Entrevistas

Posted quinta-feira, outubro 8th, 2009
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PONTOS DE INTERESSE: Conceitos sobre o primeiro CD, falta de afinidade com os Backyard Babies, preconceito da Rock Brigade sobre banda Usina Le Blond, 11 de Setembro, comentários sobre as 3 bandas

Primeira entrevista do Mustang para revista Valhalla (2002)

Em 1996, quando a banda Dorsal Atlântica voltou da Inglaterra após a gravação do álbum Straight, a relação entre os integrantes da banda não ia nada bem. Com o objetivo de se livrar do estresse vivido naquela época, você (Carlos Lopes – líder do Dorsal) procurou compor sem compromisso algumas músicas inspiradas em seus ídolos dos anos 60 e 70, que originaram no Mustang. Desta forma, podemos dizer que o Mustang é uma banda que surgiu por acidente ou mesmo sem pretensões, ou era um trabalho que você um dia pensava em fazer e que acabou por seu culminado naquela época ocasionalmente?

Bem, vamos dizer que o Mustang é uma manifestação do inconsciente que esperava pelo momento certo para aflorar, assim como a Usina le Blond, pois as duas bandas foram desenvolvidas simultaneamente. Assim que a Dorsal voltou da viagem em 96 eu estava feliz por ter gravado um disco tão forte como o Straight mas estava desencantado com meu irmão (que tive que substituir para essa viagem pois ele não poderia se ausentar do país), com os músicos no nível musical e pessoal, com a falta de apoio da gravadora, falhas na organização da nossa tour na Europa, falta de grana para continuar e também estava desestimulado com a cena como um todo pois me sentia musicalmente e ideologicamente deslocado. Conversas e reuniões não adiantavam nada, estava cercado de pessoas pequenas sob todos os aspectos, precisava me livrar daquilo, aquele lixo estava me matando. Era muita coisa junta. Não quis falar com ninguém da banda durante seis meses assim que voltei. Até o Straight ser editado em final de 96, compus muito sem pensar em banda (para ser muito sincero era a última coisa que eu gostaria de ver àquela época), apenas deixei fluir o que fosse natural e espontâneo. Cheguei a parar de tocar guitarra. Nem tirava do case, nem queria olhar para ela. Foi triste… Então um dia comecei a compor sem nenhuma pressão para me curar da dor. E aí aconteceu um milagre: a música, que tem um poder regenerador muito grande, foi capaz de me retirar da depressão e me indicar um novo caminho para resgatar minha sanidade de volta. Renovado, e somando a experiência que havia adqüirido em 20 anos, voltei a ser o Carlos de sempre, independente e criativo, mas em um outro nível, com a mesma impetuosidade da Dorsal mas só que em um outro espectro. Diferente na forma, idêntico na essência. Eu só queria ser feliz de novo. Mas meu racionalismo virginiano me disse que as dezenas de novas composições só poderiam se tornar parte concreta desse processo se fossem registradas. As músicas, que viriam a ser divididas entre as duas bandas, Usina e Mustang foram compostas simultaneamente. Dividi o repertório e escolhi o que servia para cada uma. Peguei o último centavo que tinha, me tranquei em estúdio e gravei as duas bandas, sem esperar, como sempre fiz na Dorsal, qualquer retorno que fosse além do pessoal. Era uma cartada definitiva.

Qual a formação original do Mustang, de onde vinham os outros músicos e qual a formação original e o motivo da saída dos membros anteriores e onde os mesmos se encontram?

Convidei os músicos da última formação da Dorsal para gravar o Mustang em 2000, após o término da tour do Straight que começara em 97. Mas desde esse ano estava amadurecendo na minha cabeça o desejo de parar com a Dorsal após duas décadas. Só faltava um sinal e esse veio através do Monsters of Rock em São Paulo quando tocamos lá em setembro de 98. Ninguém saiu da Dorsal fui eu que saí. E eu saindo, é claro, a banda acabou. Não queria começar tudo de novo com outros músicos porque a idéia não era mais essa. Os outros membros ficaram chocados, não por eu ter falado que estava fora mas sim pela perda do status de grande-banda e suas vantagens (puxa-saquismo, comida e bebida nos melhores hóteis, avião, fãs) porque grana nunca ganhamos mesmo mas aí ficou claro que eles não passavam de abutres que só queriam as vantagens e não o trabalho pesado.

O nome Mustang foi realmente inspirado no velho automóvel ou funcionou como uma palavra de duplo sentido? Qual o verdadeiro significado por trás do nome Mustang, se é que existe?

O nome tem sim um duplo sentido, melhor dizendo um triplo sentido. Mustang é um cavalo selvagem, arisco, veloz, cria da natureza em seu estado bruto; também é um carro, metálico, feito pela mão do homem, fruto da tecnologia e da cidade grande e Mustang também é uma guitarra: o instrumento que evoca em si toda a contestação e é o símbolo máximo do rock. Poder, transformação e eletricidade.

As músicas foram compostas em 1996, elas mudaram muito até a gravação do CD ou as versões encontradas no disco são exatamente como as originais?

A maior parte das músicas foi composta em 96 (e a partir de) sendo que o ensaio para a gravação do CD foi em setembro/outubro de 2001. As últimas músicas, compostas à época desse último ensaio foram Xena & Gabrielle, Bloody Barbecue Rock ‘n’ Roll, Melissa, Super Macho, Black Maria e Divine Spirit. Os arranjos das composições de 96 são idênticos aos registrados no CD: baseados na simplicidade e na retomada de uma musicalidade refinada e agressiva, nada podendo transgredir esse preceito básico.

Quais foram os motivos que fizeram o disco ser gravado somente em 2000 e ser lançado em 2002? Você não acreditava no potencial deste material?

Tudo tem o seu tempo, essa lição aprendi muito bem. Em 96 gravamos o Straight, a excursão desse álbum começou em 97, o Monsters veio em 98 juntamente com o lançamento do CD no exterior. O novo CD ao vivo e a biografia “Guerrilha!” da Dorsal Atlântica saíram em 99 e então senti que após duas décadas o serviço estava completo. O Monsters seria uma boa forma de sair de cena na boa e não poderia perder essa chance. Se você assistir o vídeo da nossa apresentação é fácil perceber como eu estava irado, colocando os diabos pra fora. Estava de saco cheio e aquela insatisfação saiu no momento certo, para cima de 30 mil pessoas e acabou sendo um grande show. A Dorsal era minha vida, minha família, uma gangue, uma sociedade iniciática. Partir para outros projetos significava matar a Dorsal para que eu pudesse renascer como uma fênix. Não dava para levar adiante outras coisas sem ter me desligado completamente da primeira paixão que tive, da primeira coisa que tanto amei. Não sou como muitas pessoas que não tem compromisso com nada, com as pessoas, com idéias. Não sei ser assim e nem quero.

