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Operário do Rock

Por Carlos Eduardo Lima

Carlos Lopes, ex-Dorsal Atlântica, lança livro e batalha com sua banda Mustang

Foto: MICHAEL MENESES/DIVULGAÇÃO
TODOS OS LADOS - Carlos Lopes segue com o Mustang, mas também escreve
TODOS OS LADOS – Carlos Lopes segue com o Mustang, mas também escreve

A injustiça somente pode ser combatida com três ações: “o silêncio, a paciência e o tempo.” A frase do filósofo grego Sêneca, citada recentemente pelo senador José Sarney, é repetida pelo carioca Carlos Lopes para definir sua maneira de reagir aos detalhes do mundo globalizado. Não que isso signifique omissão, pois Lopes é um discreto, mas dedicado, empreendedor. Edita o site O Martelo, pilota as guitarras e as composições do Mustang, escreve livros (seu terceiro, O Segredo J, sobre teorias conspiratórias em geral, saiu em pequena tiragem independente e aguarda uma editora interessada) e ainda apresentou e produziu um programa sobre heavy metal na Rádio Venenosa FM.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 37 da Revista Rolling Stone, outubro/2009

Este texto é sobre a questão humana e técnica, durante uma gravação. O Santa Fé tem história a dar com o pau (no santo do pau oco?); é quase como escrever um livro sobre os bastidores do disco.

"Se eu pedir a Deus.." foto: Michael Meneses

"Se eu quiser pedir a Deus.." foto: Michael Meneses

Meu método de trabalho é pouco convencional. Gravo dois períodos (12 horas) todos os dias em um planejamento que envolve 2 semanas ininterruptas de trabalho (no mínimo), incluindo, se possível, os finais de semana, ou pelo menos o primeiro deles.  Não consigo interromper um trabalho, macular o andamento da obra, pode se perder o clima, a alma do disco, por isso é necessário um sério comprometimento. Pouquíssimos estúdios e pouquíssimos técnicos aceitam tal carga horária, mas tenho conseguido administrar essa situação no estúdio Staccato na Tijuca no Rio de Janeiro. Por isso gravamos nossos discos lá.

Gravo praticamente ao vivo nos 3 ou 4 primeiros dias, guitarra (incluindo dobras) e bateria. Depois incluímos o baixo em 2 períodos no dia seguinte e alguns acréscimos de guitarra e violão na sexta. Preciso dispor de tempo livre para que tudo isso funcione, pois me dedico integralmente à gravação, fora acumular as funções de músico e produtor.

Durante a gravação tivemos um pequeno problema, pois um dos técnicos estava em aberto conflito com o dono do estúdio, isso gerava um nível de tensão entre os dois e reclamações mútuas. Já estavam naquela fase na qual um fala e o outro não escuta.  Todos somos pessoas diferentes com sensibilidades diferenciadas e administrar essa situação não era impossível, mas gerava um certo “climão”.

Após meses de atraso, pois o estúdio estava sendo reformado, decidi que ou entrava de uma vez por todas, ou essa situação iria se prolongar, acarretando mais problemas, o maior deles retardar ainda mais o lançamento do CD. Pedi ao dono que nos deixasse começar em uma sexta às 10 da manhã. Ele alegou que faltavam 2 portas, eu disse “dou meu jeito”. Quando olhei para o interior do estúdio era só entulho, pó e ripas de madeira e não havia nada montado. Faltava terminar várias coisas e o vazamento entre as salas era um fato, que foi minimizado com carpete colado nas paredes e teto.

