EDIÇÃO 24
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Blue notes? Ragtime? Dixieland? Swing? Síncopes? Polirritmias? Apenas música de músicos para músicos? O jazz é um estilo musical tão rico, tão cheio de possibilidades, que ele é praticamente inesgotável. Mais do que contar o que é e como se formou o estilo, contaremos as histórias de 5 mestres, “cobras criadas” lançadas em CD no Brasil pela Music Brokers pela série The Timeline Series: Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Miles Davis, Billie Holiday e John Coltrane.
John Coltrane (1926 – 1967) é o cara, apenas isso. O rei do saxofone teve ídolos, se inspirou em trabalhos de outros grandes artistas, mas como o superb guitarrista americano Jimi Hendrix, que não criou a guitarra mas que era a guitarra, Coltrane era o próprio sax (tenor ou soprano), o maior dos saxtenoristas. Como o próprio Hendrix, citado aqui, e como todo negro ou trabalhador – Coltrane foi educado nas igrejas evangélicas, tocou em big bands, até encontrar abrigo no grupo do inquieto Miles Davis (participou de discos como Cookin', Relaxin', Steamin', Workin', Milestones e Kind of Blue), porém como nem tudo que reluz é ouro, deixou-se viciar em heroína, apesar de ser religioso. Milles teve que demiti-lo e recontratá-lo na metade dos anos 50, sem que o problema se resolvesse. O próprio Miles era viciado, aí ficava difícil. Em 1957, Coltrane gravou pela primeira vez, já como líder e três anos mais tarde, deixaria Miles de vez. Com os músicos McCoy Tyner (piano),Jimmy Garrison (contrabaixo) e Elvin Jones (bateria) Coltrane desenvolveu um estilo absolutamente próprio, onde predominavam as chamadas “camadas de som”, que se compunham de longas frases de notas rápidas tocadas em legato. Daí Coltrane radicalizou: desconstruiu a harmonia e a melodia chegando quase à atonalidade entre 1960 e 1965, em uma banda que mudou a história do jazz, atingindo o ápice com a suíte em quatro movimentos “A Love Supreme”. Nesse mesmo ano, tornou-se praticamente o precursor do free jazz ao tocar com o baterista Rashied Ali e os saxtenoristas Archie Shepp e Pharoah Sanders. Sua esposa, a pianista Alice Coltrane, também o acompanhou nessa fase. Tudo em família. O disco Ascension é a cereja do bolo, já bem desvinculado da harmonia tonal. Coltrane, como Hendrix, optou por se queimar na chama da criação. Religioso, entre 65 e 67, Coltrane impregnou sua arte de misticismo, mas também misteriosamente o músico morreu repentina e prematuramente, em 1967, aos 40 anos, de câncer no fígado.
A cantora norte-americana Billie Holiday (7 de Abril de 1915 / 17 de Julho de 1959) faz parte da história do jazz e do blues, como Deus faz parte da criação do mundo. O apelido "Lady Day" pertencia à mãe de Billie e como se acredita, não foi criado pelo saxofonista-tenor Lester Young. Para entendê-la, talvez seja necessário recorrer aos ídolos da moça: Louis Armstrong e Bessie Smith e de fato curvar-nos às suas interpretações de “Fine And Mellow”, “The Man I Love”, “Summertime”, “Night And Day”, “Georgia On My Mind”, “Fooling Myself” e “A Fine Romance”, insuperáveis. Estuprada aos dez anos, Billie foi enviada para um reformatório por ter “seduzido” seu estuprador, e com 14 anos foi presa por prostituição. Determinada a encontrar trabalho como dançarina ou cantora no bairro do Harlem, Bessie se mudou para Nova Iorque em 1928, onde começou a trabalhar no clube Log Cabin de Jerry Preston no qual levava a plateia às lágrimas graças às suas interpretações. Descoberta em outro clube pelo produtor de jazz John Hammond em 1932/1933, e com apenas 17 anos, Holiday debutou em um estúdio na descompromissada gravação de "Your Mother's Son- in-Law" com a orquestra de Benny Goodman para a gravadora Columbia. Em 1935, ela gravou com a banda de Teddy Wilson e no ano seguinte já usava o próprio nome Billie Holiday. Já não era mais qualquer uma: Billie Holiday era o seu nome. Excursionando em 1937, com a orquestra de Count Basie, Holiday se tornou uma das primeiras cantoras negras a se apresentar à frente de uma orquestra branca, como a do clarinetista de jazz Artie Shaw, já no ano seguinte. Regularmente, era vítima de racismo, o que prejudicava as tournês (ela não podia dormir em determinados locais, não podia utilizar os banheiros, não podia comer, etc.) e por isso a vocalista deixou Shaw, após ser impedida de entrar pela porta da frente do clube. Billie voltou a Nova Iorque e à sua carreira solo nos antigos clubinhos. Como cala-boca momentâneo, ela apareceu em um pequeno papel no cinema... como empregada.