O Mustang foi apresentado por você como uma “homenagem” as bandas dos anos 60 e 70 que o influenciaram e inspiraram ao longo de sua carreira. Confesso que no meu ponto de vista, quando as palavras “homenagem”, “tributo” são utilizadas para descrever uma banda, logo me vem a cabeça à associação a uma banda cover ou bem similar a sonoridade de outra(s) banda(s). Entretanto este não é o caso do Mustang, que mesmo sendo assumidamente uma “homenagem”, possui uma sonoridade única e de estilo próprio. Como você explica isso? Você tinha em mente fazer músicas em homenagem a outros artistas mas acabou criando algo totalmente novo e único. O objetivo da banda mudou quando você começou a trabalhar ou foi algo natural?

Os anos me ensinaram a ser quem eu sou, como eu sou e ter orgulho disso. Sucesso não se mede por quantidade de público ou disco vendido mas sim pelo fato de você conseguir que as pessoas te respeitem e que seu trabalho seja digno e bem feito. Aqueles que fazem as coisas para agradar os outros são uns infelizes. As músicas do Mustang vieram à tona com uma naturalidade impossível de se descrever agora. Cada uma delas foi feita com tanta sinceridade e amor que todos que ouvem o CD compreendem isso imediatamente, como telepatia. Não se descreve esse sentimento de conexão em palavras: talvez se pese em sementes de liberdade. Vivo, escrevo e ouço rock há tantos anos que me tornei parte dele e ele de mim, musicalmente e culturalmente, mas o canal que sempre me ligou ao rock foi principalmente o emocional e foi isso o que os grandes mestres me ensinaram. Coisa que não existe mais na maior parte da música atual. Existe uma atual simulação de emoção, uma coisa plástica, patética e planejada, sem substância.

Hoje em dia vivemos num mercado competitivo e de poucas oportunidades. Há tantas bandas procurando seu lugar ao sol, que muitos passam anos e anos tentando encontrar sua sonoridade própria e poder se diferenciar da grande massa. Alguns vão buscar influências dos mais variados e desconhecidos estilos musicais para criar sua personalidade e muitas vezes acabam se distanciando do objetivo inicial. Remando contra a maré veio o Mustang, que só buscou influências nas raízes do estilo, e o fez de forma assumida e sem compromisso, mas acabou por criar uma identidade própria e única. Como você explica isso e qual seu ponto de vista sobre o assunto?

Não há segredo: basta ser você. O problema é que muitos não conseguem (e na verdade nem querem) se libertar do papel de ovelha-seguidora-de-cartilha. É menos doloroso ser aceito e amado, sem fazer muito esforço. Lições e aulas não são objetos estáticos: são pontos de partida para que comecemos a raciocinar sozinhos, a caminhar com nossas próprias pernas. O rock morre quando perde sua característica principal que é traduzir o sentimento de liberdade, seja através da estética, da música ou da mística. Talvez o Mustang tenha sido bem sucedido porque não almejei nada, como compositor, a não ser expressar meus sentimentos mais profundos através de uma música-arte, dando profundidade e sentimento à música que mais amo, não me tornando rasteiro, óbvio e banal. O mal é que vivemos em fases, e tudo passa a ser vivido como um ciclo: se em uma época vivemos um momento inteligente, em outra fase vem a imbecilidade generalizada. Todos acreditam em quimeras e mentiras sem fazer muito esforço, agem igual, pensam igual e nem percebem que estão sendo influenciados. O mundo virou um grande e ridículo Big Brother onde só se procura exposição e não conteúdo, aparência e não substância, dividendos concretos e não realização espiritual.

Ainda sobre o mesmo assunto, muitas destas bandas que estão a procura de identidade buscando elementos de outros estilos musicais, tem mudado muito o direcionamento do Rock N Roll e até mesmo do Metal nos últimos anos. Muitas das bandas de Metal Melódico hoje soam mais como Musica Clássica do que propriamente de Heavy Metal. Muitas das bandas que se intitulam Rock N Roll mais parecem bandas de Hip Hop do que de Rock propriamente dito. Qual sua opinião sobre tudo isso? Você acha que as novas bandas de Metal/Rock N Roll já não fazem mais um som como antigamente?

Entendo perfeitamente o que você diz. O que acontece hoje não é culpa dessa geração exclusivamente: são ciclos como falei anteriormente. Se agora se valoriza coisas que não considero aceitáveis, ou eu me retiro da cena ou faço do meu jeito para dar uma opção a quem queira seguir um caminho semelhante. Na primeira metade dos anos 80, as bandas valorizavam uma identidade própria, um som próprio, apesar das influências, modas e tudo o mais. Hoje, com o rock já com mais de 50 anos, tudo passou a ser cartilha da obviedade. Se associa estética à música e isso embota toda a criatividade: punk tem moicano, metaleiro usa cabelo comprido etc. Quando tocamos metal com punk ao vivo pela primeira vez em São Paulo em 86 fomos execrados por uma boa parcela do público que nos chamou de “punks cabeludos” e que disseram que “cariocas deveriam parar de fazer rock e voltar para praia”. Só besteira, falta de visão e preconceito. A burrice sempre passa, é destruída pela verdade. Quando a burrice retorna é só lutar contra e esperar. O mal é que nessa afã de serem amados, aceitos e compreendidos, os músicos se tornam óbvios e escravos de toda uma estrutura alienante e mercantilista. Se o rock permanecesse o mesmo desde sua fundação já teria acabado há muito tempo, mas permanecer fechado em guetos de sub-estilos como metal melódico, punk melódico, new metal, metal tradicional só reforça o óbvio desses formatos carcomidos . O segredo da sobrevivência está no equilíbrio entre estudar as raízes e ousar para o futuro.

Sei que você é um músico que preserva as raízes culturais da música e do Rock N Roll e que se mostra inconformado com a situação atual do mercado fonográfico capitalista que assola o mundo. Porém, se o Mustang recebesse uma proposta de grandes proporções de uma grande gravadora de repercussão mundial, para adentrar a este mercado capitalista e fazer sucesso, qual seria sua postura? Você aceitaria mesmo que fosse para deixar para trás tudo que defendeu durante estes anos pensando que iria conseguir fazer muito dinheiro tocando a musica que gosta?

Você gostaria de ser remunerado fazendo o que você gosta? Pois é, eu também desde que na primeira cláusula desse contrato estivesse claro que eu não sofreria interferência ou pressão de qualquer espécie e que fosse estabelecido o meu direito inalienável à liberdade de expressão. E é lógico: que não me boicotassem!

Olhando para trás, quais os fatores que mais o magoaram durante a trajetória com o Dorsal Atlântica que o fazem ter uma atitude diferente agora com o Mustang?

A resposta à primeira pergunta já diz tudo. Apesar de ter experiência, e ter sido apresentado ao lado ruim da carreira, não perdi o idealismo e o entusiasmo. Isso é muito raro. Na prática isso me mostra que o caminho para atingir meus objetivos não tem que necessariamente passar pela sacanagem ou pela falta de escrúpulos. Era comum eu deixar de fazer o que era melhor para a banda por causa dos problemas pessoais dos músicos. Hoje eu não deixo de fazer nada. Imagine que o Mustang é uma criança recém-nascida. Se estou aqui para alimentá-la e se ela depende de mim, como vou deixá-la na mão de alguém que não dará de comer nos horários certos, sabendo que ela pode ficar doente porque essa pessoa está mais preocupada com sua própria satisfação pessoal do que a do grupo?

