Revista O Martelo
 
 
  

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UM NOVO RUMO PARA O CINEMA NACIONAL: FILMES ESPÍRITAS? por Carlos Lopes

O longa Nosso Lar, baseado na obra psicografada por Francisco Cândido Xavier, é desde já um fenômeno cultural.

Há duas maneiras de assisti-lo: como um filme "tradicional" ou como um filme espírita. E há diferenças. O cinema espírita é, refletidamente uma solução criativa, que identifica as nossas produções (quem faria filme espírita no mundo?) que agora falam a língua do povo (com um "quê" de melodrama, mas sem mexicanizar), dão retorno financeiro e mantém a qualidade. Todos esses fatores somados certamente vão inserir o novo produto no mercado internacional.

Filmes semiespirituais como O Segredo, Profecia Celestina (esse de baixo orçamento), Quem Somos Nós e Ghost fizeram a festa de milhões de adeptos pelo mundo, pois não falavam a língua de uma nação, mas sim a linguagem dos que anseiam por uma vida mais espiritualizada e que não são poucos. O Brasil investe nesse filão com conhecimento de causa, após décadas de murros em ponta de faca. Temos, enfim, um produto com características próprias que, além da mensagem universalizada, liga o país à uma causa maior, nos afastando dos clichês de filmes de favela e de "cunho social". O fato é que, quando o consumidor estrangeiro se compraz em assistir a um filme brasileiro, certamente ele busca as nossas mazelas, não as qualidades. O filme espírita é uma solução para tudo isso, pois o público é completamente diferente dos que "apenas" consomem cinema-cabeça ou blockbusters. Inclusive, se esse filão crescer, provavelmente dará início a subprodutos, o que pode até mesmo, nos classificar, como ocorreu com o cinema italiano dos anos 60, como os criadores do cinema espírita-spaghetti.

Nos anos 70, poucos foram os filmes nacionais com grande bilheteria e todos eram semipornochanchadas, muitos feitos nas tetas do dinheiro público. A questão não era artística - como a do Cinema Novo nos anos 60 -, era um caso de vida ou morte, de sobrevivência. Ou dava ou descia, e atores e diretores na década de 1970 resolveram dar, vide que as maiores bilheterias da década foram de filmes picantes como Dona Flor e Seus Dois Maridos. O que desejo esclarecer é que não sou contra o novo cinema espírita, sou a favor, desde que seja um produto de qualidade. E o Nosso Lar (Fox) é o melhor exemplo dessa nova estética, juntamente com o filme Chico Xavier (Sony), ambos diferentes na forma, mas idênticos no conteúdo. Fora tudo isso há uma conecção, uma ligação emotiva muito forte que une os atores e os filmes, como o caso da atriz Christiane Torloni que fez o papel de uma mãe que perdeu o filho em Chico Xavier, exatamente como ocorreu com a própria atriz e do ator principal do Nosso Lar, Renato Prieto que sempre dedicou a carreira à interpretação e montagem de peças espíritas. Esse envolvimento dá a esses filmes uma outra dimensão, quase como se fosse um pacto de sangue entre o tema e os envolvidos, inclusive o público, o maior interessado, como se fossem todos uma só entidade. Essas produçãoes podem até mesmo pecar por um pouco de excesso, mas nunca pela inverossimilhança, pois os próprios atores são testemunhos vivos da obra, se ligam a elas e com elas dividem ônus e bônus.

