Tá Tudo Mudando…

Posted quinta-feira, outubro 1st, 2009
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Análise de  Cláudio Moreira

Em tempos de pós-rock iluminado pelos horizontes da contemporaneidade pop internacional, a banda carioca Mustang prossegue em sua trajetória independente e, sobretudo, inusitada em terras brasileiras. Nem trafegando na contramão, nem na dianteira. Apenas viajando livre e solta em seu caminho autoral, buzinando ao ultrapassar modismos de todas espécies. Longe dos holofotes da grande mídia, o grupo plasma novos/velhos/reciclados caminhos bem resolvidos esteticamente, a fim de que o rock nacional atinja patamares de significativa qualidade artística, carregando consigo, sem soar datado e sem personalidade, a herança de tempos heróicos de bandas, como o Made in Brazil, O Peso e Patrulha do Espaço e muitas outras referências daqui e de fora. Liricamente, no entanto, a banda está muito, mas muito além, desses nomes citados. Carlos Lopes, mentor da Mustang, acertou a mão em cheio no cd “Tudo está mudando mas nem sempre pra melhor” (Monstro Discos), atingindo uma sonoridade atemporal e reunindo boas composições, além de uma produção precisa. Uma combinação de qualidades menos perceptível nos trabalhos anteriores: Oxymoro (mais intimista e eclético) e Rock´n´roll Junkfood (som garageiro tosco).Esse cd é a prova derradeira de que é possível fazer um rock pesado adulto e inteligente, em português, de forma profunda e acessível ao mesmo tempo. Enfim, biscoito fino indicado aos ouvidos iniciantes e iniciados e disponível no mercado alternativo. É lamentável que, por falta de uma divulgação pulverizada, o “Tudo…” não tenha ainda encontrado um público abrangente. Quem sabe, um dia, vamos ver Carlos Lopes e sua trupe desfazer esse “nó” mercadológico. Porque, por mais incrível que pareça, existe muito modismo às avessas no universo rock underground no Brasil. Se o mainstream é cruel com a liberdade criativa, é no meio alternativo em que se percebe que o reverso, necessariamente, não acontece. Visto que os artistas elevados ao panteão do pop/rock alterna são escolhidos por parâmetros pra lá de subjetivos. Assim sendo, é recorrente que se cometam injustiças seletivas nesse processo.Com certeza, por méritos puramente artísticos, a Mustang deveria ter muito mais visibilidade junto ao público. Quem sabe, a dialética entre “música de qualidade X lógica de mercado” será ultrapassada ao som do ronco do motor rock”n”roll da Mustang cor de sangue. A lista de artistas de diversos gêneros musicais, que passam pelo mesmo tipo de vivência, é grande. Porém, a acomodação não cabe no idealismo daqueles que pretendem superar as barreiras para alcançar não o sucesso, mas a solidez de uma carreira embasada no reconhecimento.Levante – O velho canto heavy metal acelerado, de outros tempos, ressurge, sem cerimônias, na abertura do cd “Tudo…” em “Geração Perdida”. Essa música versa sobre a desilusão dos “…últimos com ideologia…que ainda pensavam…”, pois eles sonhavam com a democracia. Mas como, infelizmente, constatam que, “sociólogo ou operário são faces do mesmo mal”, são invadidos pela sensação de desencanto e dizem que vão “botar pra fuder!”. Ao final, a letra sinaliza para uma imaginária cena futurista de caos insurrecional jacobino verde e amarelo em busca de paz, liberdade e fraternidade porque “nova Bastilha será, nova Bastilha será…em Brasília”.O amor é revisitado em tom mod na busca por respeito a dois em “Respeitar” e na falta de valores no ambiente mundano cyber em “Sexo virtual”, com seu lindo som de piano a cargo do misterioso Rotieh Ortseam. Nessa música, o sorriso brota facilmente ao se ouvir que “carentes profissionais, teclando orgasmos digitais…” e que “sexo virtual é tão legal, pois mesmo feio e fedido, na internet sou o mais querido, isso é tão legal” Já “Febem” reproduz as desilusões de um fugitivo sob os auspícios da adrenalina do vocal sincopado punk´n´roll de Carlos Lopes, do groovie do baixo grandfunkiano de Wlad Vieira e da bateria arrasa quarteirão de Américo Mortágua.Musa existencial – Carlos Lopes, resolveu fazer uma bela homenagem a Janis Joplin, que teve passagem meteórica pelo Brasil em plena ditadura militar, mas “…não bateu continência para general”. Cantando naquele velho jeito tosco e emocional, ele desvenda que a branca rainha texana do blues foi esculachada e desvalorizada, deu seu ar