Revista O Martelo
 
 
  

home ¥ quem somosarquivos ¥ cds e dvdsbizarro ¥ matériasentrevistas ¥ literatura


 
 
 
 


  P.O. BOX 33132, ZIP CODE 22440.970 RIO DE JANEIRO, BRASIL omartelo@omartelo.com

O culto à celebridade, embora esteja mais agressivo do que nunca (graças à proliferação dos meios de difusão), não é invenção moderna: o chamado star system é parte indissociável do cinema norte-americano desde que se foi descoberta a potencialidade da sétima arte enquanto indústria, assim como o de incisiva difusora do american way of life ao redor do globo. Fazia-se necessário ao cinema ianque contar com porta-vozes de estampa, que seriam os veículos não só da mensagem das películas junto ao público, facilitando a absorção de trama/enredo através da relação empática do espectador com a vivência encenada na tela, como também marcas confiáveis, verdadeiros cabides de si mesmos para usufruto dos contratantes e divulgação do “produto” (assim como deve ser todo empreendimento made in USA, é obrigatório que mesmo as obras artísticas se cerquem de um aparato que conjugue os obrigatórios mantras do retorno financeiro e da publicidade massiva). Com o tempo, adaptações tornaram-se inevitáveis (uma vida desregrada passou a funcionar como propaganda, afrouxaram-se as regras em relação ao visual, etc.), mas o astro permaneceu a mola propulsora de um filme nessa relação com o grande público, que busca no cinema escape e identificação. E a dinâmica de ascensão e queda da fama vira e mexe torna-se assunto na ficção, já que oferece não só material para o desenvolvimento de obras dramáticas ou sátiras, mas também a possibilidade sempre revigorante da autocrítica, em um meio tido como voraz e inclemente.

 

Um dos mais conhecidos filmes a expor o “outro lado” do sistema de estrelas norte-americano é Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard, 1950) do austríaco naturalizado estadunidense Billy Wilder. Logo na primeira cena, a da estrada vazia em algum lugar de Beverly Hills que nos leva ao corpo de Joe Gillis (William Holden) boiando na piscina de um casarão, já nos adianta que veremos, nas próximas duas horas, o glamour tornar-se patologia hedionda. Corporificada na relação entre Gillis, roteirista de filmes menores e arremedo de escritor que encontra Norma Desmond (atuação sublime de Gloria Swanson), atriz decadente que fez de sua clausura um simulacro que eterniza seus dias de glória, e desse homem mais jovem o arrimo de seus caprichos e espelho de sua agora inescapável mediocridade, estava a relação de promiscuidade entre quem aparecia nos filmes e quem os vendia. A metalinguagem acrescenta charme e talvez até impacto extra à obra (o fato de Swanson ser praticamente o que Norma Desmond era; a presença de Erich Von Strohein, diretor que, assim como a atriz, não havia sido bem-sucedido tanto na assimilação das novas técnicas quanto no jogo dos bastidores; a participação de Cecil B. DeMille e a utilização dos estúdios da Paramount como locação, etc.), mas é a escavação entre os escombros da parte lateral de Hollywood, de vidas vazias que flutuam entre a negação do fracasso e a espera de uma nova (ou única) chance dentro do show bussiness, a verdadeira força dessa obra-prima dos anos 50.  
Talvez a visão de Wilder enquanto europeu, o outsider mordaz que enxerga de fora os desvãos do estilo de vida norte- americano, tenha sido determinante no resultado final – mas o que mais impressiona nesse autêntico clássico, além de sua impecável progressão dramatúrgica (coisa de mestre), é ter sido produzido no seio da própria indústria criticada, aquela que tornou-se um paradigma do capitalismo de resultados norte-americano e seu culto ao sucesso, em época que a pauta era construir sonhos a qualquer custo, dentro e fora da tela, sem demonstrar um pedacinho sequer dos alicerces de sua edificação. Sem decadentismo deslumbrado, e até mesmo com certa dureza, afirmava que a autofagia do sistema precedia a si mesma, que o modelo não faz distinção entre o mediano em busca de uma grande chance (Gillis) e a diva talentosa (Desmond), que isso é parte inerente ao processo. Ser talentoso ou carismático já não era suficiente: era necessário saber fazer política ou estar assessorado por quem entendesse do assunto, para sobreviver na indústria dos estúdios (“os filmes tornaram-se pequenos”, diz a frase mais famosa de Crepúsculo...). Desmond vivia em estado de paranóia, representava havia tempo o próprio papel para a platéia mais diminuta (si mesma); ainda assim, acreditava poder readequar-se – só que o jogo de forças proposto desde o início do filme era o da atração ao ignominioso, à catástrofe, ao vácuo. A tragédia enfim desenha-se quando Desmond apaixona-se pelo roteirista, e vive, depois de tanto tempo, um frustrado amor não-narcisista – e assim ela, em total desequilíbrio no último plano da película, após matar um Gillis com acesso de lucidez, torna-se definitivamente o fantasma que era há tempos.

