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por Carlos Lopes

“Às vezes, a gente tem que fingir que é feliz. E isso dói. Mas a gente acostuma a mentir para a gente mesmo.”

“Vivi com 14 mulheres. Nenhuma deu certo.”

Waldick Soriano.

Lidar com o popular, ou para alguns com o “popularesco” tem sido fonte de muitas alegrias e estímulo pessoal para quem vos escreve. Se na literatura José de Alencar, na música Villa Lobos, e no cinema, o “novo” nos ensinaram a respeitar e compreender o Brasil, há algumas décadas, a redescoberta da importância e relevância do universo popular, que já foi chamado preconceituosamente de brega, mostra que o caminho natural do nosso país é a aceitação de tão díspares e ricos universos.

Waldick Soriano (1933-2008) criou uma figura folclórica, inspirada no “Durango Kid” do cinema. Ele era um cantor baiano machão (mas emotivo, pois se derretia por amores desfeitos) com chapéu de vaqueiro que cantava boleros amorosos tais quais "Quem És Tu?", "Eu Não Sou Cachorro, Não" e "Tortura de Amor". Dirigido pela atriz Patricia Pillar, o documentário (e seu primeiro filme como diretora) "Waldick Soriano - Sempre no Meu Coração" com 58 minutos, mostra o universo desse artista que passou os últimos anos no ostracismo e desistimulado. Patrícia o reergueu, o estimulou e preparou-lhe um show em Fortaleza para gravar o documentário com ótimos cenários e músicos durante 2006 e 2007. Como se Patrícia fosse intuída pelo além, misteriosamente Waldick faleceu logo depois em setembro de 2008, aos 75 anos, de um câncer que já tratava há dois anos.

"As músicas do Waldick me encantam há anos e, com o tempo, fui me apaixonando também pelo personagem que ele é. O público precisa conhecer mais sobre ele", explicou Pillar sobre a decisão de fazer o documentário.

 

 

O filme se inicia com uma visita de Waldick a Caetité na Bahia, sua terra natal (a estréia no trabalho no mundo caetitense, foi uma sensação em sessão ao ar livre na Praça da Catedral). Cansado e doente, o cantor reencontra seus velhos conhecidos e um deles grita: “O Frank Sinatra brasileiro”. A película mostra outras paragens nacionais como Quixadá, Sobral e finalmente São Paulo, onde sua carreira de fato, deslanchou. E a relação entre os dois, musa e muso, cresceu mesmo após os trabalhos se findarem. Com o apoio do marido Ciro Gomes, a atriz levou o cantor com um problema na próstata para se tratar em um hospital no Rio e fez o que pode, apesar da saúde debilitada do intérprete, acentuada pelas diabetes.

 “Eu ainda estou procurando essa tal de felicidade”, o filme termina com essa reflexão.

E pelo visto, Waldick nos deixou sem descobri-la.

 

 

Entrevista de Patricia Pillar para a repórter Monica Sanches da Globo News:

“Minha primeira vontade foi dirigir ficção, mas a história do Waldick me apaixonou de tal forma, que meu primeiro trabalho acabou sendo um documentário.”

“Quando era pequena, meus pais trabalhavam fora, meu pai oficial de marinha e minha mãe funcionária pública, tinha dois empregos, enfim,  eles passavam o dia inteiro fora. Quando eu voltava da escola, e ficava no céu com minha passadeira e minha babá, com aquele sonzinho na casa, do rádinho de pilha. Elas vibravam, cantavam tudo, mas tinha o Waldick. Não sei porque a voz dele ficou gravada para mim. Esse ambiente caloroso da área de serviço é algo que ficou guardado comigo num lugar muito gostoso. E depois de muitos anos, eu ouvi uma música belíssima do Waldick chamada “Tortura de Amor” . Eu não sabia que ele era compositor, eu era ignorante. Fui comprando os LPs antigos dele e descobri lindas canções, aquela poesia simples, mas muito tocante. Lembrei da figura dele do Chacrinha, que era uma coisa divertida ver aquele cara com chapéu preto, todo vestido de preto, com um ar de mistério e ao mesmo tempo, divertido. Fiquei pensando “Cadê esse cara?” Ele teve uma vida difícil e eu queria saber onde ele estava. Consegui marcar uma entrevista. Quando o conheci, eu fiquei tão fascinada, porque ele é um cara todo errado, um machão, um cara que fala coisas difíceis de defender. Mas ele tinha um charme, uma coisa diferente, do homem do interior do Brasil. Isso me fascinou inteiramente e encontrei um homem já velho, fazendo shows pequenos no interior, sempre com uma legião de fãs ardorosos e ao mesmo tempo tinha um ar de desamparo, mas com uma altivez linda de ver. Era um homem forte, interessante e essa personalidade difusa, onde você não entende bem onde ele está, me fascinou."