Bille gravou a canção "Strange Fruit", sobre o linchamento de negros no sul do país, e horrorizou os executivos da Columbia em 1939. A faixa foi banida em muitas rádios, em um momento da história no qual não se considerava racismo um mal. O perverso, na cabeça desse povo, era a negra sensual que cantava blues sobre preconceito e não o negro que apanhava. Isso sim, era prejudicial à moral e aos bons costumes. Billie prosseguiu cantando em gravações arrepiantes como "St.Louis Blues", "My Man" e "God Bless the Child” (um grande sucesso de 1941). O mesmo racismo que a levou ao alcoolismo e às drogas, talvez a tenha conduzido à morte antecipada, é o que muitos historiadores e fãs suspeitam. Isso sem contar os relacionamentos com homens desrespeitosos. Billie assinou com a Decca em 1944 para gravar “Lover Man,” uma canção escrita para ela, que tornou-se o seu terceiro grande sucesso, o que permitiu que as produções fonográficas se tornassem mais caprichadas, destacando “'Ain't Nobody's Business If I Do”, “Them There Eyes” e “Crazy He Calls Me”. Na metade dos anos 40, foi presa por envolvimento com drogas, até que em 1947, ela mesma pediu para ser presa. A detenção durou um ano e um dia. Dez dias após sua liberdade, ela se apresentou no Carnegie Hall, mas logo em seguida foi proibida pela polícia de se apresentar em locais onde fosse servida bebida, o que a impediu de trabalhar na cidade. Gravando no selo Verve de 1952 a 1957, essa fase marcou a mudança de sua voz, visivelmente desgastada por anos de abuso, mas foi nesse período que ela mais gravou canções dos mestres americanos como Cole Porter, George Gershwin e Rodgers e Hart. Para muitos, a fase Verve é especialíssima, período no qual a sua expressividade e comunicação com o público atingiu o ápice. Sua última apresentação ocorreu no Teatro Phoenix em Nova Iorque em 25 de maio de 1959. Billie faleceu no hospital Metropolitan na mesma cidade no dia 17 de julho em consequência de complicações nos pulmões agravadas por um ataque cardíaco.
Ella Fitzgerald venceu 14 prêmios Grammy em 59 anos de carreira. É pouco? A norte-americana Ella Jane Fitzgerald (Newport News, 25 de abril de 1917 — Beverly Hills, 15 de junho de 1996) a First Lady of Song) tinha uma extensão vocal de três oitavas, um must. Durante sua juventude Ella queria ser uma dançarina, embora gostasse de ouvir as gravações de Louis Armstrong, Bing Crosby e The Boswell Sisters. Ella idolatrava a cantora Connee Boswell, e a imitava. Em 1932 quando a mãe da futura cantora morreu, ela deixou de frequentar as aulas e foi trabalhar como vigia em um bordel, e numa casa de apostas filiada à máfia. Foi presa e enviada a um reformatório, de onde fugiu, para viver na rua, até ser internada no Asilo de Órfãos de Cor em Riverdale, no Bronx, Nova York. Ella estreou como cantora aos 17 anos, em 21 de novembro de 1934, no Teatro Apollo, no Harlem. Originalmente ela pretendia dançar, porém, intimidada pelas Edward Sisters, uma dupla de dançarinas, optou por cantar no estilo de Connee Boswell. Ao interpretar "Judy", de Boswell e "The Object of My Affection", das Boswell Sisters, Ella conquistou o prêmio principal, de 25 dólares. Em janeiro de 1935, Fitzgerald conquistou a oportunidade de se apresentar por uma semana com a big band de Tiny Bradshaw, na Harlem Opera House e começou a cantar com a Orquestra do baterista, e líder de uma banda, Chick Webb e ao morrer, a orquestra mudou o nome para Ella Fitzgerald and her Famous Orchestra, com a qual fez 150 gravações. Em 1941 casou-se com Benny Kornegay, um traficante de drogas condenado. O casamento foi anulado após dois anos. Em 1942, assinou com a Decca, no período do declínio das grandes bandas. O advento do bebop provocou uma alteração no estilo vocal de Ella, altamente influenciado pelo trabalho que havia feito com a big band de Dizzy Gillespie. Foi neste período que Fitzgeraldd começou a incluir o scat como uma das marcas registradas de seu repertório.