da graça para poucos e retornou para a terra natal para, meses depois, ter uma misteriosa morte. Overdose, suicídio ou assassinato? Se o vocalista da Mustang não consegue decifrar esse mistério, ele nos lembra que Janis “veio brincar de carnaval”, mas “no Rio foi feliz e não sabia”. Esse rock dilacerado tem feeling ultra hard blues acelerado e cadenciado, nos acalmando ao fim porque “Janis Joplin riu da morte, ela está com Hendrix em melhor lugar”.Oriunda do repertório da outra banda de Carlos Lopes, a funkeira experimental Usina Le Blond, “Cinco contra um” migrou sem atritos estéticos para o repertório da Mustang. A letra desse pesado funk rock aborda aquele velho método masculino de busca pelo prazer estimulado pela falta da companhia ideal. Retornando a máxima sartreniana de que o inferno são mesmo os outros, a energia continua a rolar em “Inferno” e sua pegada rock lascado com guitarra faiscante estilo Angus Young misturado à ambiência sonora de um Cheap Trick. Dada – Carlos Lopes retirou o nome da sua extinta banda, Dorsal Atlântica, seguindo o ensinamento dadaísta de transformar, pela intencionalidade vanguardista, qualquer coisa em arte. Sendo assim, abriu uma enciclopédia e enfiou o dedo em uma página qualquer e pronto. Estava escolhido o nome. Ele parece ter retomado esse caminho em “Cueca e meia”, pois conseguiu transformar numa bela canção de coloração hard e prog a mais que comum temática relacionada com a chateação de receber presentes desinteressantes em aniversários.Duas baladas integram o “Tudo…”. Uma é “Sonhos”, de andamento aerosmithiniano setentista e defesa lírica do mote filosófico da Mustang em não abrir mão dos sonhos, custe o que custar. Já “Despertar” emociona com seu teclado e vocais de apoio em estilo progressivo e pique hard, invocando estória de um espírito desencarnado descrente da sua passagem que tenta, sem sucesso, falar com as pessoas a sua volta sobre o tempo perdido no plano terreno.Se alguém duvida das possibilidades de modernização do hard rock na língua de Camões, a mesma se encerra em “Rock and roll city”. A singela homenagem à cidade da paulicéia desvairada e sua sanha ilógica nos lembra que “não há espaço, o ontem foi incendiado, o futuro chegou, adiantado…onde vai chegar, essa sua busca? O céu é o limite…”. No solo de guitarra vem à tona todo senso melódico de Carlos Lopes sob o brilho da elegante influência do alemão Michael Schenker (Scorpions, UFO e MSG).Último romântico – Por mais que pareça uma idéia fadada eternamente ao fracasso, todo ser humano já pensou em encontrar sua cara metade para viver o resto da vida junto ao seu lado. O personagem de “Véu e grinalda” potencializa o ideal byroniano já de enxoval comprado. Ele só não sabe em quantas prestações, “mas não faz mal, pois o que importa é enxoval”. Nesse divertido devaneio rock´n´roll reside um problema para o anti-Casanova, que não quer namorar e sim casar, pois ele diz que “o único detalhe é que não te conheço, nunca falei com você…”. Humor refinado não previsível recomendável para todas idades, crenças e classes sociais.A Mustang repete no “Tudo…” a manha de fazer duas versões de uma mesma música. No caso de “Outro lugar”, sua primeira versão é rock´n´roll com batida acelerada e guitarra da velha escola hard com acompanhamento de bateria em frenesi meio galopado. A segunda versão, que fecha o cd, tem letra ligeiramente diferente e deixa o country rock invadir a seara musical da banda nos remetendo a um clima de rodeio da pesada.O rock é, na atualidade, uma linguagem universal que tanto pode ser executada nos Estados Unidos, Brasil, Japão, África, Europa ou Oceania, bastando para isso que se domine seus códigos, levando a uma espécie de determinismo histórico para quem quer fazer música direta e visceral. Isso causa a sensação de uma incômoda imposição da indústria cultural. No entanto, há um outro lado da moeda nessa realidade, pois existem artistas que vivenciam o rock na alma sem fundamentalismo, não como uma camisa-de- força estilística, mas sim como uma bússula criativa existencial rumo ao desconhecido e sublime.Os pneus da Mustang rodam nessa estrada sem fim, de olho no que está por vir mas, pelo retrovisor, sacando o caminho percorrido. Ou seja: vivenciando o presente, de olho sempre pra frente e com respeito pelo passado. Sem vergonha de ser rock´n´roll.O convite para a carona está feito. É pegar ou largar.