Alguns anos trás, o Rock N Roll era um estilo odiado pela mídia, era um estilo “esquerdista”, sinônimo de rebeldia e que remava contra tudo que era imposto pelo mercado. Hoje em dia, o Rock N Roll é um dos produtos mais lucrativos da grande mídia, que o explora ao máximo. No seu ponto de vista, quando o Rock N Roll deixou de ser Rock N Roll (em termos de atitude) para se tornar mais um grande produto da mídia capitalista?

O mundo mudou muito nos últimos trinta anos e vai mudar muito mais. Se não me engano, o único cachê pago a um artista no Monterey Pop Festival foi para o Ravi Shankar que recebeu três mil dólares porque vinha da Índia; alguns anos depois em Woodstock, Hendrix ganhou dezoito mil dólares por sua apresentação. No Rock In Rio o Guns levou um milhão de dólares. Os anos passam, a valorização do artista aumenta e consecutivamente o valor do cachê. É errado ganhar tanto? Não, se há alguém que esteja disposto a pagar tal quantia. É um jogo de oferta e procura, simples assim. Os Sex Pistols souberam brincar com tudo isso, como ninguém, explorando e debochando desse mundo do espetáculo. Veja o nome de sua tournê de alguns anos atrás: “Lucro Sujo”. Brincaram, brincaram mas acabaram levando a deles quando tiveram a oportunidade. Cresci acreditando que o rock é a trilha-sonora de uma sociedade contestatória/contestadora, que luta pela liberdade, acredito que a música é a plataforma de idéias novas e revolucionárias, para a transformação da sociedade. Esse conceito não me abandonou até hoje e certamente não o fará.

Sabemos que o público, mesmo que inconscientemente, acaba sendo influenciado pela mídia do que deve ou não consumir. Em alguns anos atrás esta situação era oposta, já que não havia uma abordagem do Rock/Metal na mídia e conseqüentemente o público escolhia o que queria consumir ou não, o que naturalmente acabava por beneficiar as bandas que realmente possuem mais qualidades. Qual sua opinião sobre isso, você acha que o público também possui sua parcela de culpa na atual situação do mercado? Quando e como isso acabou por acontecer em sua opinião?

Como te disse o mundo mudou. Certos valores são desprezados atualmente porque na verdade ninguém os apresentou às novas gerações. Não foi dada a essas pessoas o direito de escolha e assim eles permanecem na ignorância. E não adianta falar que o acesso à cultura e à informação é restrito porque existem bibliotecas em todo o mundo e basta se dedicar à elas: leia, se informe, pense, questione, julgue por você mesmo. Seja responsável por suas ações e atitudes.

A gravação do CD Rock N Roll Junk Food foi feita ao vivo através de uma mesa de quatro canais onde apenas três foram usados. Esta gravação supostamente “precária” foi intencional ou acidental? A gravação acabou por dar uma dimensão diferenciada ao trabalho que se produzido com recursos de alta tecnologia não seria possível, você concorda?

Na verdade, a demo de 2000 foi gravada com “três” canais. O novo CD foi gravado com quase dezesseis canais mas no final das contas o processo acabou sendo o mesmo porque não alteramos nada do que foi gravado. Microfonamos, tiramos o som e mandamos ver, sem retoques, tocando ao vivo mesmo, para preservar a pureza da mensagem, a crueza da verdade. O técnico bem que tentou nos convencer a usar o pro-tools para maquiar e melhorar o som das peças mas fui terminantemente contra. Quem quiser entender que entenda. Quem gosta de mascarar a vida deve gostar também de música artificialmente alterada para um melhor rendimento. Mundo de plástico, valores de plástico.

A música Xena & Gabrielle foi inspirada no seriado Xena – A Princesa Guerreira, assim como The X Files foi inspirada no seriado de mesmo nome. Com surgiu a idéia de homenagear estes seriados? Seria o Mustang uma banda de homenagens não somente em termos de músicas, mas também de letras?

Eu acompanho seriados de TV desde muito pequeno. Comecei com Vigilante Rodoviário, Perdidos no Espaço, National Kid, Flash Gordon, Bat Masterson, Túnel do Tempo até chegar aos de hoje. Personagens como a Xena e o Mulder me estimulam a ser como sou. Me sinto um pouco como eles, guerreiros que não desejam ser contaminados pelo mal do mundo. Já escrevi uma nova música chamada Gilmore Girls em homenagem ao seriado que passa no SBT no domingo de manhã (não sei até quando…) cujo nome em português é “Tal Mãe Tal Filha”. Uma idéia era gravar um Mustang só com músicas que se referissem a seriados mas acho que aí já é ser muito radical… É… Tenho essa tendência, assumo.

As letras que escrevo retratam o mundo à minha volta como pequenas crônicas e nada mais natural do que falar sobre os amores acabados, as brigas, as alegrias e claro: sobre os seriados que são uma constante na minha vida há mais de trinta anos. Também gosto muito quando a Globo (não a TV brasileira, com raríssimas exceções, que não investe em arte dramática de qualidade) acerta com suas minisséries como Agosto, Anos Rebeldes, Anos Dourados, O Auto da Compadecida, Os Maias etc. Gosto muito de roteiro e direção: são artes fascinantes.

Alguns títulos de músicas como Black Maria e Super Macho, nos fazem querer saber mais sobre o conteúdo de suas letras, por favor, fale-nos mais sobre elas.

Black Maria é uma fantasia sobre uma musa negra que se veste à moda dos anos sessenta com cabelo bolo de noiva, minissaia, salto alto, cílios postiço e roupa de plástico. Ë uma personagem que se existisse seria fascinante. Que tal instituir um concurso público para encontrar uma Black Maria para fazermos um clip? Super Macho se refere à uma convencional situação familiar em que o marido tem amantes na rua e trata a esposa em casa como lixo, a estuprando diariamente. A letra incentiva as mulheres a resgatarem a dignidade, deixando para trás uma relação danosa a ambos.

Vocês gravaram o álbum na mesma época dos atentados de 11 de setembro nos EUA. O resultado dessa coincidência acabou sendo refletido na música Bloody Barbecue Rock N’Roll, que começa com o hino americano e é emendado com aquele jingle popular: “Quero ver você não chorar, não olhar pra trás, nem se arrepender do que faz…” Qual foi o objetivo com isso? Talvez uma forma de mostrar que os EUA foram os únicos responsáveis para que os incidentes ocorressem? Toda a música (letra) foi inspirada neste incidente?