Em um país com vasta extensão territorial como o Brasil, é natural que interesses e filosofias colidam a todo instante. Mesmo assim, o espírito humano teima em se impor e principalmente se incomoda com as conquistas do oponente. Nas últimas décadas, houve um crescimento desproporcional das igrejas evangélicas e suas ramificações por vários motivos, muitos deles estudados por teólogos e sociólogos. Duas razões mais notórias: a crise econômica que arregimentou um público maior para quem ofertasse mais ganhos materiais (o catolicismo e o espiritismo têm dificuldade em associar sucesso com ganho material - vide o conceito do camelo) e a chatice da igreja católica, com um ritual muito sofrido e lento, devagar quase parando. E fazendo uma necessária mea-culpa, os católicos mais conscientes se inspiraram nos irmãos evangélicos para dar início às igrejas carismáticas, mais festivas com padres pop stars. Houve uma ingerência econômica e cultural, pouco comentada, da cultura norteamericana sobre o nosso velho conceito de religião, pois o velho ritual católlico é fruto da dormente cultura européia e a festa nas igrejas, resultado da vertente desenvolvida pelos negros americanos, com seus famosos gospels (inclusive uma das matrizes do rock ´n´roll). Os americanos ganharam a guerra religiosa e impuseram seus valores tanto nas igrejas ou templos como no esoterismo, pois O Segredo é um filme americano e materialista. A mensagem é "Peça e será atendido" pois há para todo mundo. Essa é a pregação. E todos querem acreditar, mesmo que seja por causa da dívida que vence agora. Então, fica mais fácil passar a responsabilidade para outrem, de preferência para Deus, Jesus e Maria. E "repartir responsabilidades" está de todo errado? Claro que não. Acreditar também é necessário e cada um escolhe em quem ou no que acreditar. Só que nós, as pessoas, declaramos guerra exatamente por essa opção: por acreditar e como acreditar. Imposições, enfim.

Há como viver sem esperança? A única resposta é Não. Quem consegue viver sem amar (mesmo que seja um amor torto ou uma geladeira), sem sonhar com um melhor emprego, com uma companheira perfeita ou pelo menos, quem não anseia por paz de espírito? É aí que entra no roda uma nova arte audiovisual que adapte, torne pop, fale com os novos discípulos, novos brincantes, aos novos "esperantes" (que falem esperanto ou não) evangélicos, católicos ou espíritas, as maiores forças no país, tipo Dilma, Serra e Marina (sem ser desrespeitoso com outros segmentos como o muçulmano e o budista) em todas as suas muitas semelhanças e poucas diferenças.

O roteiro e a direção do filme Nosso Lar são do cineasta e jornalista Wagner de Assis, fundador da Cinética Filmes, a trilha sonora é do maestro Philip Glass e o elenco conta com renomados atores como Renato Prieto interpretando o espírito/autor do livro André Luiz, Werner Schünemann (Emmanuel), Othon Bastos (Governador Anacleto), Ana Rosa (Laura) e Paulo Goulart (Genésio). O filme reproduz com detalhes técnicos impecáveis (desenvolvidos no Canadá pela empresa Intelligent Creatures, responsável por filmes como Fonte da Vida, Babel e Watchmen), a cidade/fortaleza Nosso Lar cujas formas, nitidamente, foram inspiradas no trabalho de Oscar Niemeyer. Nosso Lar foi construído como uma cidade cenográfica ao ar livre em uma fazenda em Guaratiba na cidade do Rio de Janeiro e também em 3D. No total, a construção tinha cerca de 70 metros de comprimento e sete metros de altura e envolveu cerca de 30 profissionais em 30 dias. Encerradas as gravações em Guaratiba, a equipe transportou o portal e 20 metros de muralha para o bairro de São Cristovão para filmar em detalhes a entrada e a alameda principal da cidade. As filmagens realizadas no Rio de Janeiro e em Brasília duraram oito semanas. Para filmar o Nosso Lar foram necessários cerca de 1000 metros quadrados de chroma key (fundo azul). Em alguns casos, como os das cenas da parte externa da cidade , rodadas no Monumento aos Pracinhas, Rio de Janeiro, a equipe teve que produzir um chroma-key de 360 metros quadrados.
Só para efeitos visuais, a equipe precisou de mais de 2000 metros de fios, tubos e cabos para as filmagens. Também foram usadas mais de 50 máquinas e mais de meia tonelada de gelo seco para reprodução dos diferentes tipos de fumaça (ao todo foram seis).
O protagonista Renato Prieto se preparou durante seis meses para esse trabalho. O ator emagreceu cerca de 18 quilos através de acompanhamento médico e de uma dieta que cortou carboidratos e permitia uma quantidade muito baixa de calorias. Durante as filmagens, Prieto chegou ficar cerca de sete horas na sala de maquiagem para filmar principalmente as cenas do umbral.

