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Um estranho numa terra estranha...


Em fins de 1945, a jovem Philomena Lynott sai da casa de seus pais, Frank e Sarah Lynott, na Irlanda (EIRE), para trabalhar na Inglaterra. Após alguns anos fora de seu lar, passa a se relacionar com um homem casado, de origem negra, que vivia na Inglaterra (que muitos afirmam ser brasileiro ou filho de brasileiros) chamado Cecil Parris. Fruto desse relacionamento,veio ao mundo, em Birmingham, Inglaterra, na data de 20 de agosto de 1949, Philip Parris Lynott.

Sem a companhia do pai e distante da mãe (que continuava trabalhando na Inglaterra), Phil cresceu no bairro dublinense de Crumlin com os avós Frank e Sarah Lynott, tendo obtido uma educação tipicamente irlandesa em meio a uma população quase que cem-por-cento formada por brancos. Influenciado pelos tios Peter e Timothy Lynott, Philo (como era chamado quando pequeno) passou a se interessar muito por música, principalmente por grupos como The Mamas & The Papas além dos maravilhosos artistas negros do cast da gravadora americana Tamla-Motown como Stevie Wonder, Marvin Gaye, Ike And Tina Turner, Temptations, Four Tops etc., o que, no futuro, acabaria por ser decisivo na formação do som do Thin Lizzy, um Heavy Rock com muito groove herdado dessas primeiras audições. A par desses artistas americanos de soul e black music dos anos 60, Phil Lynott não ficou imune ao espetacular boom do rock inglês da época gerado, principalmente, por grupos incríveis como Beatles, Rolling Stones, The Who, The Kinks e Cream, tendo sido bastante atingido pela então nascente sonoridade pesada do rock.

Nesse mesmo período de efervescência da música inglesa, o adolescente Phil se envolve diretamente com a idéia de formar um grupo de rock ao ver o seu tio Peter entrar para uma banda de jovens locais chamada The Sundowners e um dos seus vizinhos, Joe Smith, pretender formar um grupo com os seus filhos Danny e Frankie Smith, respectivamente baixista e guitarrista.

O vôo da águia...

Após Peter Lynott ter recusado um convite para entrar na banda da família Smith, a alternativa passou a ser Phil, o qual é admitido no novo grupo, agora chamado The Black Eagles, para o posto de vocalista. As águias negras passam então a fazer vários shows com um repertório de covers que as torna populares na comunidade local. Contudo, no início de 1964, o avô de Phil, Frankie, vem a falecer de ataque cardíaco, o que o deixa muito deprimido e com pouca vontade de seguir no ramo da música, situação que só vem a mudar quando sua mãe, Philomena, assume, juntamente com seu namorado Denis Keeley, a direção do Clifton Grange Hotel (na região de Manchester, Inglaterra) conhecido pela tradicional clientela ligada à música e ao show business como um todo.

Após algum tempo, Philomena e Denis compram o Clifton Grange Hotel e Phil Lynott passa então a ter a oportunidade de conviver com as mais variadas pessoas ligadas ao mundo das artes, período este em que manteve uma estreita amizade com o músico Percy Gibbons, o qual foi de enorme importância para o seu crescimento musical e formação de sua personalidade artística. Nessa época, os The Black Eagles alçavam vôos cada vez mais altos; Phil e seus amigos estavam mais e mais populares no cenário musical local e, numa das alterações da formação do grupo, o jovem irlandês Brian Downey (nascido em Dublin a 27 de janeiro de 1951) é chamado a ocupar a vaga de baterista. Posteriormente, o baixista Danny Smith resolve deixar a banda e é substituído por Alan Sinclair, que não consegue manter um bom relacionamento com o chefão Joe Smith. Mesmo fazendo shows por todo o país, os conflitos entre Sinclair e Joe Smith acabam por botar tudo a perder e as águias negras pousam definitivamente. Estava encerrado o primeiro sonho musical de Phil Lynott.

Com o fim dos The Black Eagles em 1967, Phil Lynott conclui seus estudos no Cloghers Road Technical College de Dublin e, para não ficar parado, assume um emprego comum como aprendiz de manutenção de máquinas de ferro numa oficina de fundição de metais chamada Tongue & Taggarts, o que de modo algum o satisfez, vindo a pedir demissão dentro de pouco tempo. O seu sonho musical falava mais alto. A influência musical recebida de seus tios Peter e Timothy, bem como do velho amigo Percy Gibbons, não se fazia calar.

18 and life...

Com o intuito de se dedicar cem-por-cento à música e contando com o apoio de sua mãe, Phil (então com 18 anos de idade) passa a viver só ao alugar um flat na região de Clontarf, costa leste de Dublin. Nesse tempo ele se lança como cantor de uma banda chamada Kama Sutra no circuito de casas noturnas da cidade, o que o leva a ser visto pelo bem conceituado músico Brendan “Brush” Shields que o convida a formar um novo grupo musical. Phil chega a convocar o ex-The Black Eagles Brian Downey para a formação, mas este recusa, o que o leva a trazer Noel Bridgeman para a bateria. O time, então completado pelo guitarrista Bernard Cheevers, passa a se chamar Skid Row (isso 20 anos antes da banda de Sebastian Bach surgir!) e dentro de pouco tempo, com o apoio do empresário Ted Carroll, torna-se, ao lado do Taste de Rory Gallagher, uma das maiores revelações do rock irlandês da época. No fim de 1967, Phil tem a oportunidade de entrar em estúdio pela primeira vez ao rumar, junto com o Skid Row, para a gravação de uma composição de Brendan “Brush” Shields chamada Photograph Man. Esse single teve o objetivo de servir de disco de demonstração para tentativas de obtenção de um contrato junto aos selos musicais da época, o que, infelizmente, não ocorreu, gerando frustração dentro do grupo. Diante desses acontecimentos, o guitarrista Bernand Cheevers deixa sua vaga para Gary Moore, este último um verdadeiro prodígio das seis cordas nascido em Belfast a 4 de abril de 1952. No início de 1969 o empresário da banda leva-os de volta ao estúdio para uma nova tentativa; dessa vez para a gravação de uma composição chamada New Faces, Old Faces que é lançada em disco no mês de maio do mesmo ano. Em junho, Phil Lynott tem problemas em sua garganta e cai fora do grupo. Gary Moore assume então os vocais e o Skid Row prossegue como um trio de certo sucesso, vindo a lançar ótimos álbuns pela CBS (atual Sony Music) numa linha hard jazz-fusion rock.

Encontro de órfãos...

Em meados de 1969, para compensar os problemas em sua voz, Phil passa a tocar baixo após comprar um Fender Jazz Bass do amigo Brendan “Brush” Shields. Num certo dia, ao se reencontrar com o velho companheiro de The Black Eagles Brian Downey (que também estava totalmente desocupado), faz-lhe a proposta de formar uma nova banda. Brian aceita! Estava sendo lançada a semente do que viria a ser o Thin Lizzy! Para pôr esse novo projeto em andamento, Brian convida o baixista Pat Quigley, o qual aceita a proposta e traz consigo o guitarrista Joe Staunton. Lynott então batiza a nova banda de Orphanage e assume a direção das composições, tendo as músicas Chatting Today e Saga Of The Ageing Orphan sido os primeiros frutos.

No decorrer do ano de 1969 o Orphanage admite o exímio guitarrista Eric Bell (nascido em Belfast a 3 de setembro de 1949) no lugar de Joe Staunton; Pat Quigley é demitido e Lynott assume o baixo. Com essa nova formação adentram o ano de 1970, época de surgimento do que efetivamente se pode chamar de rock pesado.

Já que a formação do Orphanage estava bastante reformulada e os tempos eram outros (com a ascensão do novo rock pesado através da chegada de bandas como Led Zeppelin e Black Sabbath ao topo das paradas), o baixista tratou de dar uma nova denominação para a trupe. Após ter sido cogitado o nome Gulliver’s Travels, Eric Bell lembrou de uma personagem das HQ’s chamada Tin Lizzie, uma cômica empregada doméstica robô. Com um pouco de criatividade, Phil tratou de dar uma rebuscada no conceito ao por um “h” entre o “t” e o “i” de Tin, ficando Thin, e um “y” em vez do “ie” final de Lizzie, passando o grupo a se chamar Thin Lizzy.

Pronto, a lenda estava nascendo!

Após a adoção da nova denominação, Phil Lynott (voz e baixo), Eric Bell (guitarra) e Brian Downey (bateria) trataram de dar o start na banda ao se apresentarem ao vivo pela primeira vez sob o nome Thin Lizzy no auditório da cidade de Swords (bom começo! Hehehe...), apresentação esta sucedida pelo histórico concerto de 20 de fevereiro de 1970 no St. Anthony’s Hall em Dublin e por mais shows em Belfast, os quais contaram com a participação do tecladista Eric Wrixen que pouco tempo depois abandonaria o grupo. Mesmo sem nenhum álbum pra servir de ponta-pé na popularidade da banda, o Thin Lizzy obteve, em junho de 1970, o terceiro lugar no resultado de uma votação promovida pela revista musical New Spotlight (nada como a estrada para promover um grupo!). No mês seguinte o trio entrou no Trend Studios de Dublin para a gravação de seu primeiro single, o qual foi lançado contendo as músicas The Farmer de um lado e I Need You do outro, sendo esta última uma composição de John D’Arids (proprietário do estúdio da gravação) que só entrou no disco por força de um acordo: a banda teria horas livres para gravação desde que ela fosse incluída!

Olhe o que o vento soprou...

The Farmer, o primeiro single do Thin Lizzy, teve lançamento na data de 31 de julho de 1970 pela Parlophone Records. 500 cópias foram prensadas, 238 foram vendidas e as demais acabaram recicladas. Os ganhos financeiros do grupo ainda eram muito pequenos, mas, em meados do mesmo ano, a sorte começou a melhorar quando receberam a notícia de que Frank Rodgers da gravadora Decca (a mesma dos Rolling Stones na época) estaria indo a Irlanda para uma audição conjunta da banda e do cantor Ditch Cassidy.