Com muita boa vontade, dois técnicos (um deles nem me conhecia) montaram todo o equipamento e nós varremos o chão, recolhemos o lixo e deixamos o estúdio pronto para ser utilizado. O dono não acreditava na ação daquela cambada de doidos. Negociei com os marceneiros e pedreiros para só fazer barulho quando não estivéssemos gravando. Foi engraçado pedir aos “operários” que fizessem ouvidos moucos ao dono para que o nosso trabalho não fosse prejudicado, mas era uma queda de braço constante e irritante, como quando o dono marcava algumas horas de gravação para outros clientes entre as minhas horas previamente marcadas.  É compreensível devido aos problemas financeiros da empresa, mas não é muito educado. Eu pedia para que não fizesse isso, mas assim mesmo quando chegava para gravar no dia seguinte (sendo que muitas vezes dormi no local pois não valia a pena sair e voltar em algumas horas) lá estavam duas horas marcadas no meio da nossa sessão de bateria, que não poderia ser interrompida pois não se podia mexer nos microfones. E o que aconteceu? As duas vezes nas quais foram marcadas horas durante nossas sessões, os clientes simplesmente não apareceram! O dono disse que eu tinha “proteção”.

Banda Mustang - Foto Michael Meneses

Banda Mustang - Foto Michael Meneses

Como disse anteriormente meu método de produção não é muito convencional, prefiro não usar metrônomo, gosto muito da interpretação diferenciada, mesmo que isso acarrete em alguns erros, que considero musicais e não falhas. Não acredito em erro, o que acontece é que, com os plug-ins ninguém quer soar desafinado, sair do andamento, todos têm medo de crítica, até parece que ninguém “erra”. E cá entre nós, nunca gostei de música de robô, 100% precisa. Vivemos em um mundo que idealiza e ilude, que acredita em exterioridades e não no coração.  Prefiro que nossa música seja registrada da maneira mais real e humana possível, o “erro” faz parte do pacote. Mesmo assim, o baterista Azambuja, que não estava acostumado a trabalhar com esse método, e necessariamente não concorda com meu ponto de vista “artístico”, ponderou e decidimos gravar com o metrônomo. Íamos checando os andamentos, se soavam adequados e o resultado soou bem humano. Ganhamos todos, enfim.

A bateria ficou com um som impressionante, mas as guitarras me decepcionaram, apesar de ter passado horas tirando o som. Essa é uma lição que é difícil explicar (e convencer) às bandas que produzo, que se tivermos que ficar uma semana para alcançar o som perfeito, isso não é atraso, é vitória. E que não é desperdício de dinheiro, é investimento. Reposicionamos os microfones perante os alto-falantes, e fomos delicadamente escutando um a um, timbrando–os separadamente, partindo do zero. Quando abrimos todos os canais e toquei um acorde aberto de sol, a sala toda tremeu. A guitarra soava de verdade, natural, sem excessos, como um violão encorpado, exatamente como se a guitarra do Angus Young estivesse sendo gravada para um dos eternos clássicos do AC/DC. E na Tijuca! Escrevi, talvez no texto anterior, que tenho horror de distorção. O som do pedal ou de um drive de um amplificador turbinado realmente não faz a minha cabeça. Sou a favor de guitarras cruas e sinceras.

O som do baixo foi timbrado para preencher as frequências disponíveis entre os timbres de bateria e guitarra. O procedimento básico é esse: se o som da caixa estiver na mesma região do médio da guitarra, um anula o outro e o trabalho vai por água abaixo. O baixo tem que se destacar sem brigar por espaço. Testando amplificadores diferentes e microfonações diversas alcançamos um resultado muito satisfatório. Tente imaginar o CD sem o baixo e verás que um não existe sem o outro, eles se completam e isso é ótimo para o bem da música.

As dobras de vozes foram todas criadas em casa e levadas escritas para o estúdio para serem testadas, na maior parte dos casos terças menores e maiores, mas foram usadas também quintas, sextas e oitavas, tudo para personalizar o babado. Beatles, nem precisava dizer,  é a inspiração constante.

E a maior surpresa: durante a mixagem, não usamos nada mais do que um compressor “humilde” para dar um ganho, não houve equalização. Talvez tenha sido a primeira vez nos álbuns do Mustang que não equalizamos alguns canais por causa de problemas com choques de freqüências.