O Aeróbus (o trem voador da cidade) com cerca de 14 metros de comprimento e sete toneladas, construído em Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul, era tão grande que a equipe não conseguiu um lugar para guardá-lo. O veículo cenográfico demorou cinco dias para chegar ao Rio de Janeiro em uma carreta estendida, único meio de transporte capaz de fazer o frete. As cenas do umbral foram realizadas em uma pedreira no bairro de Jacarepaguá no Rio de Janeiro, com 10.000 metros quadrados, duas vezes o tamanho do estádio do Maracanã e o figurino contou com cerca de 1.500 peças.

Como bem disse o personagem Tobias (Rodrigo dos Santos): "O mundo precisa de histórias felizes!".

 

Entrevista com o Elenco (cedida pela produção)



Como foi a preparação para interpretar o André Luiz?
“Eu fui submetido a todo o tipo de experimentação para apresentar um resultado
plausível do que eles queriam dizer através do personagem André Luiz. Eu cheguei a
emagrecer quase 17 quilos e ao mesmo tempo eu fazia um trabalho de 6 a 8 horas por
dia de experimentação de textos, comportamento. O Wagner sempre assistia, dava
opiniões, não foi fácil, eu tive que passar por uma série de perdas, sofrimentos,
modificações. Eu tive que mudar a minha visão interna para ver o mundo através dos
olhos dele. Então eu fiquei mais quieto e observador. Foi um período que eu não quis
ter muito contato com o externo, com pessoas que me trariam todos os
comportamentos do cotidiano, mas sempre muito feliz. Eu estava onde a vida tinha me
levado, ao lado de pessoas que estavam me ajudando a chegar no meu objetivo, com
todos incentivando e colaborando, mas eu sabia que a maior parte desse sacrifício
dependia de mim.”


Você já tinha pensado em interpretar o André Luiz?
“Eu já tenho um projeto de vida, de gostar do assunto. Eu acredito em tudo o que é
abordado dentro da temática. Das coisas que eu fiz em teatro, esse foi o único
personagem que eu nunca quis fazer. E podia fazer. Em muitos casos eu tive o direito
da escolha e com a exceção de uma cena que é psicografada pelo Chico Xavier, nunca
foi um personagem que eu quisesse fazer e hoje eu acho que eu entendo melhor isso.
Se eu tivesse feito o personagem André Luiz em algum outro trabalho, em teatro,
vídeo, talvez eu tivesse me impregnado de informações que eu teria que me descasar
delas. Eu achei ótimo que tenha sido eu o escolhido, mas eu tive que ralar para isso,
ralei muito.”


Como foi a construção do personagem junto à equipe?

“Eu acho que essa construção partiu de todas as conversas que eu tinha com o Wagner
de Assis e o que ele queria dizer e conversar com os treinadores.
Eu acho que a construção do personagem partiu do meu corpo que foi modelado a
imagem e semelhança de um personagem que não tem nada a ver comigo e que cada
um, desde o próprio André Luiz que contou essa história através da mediunidade de
Chico Xavier até o Wagner junto com a Vivian Perl que foram modificando o texto e
fazendo novos tratamentos, mas principalmente ao Wagner, com quem eu mantinha
contato o tempo todo. Eu deixei que meu corpo pudesse ser modelado para chegar àquela imagem, que
depois, junto com o Vavá Torres que fez todo o trabalho de transformação, chegasse
àquele resultado físico e artístico que eles queriam. Se a gente conseguiu isso, então
conseguimos chegar em algum lugar.“