Rodgers aprovou o Thin Lizzy e, no ato, ofereceu um contrato ao grupo, levando os rapazes para Londres a fim de serem realizadas sessões de estúdio sob a produção do norte-americano Scott English. Em apenas uma semana a gravação do primeiro disco estava pronta, tendo, no entanto, sofrido reformulações posteriores por parte de Nick Tauber a pedido de Rodgers.



O primeiro disco da banda, auto-intitulado Thin Lizzy, foi lançado em abril de 1971 e apresentou uma sonoridade um pouco diferente da que viria a ser desenvolvida nos anos seguintes. Flertando um pouco com o som psicodélico ainda vigente, a estréia do grupo trouxe, em várias composições como Look What The Wind Blew In, Eire, Clifton Grange Hotel e Saga Of The Ageing Orphan, aspectos pessoais da vida de Lynott como, por exemplo, seus relacionamentos amorosos, a sua infância em Dublin, sua adolescência no hotel de sua mãe e o preconceito que sofreu por ser negro, além de sua visão aguda da vida e do mundo, o que viria a ser uma de suas marcas registradas dali pra frente.

A música Ray Gun, por sua vez, teve Jimi Hendrix como inspiração e acabou caindo no gosto do radialista David Jensen da Radio Luxembourg de Londres, o qual adotou o Lizzy como uma de suas bandas favoritas, sempre dando espaço ao grupo na programação da emissora, o que não foi nada mal. Na seqüência, os garotos trataram de cair na estrada sob o gerenciamento de Ted Carroll, Brian Tuite e Peter Barden, fazendo vários shows pela Irlanda antes de se decidirem por uma mudança definitiva para Londres, onde as coisas aconteciam mais rápido.

Após uma temporada de shows pela Irlanda e alguns pela Inglaterra, o Thin Lizzy retorna a estúdio, dessa vez para a gravação de um Ep (espécie de disco vinil com duração intermediária entre a do single e a do Lp) lançado em agosto de 1971 sob o título de New Day. Tal Ep trouxe ao público quatro novas composições: Dublin, Remembering Part 2, Old Moon Madness e Things Ain’t Working Out Down On The Farm.

Sombras de um orfanato triste...

Após o lançamento do Ep New Day, a gravadora Decca (que não estava muito contente com a repercussão ainda tímida do grupo) quase não renova o contrato, o que só veio a ocorrer depois de algum tempo, tendo então a banda seguido de imediato ao De Lane Lea Studio para gravar o segundo álbum sob um orçamento bem apertado. De início, a produção ficaria a cargo de Martin Birch (que já havia trabalhado com o Deep Purple e que viria a produzir, dentre outros, Iron Maiden e Blue Oyster Cult); no entanto, por problemas de agenda, o comando das gravações ficou a cargo de Nick Tauber.



Shades Of A Blue Orphanage

O novo álbum, intitulado Shades Of A Blue Orphanage (junção de ‘Shades Of Blue’, nome da antiga banda de Bell, mais ‘Orphanage’, anterior denominação do grupo de Downey e Lynott), lançado em março de 1972, desagradou o trio. Segundo declarações dadas à imprensa, Brian Downey odiou sua sonoridade, só tendo considerado como satisfatórias as faixas Buffalo Gal, Chatting Today e Call The Police. Eric Bell, ao seu turno, afirmou que o resultado final refletiu a pressão que o grupo vinha sofrendo na época por parte da Decca Records, afinal, segundo ele, após a renovação contratual, a banda foi intimada a compor e gravar o novo trabalho em apenas três semanas.

Apesar de seu pouco brilho, Shades Of A Blue Orphanage não chega, de modo algum, a ser um disco ruim. Podemos dizer que as falhas desse álbum são a produção fraca, o baixo nível de áudio e a indecisão de seu direcionamento musical. The Rise And Dear Demise Of The Funky Nomadic Tribes traz uma interpretação bem firme de Lynott com um ritmo bem bacana cheio de levadas funks, boas linhas de baixo, além de um interessante solo final de bateria; Buffalo Gal é quase uma balada, com uma interpretação bem característica de Lynott; I Don’t Want To Forget How To Jive é uma curta canção rockabilly feita em homenagem a Elvis Presley; Sarah é uma balada lindíssima dedicada por Phil a sua avó; Brought Down é uma bela peça semi-acústica, com refrão simples, mas agradável; Baby Face é rock pesado com riffs bem típicos da banda aliados a uma levada de bateria cheia de vida; Chatting Today, mais uma acústica, foi uma das primeiras composições do trio, herdada dos tempos em que ele se chamava Orphanage; Call The Police é uma das melhores do disco, tem um ritmo bem legal e é, realmente, uma composição que se sobressai no conjunto. A faixa título, por sua vez, é uma balada nublada, estranha e melancólica. Salva-se mais por ter a voz emotiva de Phil do que por outros méritos. No fim das contas não dá pra considerar o Shades um disco ruim, ele tem apenas pouco brilho dentro da rica discografia do grupo, só isso.

Em meados de 1972, na época de lançamento do Shades Of A Blue Orphanage, Phil Lynott esteve prestes a largar o Thin Lizzy para formar, a convite do guitarrista Ritchie Blackmore (Deep Purple e Rainbow), uma super-banda ao lado do baterista Ian Paice (Deep Purple, Paice Ashton Lord, Whitesnake e Gary Moore Band) e do vocalista Paul Rodgers (Free, Bad Company, The Firm e Queen) que se chamaria Baby Face. Contudo, após algumas bem-sucedidas jams junto a Phil, Blackmore resolveu continuar no Deep Purple e lançar mais um disco com Roger Glover e Ian Gillan (Who Do We Think We Are) antes de convocar Glenn Hughes e David Coverdale para a futura gravação de Burn (1974).

Uma junção funk, uma junção folk...

Na seqüência do ano de 1972 o Thin Lizzy (que ainda não tinha emplacado nenhum hit) jogou-se na estrada para uma turnê pela Europa (marcada pelo excesso de álcool e drogas) antes de retornar a Londres no segundo semestre para a gravação de um álbum tributo ao Deep Purple chamado Funky Junction. Segundo esse projeto, a titularidade do disco não seria do Thin Lizzy: o grupo iria apenas servir de ‘músicos de estúdio’; os vocais ficariam a cargo de Benny White (ex-Elmer Fudd) e os teclados a cargo de Dave “Mojo” Lennox. De fato, assim ocorreu e o álbum Funky Junction: A Tribute To Deep Purple foi lançado pela gravadora Stereo Gold Award em janeiro de 1973, o qual conteve, além de músicas da trupe de Blackmore, uma versão instrumental para House Of The Rising Sun, bem como as faixas Dan, Palamatoon e Corina.

Desde o início de 1972 o grupo vinha compondo novas canções e quando a Decca Records o convocou para novas sessões de estúdio durante o segundo semestre daquele ano, Phil sentiu que o momento era bom, pois tinha em mãos músicas mais empolgantes, capazes de transformarem-se em hits. No entanto, essa conquista veio meio que por acaso. Durante essas sessões de gravação, vez por outra o trio tocava, só pra descontrair, uma versão rock de uma típica canção folk irlandesa chamada Whiskey In The Jar. Ted Caroll, empresário do grupo, caiu de amores por ela e achou que a sua gravação para lançamento em single seria uma ótima idéia. O próprio grupo achou que Caroll estava brincando, mas, diante da insistência do manager, tratou de gravar Whiskey In The Jar para lançamento como lado B do single de sua nova composição Black Boys On The Corner.

Porém, a Decca Records não quis a pesada Black Boys On The Corner como música de trabalho. Segundo os executivos da companhia, Whiskey In The Jar deveria ser a faixa a ser promovida e assim ocorreu. Em novembro de 1972 esse novo single foi lançado e pouco tempo depois chegou às paradas da Irlanda, tendo permanecido por 17 semanas. Finalmente o Thin Lizzy era um sucesso!

Após o lançamento do single, ainda antes do final do ano de 1972, no auge do movimento glitter-rock (semente do futuro hard rock cheio de laquê dos anos 80), o Thin Lizzy excursiona durante os meses de novembro e dezembro como opening-act (banda de abertura) para o grande Slade e Suzi Quatro (a primeira mulher a fazer hard rock na história). Caramba!!! Fala sério, essa é que foi a época boa do rock!!!

O single Black Boys On The Corner / Whiskey In The Jar chegou à lista dos 30 mais vendidos da Inglaterra no dia 3 de fevereiro de 1973, tendo permanecido na sexta colocação por praticamente doze semanas. Phil Lynott, Eric Bell e Brian Downey finalmente haviam chegado a uma posição satisfatória no show business britânico. Whiskey In The Jar tornara-se o tão sonhado hit, tocava no rádio, e o grupo passou a se apresentar em programas de Tv como, por exemplo, o Top Of The Pops da BBC. Animados pela conquista, lançam, em maio do mesmo ano, mais um single, agora contendo a música Randolph’s Tango, uma sensacional mistura de pop rock com o tradicional ritmo argentino. Dessa vez o resultado, apesar de bom, não é tão animador: Randolph’s Tango atinge a décima-quarta colocação, o que é, porém, suficiente para que o grupo continuasse a mil com uma crescente popularidade.

A primeira obra-prima...

Com a finalidade de lançar um novo disco de longa duração que, dessa vez, correspondesse, de fato, a um grande material, Lynott e companhia voltam ao estúdio com um maior apoio da Decca Records para a gravação de novas composições. Como resultado do bom momento emocional e criativo por que passava, o Thin Lizzy solta, em setembro de 1973, o excelente álbum Vagabonds Of The Western World.