Acima de tudo, o ideal é trabalhar dentro do seu próprio universo, desenvolver sua criatividade e personalidade sem medo. E creia, isso é bem difícil quando se interage em grupo, pois majoritariamente técnicos e músicos seguem um padrão pré-estabelecido do que é “certo” ou “errado” mas o pior certamente é o público, que se quiser, por medo, ignorância ou modismo, põe sete palmos de terra sobre qualquer trabalho que não seja compreensível para o ouvido médio e o gosto regular de muitos.

Esta é a Nova Comunidade Mustang

Posted segunda-feira, outubro 5th, 2009

Este é o novo site da banda de rock and roll Mustang.

A versão anterior hospedada no Geocities perdeu sua validade em outubro de 2009. A partir de agora, fora a nossa comunidade oficial no MySpace: http://www.myspace.com/mustangbandcombr e no Orkut, temos dois domínios nos quais toda a informação atualizada sobre a banda estará hospedada:

http://www.mustang.mus.br

http://www.mustangband.mus.br

http://www.omartelo.com/mustang

http://www.omartelo.com/mustangband.

Ao Vivo na Virada Cultural em 2009

Ao Vivo na Virada Cultural em 2009

Bastidores da Gravação do CD Santa Fé

Posted terça-feira, setembro 29th, 2009

It´s been a long time since rock and roll - foto de michael meneses

As influências musicais que geraram o Santa Fé são muitas. Beatles é um manancial eterno de idéias. Há bastante coisa nessa história: o punk 77 (The Jam, The Clash, Sex Pistols), soul music sessentista (“Eu Não Faço”) e rock brasileiro dos anos 70 e 80 no estilo Tim Maia e Secos e Molhados, incluindo os sempre presentes Mutantes da fase da Rita Lee.

As letras, criadas depois das melodias, encontraram o seu rumo no início de 2008, quando decidi escrever sobre amor e desilusão. Na verdade, era a única coisa sobre a qual consegui escrever, pois nada se revelou mais importante.  E afinal de contas, o que é mais importante do que amar? As letras sobre paixão, amor e dor, várias alegóricas e outras textuais, retratam uma fase da minha vida, basicamente entre 2006 e 2008, que me deixaram marcas muito profundas e me indicaram os passos a seguir nos dias de hoje. Fase, na qual muitas coisas deixaram de fazer sentido e outras que ressurgiram mais fortes de um período de trevas.

Um amigo me disse que a composição “Dk. Alhzeimer” lhe soava muito mórbida. Não sem razão, pois compus essa música para ter um clima angustiante que mesclasse algo do Álbum Branco dos Beatles, com o primeiro disco solo do John Lennon, que eu amo, misturado com a voz do baterista Keith Moon do The Who,como o Uncle Ernie. Então é claro, optei pela morbidez para passar uma mensagem, que nem tudo pode ser alegre pois a vida não é assim. Mas até mesmo na dor, encontrei humor. Mórbido, humorado e sarcástico.

As vozes foram gravadas em poucos takes, sem afiná-las posteriormente com plug-ins. Muitas das versões definitivas ocorreram entre o primeiro e o terceiro take. É um processo complicado porque no meu caso, durante os ensaios toco guitarra e canto e não me dedico a aprimorar a voz. Só canto mesmo, e solo, em casa. Houve uma sessão, a segunda, na qual não saiu nada. No dia seguinte, percebi que isso devia ser tensão, responsabilidade, preocupação como dinheiro voando e antes de entrar no estúdio,bebi um pouco com os dois técnicos de gravação, uma hora antes da sessão. Carreguei meus CDs de soul, Otis Redding, Sam & Dave e preparei o clima geral para a gravação. A faxineira do estúdio dançou ao som dos CDs e o clima liberou geral. Gravei as duas vozes de “Eu Não Faço”, a principal e segunda voz, de primeira. Mentalizei o Otis Redding com Elza Soares e mandei ver.