Quem é o André Luiz e como ele foi para o Nosso Lar?
“O André Luiz é pseudônimo de um médico que, nos anos 20 e 30, foi famoso no Rio
de Janeiro. Respeitado, ele tinha todos os conhecimentos de medicina, se preparou.
De repente, ele, médico, casado, feliz, descobre que está com uma doença incurável e
morre. Quando ele morre, exatamente por esse descompromisso de não observar o
que acontecia à volta dele acaba perdido numa zona que, na espiritualidade, a gente
chama de Umbral - uma região onde os espíritos de uma certa ignorância moral ficam
para resgatar esses erros. Até um momento em que ele não suporta mais o que está
passando e pede ajuda. Quando o trabalhador está pronto, o trabalho aparece: ele
pediu ajuda e a ajuda veio. O livre arbítrio é respeitado em qualquer circunstância; desta forma, o dele foi
respeitado. Enquanto ele preferiu ficar na escuridão, ficou. Então ele é resgatado e
levado para uma colônia espiritual chamada Nosso Lar, onde fica um período no
hospital em tratamento, se recuperando. Mesmo voltando à sua imagem e
semelhança, ele não deixa de ser um pouco arrogante, questiona, não quer falar com
enfermeiros, quer falar com superiores. Até que ele percebe que, ou bota a mão na
massa e vai aprender ou vai ficar estagnado, este é o livre arbítrio dele. Ele decide por
a mão na massa.”


Como foi a jornada de aprendizado do personagem?
“Uma vez recuperado no Nosso Lar, ele começa a buscar caminhos de aprendizado.
Como medicina é o que ele conhece, vai buscar trabalhos com a enfermeira Narcisa,
interpretada pela Inez Viana, que mostra que a medicina ali é diferente.
Ele começa a observar e a colocar em prática uma mistura dos conhecimentos que
tinha na Terra com os espirituais. A partir daí, começa a crescer, até poder estar com a
família. Ele reencontra a família e vê que a mulher está com outro, e isso o deixa muito
revoltado. Ele quase tem uma retomada ao umbral, tal estado de energia que ele se
coloca. Mas, ele exerce o perdão e começa a crescer espiritualmente, pois coloca os
conhecimentos dele a serviço dos outros, passa a olhar para todos os lados, e isso faz
com que o André Luiz esteja hoje em uma condição espiritual muito grande.
A trajetória dele é mais ou menos essa: a morte, a incapacidade de se curar, a vida na
espiritualidade, o resgate de si próprio, o crescimento espiritual e até fazer sua
caminhada em busca da luz e colocar seu conhecimento a serviço de todos.”


Qual é a sua relação com a história de Nosso Lar?
“Este filme é a resposta de tudo que eu acredito. Eu nasci acreditando em tudo aquilo
que está ali. Eu cresci sem que tivesse nenhuma informação a respeito disso, no
entanto, aquilo ali para mim sempre foi muito real, sem que alguém me dissesse ou eu
lesse. Nosso Lar, a colônia, ou as histórias parecidas à do Nosso Lar, são o resultado de tudo
o que eu sempre acreditei, hoje acredito muito mais e assim vou continuar por toda a
eternidade.”




Você é espírita?
“Eu comecei a frequentar umas sessões em centros espíritas por causa do meu pai e
acabei ficando muito mais próximo do que um simples visitante. Comecei a participar
destas reuniões espirituais e eu fui me entrosando, comecei a ler e conversar com as
pessoas a respeito. Foi daí que passei a me interessar bastante por esse fenômeno que
é o espiritismo. Eu li o livro “Nosso Lar” há muitos anos atrás, também através de meu pai, pois ele
tinha uma biblioteca sobre espiritismo, mas nessa época eu lia mais por curiosidade.
Um pouco depois, comecei a frequentar o Frei Luiz e a Casa de Padre Pio. Na Casa de
Padre Pio, fui me interessando pelas palestras e fui aprendendo e sendo orientado, a
tal ponto que a curiosidade foi sendo substituída por um entrosamento maior com o
espiritismo. Aprendi muito com o Luiz Augusto (produtor executivo) e ele me deu a
oportunidade de ler textos, dos quais fui me interessando mais pelos orientais.
Quando soube que este livro seria filmado, pensei: “que maravilha!”, mas nunca tive a
intenção de chegar e dizer: “eu quero trabalhar, quero fazer isso”. Fiquei muito feliz
quando o Wagner e o Luiz Augusto me chamaram para fazer o governador do filme.”