Vagabonds Of The Western World

Vagabonds é uma verdadeira obra-prima a começar pela capa (desenhada pelo ilustrador irlandês Jim Fitzpatrick), que mostra os rostos de Downey, Bell e Lynott em meio a um cenário western futurista. A partir desse disco, Fitzpatrick manteria uma ligação bastante estreita com o grupo, desenhando e ilustrando tudo o que se relacionasse com o seu trabalho. Na parte musical, Mama Nature Said começa arrebentando tudo, Brian Downey conduz muito bem, Eric Bell aparece com guitarras slide a dar com pau e Phil Lynott nos brinda, dessa vez, com um modo de cantar bem mais solto que nos discos anteriores, além de um baixo pulsante que deve ter deixado o então fã Steve Harris de cabelo em pé! The Hero And The Madman inicia com uma espécie de narração feita por Kid Jensen da Rádio Luxemburg seguida por uma levada de guitarra meio funkeada bem interessante. Incrível como essa música é alto astral. O refrão é muito legal e criativo. Downey manda ver bem com as suas viradas precisas, Lynott está muito mais à vontade que nos dois primeiros álbuns do grupo. The Hero... é uma composição ritmada e ao mesmo tempo climática, cheia de atmosfera, pesada, swingada e cinematográfica. Caramba, o solo de Eric Bell é muito bom, simultaneamente histérico e melódico! Slow Blues começa com o clima de filme de western iniciado com a música anterior para dar lugar a um ritmo bem soul-music que não deixa a peteca cair. A interpretação de Lynott é soberba, parece que o cara tá gozando no céu! Posteriormente Eric Bell chega com um solo de guitarra bem rythm’n’blues sucedido pelo retorno da levada soul (realmente os discos da Tamla-Motown exerceram uma boa influência sobre Phil) e por uma parte lenta climática em que os riffs de guitarra são seguidos passo-a-passo pelo baixo. Incrível como música pode ser algo cinematográfico, evocando lugares, cenas, paisagens que só existem na mente de quem as escuta! A próxima faixa é The Rocker, paulada!!! Um verdadeiro hino em que Lynott canta e grita que é um rockeiro, que é um roller, que ama mais o rock’n’roll que uma garota, que compra discos na loja Rock On. Eric Bell, por sua vez, vai ao limite do que se pode fazer num solo de guitarra em termos de emoção e histeria. Frenético, realmente frenético! The Rocker é sucedida pela faixa Vagabond Of The Western World, maravilhosa, magnífica! As composições desse álbum são tão cinematográficas que Phil inicia essa dizendo que vai contar a história de um vagabundo, de um playboy do mundo do western etc. Isso sim é que é disco conceitual! Na seqüência temos uma baladinha bem suave chamada Little Girl In Bloom, a qual começa com umas notas bem emotivas do baixo de Lynott que seguem música adentro. Essa composição é muito bonita, genial, singela, linda, linda e mais uma vez linda. O refrão é algo fora do comum em que Phil canta de modo sussurante acompanhado pelos backing vocals de Eric Bell que, ao seu turno, faz um solo bem melódico que ecoa no espaço pra depois recomeçar de um modo mais solto e ritmado a partir da entrada da bateria de Downey. Caramba, é demais! Não goze, se puder! Gonna Creep Up On You é esquizofrenia pura e tem um refrão que gruda no cerebelo feito caramelo no molar. A Song For While I’m Away é mais uma balada lindíssima, bem calma e romântica, cantada de modo sensacional por Lynott. É incrível notar como foi grande o salto de qualidade de Phil nesse disco! O arranjo de cordas pra essa composição é maravilhoso. Nada de guitarras elétricas, nada de teclados (talvez haja um melotron, não sei ao certo...), apenas a voz marcante de Lynott seguida da bateria de Downey, dos dedilhados de Bell e do acompanhamento de violinos (ou seria melotron?). Após essa linda música lenta, é a vez de Whiskey In The Jar (regravada pelo Metallica no disco Garage Days Revisited e incluída na trilha do filme Em Nome do Pai) comparecer apenas na versão CD deste clássico do Thin Lizzy. Esse primeiro hit dos heróis do rock irlandês é uma faixa semi-acústica ritmada cantada com certo vigor por Phil. Poderíamos defini-la como uma canção folk pop; Ted Carroll estava certo: a não ser que deixasse de ser divulgada e trabalhada pela gravadora junto às rádios, ela jamais poderia não ter se tornado um hit.

 Após Whiskey... é a vez da pesada Black Boys On The Corner também aparecer no formato CD desse álbum do Thin Lizzy. Para aliviar um pouco as coisas é a vez de Randolph’s Tango estar também presente na versão CD desse long-play. Randolph’s... é uma composição bem criativa em que o Thin Lizzy conseguiu unir pop rock e tango. A interpretação de Phil e a bateria de Downey são os destaques dessa maravilhosa peça musical. Marcante! Por fim, esse magnífico álbum do trio irlandês termina (na versão CD) com Broken Dreams, um blues-rock daqueles que trazem à nossa imaginação ambientes enfumaçados e mal-iluminados, cheios de bêbados e damas da noite. Um final bem adequado para a saga dos vagabundos do mundo western, não? Bom, se você ainda não conhece essa obra-prima chamada Vagabonds Of The Western World, agora tem ao menos uma certa idéia do que está perdendo! Como já salientado, as faixas Whiskey in the Jar, Black Boys On The Corner, Randolph’s Tango e Broken Dreams não fazem parte do lançamento original em vinil de Vagabonds. São singles que foram incluídos como faixas-bônus no lançamento em Cd.

Após o lançamento de Vagabonds, a banda segue em turnê pelo Reino-Unido. Ainda em novembro de 1973 é lançado o single The Rocker / Here I Go Again. Os concertos continuam a ocorrer regularmente, tendo sido histórica a apresentação em Belfast na véspera de ano novo. Nesse show, Eric Bell (que já havia subido ao palco completamente fora de si), após chutar os amplificadores e jogar sua guitarra para o alto, veio a cair desacordado no local do concerto. Pra piorar a situação, sua família (que tinha ido a essa apresentação especial de reveillon) ficou chocada com o ocorrido e a barra pesou muito para o guitarrista. O fato é que Bell estava desgostoso com o direcionamento musical que aos poucos vinha sendo adotado por Phil e, como reflexo disso, estava abusando das drogas, o que não era nada bom.

Como resultado do ocorrido, no dia seguinte Eric ligou para o manager e deixou claro que não podia continuar no grupo. O ano de 1974 raiara levando o exímio guitarrista para longe do Thin Lizzy. Ainda em janeiro, Gary Moore (ex-Skid Row, Colosseum II, Greg Lake Band e G Force) é convidado a ocupar o posto e aceita de imediato, vindo a seguir com o grupo em vários shows a partir desse mesmo mês. Em abril o trio Lynott, Downey e Moore entra em estúdio para registrar as novas composições Sitamoia e Little Darling para um novo single. No entanto, Gary Moore mal esquenta a vaga e ainda nesse mês cai fora da banda.

Mesmo antes de entrar no Thin Lizzy, Gary Moore já era um nome famoso no cenário rockeiro do Reino-Unido e não um mero músico iniciante que fosse ficar à sombra de Lynott. Em razão disso, dentro de pouco tempo começaram a ocorrer conflitos de ego entre ambos, o que culminou pela saída do guitarrista antes mesmo do início da turnê alemã que começaria em maio. Para tapar o buraco deixado pela saída de Moore, Phil convoca temporariamente os guitarristas Andy Gee (ex-Steve Ellis Band) e Johnny Du Cann (ex-Bullet e Atomic Rooster) para a digressão da Alemanha. Descontente com o momento do grupo, Brian Downey pede as contas, mas logo retorna à trupe após acertos contratuais com o management. Downey quase fez uma besteira, pois não sabia que o melhor ainda estava por vir.

Em junho de 1974, carente de um guitarrista permanente, a dupla remanescente do Thin Lizzy convida Brian “Robbo” Robertson (nascido em Glasgow a 12 de fevereiro de 1956) a uma audição no Iroquo Country Club, localizado em Hampstead. Robbo é aprovado com louvor e após alguns ensaios decidem admitir mais um guitarrista na pessoa do norte-americano William Scott Gorham (nascido em Santa Mônica, California, em 17 de março de 1951) para o fim de deixar o som do grupo mais encorpado, com guitarras gêmeas nos moldes do Wishbone Ash. O Thin Lizzy passa a ser um quarteto.

 

Vida noturna...

Como resultado de ensaios diários que duravam até 12 horas, o entrosamento entre Robbo (guitarra), Gorham (guitarra), Lynott (voz e baixo) e Downey (bateria) atinge um nível excelente e em 18 de julho iniciam a primeira turnê conjunta pela Irlanda. Nessa época Ted Carroll abandona o management da banda (que passa a ser responsabilidade da dupla Chris O’Donnell e Chris Morrison) ao passo que, uma vez encerrado o contrato com a Decca Records, conseguem um acerto com a Phonogram / Vertigo Records através do qual recebem um bom adiantamento em dinheiro pela gravação de um álbum de estúdio, quantia esta que foi gasta com o pagamento de dívidas e compra de equipamentos.

Já por meio da Phonogram / Vertigo Records o Thin Lizzy lança, em outubro de 1974, o single Philomena (homenagem à mãe de Phil) contendo Sha-La-La no lado B, sucedido no mês seguinte pelo novo disco de longa duração chamado Night Life, produzido pelo experiente Ron Nevison, que já havia trabalhado para grupos consagrados como o The Who e o Bad Company. A capa foi feita novamente por Jim Fitzpatrick e mostra uma pantera diante de uma grande cidade, referência direta do artista à pessoa de Phil Lynott.

 

Night Life teve uma gravação conturbada e foi fruto de diversos desentendimentos entre Nevison e a banda. Sem respeitar o direcionamento musical pretendido pelo grupo, o produtor, ao mixar o álbum, chegou ao ponto de deixar a sonoridade das músicas bem mais leve que a desejada pelo quarteto, o que foi ainda mais agravado pela adição de arranjos de cordas realizados por Jimmy Horowitz. O fato é que, com a saída de Eric Bell, o Thin Lizzy havia perdido um elemento essencial na caracterização de seu som e como resultado disso Night Life mostrou uma sonoridade indecisa, bem diferente daquela desenvolvida em Vagabonds Of The Western World. De fato, a nova bolacha apresentou composições contidas, numa linha bem light, com momentos tendendo ora para o hard rock, ora para a soul music, num direcionamento incontestavelmente voltado às rádios.


