Revista O Martelo
 
 
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THE RUNAWAYS – (1976)

“Não consigo ficar em casa, nem na escola. Alô mundo, eu sou uma selvagem. Cherry Bomb!” É assim que começa o primeiro disco da primeira banda feminina de rock: as Runaways. Kim Fowley, um perspicaz e bem sucedido produtor (que já havia tocado com o Mothers of Invention) visou intencionalmente atingir uma fatia do mercado e para isso arregimentou meninas de 16 anos para serem os satélites em volta do sol da guitarrista Joan Jett. As depois famosas Joan Jett (I Love Rock ‘n’Roll e Bad Reputation) e Lita Ford comandavam as seis cordas com o acompanhamento de Sandy West na bateria, Cherrie Currie nos vocais (depois metamorfoseando-se em atriz) e Jackie Fox no baixo. O quinteto ganhou ares de culto quando foi lançado o primeiro disco em 1976, assinado apenas três meses após a fundação do grupo. A voz e a sensualidade da vocalista Cherie Currie, com apenas 16 aninhos, emolduravam um trabalho cru, tribal, e munido de um rock potente na escola dos primeiros trabalhos do Kiss com uma pegada proto-punk. O produtor Kim Fowley disse certa vez que “lidar com o ego da Currie é a mesma coisa que ter a cara urinada por um cachorro”. Polêmicas a parte, faixas como “You Drive Me Wild”, “Is It Day Or Night?”, “Thunder”, “Rock And Roll”, “Lovers” e “Black Mail” são símbolos da mais pura fúria adolescente e acima de tudo, estilo “Dane-se  a sutileza. Liga a guitarra no amplificador, aumenta o volume e toca!” Apesar da gravadora Mercury vendê-las como punks, as Runaways nitidamente tocavam um rock pesado básico com eficientes vocais femininos. Por incrível que pareça se tornaram ídolos no Japão e lá gravaram o seu terceiro disco, um frenético duplo ao vivo. “American Nights”, com seu riff contagiante,  foi um dos hinos que embalou o povo que freqüentava os bailes de rock nos anos 70. Como curiosidade vale acrescentar que o baixo desse primeiro álbum foi todinho gravado pelo futuro baixista do Blondie, Nigel Harrison.

A novidade para 2010 é que a guitarrista Joan Jett resolveu produzir o filme que contará a história da banda. Até o fechamento deste edição os papéis já haviam sido escolhidos: Kristen Stewart (Joan Jett), Dakota Fanning (Cherie Currie), Stela Maeve (Sandy West) e há duas possíveis intérpretes para a Lita Ford (Alessandra Torresani e Scout Taylor-Compton).
(Carlos Lopes)

 

MC5 – Back In The Usa (1970)

É difícil escolher qual dos três discos desse quinteto da cidade de Detroit é o melhor. O primeiro, um ao vivo gravado em 68, é clássico, e o último uma mistura dos anteriores. Mas o trabalho do “meio”, Back In The Usa possui características míticas em seus 28 minutos. O empresário do MC5 estava em cana e sem poder acompanhar as gravações, não influiu em nada. Através dele, a banda se ligou a política extremista e musicalmente, a avant-garde jazz rock (não se iludam com esse título pomposo: era barulho mesmo!). O escolhido para produzir as onze músicas desse segundo álbum foi o crítico Jon Landau. Ele o fez de forma seca e sem muita distorção, bem diferente do primeiro ao vivo, sujo e panfletário. Back In The Usa, mesmo assim, é um disco direto, que os fãs odiaram, e que dizem, acabou com a carreira da banda. A primeira música do Back reforça a miscigenação: Tutti-Frutti, o rock negro e básico de Little Richard. A partir daí descarregam Tonight  e sua urgência; a febril Teenage Lust; a impactante Looking At You, a explícita e adolescente High School, a furiosa Call Me Animal, a política The American Ruse, a delicada Shakin’ Street e a quase ópera-rock The Human Being Lawmoner. O disco fecha com a faixa título, escrita por Chuck Berry, outro rock and roll negro gravado com piano e tudo. Ninguém entendeu nada. Melhor assim... Um trabalho que exprime o orgulho de ser jovem, vivo em uma América livre, sem Vietnã, ou divisão de classes. Utopia? Com o MC5 aconteceu o mesmo que houve com Hendrix: o público queria que “quebrassem” tudo sempre, mas eles estavam crescendo musicalmente e apenas incendiar era pouco, necessitava ter cérebro também. Os críticos dividem-se entre o MC5 ser um dos pais do rock pesado ou do punk. Visto de hoje, parece que tanto faz. Para outra percepção desse mesmo álbum, aconselho a audição do CD The American Ruse (2001) com versões mais rústicas dessas mesmas composições, registradas em fita cassete, muitas sem vocal.
(Carlos Lopes)


TED NUGENT – Cat Scratch Fever (1977)

Talvez o mais polêmico dos artistas que imortalizaram o som de Detroit, a cidade motorizada, seja o “louco” do Ted Nugent. Considerado preconceituoso, e muito reconhecido por caçar animais (vivos), Nugent, que começou tocando guitarra aos seis anos, destacou-se pela primeira vez na banda Amboy Dukes na segunda metade dos anos 60. Apesar de não ter lançado nada de inesquecível em 7 discos juntos, a figura de Nugent tornou-se tão proeminente que nos últimos quatro álbuns dos Dukes, os títulos já eram impressos como Ted Nugent And The Amboy Dukes, mas isso tampouco fez a banda estourar comercialmente. Já em carreira solo, perambulou durante quatro anos sem um contrato. Mesmo tendo sido rejeitado por 14 selos, continuou firme até que a Epic dissesse um sim. Inicialmente foram lançados os ótimos Nugent de 75, e Free For All de 76, mas foi com o terceiro, Cat Scratch Fever que Nugent recebeu seu primeiro disco de platina, talvez por causa de apenas uma canção, sem menosprezar o resto (e que resto!) do trabalho. O riff da faixa título está no mesmo nível dos riffs de Paranoid e Smoke On The Water, canções que por si só não precisam ser explicadas. Todas as composições desse álbum possuem tanta alma que só se pode creditar isso, ao ambiente musical/social de Michigan. A energia em estado bruto de Wang Dang Sweet Poontang abala qualquer ouvinte sonolento, além de trazer a tiracolo um solo fantástico. A  instrumental Home Bound demonstra o uso Nugentiano da microfonia com o som áspero tirado de sua guitarra semi-acústica. A sequência Sweet Sally, A Thousand Knives, Fist Fightin’ Son Of A Gun e Out Of Control é de enfartar. Os vocais principais, ora de Nugent, ora de Derek St. Holmes são “sanguíneos”. Depois desse LP viriam outros maravilhosos álbuns, todos dignos da tradição do “Madman”, apesar de um período de vendas decrescentes, o que causou a sua demissão da Epic. Mas Nugent, como bom talentoso e teimoso, soube dar a volta por cima.
(Carlos Lopes)

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