ROCK BRIGADE Nº 236 - MARÇO 2006″TÁ TUDO MUDANDO… MAS NEM SEMPRE PRA MELHOR”
MONSTRO – NOTA 8
por Antonio Carlos Monteiro.

Em sua fase pós-Dorsal Atlântica, o vocalista, guitarrista e compositor Carlos Lopes lançou, entre outros projetos, a banda Mustang, que entrou na cena sem pedir licença e metendo o pé na porta com o furioso Rock ´n´ Roll Junkfood (2001). O álbum, urgente, vinha num estilo que ele chamava de punk´n´roll e com letras em inglês. Três anos depois, Carlos soltou Oxymoro, com letras em português, bem mais setentista, com mais riffs e, por mais paradoxal que possa parecer, mais intimista. E este terceiro trabalho pode ser considerado o disco de afirmação da carreira da banda. Não por acaso ela se chama Mustang, um carro veloz e clássico. Afinal, depois de um disco veloz e de outro clássico, Carlos juntou as duas coisas neste trabalho e nos brindou com um trabalho mais do que agradável de se ouvir. Sem abrir mão da sonoridade suja, mas com uma produção mais cuidadosa, Tá Tudo Mudando…Mas Nem Sempre Pra Melhor conseguiu misturar o que de melhor seus dois discos anteriores tinham, além de agregar um saudável tempero de rock nacional dos anos 70 – aquela turma tipo Tutti Frutti, Made In Brazil e Patrulha do Espaço – e de continuar fiel ao rock clássico (veja se você identifica quem ele está homenageando na capa). Cantando em português, Carlos também surpreende não pelas letras ácidas, mas pela boa performance vocal num estilo tão distante do heavy metal gutural que o consagrou nos anos 80. Este é um daqueles discos que você ouve de uma tacada só, ele acaba e você nem percebe que passou quase uma hora – e aí você se pega apertando o “play” de novo. 

Resenha site Whiplash – Tá Tudo Mudando…Mas Nem Sempre Pra Melhor (Mustang) Nota: 9 por  Maurício Gomes Angelo