Como é o seu personagem?
“Faço o governador Anacleto do Nosso Lar. Ele está governando este mundo,
provavelmente por algum mérito espiritual, e o tempo de lá não é igual ao nosso
tempo daqui. Quando ele fala, sempre fala do próximo, está sempre preocupado com
o bem querer do outro para que este atinja sua evolução ao invés de ficar preso à
matéria. Por coincidência, ele tem seis ministérios e esses seis ministérios têm 12 ministros
cada um. Se você fizer o cálculo, vai ver que são 72 ministros, como os nomes de Deus.
Tudo isso está ligado. Os ministérios são todos para o bem, cada um tem sempre
visões de evolução do ser humano.
Este homem governa isso. Não é exatamente um governo, na verdade ele ampara tudo
o que acontece como se fosse um iluminado. É isso que eu acho bonito do
personagem e do filme.”

 


Qual é a sua relação com o espiritismo?
“Eu tive uma formação religiosa católica. Cresci numa escola católica o que me afastou
do catolicismo como instituição. Claro que muitos dos ensinamentos católicos são
importantes, mas é necessário estudá-los a fundo para captar a essência. Eu fui me
interessando pelo panteísmo, que se relaciona um pouco ao espiritismo, na ideia de
energia que é além do corpo. Eu sempre fui um curioso. Comecei a ler bastante sobre
o espiritismo. Estou lendo agora o livro dos espíritos do Allan Kardec. No primeiro livro,
ele briga, dizendo que não se pode falar que isso é bobagem. Tenho todo esse
interesse pessoal pelo assunto, uma curiosidade religiosa e filosófica.”


Como é o “Nosso Lar” para você?
“O “Nosso Lar” é muito interessante porque, por um lado ele é futurista e por outro
ele é inventivo. Parece que os espíritos que vão para lá e que constroem o lugar são
muito cuidadosos com o estilo da arquitetura. Grande parte das coisas que se faz aqui
na terra é feito para ganhar dinheiro, até remédio é feito para você precisar de mais.
Lá, como teoricamente é mais próximo de uma utopia anarquista, as coisas são feitas
como elas deveriam ser. A estética é mais fácil de ser harmoniosa. As coisas funcionam
como a gente acha que devem ser. Até os políticos são gente boa. (risos)”

 

Como é seu personagem no filme?
“A Eloisa é uma menina que morreu nova, estava apaixonada, prestes a se casar, a
começar a vida de fato, então ela não se conforma de ter morrido, de não ter podido
viver o que planejava. Ela não aceita isso e fica infeliz no Nosso Lar. Ela tem um
romantismo, mas ao mesmo tempo ela tem muita força e atitude. Ela viveu ali os 18,
19 anos dela dentro da família, super comportada. De repente, quando ela vai fazer
uma coisa que ela sempre sonhou, ela morre, e vai parar num lugar que ela não quer
estar. Só isto já cria uma revolta, além de ser uma característica da idade, esta
impaciência. Toda esta perda é que causa a raiva. Ela ama a família dela que está no
Nosso Lar, mas não é aquilo que ela quer viver agora.
É legal o fato que ela é a única personagem do filme que questiona as coisas,
questiona o André Luiz. Ele até questiona um pouco, mas ela vai além e provoca, e isso
que é o bacana. Tem muitas pessoas importantes que passam por ele nessa história,
que o ajudam de alguma maneira, uma delas é a Eloisa.
Tem uma cena que eu gostei muito de fazer que é minúscula, eu não abro a boca, não
falo nada, e não foi muito confortável. É logo depois que a Eloisa foge, quando ela é
reencontrada pelo Lísias estirada no chão, toda machucada, suja. É uma cena forte, um
momento muito delicado e dolorido e tem toda aquela maquiagem que ajuda o ator.
Eu nunca me vi daquele jeito antes, acho que fiquei muito impressionada com aquilo
tudo, foi muito intenso e gostoso de fazer.”