 


O nova-iorquino Martin Scorsese, por sua vez, resolveu voltar suas lentes para um mundo exterior ao do cinema, mas cuja mecânica é derivada deste – o da televisão. O protagonista de O Rei da Comédia, Rupert Pupkin (Robert De Niro, em forma extraordinária) é um aspirante à comediante stand-up, trintão, inconveniente e que ainda mora com a mãe; e que não acalenta o desejo de passar pelos clubes noturnos, o habitat natural desse gênero de humor, mas sim já vai direto ao assunto: quer apresentar um “número” no popular programa de Jerry Langford (Jerry Lewis). Pupkin não deseja ser reconhecido como grande piadista: sua real motivação é a fama instantânea que a TV proporciona. Não trabalha seus esquetes, os cria rápida e toscamente no porão de casa, contando unicamente com um gravador e seu próprio (e limítrofe) julgamento. Sabedor de que, devido a sua condição de loser, não será poupado dali para frente até mesmo por si, não aceita ser recusado pelo apresentador: com a ajuda de uma deliróide fã de Langford que se diz apaixonada por ele (Sandra Bernhard), empreende um atabalhoado plano de seqüestro, no qual o resgate, batata, seria o tão sonhado espaço no programa. Na condição de criminoso, ele vê o seu sonho de celebridade midiática enfim satisfeito. Continua a ser peça de chacota e artista medíocre, mas mesmo isso serve a seu favor. Como nos regimes totalitários, os fins justificaram os meios – e o que deveria ser uma sátira a indústria cultural assume um vulto sombrio e assustador.


Tranqüilamente um dos melhores filme de Scorsese, e talvez o que tenha o trabalho formal mais discreto (a característica montagem frenética de sua parceira Thelma Shoonmaker, por exemplo, está sob total controle), O Rei da Comédia, é mais uma de suas crônicas do “lado B” da cidade de Nova York, e que traça um paralelo entre a ascensão artística e o imediatismo yuppie que tomou conta da Big Apple nos anos 80, essa década tão discutida quanto definitiva na sedimentação do modus vivendi moderno (e talvez a última de nosso tempo com uma estética e aspectos comportamentais plenamente reconhecíveis). Pois, se em Crepúsculo dos Deuses falava-se em derrocada, aqui mostra-se os mecanismos de ascensão; se o primeiro faz da glória a sua real tragédia, o segundo busca na drama mundano a chave para sua acidez. Assim como Norma Desmond, Pupkin vive em delírio e isolado do mundo exterior; mas é, ao mesmo tempo, alheio ao jogo do sucesso e fascinado por ele. Submeter-se (até mesmo se para isso forem necessários atos de crime) não importa, conquanto sua falta de um maior talento, e latente desespero em “dar certo”, em “mostrar capacidade”, não o permita grandes exigências. Jogar sujo também é parte do esquema, pode ser até mesmo um valor. É um filme premonitório, pois pressentia os sintomas e antecipava o vale-tudo contemporâneo em busca da fama a qualquer custo (vide reality shows, para citar exemplo óbvio, entre tantos outros). E ainda fala por nós, brasileiros, nesse momento em que as comédias stand-up viraram a tábua de salvação para muito humorista sem-graça e/ou falido por aí...

 

 

 

VOLTA AO TOPO