Em 1955, o seu empresário Norman Granz criou o selo Verve para Ella para que cantasse obras de compositores americanos como Cole Porter e Gershwin. Assim, o grande público a conheceu. Em 1963, a Verve Records foi vendida por três milhões de dólares à MGM, que não renovou o contrato de Fitzgerald. Nos próximos cinco anos ela alternou trabalhos entre a Atlantic, Capitol e a Reprise. Seu último compacto de sucesso nos Estados Unidos, foi "Get Ready", de Smokey Robinson (gravada também pelos Temptations e pelo Rare Earth).
O sucesso do álbum Jazz at Santa Monica Civic de 1972, fez com que Norman Granz criasse a gravadora Pablo, e Fitzgerald gravou cerca de 20 álbuns para o selo. Ella in London de 1974 com o pianista Tommy Flanagan, Joe Pass na guitarra, Keter Betts no baixo e Bobby Durham na bateria, é considerado um dos melhores. Porém, sua fase na Pablo documentou o declínio de sua voz. Atormentada por problemas de saúde, Ella fez sua última gravação em 1991, e sua última apresentação ao vivo em 1993. Já afetada pelos problemas de visão causados pela diabete, Ella Fitzgerald teve suas duas pernas amputadas no mesmo ano. Ella desencarnou em 1996, em Beverly Hills, Califórnia, aos 79 anos de idade.
Duke Ellington (Edward Kennedy Ellington), nascido em 29 de abril de 1899, é um dos maiores músicos e compositores de jazz. O apelido de duque (Duke) se deve à sua nobreza e ao fato de estar sempre bem vestido. Tinha enormes olheiras, como consequência de muito pouco sono, por causa de seu receio de que suas ideias para novas composições se perdessem. Ellington é o criador do jungle style (estilo da selva), no qual os metais da orquestra mandavam ver. O trompetista Bubber Miley, que inaugurou esse caminho “selvagem”, também sedimentou o estilo, durante o período em que Ellington tocou no renomado Cotton Club, entre 1927 a 1932, e o estilo “selvagem” nasceu da necessidade de fazer o público dançar.
O estilo de piano de Ellington era do tipo ragtime. O seu primeiro conjunto em 1922 foi um quinteto com o baterista Sonny Greer e o saxofonista Otto Hardwicke. Em sua biografia "Music is My Mistress" (A Música é Minha Amante), Ellington conta que ele e seus quatro músicos chegaram a dividir uma salsicha como jantar. Duke regeu orquestras e fez arranjos de obras dos grandes clássicos, como Mozart, Schubert, Bach, e Brahms. "A orquestra é o meu instrumento", costumava dizer. Nos anos 1920, mudou-se para Nova Iorque, onde viveu a sua fase áurea. Os concertos no Carnegie Hall foram memoráveis, em especial a suíte "Black, Brown and Beige", de 1943, inspirada na história da América negra. Boa parte de suas mais famosas composições foi construída a partir de melodias improvisadas pelos seus músicos. Entre suas obras destacam-se quatro álbuns feitos com a colaboração de seus melhores solistas: "The Blanton - Webster Band", "Black, Brwon and Beige" e "The Duke's Men". Nos anos 1960 e 70, fez várias turnês internacionais, do Japão à América Latina. A orquestra veio ao Brasil, em 1968 e 1971. Além dos concertos sacros, fez nesse período as trilhas dos filmes "Anatomia de um Crime" e "Paris Blues". Ele se apresentava para todos os públicos, do povo, à Rainha Elizabeth II e ao presidente Nixon. O Duque foi condecorado pelo governo dos Estados Unidos com a maior honraria civil, a Medalha Presidencial da Liberdade. Quando o maestro se preparava para a festa de 75 anos (em 1974) foi hospitalizado com câncer e seu estado de saúde se agravou, vindo a falecer um mês depois.