 


Como é seu personagem no filme?
“A minha personagem é a Narcisa. Ela é a enfermeira-chefe do Nosso Lar. Ela já está há
mais de 10 mil horas trabalhando e ela gosta disso, gosta de ajudar os outros, ela se
sente alimentada ajudando o outro. Você tem que se doar, essa é a missão da Narcisa pro filme. Mostrar que quanto mais
você se doa, mais você recebe. Ela tem esse lema na vida dela. Narcisa já poderia ter
reencarnado, mas ela continua ajudando as pessoas.
Quando o André Luiz chega, ele tem uma resistência ao trabalho, porque ele é um
médico e ainda não compreende como funciona o Nosso Lar, não sabe porque ele não
pode tratar as pessoas como ele tratava na Terra. No Nosso Lar é diferente, porque
você tem que se doar, dar para receber.É basicamente essa a história dela, ela tem esse papel fundamental de mostrar para
ele como funcionam as coisas, de exigir dele que entenda que o funcionamento no
Nosso Lar é diferente do da terra, que os valores são outros. E ele acaba entendendo.”

Qual é a sua visão acerca do aspecto religioso do Nosso Lar?
“Quando eu fui convidada para fazer Nosso Lar, eu fiquei muito pensativa quanto ao
tema. Não é a minha religião, e todos nós temos muitos preconceitos. A religiosidade é
uma questão muito forte no Brasil e eu fiquei um pouco reticente, como por exemplo
com a possibilidade de ficar estigmatizada por fazer um filme espírita. No entanto,
comparando com “2 Filhos de Francisco”, você não precisa gostar da música do Zezé
de Camargo & Luciano para se emocionar com o filme, como foi o meu caso, eles não
são os meus cantores preferidos, mas eu me envolvi com a história.
Você pode não acreditar em vida após a morte, mas não é só disso que o filme trata,
ele trata de uma questão maior que é como você olha para o próximo, como você
pode, a partir de agora, ter um olhar mais generoso com o outro em meio a estes
tempos conturbados. Para mim, foi um trabalho muito gratificante e é quase como se
tivesse quebrado vários tabus. Eu fui surpreendida, e acho que isso vai acontecer com
as pessoas também. Para mim, o Nosso Lar é um marco para o cinema por esse envolvimento e por essa
seriedade com que o tema está sendo tratado. O filme toca mesmo quem não é
espírita, eu não sou espírita, e eu fiquei completamente tomada pela história desse
homem e pelo que significou Chico Xavier, independente de qualquer religião, ele foi
uma pessoa iluminada.”

 


Qual a sua relação com o espiritismo?
“Eu sou um cara do candomblé, iniciado no candomblé. Estou buscando minha
evolução espiritual na minha cultura, que não é só uma religião, é também uma
cultura, uma forma de vida, de relação com a natureza, com as divindades. Você não
precisa ser religioso para saber que se relacionando com uma pessoa ou pensando de
uma determinada forma, o outro vai sentir sua intenção. Eu acredito nesse fluxo de
energia e gosto de concentrar positividade, de boas vibrações e bons fluidos.
Entrar numa sequência de filmes espíritas é interessante do ponto de vista técnico da
ficção científica, através dessas mensagens que esses livros têm para passar e ao
mesmo tempo para divulgar essas obras espíritas, até mesmo para humanizar mais os
espíritos e espiritualizar mais os homens.”


