Revista O Martelo
 
 
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Aborto é a interrupção da gravidez pela morte do feto ou embrião, junto com os anexos ovulares. Pode ser espontâneo ou provocado. O feto expulso com menos de 0,5 kg ou 20 semanas de gestação é considerado abortado.

A cada ano, 20 milhões de abortos induzidos são realizados em todo o mundo, em condições inseguras, levando à morte 68 mil mulheres.  97% delas acontecem em países em desenvolvimento.  Apenas 26% dos países do mundo ainda não descriminalizaram o aborto. Todos eles são da América latina, África e Ásia. Nos países em desenvolvimento, os gastos com tratamentos para mulheres que fizeram abortos inseguros são da ordem de US$ 500 milhões.

No Brasil, o aborto foi considerado crime em 1940 (Código Penal Brasileiro), sendo permitido apenas para gravidez resultante de estupro e em caso de risco de vida da gestante. Esta lei ainda está em vigor. Estima-se que ocorram um milhão de abortos inseguros no Brasil anualmente. O aborto inseguro no país está entre as maiores causas de mortalidade. Estima-se em 200 mortes por ano.

Atualmente, o principal projeto que propõe a descriminalização é o Projeto de Lei 1135 de 1991, que tramita há quase 2 décadas na Câmara dos Deputados. O projeto foi rejeitado em 2007 e 2008 por duas comissões devido à sua constitucionalidade e mérito. Os principais opositores do Projeto alegam motivos religiosos. Em 2005, o Ministério da Saúde implementou a Política Nacional de Planejamento Familiar como opção para prevenir a gravidez indesejada.

Na Cohab, em Cidade Tiradentes em São Paulo, a maioria dos moradores é formada por pobres e negros. Há um índice de gravidez na adolescência, a partir dos 11 anos de idade na Cohab maior do que todo o Estado de São Paulo, cujo índice é de quase 23 %.

O governo brasileiro se comprometeu desde 1994 no Cairo e 1995 em Beijing, em conferências da ONU a revisar as leis punitivas contra mulheres que praticam o aborto.

O aborto pode causar dor em fetos ainda pouco desenvolvidos, acreditam pesquisadores do Hospital Chelsea, em Londres. Segundo a responsável pela pesquisa, Vivette Glover, fetos podem ser capazes de sentir dor já a partir da décima-sétima semana de gestação. Por isso, segundo ela, os médicos britânicos estudam a possibilidade de anestesiar o feto durante intervenções para interrupção da gravidez. O estudo contraria a versão da entidade que reúne obstetras e ginecologistas do Reino Unido, o Royal College of Obstretics and Gynacologists. Para a organização, só há dor depois de 26 semanas. "Existem evidências de que o sistema nervoso se desenvolve a partir de 20 semanas de gestação ou talvez até depois de 17 semanas. Já que há a possibilidade de dor, nós deveríamos dar ao feto o benefício da dúvida", diz Vivette Glover, que defende a utilização de anestesia. Ela pondera, porém, que a dor dos fetos é provavelmente menos intensa. A teoria ganhou apoio de entidades contrárias a realização de abortos.

"É mais uma prova de que a vida humana começa no momento da concepção", diz Kevin Male, da organização britânica Life.

O filme “Fim do Silêncio” de Thereza Jessouroun, sobre a questão do aborto exibe depoimentos sinceros de mulheres brasileiras de todos os Estados e classes sociais.  As declarações são honestas, cruas e chocantes, como não poderia deixar de ser. Em algumas delas, fiquei impressionado pela crueza, pelo argumento prático e cruel, e em outras houve um alto grau de emotividade.

A prática do aborto seja qual for o motivo, é geralmente motivado por motivo fútil, e é praticado abertamente em todo o país, em vários lares com um remedinho comprado em farmácia ou na mão de irresponsáveis. Nos vários depoimentos da película, fica claro que a mulher opta pelo aborto por uma questão econômica e social. Tanto porque não tem como (ou não quer) criar, como não quer ter vínculos eternos com parceiros casuais.  A conclusão geral do filme, e ele te induz a isso, é que o aborto deve ser legalizado, para dar melhores condições médicas e psicológicas à população e que talvez, até mesmo diminua o índice de abortos. Mas há muita coisa em jogo, principalmente a questão religiosa.

O filme me tocou tanto, que optei por transcrever os depoimentos e não julgá-los. Este assunto é tão delicado, que minha análise de nada vale se você, leitor, não ler as declarações.

Este é um assunto que gera muito conflito, e que também é focado com muita hipocrisia.  