O documentário mostra a intimidade do Waldick, e até um momento difícil, delicado com o filho dele, com muita mágoa. Como você conseguiu conquistar esse homem? “Foi difícil porque ele era muito desconfiado. Ele sofreu muitas humilhações na vida, ao mesmo tempo ele era muito seguro, altivo mesmo. No início ele não me deu a menor bola. Ele parecia não ter nenhum gosto, nenhuma vontade especial de fazer aquele trabalho comigo. A relação foi melhorando aos pouquinhos, quando os pactos que a gente fazia eram todos cumpridos. Eu fui dando algumas alegrias a ele, ele foi me dando algumas alegrias, fomos fortalecendo nossos laços, baseado em muita confiança. Além do documentário, dirigi um show dele, com grandes músicos um show lindo que foi uma grande experiência pra mim. E foi um prazer poder ter devolvido essa oportunidade a ele, porque nos anos 70 ele cantava com grandes orquestras, grandes maestros, como Guerra Peixe e Pepe Ávila. Nos anos 80 começou a declinar, as vezes cantava só com um tecladinho, às vezes com a banda de outro cantor. Mesmo na época do sucesso e o que é o sucesso para nós? Ver o Maracanã lotado? Nos anos 70, o grande sucesso era ter 2 mil pessoas na platéia e isso era um grraaande sucesso. O que ele fazia era pegar o acordeonista dele, porque o disco tava estourado, pegar o carro e correr o interior do Brasil, de cidade em cidade. Quando ele chegava em um local com mais de 200 mil habitantes, ele pensava “Bem aqui deve ter um cinema”. Alugavam, anunciavam que ia ter show e assim era. O Gonzagão (Luiz Gonzaga) era assim também, só que ao invés de fazer no cinema, fazia no circo. Eles acabaram se encontrando e fizeram uma tournê juntos durante mais de um ano em circos e cinemas. Eu quis fazer um registro do que eu achava que eram os clássicos do Waldick, com uma gravação boa e foi um dos momentos lindos dessa experiência.

E a voz impressionante, mesmo no fim da vida, continuava afinada, foi ficando cada vez mais forte.
“Foi ficando com uma voz mais poderosa, voz de dinossauro. Quanto mais velho, vai ficando com uma voz mais grave. Os homens e as mulheres ficaram enlouquecidos.”

O Waldick tinha uma definição sobre ele mesmo: “Eu era considerado cafona, agora brega, mas na verdade sou romântico”. Essa é a alma do Brasil. “Sim , isso foi uma das coisas que me fascinou. Através do Waldick conseguiu tocar em alguns temas interessantes para mim. Queria falar dele, mas queria mostrar a simbiose dele com a platéia. Era impressionante e se manteve. Mesmo esquecido, morando sozinho no interior, ele fazia show para dez mil como em barzinhos bem pequeninho, era uma coisa linda, como as pessoas se identificavam com ele. No filme quis trazer esse ambiente de volta, de pessoas que sentiam a importância do Waldick na vida delas. Era uma ingenuidade, uma doçura, que é da alma, do raiz do Brasil do interior. A gente da cidade grande fica longe dos sentimentos, tem esse distanciamento, a gente fica cool, “sou superior, eu não sinto essas coisas”, se diz por aí. A cena do carro, que tem um vaqueiro bravo, que depois que toma 2 cachaças, e fica apaixonado. É lindo!”

Nesse filme do Waldick, que situação inusitada você viveu que foi fora da sua realidade?
“Uma das vezes, fui fazer um show do Waldick, e não era só dele, era uma festa brega.  Foi uma loucura, pessoas incríveis, eles cantavam muito bem, mas o visual era uma coisa do outro mundo! E a platéia enlouquecida, show para dez mil pessoas. E todo mundo ali, de alguma maneira, tinha a sua banda, a sua luz, a sua fumaça. Eu organizei tudo, mas eu tinha que sair porque eu chamava a atenção (na época, Patrícia encarnava a Flora da novela A Favorita), tinha que tentar desaparecer, esse era o meu intuito. Expliquei tudinho que eu queria para os câmeras, só que quando entrou o Waldick, ele não tinha luz, não tinha nada, então mudou tudo. Aí eu tive que sair no meio da platéia para poder redefinir tudo aquilo. Ele era meio Tim Maia naquele sentido, de marcar um show e não aparecer. As pessoas meio que já contavam com aquilo.”

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