Essa música tem diversas histórias e facetas curiosas. Essa junção das duas melodias realmente é uma crítica à paranóia, à corrida armamentista, ao Fundo Monetário Internacional, aos especuladores financeiros. Para falar a verdade os Estados Unidos não são os únicos culpados, a humanidade vem dando demonstrações de ignorância há anos, veja os últimos quinhentos anos, vejam como foi feita a colonização espanhola na América latina, lembre da escravidão. Há muito tempo maquiamos a realidade: nos consideramos muita coisa mas não somos mais do que o ar, a água, a terra e o espírito. O mundo material é o reflexo distorcido de um mundo espiritual e não o contrário. Primeiro deveríamos nos aprimorar espiritualmente sem dogmas e sem mais regras preconceituosas: deveríamos ser educados desde cedo pela consciência. O problema dessa provável guerra contra o Iraque é um problema antigo, bem antigo. O Iraque recebeu ajuda militar norte-americana e inclusive vírus de laboratório quando eram considerados aliados. E agora que são os inimigos, o que se faz? Mata? Quem veio antes: o ovo ou galinha? Quem começou a guerra? Os árabes ou Israel? Por quê não fundam o Estado palestino? Por que a África continua com suas guerras de etnias sem intervenção externa? Por que negro não é gente? Por quê? A letra de Bloody Barbecue fala de um massacre no Oriente-médio: um “banho de sangue regado à rock norte-americano”, mas também faz paralelos com a sede humana por sangue, como um belo bife mal-passado na mesa todos os dias enquanto a família, toda reunida, assiste a um massacre à cores pela TV, sem esboçar qualquer reação. “Como está o seu bife? ” Se você ouvir a versão em português dessa música vai poder reparar que no final eu falo: “E o Afeganistão Sabe Disso!” Está quase inaudível porque o baterista que gravou o CD me pediu muito para mixar essa “mensagem” baixa porque ele alegou que iríamos sofrer represálias. Pode? Uma boa leitura para se entender o 11 de setembro e o momento atual é exatamente ler o livro “11 de setembro” de Noam Chomsky que foi editado no Brasil pela Bertrand. Noam é um famoso pensador de esquerda norte-americano e que tem muito o que ensinar e alertar.

Rock N’ Roll Junk Food foi lançado em três formatos diferentes: CD (com faixas bônus das mesmas músicas em português) – LP Vermelho todo em Português – Picture Disk em Inglês. A partir disso há duas questões distintas: As musicas do Mustang foram originalmente compostas em inglês ou português? Você considera a versão oficial do álbum em Vinil ou CD, já que o objetivo é resgatar a atmosfera de “velharia”?

De trezentas formas. Tem música que “acontece” em inglês, em português ou em “nadês”: só grunhidos, uma letra indecifrável, apenas para a métrica. De todas as três versões do Rock ‘n’ Roll Junkfood gosto mais do LP vermelho porque fiz uma re-equalização mais radical, deixando o som mais aberto e estridente, o que dá essa sonoridade mais antiga ainda do que os outros, se isso for possível. Agora friso: não quero só “resgatar” um som antigo, uma atmosfera passada. Quero mostrar que essa sonoridade é relevante ainda hoje, que outras mídias são relevantes até hoje e que não devemos embotar nossos sentidos com sons cristalinos e super “bem” gravados apenas descriminando outros por uma questão de “estática” (é trocadilho mesmo). Nem tudo o que reluz é ouro. A idéia traz um simbolismo de libertação, além da música. Está implícito nos lançamentos. É uma passagem para viajar – Ticket To Ride.

Para os shows você toca as músicas em inglês ou português?

O que me der na idéia na hora: uma língua, a outra ou as duas ao mesmo tempo. Pode até ser em “esquecidez”. Nunca faço planos. Pode estar escrito no set-list: música 1,2 e 3 e eu decido tocar 4, 5 e 6. Para tocar comigo tem que ter “a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranqüilo” senão o cara fica doido e perde a linha.

Você costuma dizer que suas três bandas – Dorsal Atlântica, Mustang e Usina Le Blond – têm o mesmo significado para você e representam a mesma coisa. Sabendo que cada uma delas possui sua própria identidade em termos de sonoridade e todas bem distintas, qual o ponto em comum que podemos encontrar entre as três, com exceção do líder e idealizador ser o mesmo?

A busca por uma arte que liberte, que não aprisione mais, que não minta, que não iluda. Música é meu veículo para um mundo perfeito, consciente e aberto a toda sintonia espiritual. Podem chamar do que quiserem, de utopia, de idealismo, mas esse sou eu, e eu sou o que acredito. Transformo a realidade ao meu redor. O mundo é um retrato do que tua própria visão estipula: se você vê o universo negro assim ele será. Para mim o céu está sempre azul. Se alguém na banda não se adapta a essa conduta ele sempre entra em conflito interno, pira, arruma um problema e acaba sendo saído. Eu e o baterista Américo temos uma piada interna que diz: “Confia Nele.” Um vizinho crente do baterista acha que ele está se referindo ao “cramulhão”, mas estamos falando dele mesmo: de Deus, de uma sabedoria e uma inteligência superior e não-humana que nos guia, e protege nossa arte e nossa música.

Durante alguns shows de sua outra banda – Usina Le Blond – você vem tocando algumas músicas do Mustang. Você acha que o mesmo público que consome o Usina Le Blond pode se interessar pelo Mustang e vice e versa? O mesmo é valido se o Dorsal Atlântica for colocado neste circulo? Você acha que seus fãs do Dorsal podem gostar de ambas?

Como te falei, não me preocupo com isso: faço o que meu coração manda. Se o sentimento reinante no meio do espetáculo convier, se o “crima” for agradável a gente “fazemos”. Quando você assistir o show, ninguém vai precisar te provar que essa aparente mistura inusitada é muito mais coesa do que parece. Já fizemos muito Mustang acústico e fica alucinante. Canção boa para mim é aquela que funciona no violão, se não nada feito. A energia dessas canções não está no volume ou na “acustibilidade” da mesma (de onde eu tirei essa palavra?), fazer isso é limitar o campo de ação delas. Elas são poderosas por si mesmas e podem ficar onde quiserem ficar. Música é como filho: você cria para colocar no mundo. A Usina é muito diversa, musicalmente falando, apesar da propensão da banda por harmonias mais complexas e sons mais suingados. Mas reflita: se Soul quer dizer música da alma, então sendo assim tudo é soul e se tudo é soul, o Mustang é soul também. Silogismo? Quem me entende artísticamente, ou quem me admira de alguma forma, deve dar uma chance às bandas. Sei que é difícil para um metaleiro radical gostar da Usina mas eu não peço isso a ninguém. Só aconselho essa viagem a quem estiver com as malas prontas.

Em julho desse ano vocês fizeram o primeiro show em São Paulo com o Mustang na abertura para os suecos do Backyard Babies, entretanto, segundo consta, uma infinidade de problemas aconteceram, inclusive alguns devido as atitudes “posers” da referida banda sueca. Os problemas foram tão marcantes que deste show vocês escreveram três letras para três novas músicas – “Botox”, “Tudo Pelo Dinheiro” e “Cheiro De Mijo Guardado”. Nos fale mais destes problemas e quais os incidentes que originaram as novas letras, em especial a ultima – “Cheiro De Mijo Guardado” – que de longe parece narrar uma história nada comum.