 

“Engravidei de um namorado, nunca achei que fosse acontecer comigo. Fiz o aborto em uma clinica diferente, pois estava sem dinheiro. Um mês depois, comecei a ter sangramento que ficou muito forte. Nunca tinha ficado daquele jeito. Meu namorado conseguiu uma internação em um hospital da rede pública. Fiquei em uma enfermaria sangrando, sangrando muito. Me lembro que saíram uns pedaços de sangue, uma coisa horrível. Entrei no final da tarde no hospital, na noite que passei lá não me deram nenhum remédio, nenhuma médico me atendeu e eu ouvi um comentário absurdo: “Ela fez um aborto, deixa ela aí, ela tem mais que sofrer para saber o que fez”. Só no dia seguinte fizeram uma curetagem. Senti na pele que você é olhada diferente porque as pessoas sabiam que eu fiz um aborto, mas isso é muito surreal, porque se a sua vida está em risco, por causa disso a pessoa não precisa de ajuda? O ser humano procura se humanizar, e para isso devemos controlar o nosso lado animal. Se podemos ter filhos planejados, crianças mais amadas, teremos uma humanidade melhor. Vemos muitos filhos abandonados à própria sorte.  Como assim eu não posso dizer se é bom para mim ou não ter um filho? É muito cruel, fica tudo nas nossas costas. Por que ter um filho de uma relação que não é estável ? A carga é muito maior mesmo que você divida. O filho saiu do seu corpo. A sua responsabilidade como mulher é maior. Há muita dificuldade de dividir. Quantos pais sabem trocar uma fralda? E é a mulher que amamenta, você tem que abrir mão de muita coisa e é aí que eu acho que é uma questão que diz respeito à sociedade, sim.  A mulher tem capacidade de decidir. O Estado deve e pode agir para ajudar a mulher  a exercer sua capacidade reprodutiva com responsabilidade só que é tão mais barato ter a mulher para fazer isso para o Estado de graça, né? ”
(Liliana – secretária - Nova Iguaçu – Rio de Janeiro)

“... passei 26 anos, casada, amava muito meu marido, um amor muito grande, mas com muito sofrimento, traições e espancamentos. Ele me cobrou o aborto para que eu continuasse com ele. Não fui inocente, me colocaram na maca, mandaram que eu tomasse uma injeção na farmácia da esquina. No dia seguinte, a bolsa estourou e fui para o hospital. O médico me perguntou se era aborto provocado, eu neguei, mas eles perceberam e me colocaram no isolamento. Ele disse que eu estava infectada. A bolsa estourou, comecei a gritar e a enfermeira veio. Vi a criança na cama, ela tinha saído. Passei mais 5 dias internada. Por ser cristã, nunca quis tirar o filho, mas tive que fazer a escolha, a gente sempre tem que fazer a escolha. Sou a favor da legalidade do aborto. Hoje já não vivo mais com esse homem graças a Deus.”
(Irani – promotora popular de Recife)

“ Tenho 5 filhos, 3 meus e 2 eu criei. 2 meninas são filhas do meu ex-marido, uma delas foi filha de uma relação anterior e a outra nasceu de um namoro dele, desses descaminhos e eu a adotei com 9 meses de idade. Fiz um aborto sim, mas foi uma fatalidade. Eu e meu marido tínhamos brigado. Comecei a trabalhar, conheci uma pessoa e engravidei. Voltei para o meu marido, mas ele não me aceitou grávida, eu optei por tirar. Fiz em uma clínica mas a pessoa não era médica, ela me injetou um medicamente a base de iodo, se não fosse iodo puro. Fiz o aborto em casa ao meio dia, uma hora da tarde e quase morri. Só senti as dores às dez da noite e passei a noite inteira com uma dor terrível pior do que a dor do parto e a criança foi expelida às 6 da manhã. Tomei banho de acento, massageando a barriga com água quente até sair a placenta, aí passou a dor. Fiz tudo sozinha porque eu tinha medo de ir em um hospital e ser presa, fiquei mais amedrontada. Tem o caso de uma amiga, uma colega de trabalho, que engravidou e ela tomou muitos chás, ela começou a passar mal, com hemorragia. A levei no hospital, ela se escondeu, me disseram que fizera transfusão de sangue, até que ela passou mal de vez. Ela foi para o hospital sozinha. Quando cheguei para trabalhar vi que no nosso banheiro tinha um pacote no local onde colocamos os shampoos. Coloquei a mão e notei que o pacote estava quente. Estava embrulhado em um plástico. Quando abri tinha os fetos embrulhadinhos (começa a chorar), eu fiquei sem saber que fazer, mas eu também pensei nela. Amarrei bem os sacos e coloquei na lixeira do prédio.”
(Vera Lúcia. Diarista. Belford Roxo – Baixada Fluminense)