A banda que gravou o disco, Vinícius Dantas no baixo e Bráulio Azambuja na bateria entenderam a história e contribuíram de forma espetacular para o resultado final.

A guinada,que creio,houve entre os discos anteriores e o Santa Fé,é que desde o início da banda,pretendi que além dos elementos de classic rock tocados à nossa maneira, houvesse espaço para canções psicodélicas ou simplesmente canções com a cara e o jeito da década de 60, inclusive com influência do tropicalismo brasileiro. Creio que neste último trabalho consegui dosar todos esses elementos, ao somar baladas rock com soul music, canções e punk rock 77. E apesar da faixa “Esperança”, que considero a melhor linha melódica e harmônica que escrevi, ser mais rebuscada e ousada, ela convive bem com canções mais simples como “Guarda-Chuva” (cuja linha melódica inicial em Mi Maior foi inspirada em “Alegria Alegria” de Caetano Veloso) e “Sai Dessa Cruz”, ambas também calcadas no som mod dos Small Faces e do The Who.

ao vivo

Componho quase tudo no violão, e minha teoria é que se não funciona no acústico, não rola. As músicas e os arranjos dos Mutantes são complicados, mas os temas, as melodias são muito fortes, pegam e é isso que faz a diferença. Uma vez o guitarrista e produtor Robertinho de Recife me disse que o segredo de uma boa canção é a escala pentatônica na voz. Entendo o que ele quis dizer, mas eu fujo um pouco dessa máxima. Boa melodia nem sempre está ligada à simplicidade, mas, ele fez uma análise correta. Música é principalmente timbre, a escolha dos acordes, dos arranjos, que faz toda a diferença. Ouça a mesma música gravada por 3 artistas e as compare. O Santa Fé, mesmo que não pareça, é o mais brasileiro dos discos que já compus, no qual de fato toco MPR (música popular roqueira), a soma dessas várias vertentes. Uma das matrizes de inspiração é o afro-samba “Canto De Ossanha” (Vinícius De Moraes / Baden Powell) – que me arrrepia desde criança – com uma triste melodia que sentencia: “O homem que diz “dou” não dá porque quem dá mesmo não diz. O homem que diz “vou” não vai porque quando foi já não quis. O homem que diz “sou” não é, quem é mesmo é não sou tô, não tá…”

O rock and roll “10 Horas da Manhã” tinha um andamento bem diferente, mudei em cima da hora e ficou bem melhor, mais na praia dos Rolling Stones/ACDC. Passei a tocar o acorde com os dedos e não mais com a palheta. “Amor” foi a última música a ser composta e saiu de uma tacada só, tipo o último chute ao gol aos 47 minutos do segundo tempo. “Terceiriza a Culpa” foi a primeira a ser composta, toda feita no primeiro ensaio (mesmo) durante umas 2 ou 3 horas de levada de som, só eu e o baterista Bráulio Azambuja.

O timbre geral das guitarras nasceu do meu querido compressor da MXR dos anos 70, nenhum outro, o mesmo que usei em todo o disco. O som é penas um compressor e a guitarra, sem conversa. Foram 2 amplificadores utilizados: o JCM 800 da Marshall e um Fender True Reverb de 1972, ambos captados com 8 ou 9 microfones. A mixagem desses microfones todos é que fez o som final, 80% do que se ouve vem do Fender, uma revelação para mim, que sempre toquei com Marshalls. Toco ao vivo com outros compressores, mas sinto que o timbre velho, original só vem mesmo com esse pedal das antigas. O pedal fuzz Big Muff usado apenas no solo de “10 Horas da Manhã” proporcionou um timbre metálico, antigo e de violino, lindo. Pra constar: tenho horror de distorção. Testei o Big Muff novo, Tube Screamer novo e MXR novo, mas não curti, são bem diferentes dos originais. Usei corda 013 no estúdio, que desafina menos e tem um som mais encorpado, mas ao vivo não dá.

Mais e mais análises e confidências sobre o disco virão em outros capítulos.