O produtor do show, o Cesinha da HighLight foi um cara super-correto conosco. O que acontece é que ninguém vai assistir banda gringa para ver a abertura e acho que toda banda de abertura sabe disso. Então a gente se coloca no nosso lugar, sem estrelismos. Sei qual é o meu lugar, dependendo da situação. Estamos começando de novo, essa é a nova regra do jogo. Mesmo com a Dorsal, já famosa, tocamos em situações mais desconfortáveis, então uma coisa necessariamente não tem nada a ver com a outra. O som estava fraco apesar de termos passamos um pouquinho o som antes, mas não pudemos levar nosso roadie e nosso técnico de som por falta de grana mesmo, o que já nos deixou a descoberto. Então quando o som começou eu vi que estava tétrico tanto o P.A como o palco, apesar de eu estar tocando com um cabeçote e uma caixa excelentes mas sem alguém do lado de fora na produção dando um suporte. Um amigo, que viu o show, me falou depois que aprendeu muito com minha atitude profissional porque apesar do som ruim eu dei um puta show como se nada estivesse acontecendo. Falei: “É… Mas é difícil”. Depois de termos tocado, voltamos pro camarim e tinha um roadie do Backyard que nem sorriu pra gente, nem quando o cumprimentamos. Só que o roadie era mais poser do que toda a banda somada, o cara nem ria, só pedia mais e mais coisas ao produtor. Quando entramos no camarim para nos trocar, esse mesmo roadie veio atrás da gente, entrou, sem pedir licença e sem bater na porta e me perguntou se eu tinha haxixe pra dar pro Backyard. Eu disse que não usava drogas e ele se foi sem falar nada mas acho que deu para ler , durante alguns milésimos de segundo no seu rosto de pedra-sueco, que ele deve ter raciocinado que para eu pular daquele jeito no palco eu devia ter tomado algo… Depois fui descobrir que o cara tinha sido guitarrista do Hellacopters. É mole? Se os outros caras do Hellacopters forem assim… Subi para ver os outros shows e adivinha: o som só ficou bom no Backyard. Aí não é novidade… Tá, conta outra. Eu tinha bebido muita água e ‘tava apertadão mas a fila do banheiro gigantesca me desistimulou a esperar. Não deu outra. Fui pro camarim e urinei dentro da lata do lixo, daí “Cheiro De Mijo Guardado”. Imaginem então…

Vocês já poderia adiantar alguma coisa sobre um futuro e próximo trabalho do Mustang?

Já temos umas novas quinze composições prontinhas. Se eu te prometer que será melhor do que o primeiro você vai confiar em mim ou vai achar que é promessa de político? Mas pára de precipitação: temos muitos shows para fazer em 2003 divulgando o Rock ‘n’ Roll Junkfood que nem começou a colocar as manguinhas de fora e vocês já tão querendo coroar o sucessor? Qualé? Quer depor o rei logo de manhã?

O que você espera daqui pra frente em relação ao Mustang que ainda não tenha conseguido com o Dorsal ou o Usina?

Só peço a Deus que me dê a oportunidade de ser como sou, de nunca desestimular, que me dê criatividade infinitiva, energia para continuar lutando, saúde, respeito do público, dinheiro para pagar as contas e paz de espírito.

Há um tempo atrás, você foi tachado pelo público headbanger como traidor ao anunciar o nascimento do Usina Le Blond. Você ainda se sente chateado com o público Metal devido a isso? Você acha que finalmente o público Metal entendeu os objetivos do projeto?

O público nesse sentido foi o menor dos males. Nunca traí meus princípios e é isso o que me importa. Muitas vezes se ouve “falar” e critica-se antes mesmo de se investigar: isso é ruim mas é uma faceta humana, é compreensível. O maior problema ocorreu com a Rock Brigade que agiu como uma revista de fofoca. estampando uma nota injuriosa que me acusou de ter mudado de estilo para ganhar dinheiro com o “profícuo mercado do funk carioca”! Nem pensavam que eu estava é perdendo o pouco dinheiro que ganhava começando uma carreira do zero, pois eu trabalho com música, e aos olhos de um materialista eu estava cometendo uma insanidade, ao trocar o certo pelo duvidoso. E nem tinham ouvido o CD da Usina antes de escrever essa merda. Bastaria ouvi-lo, apenas isso para saberem do que se tratava mas o maldito preconceito sempre dá as caras. Podiam ter me ligado, me perguntado, mas se deixaram levar pelas fofocas, se esquecendo de que são a maior revista de metal do país e que as pessoas não costumam questionar o que eles escrevem. Nem quis saber de errata ou direito de resposta porque uma vez, na mesma revista, denunciei um produtor de shows da Bahia, que não nos pagou o cachê adiantado como estabelecido e não fomos tocar. O cara não nos telefonou momento algum para avisar que ele já sabia há tempos que não haveria dinheiro para nos pagar. Nos enrolou até o dia de embarcar, e essa é a verdade, mas sabe o que aconteceu? Ele exigiu direito de resposta! Pois é… Se um cara desses diz que fala a verdade, quem vai acreditar em quem?

De certa forma, me sinto parte da construção daquela revista. Calúnia é mais rápida do que a verdade e seu rastro é difícil de ser apagado. Esse estrago não pôde ser remediado, o mal já havia sido feito, mas eu soube esperar. Através do Mustang ou da Usina, mais do que nunca, mantenho a chama do inconformismo, minha maior característica sempre.

Para finalizar, gostaria que você definisse com uma frase o conceito, objetivo e o sentimento dentro de seu coração em relação as suas três bandas:

Dorsal Atlântica – A Dorsal pode ser simbolizada como a Terra: a mãe-primordial, o fundamento.

Usina Le Blond – A Usina é a mistura do Ar e da Água: as idéias, a mente elevada, o sentimento sempre lá em cima.

Mustang – Mustang é como o Fogo: paixão que queima, é a chama que se alastra em uma explosão.

PONTOS DE INTERESSE: comentários sobre segundo CD, dedicação à arte, Rosana Star

ENTREVISTA SOBRE O CD OXYMORO PARA REVISTA DYNAMITE POR MÁRCIO BARALDI

Nos anos 80 você foi um musico de vanguarda, pois foi um dos primeirissimos a fazer metal no Brasil,e agora você prefere fazer um som voltado para os anos 70. Por que essa mudança de direção? Ser vanguarda significou ou significa algo para você?

