Revista O Martelo
 
 
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J. Carlos ou José Carlos de Brito e Cunha (1884-1950), de família tradicional do bairro de Botafogo no Rio de Janeiro, começou a carreira de desenhista com 16 anos. Faleceu devido a um acidente vascular cerebral, vulgo AVC, a 2 de outubro de 1950 com a marca imbatível de cem mil trabalhos publicados.
As reproduções desta matéria são do livro “J. Carlos contra a guerra” (2000), selecionados dentre os milhares de trabalhos do desenhista publicados na revista semanal carioca “Careta” do jornalista Jorge Schmidt.  Os textos do livro são do jornalista Arthur Dapieve.

O livro em questão enfoca os trabalhos do mestre influenciados pelos dois grandes conflitos do século XX: a Primeira Guerra (1914-1918) e a Segunda (1939-1945) nas quais setenta milhões foram aniquilados. Ambos os conflitos foram cobertos para o mesmo veículo, a revista Careta, da qual Carlos participou desde o número inaugural em 1908. Lá permaneceu até 1921 quando partiu de mala e cuia para a concorrente O Malho, para retornar à casa em 1935. Seu estilo, inimitável, é composto por firmes e longíneos traços feitos à nanquim.

O método de reprodução era no mínimo curioso (para os padrões de hoje): o desenho era reproduzido em uma placa de metal (o clichê) em relevo e em uma versão negativa, cujos pontos, marcavam o papel. As cores eram decididas pelo próprio artista após o clichê voltar da oficina, que as assinalava com “pinceladas aguadas”. O chefe da oficina transformava essas indicações em cores, optando por fundos chapados (lisos) ou reticulados (meio-tons) em três clichês, além do preto: magenta (vermelho), amarelo e azul.  A capa era produzida com 4 clichês e o miolo da revista com preto e outra cor, ao gosto do “freguês”.  Como escreveu Dapieve: “A tinta era comprada em quantidades industriais, então a revista ficava predominantemente numa cor por muitos meses. Assim cada conflito mundial correspondia a uma fase: o primeiro, alaranjada; o segundo, à vermelha.”

J. Carlos, que sempre se manifestou contra a guerra. O mestre intuiu o que aconteceria em um desenho premonitório (à direita): em 14 de junho de 1919, foi publicada na Careta, uma derrotada “alma germânica” amarrada em um tronco. Dela sai o espectro de uma nova alma com uma espada à mão. Carlos nomeou a arte de “Indomesticável”. O novo espectro fala: “Dentro de 15 anos teremos a revanche!”. Carlos quase acertou: na verdade o prazo para Adolf Hitler dar a cartada final seria de 21 anos, mas ele se tornou chanceler em 14 anos. Ou seja, Carlos errou por apenas um ano.

Mas o artista, que claramente apoiava os franceses e os ingleses não tinha muita simpatia em relação aos norte-americanos. Não gostava do presidente Woodrow Wilson e o exemplo está aqui em uma cena na qual o mandatário da Nação enfia um míssil em um globo terrestre que espirra sangue em arte publicada a 14 de abril de 1917.


As argutas observações a respeito do cenário europeu fizeram o artista voltar suas armas, penas e nanquim, contra o presidente Getúlio Vargas. O Estado Novo, imposto em 10 de outubro de 1937, com a farsa de um documento apócrifo que “confirmava” que os comunistas se preparavam para tomar o poder, fez com que J. Carlos comentasse os desejos anti-democráticos locais com a mesma ênfase com que se batia contra os regimes totalitários da ensangüentada Europa, apesar da censura local conduzida pelo DIP, Departamento de Imprensa e Propaganda.  Em 1942, Hitler mandou atacar navios brasileiros causando a perda de cerca de mil marinheiros, o que causou a entrada do Brasil na guerra em 31 de agosto.

J. Carlos lutou contra as injustiças até a sua morte.

O Martelo presta a sua homenagem ao inesquecível mestre e promete mais matérias sobre o desenhista genial em futuras edições.

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