Como é seu personagem no filme?
“O Tobias entra no filme já no Umbral. Ele vai resgatar o André Luiz depois que ele
morre e vai para essa região intermediária entre a Terra e o Nosso Lar. Uma função
que ele está acostumado a exercer com bastante frequência.
Ele é um enfermeiro e, ao mesmo tempo, um tipo de guardião, mensageiro. Trabalha
nas câmaras de retificação cuidando dessas almas que são recém chegadas na cidade,
na evolução espiritual delas, para que elas compreendam essa nova vida depois da
morte. Por isso ele vai ao Umbral resgatar o André Luiz, é o cara que acompanha o
André, no decorrer do filme, de uma forma simpática, bem próxima, bem cotidiana,
solta, bem humorada, que foi o tipo de relação que eu desenvolvi com o Renato Prieto
durante os ensaios. Eu achei legal levar isso para o filme porque foi uma relação que
gerou um sentimento autêntico, leve, fraterno e caberia muito bem aos nossos
personagens.”


Você fez alguma preparação especial para este personagem?
“Vivo no filme um personagem solar que concentra a fraternidade do ser humano de
forma absolutamente singular e verdadeira. A partir do contato com essa
personalidade, ao mesmo tempo simples e grandiosa, busquei, através de muitas
leituras, observações e conversas, assimilar a sua maneira de ver o mundo e se
relacionar com os homens. Meu foco nessa busca foi entender e introjetar a
fraternidade a partir do ponto de vista deste espírito iluminado. Busquei a síntese de
tudo o que é fraterno no ser humano para me aproximar e me entregar ao
personagem.”

Qual a sua relação com o espiritismo?
“Tenho com o espiritismo uma relação de profundo respeito e intensa curiosidade. O
fenômeno me atrai como ficção coletiva. Tenho vontade de estudar, analisar,
entender. As religiões, de uma maneira geral, provocam em mim esta reação. Vejo
como criação do homem que busca e alcança, através delas, a salvação, a redenção.”



Você já tinha conhecimento da doutrina espírita antes do filme?
“Na minha carreira toda em TV, teatro, cinema, circo, eu já tive oportunidades de fazer
uma entidade desencarnada. Eu fiz uma comédia chamada “Uma Mulher do Outro
Mundo”, para TV; por muitos anos fiz o espetáculo “Violetas na Janela”, em teatro; e
participei de “Chico Xavier”, no cinema. É legal porque você traz para o público esses
ensinamentos todos de uma forma prazerosa.
Eu acho de uma importância vital que se façam mais filmes tratando dessa temática
espírita, mostrando o que é a vida do lado de lá.”

Como é seu personagem no filme?

“A minha personagem é a Laura. Ela já está no plano espiritual com -o filho, as irmãs e
uma neta, e não tem mais a necessidade de encarnar. Ela trabalha no plano espiritual,
com um determinado nível de elevação. Um dia, ela resolve voltar à Terra para dar
apoio a uma neta que desencarna em condições insuficientes do que exige a vida
espiritual. A menina está ansiosa para voltar ao plano terreno porque deixou um noivo
aqui. Ela não quer aprender nada, está muito rebelde. Então Laura resolve pedir
licença ao Clarêncio (que é o governador espiritual) para ela reencarnar e dar um apoio
para essa neta na Terra.”

Qual é a sua visão do filme “Nosso Lar”?
“O “Nosso Lar” é um aprendizado. Um mergulho numa busca do que seria o
verdadeiro sentido da vida, tanto aqui como no plano espiritual.”



Como foi a sua preparação para o filme?
“Não tive nenhuma preparação específica, apenas entrei com o coração aberto e
disposto a trocar conhecimentos.”

Qual a sua relação com o tema do filme?
“Sou espírita há mais de 30 anos então poder falar sobre esse tema me faz muito bem.
Me sinto fazendo a minha parte, contribuindo para a divulgação da doutrina de uma
maneira especial, através da arte.”



De onde ou de quem partiu a ideia de produzir o filme Nosso Lar?