Hoje sou mais vanguarda do que já fui. Pense no que é abrir mão de uma carreira estabelecida para mergulhar no underground da música… Fazer um som que nenhum dos fãs que foram arregimentados durante décadas possa te entender… O Mustang, antes de tudo, não é uma banda dos 70, mas sim, e com orgulho, uma banda do século XXI. Se o que toco hoje “parece” ou é inspirado por uma estética “antiga”, é porque concluí que quase nada desse mundo atual me estimula, alimenta o coração ou me tem valor. Disse um não a tanta bobagem, futilidade, para me ofertar o direito de ser livre e autônomo. Das composições, até a arte tudo no Mustang é desapegado da estética dominante, onde tudo é livre trazendo mágicas mensagens subliminares. A contracapa do CD é invertida, o que causa uma certa estranheza, por exemplo… Dá um certo desconforto, que é um ato bastante artístico, além do fato do CD “brincar” com as mãos do ouvinte, antecipando o “desconforto” musical. Mãos, olhos, ouvidos, estômago…

No Mustang você mistura Che Guevara com psicodelismo, MC-5 com Mutantes, enfim, você parece estar mais livre que nunca para misturar e criar. O Mustang seria o ápice de sua liberdade criativa?

O Mustang e a Usina Le Blond, minhas duas bandas, surgiram em 2000, mais como “passatempos” para me livrar de estresses e cobranças, do que necessariamente para ser um projeto pensado e refletido. Com o desenvolvimento de ambas, acabaram tornando-se os “remédios” para a minha saúde mental, espiritual e musical. Havia estabelecido alguns parâmetros de início, tipo “essa banda é para isso” e “a outra é para aquilo”, mas conforme essa liberdade que você citou foi se tornando mais consistente, essas barreiras foram caindo, e posso te dizer que algumas músicas do Mustang já pertenceram a Usina Le Blond, e vice versa. Os limites foram ultrapassados. Não todos, mas importantes limites.

No encarte pode-se detectar parte dessas referências, através das fotos das bandas brasileiras Mutantes e Secos & Molhados. O Secos foi a primeira banda brasileira que gostei. A foto do encarte é de um álbum de figurinhas da época, que consegui completar. Uma banda com uma “lombriga” andrógina tocando fado em plena Ditadura era o máximo, não é ???? Os Mutantes é uma banda que aprendi a amar com o tempo, pois tinha uma má impressão deles porque um amigo do colégio adorava fumar e cheirar ouvindo Mutantes, Milton Nascimento, Lô Borges e Beto Guedes. O Che Guevara, que aparece na contracapa, tá com a boca pintada de batom, a favor da causa gay. Quem melhor poderia transmitir uma mensagem de tolerância, do que aquele que “não perde a ternura jamais”?

Há… Mutantes, Molhados, MC5 e Mustang possuem a letra M…

O clima de psicodelia é proposital? O que você quer trazer com este tipo de visual e imagens?

Em “Fim de Semana”, por exemplo, elementos psicodélicos e de rock progressivo se casaram de forma harmoniosa.

“Contato” é uma canção escrita com “quinhentos” acordes, muitos deles de efeito, para gerar uma sensação “espacial” no ouvinte. Além disso utilizei sem medo de ser feliz “cromatismos” deslizantes, e modulações inusitadas. A experiência psicodélica não deveria ser absorvida apenas sob efeito de drogas. Uma alternativa é deixar-se envolver pela música, pelos timbres, cores, acordes, manifestações das escalas cromáticas. O cérebro pode ser aviltado por imagens, símbolos, áudio e cores fortes. A banda só traja vermelho por causa das conotações dessa cor de sangue, raça e vida. A experiência pode ser vivida intensamente, plena, total, visual e auditiva sem necessidade de drogas ou bebida.

Na música “Cheiro de Mijo Guardado” você diz que o Rock n Roll brasileiro virou um “saco de gatos”. Comente um pouco a cena do rock atual. Há uma luz no fim desse túnel, ou desse saco?

Gostei da analogia sobre a analogia… “Cheiro de Mijo Guardado” fala especificamente sobre o show de abertura para o Backyard Babies em SP e sobre o que aconteceu naquele momento. Daí parti para uma analogia com o resto, ou seja o público, as modas, as tendências, as várias “verdades”, fui viajando em cima do conceito original. Tivemos alguns problemas nessa apresentação, pequenos diga-se de passagem, mas significativos para que me inspirasse para escrever uma letra. Depois do show, eu estava apertado mas quando vi a fila para o banheiro, desisti, ”Vou mijar na calça desse jeito”, pensei. Para me aliviar, voltei para o nosso camarim e mijei na lata de lixo. Subiu aquele vapor, sabe como é… e não tinha janela. Nossa empresária entrou logo depois e falou: “Que Cheiro de Mijo Guardado!” Sobre a cena de rock, que cada um tenha o direito de achar e acreditar no que quiser, desde que me deixem no meu canto, apenas observando e fazendo anotações para mais canções.

Você evoluiu muito como cantor e agora canta em português nessa sua nova fase. Vc agora está mais interessado no mercado interno que no internacional?

Não penso em carreira internacional. As coisas vão acontecendo. As letras do Mustang soavam melhor em português, apenas isso, além disso eu escrevo para que me entendam, para que absorvam melhor a crítica, a piada, o ridículo “da coisa” e mesmo que achem o contrário, português é a nossa língua. As bandas Mustang e Usina surgiram de um processo alquímico de libertação, nunca pensei sobre quem sou, ou era, ou de que banda vim. O importante foi se reconstruir, crescer a partir do quase nada, moldar experiências, gerar vida, o novo, e nesses quesitos tudo tem saído muito bem, porque como te falei faço tudo pelo amor, a música, a vida, a verdade. O nome Oxymoro é uma conjunção de duas palavras, gerando uma expressão aparentemente antagônica, filho do sarcasmo puro. Viver “oxymorosamente” é viver a vida em plenitude. O título diz muito sobre o disco, sobre meu lastro filosófico. Durante uma entrevista que fiz com o guitarrista Wayne Kramer do MC5 (com quem vamos tocar em Novembro de 2004), ele usou o termo OXYMORO para simbolizar uma idéia, que insistentemente repetida reforça um conceito aparentemente dúbio e antagônico. Como a entrevista foi feita na época da gravação achei que o nome OXYMORO reforçava meu idealismo e meus próprios conceitos.

Você tambem agora parece estar mais desencanado, cantando sobre coisas mais triviais , como a falta de grana e o amor. Esses temas refletem seu atual estado de espírito? É dificil cantar sobre o amor sem parecer brega , não?

Falo de tudo nesse trabalho, sobre vida extraterrestre, hipocrisia religiosa, mas principalmente sobre amores. E o que é mais importante do que o amor? Não me refiro apenas a sexo, mas a toda fora de amor em sua forma mais plena. Escolhi o amor como tema principal do OXYMORO porque é esse sentimento que me dá força para continuar e me manter vivo. Hoje sou o somatório de tudo o que vi, vivi e presenciei. O passado passou, o presente é, e o futuro será o que fizermos dele hoje. Amor, amor, amor. Pelo menos dez composições têm o amor como tema principal, cantando sobre as alegrias, dores, encontros e desencontros de toda relação. Vivo hoje em um outro estágio profissional e particular da vida, e minha música é reflexo disso. Não sou a mesma pessoa, e nem quero ser. “Sem Mulher Sem Dinheiro” faz piada da triste vida de ser mais um duro. A intro com o ruído de um vinil velho me faz rir toda hora que escuto… Esse som “arranhado” tem milhares de “leituras subliminares” possíveis.

