinada,que creio,houve entre os discos anteriores e o Santa Fé,é que desde o início da banda,pretendi que além dos elementos de classic rock tocados à nossa maneira, houvesse espaço para canções psicodélicas ou simplesmente canções com a cara e o jeito da década de 60, inclusive com influência do tropicalismo brasileiro. Creio que neste último trabalho consegui dosar todos esses elementos, ao somar baladas rock com soul music, canções e punk rock 77. E apesar da faixa “Esperança”, que considero a melhor linha melódica e harmônica que escrevi, ser mais rebuscada e ousada, ela convive bem com canções mais simples como “Guarda-Chuva” (cuja linha melódica inicial em Mi Maior foi inspirada em “Alegria Alegria” de Caetano Veloso) e “Sai Dessa Cruz”, ambas também calcadas no som mod dos Small Faces e do The Who.

ao vivo

Componho quase tudo no violão, e minha teoria é que se não funciona no acústico, não rola. As músicas e os arranjos dos Mutantes são complicados, mas os temas, as melodias são muito fortes, pegam e é isso que faz a diferença. Uma vez o guitarrista e produtor Robertinho de Recife me disse que o segredo de uma boa canção é a escala pentatônica na voz. Entendo o que ele quis dizer, mas eu fujo um pouco dessa máxima. Boa melodia nem sempre está ligada à simplicidade, mas, ele fez uma análise correta. Música é principalmente timbre, a escolha dos acordes, dos arranjos, que faz toda a diferença. Ouça a mesma música gravada por 3 artistas e as compare. O Santa Fé, mesmo que não pareça, é o mais brasileiro dos discos que já compus, no qual de fato toco MPR (música popular roqueira), a soma dessas várias vertentes. Uma das matrizes de inspiração é o afro-samba “Canto De Ossanha” (Vinícius De Moraes / Baden Powell) – que me arrrepia desde criança – com uma triste melodia que sentencia: “O homem que diz “dou” não dá porque quem dá mesmo não diz. O homem que diz “vou” não vai porque quando foi já não quis. O homem que diz “sou” não é, quem é mesmo é não sou tô, não tá…”

O rock and roll “10 Horas da Manhã” tinha um andamento bem diferente, mudei em cima da hora e ficou bem melhor, mais na praia dos Rolling Stones/ACDC. Passei a tocar o acorde com os dedos e não mais com a palheta. “Amor” foi a última música a ser composta e saiu de uma tacada só, tipo o último chute ao gol aos 47 minutos do segundo tempo. “Terceiriza a Culpa” foi a primeira a ser composta, toda feita no primeiro ensaio (mesmo) durante umas 2 ou 3 horas de levada de som, só eu e o baterista Bráulio Azambuja.

O timbre geral das guitarras nasceu do meu querido compressor da MXR dos anos 70, nenhum outro, o mesmo que usei em todo o disco. O som é penas um compressor e a guitarra, sem conversa. Foram 2 amplificadores utilizados: o JCM 800 da Marshall e um Fender True Reverb de 1972, ambos captados com 8 ou 9 microfones. A mixagem desses microfones todos é que fez o som final, 80% do que se ouve vem do Fender, uma revelação para mim, que sempre toquei com Marshalls. Toco ao vivo com outros compressores, mas sinto que o timbre velho, original só vem mesmo com esse pedal das antigas. O pedal fuzz Big Muff usado apenas no solo de “10 Horas da Manhã” proporcionou um timbre metálico, antigo e de violino, lindo. Pra constar: tenho horror de distorção. Testei o Big Muff novo, Tube Screamer novo e MXR novo, mas não curti, são bem diferentes dos originais. Usei corda 013 no estúdio, que desafina menos e tem um som mais encorpado, mas ao vivo não dá.

Mais e mais análises e confidências sobre o disco virão em outros capítulos.