Night Life

Contudo, apesar dessa discrepância entre o passado recente e o momento então vivido pelo grupo, Night Life é um disco bem gostoso de se ouvir. She Knows (que, à primeira audição, deve ter chocado os fãs que estavam acostumados ao peso anteriormente adotado pela banda) tem influências soul e um refrão bem legal, sendo bastante agradável. Night Life, a faixa título, também aposta numa linha bem leve adornada por arranjos de cordas. It’s Only Money (regravada pelo Concrete Blonde) é um ótimo hard. Still In Love With You é uma balada romântica bem emotiva composta por Phil Lynott e Gary Moore, tendo a cara do estilo peculiar desse grande guitarrista. Frankie Carroll é mais uma lentinha, dessa vez construída sob o acompanhamento de teclados e cama de cordas. Showdown é um soul que tem como tema o personagem Johnny Cool (criado por Phil e que continuaria a ser citado nas letras dos discos seguintes), um dos melhores momentos do álbum. Banshee (nome de uma figura do folclore irlandês) é uma pequenina faixa instrumental seguida pela ótima Philomena (nome da mãe de Phil) que é, sem dúvida alguma, a melhor do disco. Eu adoro essa música! Sha-La-La é um hardão que vai na direção da sonoridade que viria a ser adotada pelo grupo nos próximos trabalhos (ótima composição com riffs interessantes e um solo legal) e Dear Heart, ao seu turno, é uma linda balada no estilo soul music. Por fim, Night Life, apesar de não ser um dos melhores álbuns do Thin Lizzy, é ótimo de se ouvir pelo simples fato de apresentar uma outra faceta da banda.

Embora tenha visado alcançar o público não essencialmente roqueiro, Night Life foi mal nas vendas, o que, entretanto, não impediu o grupo de realizar boas giras pelo território europeu. Já o ano de 1975 levou o Thin Lizzy à sua primeira experiência pelos palcos da América do Norte ao lado do B.T.O. (Bachman Turner Overdrive) e de Bob Seger, tendo sido um período em que Phil Lynott, segundo suas próprias declarações, apaixonou-se pelos Estados Unidos, principalmente por lugares como Texas e California, além de ter amadurecido bastante na parte profissional.

Lutando...

Voltando a Europa o Lizzy entrou numa nova turnê pelo Reino-Unido a partir do início de abril, tendo realizado um concerto no Hammersmith Odeon (com ingressos esgotados) no dia 5 desse mês. Em maio, Phil e companhia lançam o single Rosalie, um cover para uma composição de Bob Seger, artista com o qual haviam excursionado pelos Estados Unidos no início do ano. Na seqüência resolvem entrar em estúdio para auto-produzirem o novo disco, Fighting, que é lançado em setembro de 1975 pela Phonogram / Vertigo. Na capa original da época (versão européia) os membros da banda aparecem mal-encarados num beco sujo, portando facas, correntes e porretes. O recado havia sido dado: o Thin Lizzy estava pronto para a luta!

Mesmo não tendo repetido o sucesso comercial de Vagabonds Of The Western World, esse novo álbum apresentou novamente composições de alto nível, tendo definido o espetacular estilo de riffs e solos de guitarras gêmeas da dupla Brian “Robbo” Robertson e Scott Gorham que iria influenciar incontáveis grupos da New Wave Of British Heavy Metal, sobretudo o Iron Maiden, o qual deve muito a esses dois guitarristas. Sem dúvida alguma, não fosse o estilo de riffs e solos desenvolvido por Robbo e Gorham a partir do disco Fighting, a sonoridade do Iron Maiden seria bem diferente. A partir de então, a extensão da influência exercida pelo trabalho sonoro desses dois guitarristas sobre a dupla Murray e Smith seria tão grande que não pode ser estimada em termos humanos!

Fighting é um dos melhores trabalhos da discografia do Thin Lizzy e tem como destaques praticamente todas as músicas, não sendo aceitável menção senão a todas elas. Partindo do swing pop de Rosalie, passando pela melodia encantadora de For Those Who Love To Live, seguindo pelo peso de Suicide, entrando na beleza das guitarras gêmeas de Wild One, continuando pela trilha hard de Fighting My Way Back, prosseguindo pela empolgante personalidade de King’s Vengeance, adentrando na viagem astral de Spirit Slips Away, retornando à Terra com a urbanidade de Silver Dollar, cantando a pleno folego a linda Freedom Song até se chegar ao poder rude de Ballad Of A Hard Man, o álbum Fighting é a prova incontestável da genialidade do quarteto Robertson-Gorham-Lynott-Downey. Nota 10 é pouco, muito pouco pra premiar esse disco.

Ainda em outubro de 1975 o grupo solta o single Wild One / For Those Who Love To Live e se lança na turnê Rocktober pelo Reino-Unido. No último dia do ano tocam no Great British Music Festival realizado em Londres e obtêm ótima avaliação dentro do cast que contou com o Steve Marriott’s All Stars, Status Quo, Steve Gibbons, Climax Blues Band, dentre outros.

Os vagabundos se tornam reis...

No início de 1976, sob pressão da gravadora, movidos pelo interesse em voltar a emplacar um hit no topo das paradas e ser um grande sucesso outra vez (o que não ocorria desde os tempos de Eric Bell), os músicos se empenham nas composições e entram no estúdio Ramport de Londres (do The Who) juntamente com o produtor John Alcock para a gravação de um novo álbum. Comenta-se que, de início, o projeto consistia no lançamento de um disco duplo, mas no fim das contas foram lançados dois álbuns separados. O quarteto estava passando por um excelente momento criativo (que tinha se iniciado na época do processo de composição de Fighting) e havia encontrado a sua verdadeira face através da incorporação de duetos de guitarra da dupla Robbo-Gorham às composições cada vez mais poderosas de Phil Lynott, o que resultou no afortunado lançamento do disco Jailbreak em março de 1976, seguido por Johnny The Fox no mês de outubro do mesmo ano.

Jailbreak veio com uma capa novamente desenhada por Jim Fitzpatrick, ilustrador de revistas da Marvel Comics, e presenteou os fãs com composições que se tornaram os maiores clássicos da banda. Jailbreak (regravada ao vivo por Jon Bon Jovi), The Boys Are Back In Town (também regravada pelo Bon Jovi, pelo Everclear e utilizada para a trilha sonora dos filmes Toy Stories I e Detroit Rock City), Cowboy Song e Emerald passaram a ser presenças constantes nos shows do grupo, sendo que a faixa título se tornou a música de abertura dos concertos até o fim da carreira da banda. The Boys Are Back In Town, por sua vez, foi lançada como single e trabalhada como faixa de divulgação do álbum, tendo obtido enorme sucesso tanto nos Estados Unidos quanto na Europa. Na Inglaterra esse single chegou ao oitavo lugar e na Irlanda alcançou o primeiro posto das paradas. O quarteto finalmente chegava a um momento muito especial em sua trajetória. O disco Jailbreak foi muito bem sucedido e apresentava um conteúdo musical e lírico realmente forte. No que diz respeito às letras, Jailbreak falava de um prisioneiro em fuga (uma alusão à todas as pessoas que anseiam por liberdade ou mudanças); Angel From The Coast tratava de assassinatos ligados à Máfia; Warriors (com seu tremendo solo de guitarra) homenageava heróis do rock que faleceram de modo trágico, como Jimi Hendrix e Duane Allman (dos Allman Brothers); The Boys Are Back In Town referia-se a uma gangue (certamente uma citação ao bando da capa do disco Fighting) que estava de volta à cidade; Fight Or Fall mandava uma mensagem de coragem para os fãs; Cowboy Song trazia mais uma vez os velhos temas western de filmes de bang-bang e, por fim, Emerald tinha como cenário a mitologia celta, parte do espírito cultural irlandês.

 


Jailbreak

Impulsionados pelo enorme sucesso, o Thin Lizzy seguiu na estrada fazendo mais e mais concertos. Ainda em março de 1976 teve início uma turnê inglesa de enorme êxito seguida pela ida da banda aos Estados Unidos no mês seguinte para uma série de apresentações ao lado de grupos de Hard AOR como Styx, Journey, REO Speedwagon e Rush. Em junho, após o retorno dos rapazes ao Reino-Unido, Phil adoece com hepatite, o que os impede de fazer uma turnê ao lado do Rainbow de Ritchie Blackmore. Por força da doença, Lynott é proibido de ingerir álcool e passa um tempo internado em um hospital da cidade de Manchester, Inglaterra, período em que compõe a maioria das músicas do novo disco. Para tirar proveito da popularidade do Lizzy, sua gravadora anterior (Decca Records) lança, em agosto desse ano, um long play coletânea contendo duas faixas inéditas (Little Darling e Sitamoia) chamada Remembering Part I (mais uma linda capa desenhada por Jim Fitzpatrick!).



Remembering Part I

Após seu restabelecimento, Lynott segue com os demais integrantes do Thin Lizzy para o Ramport Studio (Londres) com o fim de registrar o restante de suas novas composições e em outubro de 1976 é então lançado o novo álbum intitulado Johnny The Fox, o qual contou mais uma vez com o fantástico traço de Jim Fitzpatrick na ilustração de capa além da participação do baterista, percusionista e vocalista Phil Collins (Genesis).

As letras desse disco apresentaram o retorno do personagem Johnny ao cotidiano da marginalidade urbana, tendo, inclusive, sido adotadas nas letras várias gírias faladas nas ruas das grandes cidades dos Estados Unidos. No lado musical, esse novo trabalho de estúdio se mostrou bastante similar ao anterior Jailbreak, sendo considerado, por muitos, até mesmo superior. Os afiados riffs e solos de guitarra dobrados da dupla Robertson-Gorham continuaram a ser a marca registrada da banda em músicas como Johnny e Rocky, na dolorosa balada Borderline (lindíssima!), no ritmo de Don’t Believe A Word, no delicioso funk Johnny The Fox Meets Jimmy The Weed, na pesada Massacre (regravada pelo Iron Maiden), na bela Sweet Marie e no boogie enlouquecido de Boogie Woogie Dance (In Brazil They Got A Pill...).