Considero “Muito Além”, “Rosana Está ?”e “Eu te Amo” três dos seus melhores momentos como compositor. Elas também são as suas preferidas do disco?

Divido as composições entre as que começaram com as letras e as que surgiram pela música. Te digo isso, porque, de certa forma, esse detalhe influi em meu julgamento. A inspiração das letras vem da observação cotidiana e a música pode levar meses para ser feita ou apenas alguns minutos. Amo todas as composições impreterivelmente, não se consegue escolher um filho favorito, todos doeram para sair, mas tenho um carinho muito especial por “Fim de Semana” e “Amor Pansexual”, que me exigiram bem mais como compositor. Sobre as que você citou, “Muito Além” diz: “Pare de me olhar assim / Se desapega do passado / Uma outra parte de mim / Está livre para o bem e para o mal”. É uma filosofia de vida, que permeia o disco, na íntegra. “Rosana Está?” fala sobre um travesti, ex-paquito da Xuxa, e automaticamente sobre preconceito. “Eu Te Amo” me diz muito também, porque pela primeira vez na vida consegui cantar uma frase tão curta, simples, significativa e amorosa.

E o clipe de “Rosana Está?”, como está(rs)?

Por enquanto ainda reside na prancheta. A vontade de fazer o clipe é grande, mas ainda não chegou a hora desse filho nascer. Temos dois clipes ao vivo gravados em Goiânia, que podem ser vistos em algumas emissoras. Basta pedir.

Que evolução você acha que houve entre o CD de estréia do Mustang e esse “Oxymoro”? O Mustang já achou sua identidade musical e ideológica?

O primeiro CD, de alguma forma, era mais ligado ao eu antigo. No Oxymoro a vontade de ousar foi maior, a loucura também e eu apenas segui meus instintos, uma das poucas coisas completamente confiáveis de Carlos Para Carlos. Quando me dei conta, a temática do CD era praticamente homossexual, seja combatendo a favor, seja tirando sarro, seja respeitando, e isso não aconteceu de forma planejada. É dessa maneira que sei fazer as coisas: deixando que a inspiração tome conta no momento certo. Se o Mustang vai rezar para sempre pela cartilha do rock and roll nesse formato atual, nem eu sei… Não assumo certos compromissos, só me comprometo com uma arte livre. Sempre digo que se o ouvinte, ou o leitor admira o meu trabalho, seja como desenhista, escritor, artista, músico, ele impreterivelmente estará comigo para o que der e vier.

Pra encerrar, li um comentario seu de que hoje você faz as coisas movido por amor. E antes ,você era movido a quê (rs)?

Quando falo em amor hoje, me refiro a amar a vida. Antes amava meu som, os discos que eu gravava, os amigos. Focar o objetivo, a meta, decidir qual era a verdadeira prioridade era um tanto confuso. Caía tudo dentro da rede e no final não sobrava peixe nenhum… Hoie amo a vida, amo ser quem sou, fazer o que faço, mas priorizo primeiro a felicidade espiritual, o desapego em relação as coisas do mundo. Posso garantir, que tudo flui melhor hoje porque decidi ser feliz, de fato. Abri mão de falsas seguranças para me jogar no precipício da paixão. E que mal o amor pode trazer? Se o poeta não disse, digo eu: “Se me é permitido, morro de amor.”

PONTOS DE INTERESSE: comentários sobre terceiro CD, ideologia e valores pessoais

Entrevista para site Whiplash por Maurício Gomes Angelo (2006)

O Mustang, desde 2001, é a banda que traz em sua linha de frente Carlos Lopes, o antigo vocalista e guitarrista da Dorsal Atlântica, agremiação seminal das vertentes extremas em nosso país. Agora, o auto denominado “rock-clássico-autoral” da nova banda é que monopoliza os esforços desta figura folclórica do metal brasileiro. “Tá Tudo Mudando…Mas Nem Sempre Pra Melhor”, álbum recém lançado, é um belo exemplar da atual fase de Lopes. Política, descontração, comportamento. Riffs dançantes, batidas funkeadas, peso com swing, retrô com inovação. É sem pedir muita licença, e revigorando o rock brasileiro, que o Mustang veio para ficar. É disto que tratamos, na direta e suculenta conversa abaixo.

Carlos, você tem alguma explicação aceitável para que “Geração Perdida” não seja a música mais pedida nas rádios atualmente?

Eu ouvi o mesmo em relação a Rosana Star do CD Oxymoro, nosso trabalho anterior. Todo mundo me perguntava porque ela não tocava em rádio. Parece que até o momento sou o maior criador de sucessos que não tocam, mas espero que essa situação mude de alguma forma. Creio que você saiba que a inserção de uma faixa nas rádios é um acordo feito com o setor comercial da empresa. Acho que não preciso dizer mais nada.

O que a mudança de sonoridade, da Dorsal para o Mustang, lhe possibilitou explorar que era impossível antes?

Citei algumas vezes, que a forma, a música pode ter mudado, mas a essência continua a mesma. A contestação não se esgotou. Encontrou outras formas de se manifestar. Se você analisar minha carreira atual, eu sou bem mais radical agora do que era, não no sentido extremo convencional da palavra, mas no sentido que me dei o direito de fazer o que quiser, de escrever música e fazer arte com toda a liberdade possível e convenhamos em um país de terceiro mundo, e sem costas quentes isso é quase um ato suicida.

Até que ponto você considera o Mustang acessível ao grande público? Existe esta preocupação comercial já que agora a banda oferece isso?

O Mustang não é tão digerível assim. Digerível é quem só toca punk rock, só toca rock pesado ou só toca rock progressivo. Eu toco tudo ao mesmo tempo agora. Não escrevo canções simples: todas modulam, são construídas a partir de seqüências de acordes pouco convencionais, apesar que muitos ainda acham a banda “três acordes”, o que é uma incorreção. Meu intuito não é facilitar, mas exigir do público do ouvinte, mostrar que é possível fazer uma música simples sem ser punk e escrever canções rebuscadas sem ser progressivo. Claro que amo o trabalho que faço atualmente. Desejo que muitos possam dividir comigo essa alegria que trago no coração. Para isso a que haver um laço forte entre artista e ouvinte, espectador, amigo, amante.

Você se orgulha de ter uma performance marcante como frontman, transportando toda a intensidade dos anos 80 para a época atual. Como você avalia a importância dessa postura e quais vocalistas, neste quesito, te inspiraram?