“Nunca quis ter filhos, nem pretendo, meu marido também não quer e nós só estamos juntos por causa disso. A sociedade cobra que a mulher tenha filhos, mas a mulher não precisa de um filho, para se completar, ela já nasce completa. Eu tinha 19 anos, e usava camisinhas, mas numa fatídica noite a camisinha estourou. Fiz o aborto sabendo que foi algo que eu poderia ter evitado. Uma amiga me falou que  tinha feito a raspagem, mas ela ficou horrorizada não só pela dor, mas pelo ato em si. Aquilo me deixou apreensiva e eu preferi fazer em casa. Era mais ou menos 2 remédios que tomei a uma da tarde, não sei se era o procedimento correto, mas foi uma sensação de alivio quando desceu, tirei um peso das costas. Hoje te digo: um filho não cabe na minha vida, meu marido faz parte dela, mas um filho não.”
(Luciana – Editora Gráfica - Diadema, São Paulo)

“Fiz com 16 anos. Não podia ter e nem falar com minha família. Fui tomar o remédio cytotec (misoprostol), tomei um e injetei outro, sozinha e parei no hospital. Fiquei internada dois dias para fazer a curetagem. O feto estava morto dentro de mim. Não foi difícil, não vou ser hipócrita, eu era adolescente, não tinha nem noção disso. É claro, a gente é mulher, ferra mesmo o seu psicológico, mas só cai a ficha quando você cresce e tem um filho. O que eu queria era resolver imediatamente a situação. Não é uma coisa boa, legal, mas milhões de mulheres morrem por causa disso. Perdi uma conhecida agora, fazendo aborto em uma curiosa. Não é todo mundo que tem dinheiro para fazer em uma clínica. Como acusar alguém de ser uma assassina, se você não está na pele dela? A gente encontra criança no lixo, entendeu? No Brasil, ninguém te dá estrutura de vida, não te apoia e ainda te proíbem de fazer. Que respaldo o Estado tem para decidir sobre a sua vida? Difícil é ter acesso a um anticoncepcional, colocar um DIU, e nem tem camisinha em posto. E para quem está do outro lado? A mulher hoje é chefe de família, tem que pensar. Se você engravidou, ora, corre atrás. Eu quero tirar, é uma opção minha, é minha vida, é meu corpo.
(Maya – recepcionista – Centro do Rio de Janeiro)

“Minha primeira gestação foi desprevenida. Engravidei com 19 anos e com 5 meses de gestação soubemos que o bebê tinha anencefalia (obs: este aborto também é considerado ilegal. Está em análise no Supremo Tribunal Federal, um ação que visa a garantir o direito à antecipação do parto de fetos anencéfalos). Me recomendaram tirar e o pessoal da empresa  me ajudou a interromper a gravidez, eles me deram o suporte. Entramos na justiça, conseguimos uma liminar, eu já estava com 7 meses, levou mais de 2 meses para conseguir a liminar. Precisa ter muito conhecimento, as vezes precisa pagar uma propina para ser liberada. Se eu não tivesse ajuda da empresa, não teria conseguido. Só o advogado deu uns 3 mil reais, fora as outras despesas no decorrer do processo. A bolsa estourou, foi muito rápido, e ocorreu quando estava sozinha. O neném tinha 320 gramas, eu o peguei para ver o que eu tinha feito: era um menininho,  ele não tinha a parte encefálica, a parte da sombrancelha. 5 anos depois fiquei grávida e novamente o bebê tinha anencenfalia. Mas agora estou mais madura, preferi ter a criança. Sei que ele pode nascer e morrer algumas horas depois, é doloroso mas tomei essa decisão.”
(Vanessa – Assistente Administrativa - Santo André – São Paulo)

O bebê de Vanessa nasceu 20 dias depois desta entrevista e viveu apenas 14 horas.

“ Fiz em 1998, tinha 20 anos foi do meu primeiro namorado. Foi uma experiência bem difícil, sou de uma família católica, fiz primeira comunhão etc.  Não pude contar para a minha mãe. A minha ginecologista me perguntou se eu ia tirar o bebê  e a mãe do meu namorado disse: “Ih! Tira essa mosquinha logo, eu tirei 15!” Eram visões muito extremistas, de cada lado, não gostei nem de uma nem de outra. Quando você engravida, ali tem um pedaço de você, o que mexe muito contigo. Imagina se com 20 anos, começando a faculdade eu ia ter um filho? Decidi que não, e foi muito caro, acho que custou uns mil reais. Mas fiz da forma certa, com segurança. No meu circulo de amizades, meus primos, todo mundo fez e teve que desembolsar uma grana pesada.”
(Carolina – jornalista – Zona Sul do Rio de Janeiro)

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