Johnny The Fox

Johnny The Fox também foi bem nas paradas e atingiu o décimo-segundo lugar na Inglaterra, o que levou o grupo para mais shows nos meses de outubro e novembro de 1976. Antes do início do concerto de Manchester, Phil e Robbo desentenderam-se e acabaram brigando, o que não os impediu de realizar a apresentação nem de prosseguirem juntos na turnê. O Thin Lizzy vivia o seu auge, tendo realizado três shows com lotação esgotada no Hammersmith Odeon durante os dias 14, 15 e 16 de novembro, os quais foram gravados para um possível lançamento de um álbum ao vivo. Outras datas estavam agendadas para o mês de dezembro nos Estados Unidos, mas acabaram canceladas devido a um profundo corte sofrido por Robbo em sua mão esquerda durante uma briga de bar, o que veio ainda mais a fragilizar o relacionamento entre ele e Lynott que, por sinal, ficou uma fera ao saber do ocorrido.

Para o lugar de Brian “Robbo” Robertson, Phil convoca novamente o tapa-buraco Gary Moore e com ele segue em direção à América do Norte para apresentações no início de 1977. Nessa época o álbum Johnny The Fox mantinha o sucesso. O single de Don’t Believe A Word alcançou o décimo-segundo lugar das paradas britânicas e o segundo das irlandesas, o que animou o Queen (Brian May era fã declarado da banda!) a convidar o grupo para a função de opening-act de 42 concertos em território norte-americano no que veio a se chamar de The Queen Lizzy Tour (a turnê da Rainha Lizzy... um interessante trocadilho, haja vista que aquele ano era comemorativo do Jubileu da Rainha Elizabeth II). A repercussão dos shows do Thin Lizzy era crescente e à certa altura da turnê o negócio começou a ficar um pouco chato quando as revistas e os fãs começaram a dar mais cartaz ao grupo irlandês do que ao headliner Queen. Algumas resenhas de shows feitas pela imprensa chegaram ao ponto de afirmar que o show do Thin Lizzy estava desbancando o do Queen. Afirma-se que Freddie Mercury estava visivelmente enciumado, mas com o fim da digressão americana, entre mortos e feridos salvaram-se todos: a amizade entre as bandas foi mantida.

Depois da turnê de promoção de Johnny The Fox, Brian “Robbo” Robertson ainda estava se recuperando do ferimento sofrido em sua mão esquerda, mas diante da decisão de Gary Moore por seguir carreira com a banda Colosseum II ao lado do baterista John Hiseman, do baixista Neil Murray (ex-Whitesnake e Black Sabbath, dentre outros) e do tecladista Don Airey (ex-Blizzard Of Ozz e Deep Purple, dentre outros), tudo indicava que ele retornaria ao grupo, o que entretanto não se concretizou de imediato. Para as gravações do novo disco de estúdio, todas as guitarras ficaram, de início, nas mãos de Scott Gorham. Temporariamente o Thin Lizzy voltava a ser um trio.

Má reputação...

Phil não queria perder a boa onda de sucesso que o atingira desde o lançamento de Jailbreak (início de 1976) e ainda no primeiro semestre de 1977 tratou de seguir com Gorham e Downey para a gravação de um novo álbum em Toronto (Canadá) ao lado do hábil produtor Tony Visconti que já havia trabalhado com grandes artistas como David Bowie, Lou Reed, T. Rex, Mott The Hoople e UFO. Durante os meses de maio e junho foi gravado o novo disco chamado Bad Reputation, que acabou contando com a guitarra de Robbo em algumas faixas, no caso, Killer Without A Cause, Opium Trail e That Woman’s Gonna Break Your Heart. Mesmo tendo participado da gestação de Bad Reputation, Robbo não foi admitido como um membro permanente da banda e a capa do álbum apresentou apenas o trio Downey-Gorham-Lynott. Robertson aparece apenas numa pequena foto secundária contida na contra-capa do LP (no CD está na parte interna).


Bad Reputation

Como uma prévia do novo álbum, lançam, em julho de 1977, o single Dancing In The Moonlight (com participação de John Helliwell, do ótimo grupo Supertramp, no saxofone), o qual alcança a décima-quarta posição da parada inglesa e a quarta da irlandesa, permanecendo nos charts por oito semanas. Ao seu turno, o novo disco Bad Reputation, lançado em setembro de 1977, atingiu o quarto lugar da parada inglesa e foi mais um trabalho marcante (juntamente com Jailbreak e Johnny The Fox, ele compõe a tríade de maior sucesso do grupo!), tendo apresentado músicas que se tornariam grandes clássicos da banda como, por exemplo, as pesadas Bad Reputation, Opium Trail e Killer Without A Cause ao lado de Dancing In The Moonlight, esta o maior sucesso do álbum e que dali em diante passaria a ser uma presença constante no set list. Durante a turnê de Bad Reputation, Robbo é admitido mais uma vez, porém como convidado.



Vivo e perigoso...

No primeiro semestre de 1978, ao passo que Lynott começa a elaborar seu debut solo, o grupo inicia trabalhos com Tony Visconti em overdubs e mixagens de gravações de concertos que iriam dar origem ao disco ao vivo Live And Dangerous. Em 29 de março realizam um show no Rainbow Theatre de Londres para a gravação de um vídeo ao vivo que acabaria sendo lançado para divulgação do grupo. No mês de abril, como aperitivo para o lançamento do esperado live album, soltam um single com faixas ao vivo (Rosalie, Cowgirl Song e The Boys Are Back In Town) que veio a atingir a vigésima posição dos charts ingleses. Em junho, o pesado Live And Dangerous sai finalmente da jaula e resulta num enorme sucesso ao alcançar a segunda posição das paradas britânicas; isso numa época dominada pela disco music!!!


Live And Dangerous

Animados com o resultado do disco ao vivo, Lynott e companhia caem na estrada para uma nova leva de shows pelo Reino-Unido, tendo tocado até mesmo no enorme Wembley’s Empire Pool. Não obstante a boa performance ao vivo da banda, o relacionamento entre Phil e Robbo vai mal e este guitarrista resolve cair fora para se unir ao vocalista-baixista Jimmy Bain (ex-Rainbow, Kate Bush Band, Dio e outros) no projeto Wild Horses, o que deixou o Thin Lizzy com uma única alternativa plausível: chamar Gary Moore de volta. Nessa época as coisas não iam bem com o ótimo Colosseum II e Moore (que já andava colaborando na elaboração do futuro álbum solo de Phil) resolve aceitar o pedido de retorno, sendo novamente recebido ao vivo (como membro efetivo) num concerto realizado no Electric Ballroom de Londres na data de 28 de agosto de 1978, ocasião em que também se apresentou um grupo não-oficial (formado para pura diversão) chamado The Greedy Bastards, composto, além dos membros do Thin Lizzy, por Bob Geldof (ex-Bottowned Rats), pelo vocalista-baixista Jimmy Bain (Rainbow, Wild Horses, Kate Bush Band e Dio, dentre outros), pelo guitarrista Steve Jones (ex-Sex Pistols) e pelo baterista Paul Cook (ex-Sex Pistols), o qual, no fim do ano, lançou um single contendo músicas natalinas em ritmo punk cantadas por Phil Lynott. Curiosamente, o U2 chegou a abrir um dos quatro shows realizados por esse projeto.

No decorrer da turnê de promoção de Live And Dangerous, Brian Downey anuncia a sua saída alegando estafa e problemas pessoais, vindo a ser substituído por Mark Nausseef (ex-Ian Gillan Band) que passou a tocar a partir da gira norte-americana iniciada em setembro de 1978 ao lado das bandas de Hard AOR Kansas e Styx. Com o encerramento da turnê norte-americana no final de outubro, o grupo segue de imediato para shows na Austrália, tendo o concerto de Sydney (do dia 29 de outubro) filmado por um canal de TV local, o que deu origem a um vídeo hoje disponível em DVD.

 No finalzinho de 1978, Brian Downey retorna e o Thin Lizzy segue para Paris, junto com o produtor Tony Visconti, para a gravação de um novo trabalho, dessa vez finalmente com Gary Moore ao lado de Scott Gorham. Antes do fim do ano, Moore lança um disco solo (que já estava sendo produzido antes mesmo de seu regresso ao Lizzy) chamado Back On The Streets, o qual apresentou o sucesso Parisienne Walkways, além da regravação de Don’t Believe A Word (do Thin Lizzy) e das participações de Lynott e Downey.

Uma rosa negra no jardim...

No início de 1979, após a conclusão de mais uma obra de estúdio, o Thin Lizzy divide alguns shows com o Nazareth na America do Norte e, ao retornar a Inglaterra, lança a música Waiting For An Alibi em single, o qual atinge a sexta posição das paradas irlandesas e a nona dos charts ingleses. Em abril desse ano chega às lojas o novo e vigoroso álbum chamado Black Rose (A Rock Legend) apresentando boas composições como Do Anything You Want To (Elvis Is Dead, The King Of The Rock’n’Roll Is Dead...), Toughest Street In Town, S&M (Is Cinema...), Waiting For An Alibi, My Sarah (homenagem de Phil à sua filha, recém-nascida, Sarah Philomena), Got To Give It Up, Get Out Of Here, With Love e a épica Roisin Dubh (Black Rose no dialeto celta irlandês) com letra inspirada no poema My Dark Rosaleen de James Clarence Mangan, referência direta à Irlanda e a inúmeros temas tradicionais de sua cultura. Com composições tão fortes não podia dar outra: Black Rose foi muito bem recebido pelos fãs e chegou ao quarto lugar da parada inglesa! Parecia que o sucesso não os queria largar.