O rock não vem se tornando apenas careta e politicamente correto (o que significa, na verdade, apolítico) mas comportado em demasia e, principalmente, covarde. No rock estritamente tupiniquim, e em português, então, nem se fala. A crítica é sempre adaptada para que não ultrapasse os limites da tv, do que é “aceitável”, do que não choca, não desperta sentimentos genuínos. E é por isso que há um grande significado em termos “Geração Perdida” como faixa introdutória e música símbolo deste trabalho. Sonoramente, um estrondo. Impõe-se sem a menor cerimônia e toma o ouvinte para si. Como letra, esta é a música que deveria ser hit nas rádios de todo o país. Fala o óbvio sem ser comum, cita o trivial com deboche e inteligência, aproveita o momento mas não se condiciona a ele, é aplicável a uma série de coisas. E quando Carlos Lopes canta “Eu sou da geração perdida, que ainda pensava” sua língua ferina não atinge poucos, mas muitos. É assim que “Tá Tudo Mudando…Mas Nem Sempre Melhor”, terceiro cd do Mustang, começa a, lentamente, revigorar o rock brasileiro, musical e liricamente, em sentimento e atitude. Antes de tudo, é uma banda que não tem vergonha nenhuma de suas influências, que não tenta se impor como original porque sabe que isso não leva a nada. Não é parodiando o que é ruim, mas reinventando o que é bom, reunindo o que existe de melhor em cinqüenta anos de roquenrou que o Mustang consegue isso. Logo, o óbvio clima retrô que permeia o disco (principalmente na arte gráfica, passando por Beatles, Rolling Stones e Elvis Presley), além de um sem número de referências a ícones passados, no mais diversos campos possíveis, soa como um resgate e uma reflexão. “Febem”, por exemplo, é inexplicavelmente punk, blues, hard rock e rockabilly. Os riffs são dançantes, o baixo é vigoroso e participa ativamente das composições, um trabalho fenomenal de Wlad Vieira, além de todo o swing classudo de Américo Mortágua na bateria. Carlos Lopes capricha tanto nas bases e nos riffs como nos solos, sendo admirável em todos eles, o que é raro. A riqueza musical presente aqui impressiona. Nenhuma música é igual a outra. Nada cheira a requentado, reaproveitado, recortado e colado ou sem necessidade. Eles passeiam magistralmente por uma gama de influências que lembram John Coltrane, The Kinks, Jimi Hendrix, Grand Funk Railroad, Marvin Gaye, Jeff Beck, MC5, The Who, AC/DC e Santana até outros ícones do punk, funk e hard. Você tem que descobrir cada música por si só, apreciar o que cada uma lhe oferece. É por isso que não dá pra destacar “Janis Joplin”, “Cinco Contra Um” e “Inferno” sem falar de “Cueca e Meia” (genial), “Outro Lugar” e “Rock N Roll City”. “Tá Tudo Mudando…Mas Nem Sempre Pra Melhor” não é um álbum fácil de ser ouvido, não pela complexidade (embora não seja nada fácil reproduzir certas partes dele), mas pela diversidade intrincada que ele exala. Desconfio até que se fosse uns dez minutos mais curto vislumbraria a perfeição. O Mustang é uma banda para de descobrir. Um grupo que não se restringe a apenas um tema ou uma sonoridade, mas explora várias facetas do rock n’ roll. Não espere a grande mídia descobri-los, faça isso por você mesmo!

(Resenha publicada em 23/01, na coluna Rocktopia do jornal Diário do Pará)

André Nervoso quando esteve em Belém disse que aos onze anos viu um show da banda e chegou em casa gritando “mãe, eu quero ser igual o cara que vi hoje quando crescer!”. A mesma sensação que o Nervoso teve, eu também tive quando o vi vestido todo de vermelho, com o cabelo gigantes e desgrenhado e empunhando uma guitarra Flying V no palco tocando Kick Out The Jams, do MC5, e dando falsetes, se jogando no chão e correndo de um lado para o outro.
Insatisfeito, talvez, com o rumo que o rock esteja levando, Carlão Lopes agora traz um disco pesado que vai direto ao assunto: rock bom é com solo de guitarra, pesado, com falsetes e letras contestadoras. O CD traz um peso que poucas bandas novas pesadas, que eu gosto, se atrevem a fazer com personalidade. Não vem tentando ser a versão brasileira dos Hellacopters, do Mudhoney ou The Cramps. Ele vem com medidas reguladas de bandas como T-Rex, Grand Funk Railroad e MC5 injetadas na veia. As músicas trazem um protesto sim, mas sem discurso engajadão xarope. Geração Perdida, que abre o álbum, pode ser interpretada como uma mensagem boba e desnecessária com palavras como democracia, idealismo, constituição. Tem também outra faixa chamada Febem. Seriam músicas que eu talvez dispensasse uma audição. Mas se fosse de qualquer outra banda, não de um cara inteligente e viajandão como Carlos Lopes, com quem já tive a oportunidade de bater um bom papo em uma viagem de van do hotel onde estávamos ao show. Depois da apresentação comentei com ele “tu gostas muito de T-Rex, né? Pra mim Marc Bolan também é um ídolo.”, e ele disse “ah, então você é uma das pessoas que realmente sacou o meu show!”. Oxymoro trazia uma proposta (se é que se pode usar esse termo com um roqueirão maduro e dos bons) diferente, mais farofa, de Ta tudo mudando. Tem também umas tirações de sarro espetaculares, como Cueca e Meia, os presentes fatais dados por tias avós sem criatividade; a irônica Véu e Grinalda; a entregação de 5 contra ; e a faixa-homenagem Janis Joplin, que fala de quando a cantora veio ao Brasil e foi “esculachada” no Rio de Janeiro.
Mustang é uma banda que talvez entre no mesmo hall de bandas cultuadas … por representar o bom rock ‘n’ roll esperto e sem frescuras.