Te diria que sou mais influenciado pelos artistas dos anos 50, 60 e 70, mais do que os dos 80. O rebolado do Elvis, o passo de ganso de Chucky Berry e o histrionismo de Little Richard e Jerry Lee Lewis foram marcas em minha alma. Fora James Brown (principalmente), Hendrix e os punks dos anos 70. Aprendi desde cedo que o rock era negro e que se eu quisesse ser bom nisso, eu tinha que enegrecer minha alma e minha pele. Ser tomado pelos espíritos dos mesmos ancestrais que criaram o blues. Sem eira nem beira, tive que me inventar, criar uma persona, pois não havia ninguém no Brasil para me inspirar. A única pessoa que eu posso citar é o Cornélius Lúcifer, o ex-vocalista do Made in Brazil, mas ainda era pouco para mim. Assim que subi em um palco pela primeira vez, soube que estava no lugar certo. Aquela era a minha casa. Era onde uma parte oculta de mim se manifestava sem rédeas. Hoje quando fito os olhos dos espectadores vejo choque, risos nervosos e incômodo. É isso o que eu provoco. Tenho uma energia inesgotável que emana de algum lugar escondido de mim ou do astral. Em parte acho que é, em parte, um processo de incorporação, de sublimar o corpo, de extender os limites da carne e se unir a alma mater. Eu dou espetáculo em qualquer situação, seja para 5 ou 500 pessoas. O palco é o meu centro espírita, o meu terreiro, o meu espaço inviolável, onde procrio com a platéia. Eu me dou todo, minha alma sua, meu corpo geme, vou aos extremos do ômega e alfa, da luz às trevas, do início, meio e fim, à vida e a morte. Todos que desejarem se divertir, voltar para casa mais energizados, não pensem que vão ver um mico de circo, ou um pai de santo, mas sim um king kong lascivo e perigoso. Eu não brinco em serviço.

“Tá Tudo Mudando…Mas Nem Sempre Pra Melhor” é um título sintomático. No que se refere a política, depois do fracasso da esquerda e da traição do PT, você vislumbra alguma esperança concreta com o quadro atual que temos? O que você acredita ser capaz de mudar isto?

A nossa Nação ainda é muito jovem, nunca tivemos 30 anos de eleições livres. È eleição, golpe, eleição, golpe e assim vai. Na história republicana, essa é a primeira vez que conseguimos atravessar 4 eleições seguidas, o que já é uma mudança. Mas claro que o impeachment do Collor foi um golpe e os civis só se mantêm no poder pois fazem acordos com os militares. É assim que funciona no Brasil. E a lição do PT nos engrandece, nos amadurece, nos faz ver que homens públicos falham, mesmo acreditando que estão fazendo o melhor e seja de que partido for. São como nossos pais.

Sabemos bem da relação esquizofrênica que o brasileiro mantém com a política. Na música, sempre houve a discussão se é ou não saudável que ela trate de temas políticos. Numa das letras, você diz: “somos os últimos com ideologia”. Você usa sua música para incitar o ouvinte? Vê na arte uma opção diferente e eficaz para politizar o povo?

Sempre acreditei que toda arte é panfletária, feita para incendiar, para tirar o limo da pedra. Troque as balas pelas canções, têm o mesmo efeito. Hoje eu lido com humor (sarcástico, mas é humor do mesmo jeito) onde antes lidava com palavras de ordem. Não gosto dessa Elite no poder, mas também tenho calafrios de pensar que o camponês possa governar do Planalto. Dá tudo no mesmo, a raça humana é sórdida, seja européia ou latina; de qual século for. Estamos fadados a ser comandados pelos cegos. A diferença é que quando enxergamos mais um pouco, ainda estaremos em terra de cego, sendo assim continuaremos a liderar cegos. Que cada um faça o que acredite, seja voto, religião ou trabalho comunitário, mas que faça a sua parte sem esperar recompensa ou cargo público.

Como as coisas funcionam no Mustang? O Mortágua também compõe e interfere ou é tudo uma ditadura mesmo? O processo de composição é natural ou premeditado (no sentido de reservar uma época apenas para isso)?

Sou muito prolixo, componho em excesso quando estou inspirado. O que não é o caso agora, pós lançamento de novo disco. Normalmente escrevo de 20 a 30 canções por ano e depois passo todas por um funil, sobrando umas 13 para o CD. O processo de escolha tanto leva em consideração criatividade, razão e coração. Eu sou o único compositor da banda, mas hipoteticamente quando você tem dois compositores, ou mais, para dividirem X músicas em um CD, o que não é o nosso caso, deve sempre haver um acordo para que não haja insatisfações pendentes. Esse acordo tanto pode ser dividir o disco igualmente, com a anuência de todos, ou um acordo de produtor para produtor, tipo “eu coloco 3 canções, relativo a 30% do custo do CD, então eu vou investir X financeiramente para que ninguém saia prejudicado”. O problema é que se briga muito para incluir música, mas na hora de dividir as despesas, muitos fazem corpo mole. E eu já vi isso trezentas vezes.

Nota-se uma grande variedade entre as faixas do novo trabalho. Embora passeiem pelos mesmos estilos – punk, rock, metal – nenhuma é muito semelhante a outra. As estruturas variam, as melodias são díspares, o ritmo é desigual, as harmonias, principalmente, sempre diferem. Como você colocou tudo isso de forma coesa num mesmo álbum?

Essa é uma pergunta interessante e parte da resposta está na insatisfação que tenho e relação a cena musical do Brasil. São pouquísimas as bandas e compositores que gosto de fato, pois escrever um rock and roll de três acordes é mais intenção do que composição. E muitos confundem uma coisa com a outra. É difícil ser simples e é difícil ser complexo. Creio que já exista um estilo Mustang, ou Carlos Lopes de compor e isso é um objetivo muito difícil de ser alcançado. Pode levar anos.

Diz-se que o segundo trabalho é o teste de sobrevivência, o terceiro é a afirmação. Neste sentido, o que mudou no novo lançamento? O que ele possui que os anteriores não têm?

O primeiro CD “Rock ´n´Roll Junkfood” era uma libertação, uma fuga desesperada do passado, mas ainda cheirava muito a ele, pois era um passado recente; o segundo, “Oxymoro” era muito mais maduro, reflexivo, sentimental, quase uma prece de joelhos e o novo “Ta Tudo Mudando” é de fato, uma soma, é mais ciente das possibilidades, mais senhor de si. Na mixagem do novo disco, dei mais ênfase à “cozinha”: ao baixo e a bateria. Optei por um som mais coeso e encorpado e segundo a opinião geral, atingi um ponto ideal de equilíbrio. As pessoas ficam muito admiradas com a qualidade dos músicos nesse novo trabalho, mas se escutarem os CDs anteriores com atenção, verão que a mágica sempre esteve lá, encoberta pela massa de guitarras.

Alma, atitude e sinceridade são como lemas da banda. E também caracterizam boa parte do que você fez no passado. Que outros predicados, para você, constituem uma banda genuína?

Certamente talento.

Podemos dizer que Carlos Lopes finalmente encontrou a paz com o Mustang? Que está satisfeito com o que faz?

Musicalmente nunca estou satisfeito, pois é isso o que me move sempre adiante. Eu não posso jurar para você que o próximo Mustang será um disco de hard rock e nem que tenha guitarra. Tudo é possível para que um objetivo artístico seja alcançado. Acima da forma, o que realmente significa algo é o nível da composição. Isso faz toda a diferença.