Black Rose, A Rock Legend

Após o lançamento de Black Rose, o Thin Lizzy partiu para uma excepcional turnê inglesa em que foram inúmeras as apresentações com ingressos esgotados, fãs histéricos e muita exaltação. Só no lendário Hammersmith Odeon de Londres ocorreram 4 concertos muito disputados nos dias 22, 23, 27 e 28 de abril, seguidos de uma nova digressão pela América do Norte a partir do mês seguinte e do lançamento de um single para a música Do Anything You Want To em junho, o qual chegou ao décimo-quarto lugar da parada inglesa.

Apesar do bom momento profissional, Phil Lynott passou a se envolver a fundo com álcool, drogas e farras; problemas de relacionamento tornaram a surgir entre ele e Moore, além de conflitos com a sua namorada Caroline (mãe de Sarah Philomena), o que resultou num visível declínio físico e emocional do grupo. Sob um clima pessoal ruim, os integrantes do Thin Lizzy enfrentaram um leva de shows nos Estados Unidos junto ao Journey que, de tão fracos, fizeram diminuir a sua reputação local. As coisas não andavam nada bem e durante o mês de junho Gary Moore caiu fora de uma vez por todas, o que fez com que a banda chamasse o guitarrista Midge Ure (ex-Ultravox) para o prosseguimento da turnê, o que não impediu, contudo, que a apresentação do grupo no Reading Festival da Inglaterra fosse cancelada. Em setembro, Sarah é lançada em single e alcança a vigésima-quarta colocação de vendas na Inglaterra. No mesmo mês a banda parte para a sua primeira turnê no Japão como um quinteto a partir da adição de um terceiro guitarrista na pessoa de Dave Flett (ex-Manfred Mann’s Earth Band), formação esta que só durou até dezembro daquele ano. Em 1979 também é lançada a coletânea Continuing Saga.

Em 14 de fevereiro de 1980, Phil Lynott e Caroline Crowther casam-se na igreja católica St. Elizabeth Of Portugal. Nessa mesma época, Midge Ure dá lugar ao renomado guitarrista Terence Charles White, mais conhecido como Snowy White (ex-Peter Green Band e ex-músico de estúdio do Pink Floyd, dentre outros). Em abril Lynott finalmente lança o seu debut solo chamado Solo In Soho, Snowy White estréia ao vivo no Thin Lizzy e o tecladista Darren Wharton, de apenas 17 anos de idade, é admitido no grupo.

Um passeio pelo bairro chinês...

Após uma breve turnê pela Escandinávia, o novo line up entra em estúdio e lança o single Chinatown. Durante a época de gravação do novo disco, em 29 de julho, nasce Cathleen Elizabeth, mais uma filha de Phil e Caroline. Em setembro, sob a produção de Kit Woolven, o novo álbum, intitulado Chinatown, é posto nas lojas e apresenta composições com menos brilho. O fato é que com essa nova bolacha, Lynott passou a apostar numa linha mais pop, visando alcançar o mercado fonográfico americano que estava cada vez mais dominado pelo apelo comercial da MTV.


Chinatown

Apesar de não ser um trabalho ruim, Chinatown não empolga tanto quanto os discos anteriores. We Will Be Strong, Chinatown, Killer On The Loose, Didn’t I e Hey You são as faixas que se sobressaem. Ao tempo desse novo lançamento, Gorham (guitarra), White (guitarra), Lynott (voz e baixo), Downey (bateria) e Wharton (teclados) seguem para o Japão, Austrália e América do Norte numa turnê que dura até o final do ano. O single Killer On The Loose, por sua vez, vende bem, atingindo a quinta posição da parada irlandesa e a décima da inglesa. Daí em diante inicia-se a decadência.

Invocando o anjo da morte...

No início de 1981, ao ver a queda na popularidade do Thin Lizzy, Lynott passa a se concentrar na produção de seu próximo disco solo, tendo levado ao estúdio, como convidados para essas gravações, os músicos Mark Knofler (Dire Straits), Jimmy Bain (ex-Rainbow, Wild Horses, Kate Bush Band e Dio) e Midge Ure (ex-Ultravox). Paralelamente, o novo álbum do Lizzy começa a ser preparado sob a produção de Chris Tsangarides (que futuramente produziria obras-primas como Tattoed Millionaire de Bruce Dickinson e Painkiller do Judas Priest). Em março é lançada a coletânea The Adventures Of Thin Lizzy que vende bem (chegou à sexta posição da parada inglêsa!) e premia a banda com mais um disco de ouro, além do EP Killers Live, uma compilação de gravações ao vivo.


Renegade

De início, Angel Of Death seria o título do novo álbum do Thin Lizzy, mas Scott Gorham não concorda e acabam decidindo por Renegade, nome de uma das novas músicas. Em novembro de 1981 Renegade é apresentado ao público e, embora tenha trazido ótimas e marcantes composições, não agradou muito os fãs do Reino-Unido, vindo a alcançar apenas a trigésima-oitava posição dos charts britânicos. Angel Of Death é uma ótima música, bem Heavy, inspirada nas profecias de Nostradamus; a faixa-título (talvez um auto-retrato de Phil) é uma balada lindíssima, um dos pontos altos do disco; The Pressure Will Blow tem um ótimo trabalho de guitarras gêmeas; Leave This Town é um boogie inspirado no estilão do ZZ Top (o grupo preferido de Phil Lynott); Hollywood (Down On Your Luck) tem um ‘quê’ punk; No One Told Him é puro Hard AOR; Fats é um jazzão em homenagem ao músico Fats Domino e apresenta Lynott dando um show num baixo sem trastes; Mexican Blood (que fala de emigrantes mexicanos que tentam entrar clandestinamente no território dos EUA) é um pop rock semi-acústico belíssimo seguido pela requintada It’s Getting Dangerous, ambas maravilhosas! O fato do ótimo Renegade não ter sido um Lp de sucesso é algo que até hoje surpreende. Muita gente aqui no Brasil o considera o melhor álbum da banda, o que, de modo algum, é uma opinião absurda!

Apesar da fraca repercussão comercial de Renegade, o Thin Lizzy segue, a partir do final de 1981, para shows pelo País de Gales, Escócia e Inglaterra, conseguindo, apesar da queda de popularidade, lotar o Hammersmith Odeon por 4 noites seguidas. No início de 1982, Lynott (agora totalmente dependente de drogas pesadas) participa de um concerto beneficente da Unicef, sucedido por apresentações do Lizzy na Dinamarca, país onde Brian Downey se envolve numa briga de boate e é agredido por seguranças do local. Por força dos ferimentos, Downey teve de retornar à Inglaterra, sendo temporariamente substituído ora por Mark Nausseef (ex-Ian Gillan Band) ora por Mike Mesbur, baterista do The Lookalikes, grupo de abertura nessa turnê. Posteriormente é lançado o single Hoolywood (Down On Your Luck) que sequer entra na lista dos 50 mais vendidos das paradas britânicas. A coisa tava preta pros caras!

Encerrada a digressão pela Escandinávia, o Thin Lizzy segue para suas primeiras apresentações em Portugal e, após os shows de Lisboa e Cidade do Porto, Scott Gorham passa mal em virtude do abuso de drogas, ficando distante do showbusiness por alguns meses. No concerto seguinte, marcado para o estádio do Real Madrid na Espanha, o jeito foi tocar com apenas um guitarrista, solução que não impediu o cancelamento das demais datas da turnê.

Desanimado com a situação de saúde de Scott Gorham e desiludido com o mal momento por qual o Thin Lizzy passava, Phil Lynott (que estava atolado em dívidas) começou a pensar na idéia de pôr um fim à banda. Para piorar as coisas, o seu Hotel Asgard (empreendimento administrado por sua mãe), localizado em Dublin, foi devastado por um misterioso incêndio, o que só agravou sua situação financeira. Contudo, compreendendo que ficar parado era pior, Lynott lançou-se em turnê solo pela Irlanda com a sua Philip Lynott And The Soul Band, excursão esta que durou dois meses. Nessa gira, Lynott tocou guitarra em vez de baixo, instrumento este que, em alguns shows, foi assumido pelo amigo Jimmy Bain (ex-Rainbow, Wild Horses, Kate Bush Band e Dio). Nesse mesmo período, apostando num pop classudo, Lynott lançou seu novo trabalho solo, intitulado The Philip Lynott Album, chegando a realizar uma jam junto ao guitar-hero irlandês Rory Gallagher (ex-Taste no Punchtown Festival de 1982.

Tendo de dar conta de uma dívida de mais de 300.000 libras, o Thin Lizzy estava morrendo aos poucos. Com a saída de Snowy White no final de 1982, Phil Lynott não via mais como continuar. Scott Gorham, por sua vez, estava devastado pelas drogas e não tinha a mínima vontade de voltar a fazer apresentações ao vivo, ânimo este que era comum aos demais integrantes. O encerramento das atividades mostrava-se inevitável, porém, antes do fim, surgiu a idéia da gravação de um disco e da realização de uma turnê de despedida para a quitação das dívidas pendentes, mas, para tanto, era preciso encontrar urgente um novo guitarrista para fazer dueto com Gorham.

Vida e morte

Em janeiro de 1983 várias bandas de Heavy Metal diretamente influenciadas pelo Thin Lizzy, como, por exemplo, Iron Maiden e Def Leppard, eram sucesso na Europa e nos Estados Unidos. Tais grupos faziam parte do movimento musical denominado New Wave Of British Heavy Metal (Nova Onda do Metal Britânico) formado por fãs do velho Lizzy da fase Fighting-Jailbreak-Johnny The Fox-Bad Reputation-Black Rose, ou seja, por apreciadores do período Heavy da banda irlandesa. Diante desse cenário, Phil Lynott sacou que a adoção de um direcionamento musical mais leve a partir de Chinatown só tinha trazido prejuízos à imagem do grupo. O abandono do velho estilo Heavy Rock tinha mostrado-se um erro e era hora de consertá-lo!

Certo dia, ao visitar o produtor Chris Tsangarides num estúdio de gravações em Dublin, Lynott conhece o talentoso jovem guitarrista John Sykes (ex-Tygers Of Pan Tang e futuro membro do Whitesnake) que estava se preparando para gravar o single Please Don’t Leave Me como ponta-pé para uma carreira solo. Sykes convida Phil para cantar a canção. Lynott, por sua vez, encantado com a técnica e o talento do garoto, não só aceita a proposta como também traz, para ajudar as gravações, o baterista Brian Downey e o tecladista Darren Wharton.