“Eu procurei o Renato Prieto em 2005 para saber se ele conseguia uma reunião com o
presidente da Federação Espírita Brasileira porque gostaria de propor a adaptação do
livro para o cinema. Eu li o livro na década de 80 e sempre me impressionei com a grande mudança de
paradigma que ele propunha, ao descobrirmos que a vida não acaba com a morte.
Achava – e acho – que responder essa pergunta não muda ninguém, mas abre um
caminho lindo de melhoria do ser humano.
O Renato conseguiu uma reunião e eu fiz a proposta para a FEB, que é detentora dos
direitos autorais do livro. Ao longo de 10 meses, estive com a diretoria da FEB compartilhando as ideias de se
fazer um filme – as novas possibilidades com o advento da tecnologia gráfica e,
principalmente, com o desejo de contar no cinema o lado mais universal da história.”


Como foi a preparação do elenco para Nosso Lar?

“Ensaios e preparações durante cinco meses. Todos estiveram em contato com o livro,
com as obras do Chico Xavier, estivemos em um workshop na Federação Espírita
Brasileira, mas, ao mesmo tempo, trabalhamos a parte artística. No final, conversamos
muito sobre cada personagem, sobre os simbolismos, sobre suas trajetórias na
história.”


Qual o diferencial de “Nosso Lar”?
“A história é muito poderosa. É ela que conquistou os profissionais americanos. É ela
que emociona no livro, faz pensar, faz a gente refletir mesmo sobre nossas origens. É
ela que tem provocado reações muito intensas nas pessoas, mostrando conceitos
importantes como suicídio inconsciente, a aplicação espiritual da lei de ação e reação,
os novos paradigmas de se viver sabendo que a vida continua, que o túmulo não é o
fim.”

 


Como foi a escolha de Philip Glass para fazer a trilha?
“O Brasil, sem dúvida tem músicos excelentes. Mas, por um sonho do Wagner e de
todos aqueles envolvidos no desenvolvimento do “Nosso Lar”, queríamos alguém que
tivesse a mesma vibração da história. O filme tem uma característica muito específica
e criativa que bate muito com o estilo musical do Philip Glass. Tivemos muita sorte
dele gostar muito do roteiro e entrar nessa viagem com a gente. E ele entrou de
cabeça. Para executar uma trilha inteiramente composta por Philip Glass, fomos
imediatamente buscar uma parceria com a OSB (Orquestra Sinfônica Brasileira). Foi
uma parceria maravilhosa. O maestro e os músicos da OSB gravaram as musicas por
alguns dias na radio Nacional. O Guto Graça Melo foi o diretor musical do filme. Philip,
Guto, Vinicius França (nosso produtor musical) e a OSB juntos, foi quase um sonho.
Que este seja um em muitos filmes que a OSB participe. Isso traz uma qualidade
inestimável, majestral, ao filme. A trilha está inacreditavelmente bela.”


O que chamou a sua atenção nessa história? O que levou a querer contá-la?
“Quando a gente decide produzir um filme, essa decisão vem por vários motivos, em
especial a temática. O Nosso Lar tem muito a ver com a minha história pessoal e em
um determinado ponto da minha vida foi uma referência. Eu nunca imaginei estar
envolvida na versão cinematográfica dessa história. Quando o Wagner me falou que
queria transformar esse livro em filme eu achei que ele era lunático!
Estamos sempre em busca de boas histórias para serem contadas na tela grande. O
sucesso do livro Nosso Lar já era uma prova de que se tratava de uma boa história.
Porém, para transpô-la para o cinema, havia a necessidade de, antes mesmo de iniciar
o projeto, negociar a liberação dos direitos. Outra questão fundamental seria a
segurança de que teríamos ao nosso dispor efeitos especiais que garantissem a
fidelidade à história com a qualidade que fãs e não conhecedores da obra esperam e
merecem ver na tela quando comparam um ingresso. Acredito que o Nosso Lar é uma
história que deve ser contada no cinema. É uma história de esperança, de reencontro,
independente de qualquer crença.”


 

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