Texto de Valdir Antonelli

Rock, é rock mesmo, não importa o que vocês pensem. Tem que ter coragem e falar bobagem, daquelas bem fuleiras, de bar mesmo, e também ter culhão pra falar de amor sem se preocupar se vai parecer brega ou não. O Mustang faz isso. Rock com personalidade, seja pra comentar no bar ou fazer a mocinha do seu lado enrubescer de emoção. Tá Tudo Mudando… Mas Nem Sempre Pra Melhor é uma síntese do momento que o rock nacional passa. Tudo muda, as novas bandas procuram novas influências, mas nem sempre se dão bem. Por isso Carlos Lopes e seu Mustang apostam na manutenção de seu som, deixando as novidades para letras como a de Sexo Virtual, por sinal o primeiro single e com o vídeo para estrear na MTV.

O Mustang faz rock com pitadas de hard e guitarras beirando o som de bandas clássicas, mas tem um quê de punk rock, ao se apropriar dos famosos três acordes pra fazer seu som. Um som simples e direto, que bate no seu ouvido e gruda no seu cérebro. Só que a banda, com o tempo, foi se aprimorando. Sai aquele rock de garagem, propositadamente sujo e entram algo mais límpido. Retrocesso? Não, apenas um uso diferenciado de suas influências, fazendo o terceiro disco da banda chegar mais próximo do metal.

Com isso o Mustang faz seu melhor álbum, mais bem produzido, mais bem escrito e onde Carlos Lopes coloca melhor a voz. Foi preciso três, bons, discos para que o Mustang acertasse o passo e encontrasse o melhor caminho a seguir, nem que isso signifique tirar um pouco o peso das guitarras. Calma, o disco não é ´leve´. As guitarras continuam alguns bons decibéis acima do que o ouvido humano pode agüentar, mas elas foram mais bem colocadas, deixando claro que elas estão lá por um motivo: cadenciar o ritmo e mostrar que o Mustang é uma banda de rock. Riffs certeiros em Cinco Contra Um, Inferno, Cueca e Meia, só para ficarmos em três canções, mostram que dá pra fazer rock and roll sem abusar dos pedais de efeito.

Tá Tudo Mudando… Mas Nem Sempre é Pra Melhor é uma amostra de que o rock and roll nos mantém jovens. Basta ouvi-lo todos os dias, como um remédio sem hora marcada. Basta ouvir Sonhos, com seu clima Beatles e vários tchu tchururus que você vai entender.

Texto de Eduardo Abreu para site Rock Press

Há 20 anos, Carlos Lopes era uma das figuras centrais de outra cena musical. De parte integrante de um “movimento” que primava pela ruptura e pela inovação, ele se transformou num rocker com biografia no circuito independente e que, corajosamente, se reinventou longe do metal que ajudou a forjar. É com credenciais como essas que Lopes pilota seu Mustang, uma banda que, à base de referências dos 60’s e 70’s, tenta provar musicalmente que tudo está mudando, mas nem sempre pra melhor.

Essa crença numa idéia mais low-tech do mundo é manifestada nas críticas de costumes escritas por Lopes e sustentadas, principalmente, por uma espécie de classic (hard) rock. Parte das idéias vem apresentada em forma de humor cotidiano (“5 Contra 1”, “Meia e Cueca”), enquanto há momentos mais “sérios” que trazem embutida uma certa dose de melancolia.

O conceito do Mustang em Tá Tudo Mudando… atira em mais de uma direção também na escolha do repertório. A leitura particular de hard rock clássico tem preferência, mas também há espaço para material com boas pitadas de prog e até uma adocicada balada. Talvez por isso, o disco precise de algumas audições até fermentar e, no fim, revela-se melhor em partes do que no todo.

Mas os melhores momentos pedem atenção especial. “Despertar” é, possivelmente, a melhor canção escrita por Lopes nesse ponto de sua carreira. Trata-se de um pequeno épico com interpretação emotiva e entremeado por arranjos que lembram Frank Zappa (!). “Sonhos”, por sua vez, é uma balada nada piegas com um bonito solo de guitarra e backings bem arranjados. E “Outro Lugar”, que aparece em duas versões, também mostra destreza de composição e execução, especialmente na ‘Reprise’.

Seria interessante ver o que parte desse material poderia alcançar com uma maior exposição. Mas quem há de pensar que o Mustang, despretensioso e versátil, vá se preocupar com isso? Melhor assim.