Depois de ótimos ensaios, ficou claro que Sykes era o guitarrista certo para fazer par com Gorham. Phil Lynott trata então de convidá-lo a entrar na sua banda. Mesmo já tendo recebido um convite para integrar o grupo de Ozzy Osbourne, Sykes opta pelo Thin Lizzy, o que deixa os irlandeses orgulhosos e animados a gravar um bom álbum de despedida e realizar a última turnê de um modo realmente digno. Com esse astral renovado, Gorham (guitarra), Sykes (guitarra), Lynott (voz e baixo), Downey (bateria) e Wharton (teclados) adentram, ainda em janeiro, ao Boathouse Studios (de propriedade de Pete Townshend do The Who), em Londres, para a gravação do derradeiro trabalho de estúdio do Thin Lizzy.

Lynott e Wharton haviam composto várias músicas novas numa linha bem mais Heavy que a adotada nos últimos dois discos. Sykes, ao seu turno, colaborou trazendo Cold Sweat para o novo álbum, composição esta que foi lançada inicialmente em single, juntamente com Bad Habits, em fevereiro de 1983, tendo alcançado o vigésimo-oitavo lugar na parada inglesa. Em março é lançado o novo disco intitulado Thunder And Lightning, o qual cai no gosto da galera Heavy inglesa e se torna o quarto álbum mais vendido na época de seu lançamento. Na capa a banda já dava o seu recado: dois punhos com luvas de metaleiro servindo de pára-raios (durante a turnê, Lynott usaria luvas idênticas!).

A repercussão foi ótima e o Thin Lizzy tava na boca da garotada outra vez! Apresentando músicas sólidas e cheias de personalidade como a faixa título (uma paulada!), This Is The One (quase punk!), The Sun Goes Down (uma viagem!), The Holy War, Cold Sweat (regravada pelo Helloween), Baby Please Don’t Go e Bad Habits, esse novo trabalho do Lizzy abordou temas ríspidos como rebeldia juvenil, conflitos, dramas existenciais, dores de amor, morte e depressão, o que de certo modo refletia o momento difícil pelo qual a banda até então passava.

Apesar do sucesso de Thunder nd Lightning, o pessoal do Thin Lizzy (que se achava devastado pelas drogas) deixou claro que esse seria mesmo o último disco e que a turnê de promoção seria de despedida, o que gerou um alvoroço nos fãs que queriam vê-los ao vivo antes que tudo chegasse ao fim. As músicas de Thunder And Lightning e o desempenho de Sykes conquistaram a moçada. O Lizzy era uma febre outra vez. Quando um novo show era anunciado, os tickets se esgotavam dentro de pouco tempo e o novo álbum não parava de vender.

O primeiro show dessa turnê ocorreu no Regal Theatre da cidade de Hitchin e foi exibido, na íntegra, através do programa Sight And Sound da TV BBC de Londres. Na seqüência, o grupo participou de outro famoso programa de Tv da época chamado The Tube, gravado em Newcastle, o que só aumentou a sua popularidade. A partir do início de março de 1983, a turnê seguiu muito bem tendo como banda de abertura os garotos metálicos do Mama’s Boys.

Logo no início da excursão, o grupo tocou quatro noites seguidas no lendário Hammersmith Odeon (mesmo local em que o Motorhead gravou o histórico disco ao vivo No Sleep ‘Til Hammersmith) nos dias 09, 10, 11 e 12 de março de 1983. Antes, por sugestão do manager Chris Morrison (que compreendia a necessidade de fazer caixa para o pagamento das dívidas), a banda havia decidido que deveria lançar um último disco ao vivo para registrar a turnê de despedida e essas apresentações no Hammersmith foram as escolhidas para a gravação. Todos os ex-membros do Thin Lizzy foram convidados a participar do show da noite de 12 de março. Os ex-guitarristas Eric Bell, Brian “Robbo” Robertson e Gary Moore juntaram-se então a Gorham, Sykes, Lynott, Downey e Wharton para uma verdadeira orgia metálica tocando alguns dos grandes clássicos da carreira do grupo. Tal como planejado, com base nessas gravações viria a ser lançado (no final de 1983) o ótimo álbum duplo ao vivo Life Live, um registro histórico de um dos melhores momentos musicais da banda irlandesa.

A partir de abril de 1983 o grupo seguiu para suas últimas apresentações em seu país natal. O pessoal do Thin Lizzy sempre foi tratado como heróis pelo povo irlandês e essa despedida seria mesmo algo doloroso. Ao final do último show na Irlanda (realizado no Royal Society de Dublin), após tocar a última música, Still In Love With You, Phil Lynott jogou seu baixo ao chão e saiu do palco em prantos.

Na seqüência a banda seguiu para apresentações na Alemanha e Escandinávia. Devido ao péssimo estado de Phil Lynott (que estava emocionalmente abalado e afundado na heroína) os concertos em solo germânico são cancelados. Depois de algum tempo o grupo segue para os países europeus da região escandinava. Na Suécia o ônibus da banda sofre um acidente onde felizmente todos saem ilesos. Mesmo assim os shows continuam. Em Estocolmo tocam no Johanneshovs Isstadion tendo, na platéia, os alemães do Scorpions, que foram até lá só para assistir à apresentação do grupo.

Com o fim dos concertos nos países da Escandinávia, a banda foi para o Japão, onde a turnê recebeu o nome de At Last Sayonara Tour. O público nipônico veio a acolher os roqueiros irlandeses com tremendo entusiasmo, mas o momento era dramático: Lynott e Gorham não conseguem encontrar heroína à venda e, durante o concerto realizado no The Sun Plaza, sofrem os efeitos da crise de abstinência em pleno palco. Conforme declarações do próprio Gorham, durante a execução de Still In Love With You, ele e Phil ficaram com os músculos paralisados, mal podendo continuar a tocar. Ao olhar para Phil, o guitarrista notou que o baixista estava com os olhos cheios de lágrimas; de repente Phil conseguiu piscar e as lágrimas rolaram por seu rosto. Para Gorham, aquele foi o momento em que ele não teve mais dúvida: o Thin Lizzy tinha mesmo de acabar!

Após a turnê japonesa, o grupo resolveu descansar um pouco até a futura apresentação no famoso Reading Festival da Inglaterra, marcada para 28 de agosto de 1983. Nesse meio tempo recebem uma proposta para a realização de shows durante o festival intinerante Folk Park da Suécia, mas Gorham não aceita. Mesmo assim, Sykes, Lynott e Downey (juntamente com o apoio do tecladista Mark Stanway, da banda de Hard AOR Magnum) partem para esses concertos pelo território sueco sob o nome temporário de The Three Musketeers. Nessas apresentações, Lynott aproveitou para tocar músicas de seus dois discos solo além dos clássicos do Lizzy. Sykes, ao seu turno, tomou a liberdade de adicionar ao repertório a música Parisienne Walkways, uma de suas preferidas dentre o repertório solo de Gary Moore. A gravação de um desses shows foi lançado em CD no ano de 2002 (pelo selo Zoom Club Records) sob o título Thin Lizzy’s Phil Lynott - Live In Sweden 83 e, segundo dizem, reflete um momento em que Lynott se achava bem mais à vontade ao vivo. Parece que o nome Thin Lizzy estava pesando mesmo para ele!

Com o fim dessa turnê pela Suécia, era chegada a hora do verdadeiro Thin Lizzy voltar à cena para a apresentação que tinha sido definida como a “The Big One”, a última da carreira em território britânico. O grupo havia sido escalado para ser headliner (atração principal) do renomado Reading Festival da Inglaterra (algo que correspondia a dizer que a banda era a maior do rock na época) e não havia melhor ocasião pra se despedir do Reino-Unido senão por cima, nesse grande festival de rock que também teve, como uma das atrações, o Black Sabbath na fase Ian Gillan.

 Assim é que, em 28 de agosto de 1983, o Thin Lizzy veio a se apresentar pela última vez em solo britânico. O concerto de Reading foi transmitido para todo o Reino-Unido pela rádio BBC de Londres, razão pela qual a sua gravação foi lançada em CD com o título Thin Lizzy - BBC Radio One Live In Concert. Este show foi iniciado de modo bem energético, com Sykes despejando os riffs de Jailbreak num andamento bem empolgante. O áudio dessa apresentação também deixa claro que o público estava alucinado, reagindo todo instante às provocações de Lynott. Na seqüência, sem piedade, veio a martelada de Thunder And Lightning, uma das músicas mais rápidas e pesadas da época, com um solo excepcional de Sykes, seguida por Waitin’ For An Alibi e as guitarras gêmeas levando o público à loucura numa versão bem mais excitante que a de estúdio. Phil Lynott pergunta então a todos: Are You Ready? Vem então Are You Ready com um peso de mil trovões em fúria, música que certamente destroçou muito pescoço lá em Reading (os fisioterapeutas ingleses devem ter feito a festa nos dias seguintes, hehehe...). Baby Please Don’t Go segue botando lenha na fogueira e mostra Lynott se esforçando pra cantá-la. Após esse grande momento do último disco, é hora de um descanso e a banda brinda a audiência com A Night In The Life Of A Blues Singer, um ótimo blues romântico com grande interpretação de Lynott sucedido pela pesada The Holy War e pela viajante The Sun Goes Down, músicas que têm o ritmo acompanhado todo tempo pelas palmas do público. Chega então a vez do primeiro grande clássico dos velhos tempos: a maravilhosa Emerald e seus riffs que ensinaram todos os guitarristas da New Wave Of British Heavy Metal como se fazer metal pesado. Após Phil anunciar que, dessa vez, vai tocar uma ‘for the cowboys out there’ (modo de apresentação de músicas até hoje adotado pelo seu grande fã, Jon Bon Jovi, nos shows da turma de New Jersey), a banda inicia The Cowboy Song com o público cantando junto a todo tempo e gritando em uníssono às provocações de Lynott. Caramba, esse é o melhor momento do show! Algo de deixar qualquer fã arrepiado! Sem pedir isso em nenhum instante, o Thin Lizzy recebe da calorosa platéia o acompanhamento do ritmo das músicas na palma das mãos o tempo todo! Tremenda despedida! Na seqüência, pra matar qualquer fã de emoção, o Lizzy despeja o maior hit do grupo: The Boys Are Back In Town. O público enlouquece e o que já era histeria vira agora uma catarse humana. Após esse grande hit, é a vez de Suicide (do álbum Fighting) encendiar tudo com ótimas performances de Scott Gorham e de Lynott. Ao fim de Suicide, a banda toca um excelente medley contendo Rosalie (que também recebe uma maravilhosa reação da platéia com palmas e o tradicional coro das torcidas de futebol), Dancing In The Moonlight e The Cowgirl Song para dar lugar, finalmente, à última do show, a linda e melancólica balada Still In Love With You que inicia com Lynott dizendo “this one is definitely the last one” (essa é definitivamente a última). Ouvir Lynott cantar a parte do refrão que diz “is this the end” deixa qualquer fã do grupo emocionando. Lindíssimo esse último show da banda no Reino-Unido! “– Obrigado, Phil, ser um apreciador do Thin Lizzy é um dos grandes prazeres da vida!”.