Por mais de 40 anos, Miles Davis (26/05/1926, Alton - 28/09/1991, Santa Monica, Estados Unidos) reinventou o jazz. Além de participar do bebop, foi o fundador do cool jazz. Enquanto o bebop tinha como ponto forte a composição e o improviso, o cool jazzcaracterizou-se por formações maiores que permitissem arranjos orquestrais. Miles participou também do jazz modal, do jazz-rock e da fusion, ou acid jazz. O som de seu trompete foi único. Poucos músicos conseguiram usar momentos de silêncio em seus solos como Dewes Miles Davis Jr. Quase sempre sem vibrato (efeitos de oscilação do som) e com o uso da surdina, tocava frases musicais curtas de forma macia. Com sua arte foi construída uma obra jazzística vasta, desbravadora e lírica.
A parceria com o arranjador Gil Evans possibilitou um início de carreira marcante, a partir de 1948, e prosseguiu no decorrer da década de 1950. Com influências variadas, o som da Miles Davis-Capitol Orchestra surpreendia pela estruturas elaboradas e sofisticadas. Ao mesmo tempo, Miles já explorava em 1949 o estilo cool jazz. Em 1956, ele passou a reunir bandas com várias formações históricas. Entre os talentos liderados por Miles nesta fase, se destacaram os saxofonistas John Coltrane e Cannonball Adderley, o pianista Red Garland, o contrabaixista Paul Chambers e o baterista Philly Joe Jones. Uma de suas obras-primas nesse período foi o álbum "Kind of Blue", de 1959. Já no início dos anos 1960, Miles explorou o jazz modal. Com combinações harmônicas mais livres do que a harmonia tonal tradicional, o improviso levou mais em consideração os acordes do que a melodia. Paralelamente, retomou a colaboração com Gil Evans para gravar com orquestra. Em 1964, a banda passou por uma grande renovação, com George Coleman ao sax tenor, o piano de Herbie Hancock, Ron Carter ao contrabaixo, o adolescente Tony Williams à bateria, e o talentoso compositor Wayne Shorter no sax tenor. Miles grava shows ao vivo no Plugged Nickel Club, de Chicago, que foram considerados a chave do jazz moderno. No final dos anos 60, Miles se dedicou a fundir jazz e rock. O jazz-rock nasceu, assim, com o revolucionário álbum duplo de 1969, "Bitches Brew". Essa fase durou até 1972, quando o músico afrontou ainda mais os puristas do jazz ao se aproximar do funk e do hip-hop. Nos anos 1970 e 1980, o acid jazz misturou rap e dance music sem descambar para o som comercial.
Uma face pouco conhecida de Miles Davis foi a de artista plástico, embora tenha levado exposições bem recebidas pela crítica na Europa, em Nova Iorque e no Japão. Davis exibiu-se no Brasil em 1974 e em 1986, no Free Jazz Festival. Entre 1976 e 1981 passou uma temporada afastado dos palcos por causa do consumo de drogas, particularmente heroína. Várias de suas doenças, entre problemas pulmonares, circulatórios e diabetes foram atribuídos a esse vício por seus amigos. Ele mesmo admitiu seu estado precário de saúde, em sua última entrevista, no jornal francês "Le Monde", em junho de 1991. Morreu três meses depois, de infarto, pneumonia e deficiência respiratória.
Pesquisa: Wikipedia e Miles Davis (reprodução do texto da UOL educação)
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