Sykes, Lynott e Gorham em Reading 1983

Encerrada a despedida em solo britânico, o Thin Lizzy segue para os seus três últimos concertos da carreira a se realizarem em solo alemão no festival intinerante Monsters Of Rock. Ao lado do Whitesnake, Survivor, Saxon e Krokus, são uma das atrações do Monsters na cidade de Dortmund. A Segunda apresentação acontece em Kaiserslautem, local em que o festival contou também com Motorhead e Meatloaf. Por fim, o último show da história do Thin Lizzy com Phil Lynott ocorre no Zeppelinfield de Nuremberg no dia 04 de setembro de 1983, tendo sido uma das melhores apresentações da carreira do grupo.


Nuremberg 1983, o último show com Phil Lynott

Em novembro de 1983, já encerrada a trajetória da banda, é lançado o disco duplo ao vivo Life Live, registro dos concertos realizados nos dias 09, 10, 11 e 12 de março do mesmo ano, no Hammersmith Odeon de Londres, por ocasião do início da turnê do álbum Thunder And Lightning. Apenas as músicas Renegade e Still In Love With You não saíram dessas apresentações. A primeira foi tirada de um show de 1981 (da época em que Snowy White ainda estava no grupo) e a segunda foi gravada no último concerto do grupo em Dublin, versão esta que, de acordo com as palavras de Lynott, foi bem mais emocionante e significativa que a do Hammersmith.

Apesar de muitos fãs considerarem a mixagem e a qualidade de aúdio do primeiro ao vivo, Live And Dangerous, bem melhores, o fato é que Life Live mostra o Lizzy numa fase marcante, com versões bem mais pesadas e cheias de energia que as de estúdio, além de contarem, sem dúvida, com uma participação superior do público. Por outro lado, Life Live é notoriamente um disco de despedida para os fãs e, tal como o próprio Phil Lynott, um exemplo de dedicação à bandeira do Heavy Rock. Curiosamente, num dos momentos de Life Live, Lynott chega estranhamente a falar “para todos que estão mal de saúde, sejam bem vindos!”. O que ele quis dizer com isso?

Com o fim do Thin Lizzy em setembro de 1983, Phil retornou a Dublin, Irlanda; talvez tivesse em mente se dedicar à sua vida particular, mas seu casamento ia mal; sua espôsa, Caroline, tinha saído de casa com suas duas filhas, Sarah Philomena e Cathleen Elizabeth, com o intuíto de preservá-las do modo desequilibrado de vida do marido. Lynott ficou então bastante deprimido e cada vez mais passou a se refugiar nas drogas pesadas, as quais o estavam levando a um crescente enfraquecimento físico e mental. O baixista tinha perdido a forma: sempre rodeado de balões de oxigênio, estava cada vez mais gordo, mentalmente lento, aéreo, fraco, com ataques de asma e tosse cada vez mais constantes.

Mesmo assim, no início de 1984 Phil começou a maquinar alguns projetos musicais. Após produzir a banda punk The Resistors, uniu-se a John Coghlan (ex-baterista do grande Status Quo) e a Roy Wood (ex-The Move) e formou o The Rockers, que lançou apenas um single, pela CBS (atual Sony Music), contendo as faixas We Are The Boys (Who Make All The Noise) e Rockin’ On Stage. Com o fim do The Rockers, Lynott chegou a ensaiar com Brian “Robbo” Robertson e Animal Taylor (recém-saídos do Motorhead), mas infelizmente nenhuma gravação desse super-trio chegou a ser lançada.

Com tantos projetos mal-sucedidos, Phil Lynott estava cada vez mais junkie e só. O único velho amigo que manteve contato constante foi John Sykes, o qual chegou a se mudar para a casa de Phil. Mesmo sem nenhum grupo em andamento, Sykes e Lynott viviam sob o mesmo teto, compunham e farravam juntos, o que durou até o momento em que o guitarrista recebeu a oferta de uma grande quantia para entrar no Whitesnake. Dizem que o valor era bem alto e Sykes, que estava parado, não teve como recusar. Com o Whitesnake, Sykes viria a gravar os dois melhores discos da Cobra Branca (a versão de Slide It In para o mercado norte-americano e o 1987, também chamado Serpens Albuns) além de tocar nas duas apresentações do Whitesnake no primeiro Rock In Rio em janeiro de 1985.

Com a ausência de Sykes, Phil andava desanimado, mas o tecladista Mark Stanway (que já havia tocado com ele no projeto The Three Musketeers) lhe propôs a formação de uma nova banda junto com o jovem guitarrista Laurence Archer (ex-Wild Horses, Lautrec e Stampede) e o baterista Brian Downey. Estava então formado o Grand Slam, uma nova promessa do Hard Rock inglês que, entretanto, não chegaria a prosseguir com dois ex-Thin Lizzy: três dias antes da primeira apresentação, Downey, totalmente desanimado, abandonou o grupo alegando não ter mais saco para turnês.

Nessa época, Stanway, por força de pendências contratuais com a sua ex-banda Magnum, também chega a largar o projeto, mas, depois de cumprir tais obrigações, retorna junto com outros dois músicos, o guitarrista Doish Nagle e o baterista Robbie Brennan que já havia tocado no Skid Row (não é o grupo de Sebastian Bach! Hehehe...), para reformular o projeto Grand Slam junto a Phil Lynott.

Phil estava empenhado em fazer o Grand Slam dar certo: depois de custear a gravação de um demo-tape contendo as músicas Nineteen, Sisters Of mercy e Military Man, caiu na estrada com a banda e passou a batalhar uma contratação junto às gravadoras, o que, infelizmente, não veio a ocorrer. Com medo do prejuízo, os selos fonográficos não deram crédito algum a um Lynott devastado pelas drogas. Na época, a mansão do cantor era um antro de traficantes, prostitutas e gente barra-pesada. Haviam comentários no mundo da música de que o baixista chegava a queimar 1.000 libras por semana só com cocaína e heroína.

No início de 1985 Phil se reencontra em Londres com Gary Moore (que estava levando uma bem-sucedida carreira solo) e recebe o convite para participar da gravação de seu novo álbum Run For Cover. Sob a produção de Peter Collins (que futuramente produziria o magnífico Operation Mindcrime do Queensryche) Phil Lynott, além de participar do registro das músicas Out In The Fields e Nothing To Loose, ainda contribui para Moore gravando com ele uma composição de sua autoria, Military Man (a mesma que foi gravada em demo-tape pelo Grand Slam), além de uma versão de Still In Love With You do Thin Lizzy.

Out In The Fields tornou-se um grande sucesso (seu single chegou à quinta posição da parada inglesa) e inclusive teve o seu vídeo-clip bastante veículado nos canais de Tv brasileiros durante os anos de 1985 e 1986. Nesse vídeo, Phil aparece diversas vezes tocando baixo e dividindo os vocais com Gary Moore, ambos vestindo uniformes militares de gala.

Na seqüência, Phil sai em turnê junto com Moore, o que lhe ajuda um pouco, mas vem a sofrer uma grande decepção ao não ser escalado para o Live Aid pelos velhos amigos Bob Geldof e Midge Ure (organizadores do evento), afinal esse festival reuniu bandas clássicas como Black Sabbath, The Who e Led Zeppelin e bem que poderia também ter feito o Thin Lizzy ressurgir das cinzas com uma monstruosa publicidade.

No decorrer de 1985, Phil dedica-se à sua carreira solo e grava o single Nineteen (composição anteriormente registrada no demo-tape do Grand Slam) que, ao ser lançado no mês de novembro, torna-se um completo fracasso. Antes disso, vários rumores da volta do Thin Lizzy passaram a circular no meio artístico ao passo que o mal estado de saúde de Lynott se tornou visível de todos. Ao ser constantemente aconselhado a procurar um médico, ele dizia que seus acessos de tosse eram apenas sintomas de asma. Diante de sua teimosia em não se tratar, vários amigos achavam até que ele já teria se consultado e que sabia que sua doença não tinha cura; outros achavam que, diante de todos esses sintomas graves, ele estava fazendo tudo pra não receber a notícia de que teria pouco tempo de vida. Pra piorar a situação, Lynott não largava a heroína.

Após o fracasso do single Nineteen, durante o mês de dezembro Lynott chegou a deixar claro para o velho amigo Brian Downey que queria reativar o Thin Lizzy. O baterista, por sua vez, não se opôs, e esse projeto ficou em suspenso até que na véspera de Natal, Philomena, mãe de Phil, veio a encontrá-lo muito debilitado. Os médicos foram chamados com urgência e Lynott foi levado às pressas para a Salisbury Infermary onde chegou quase em estado de coma. Nos dias seguintes, por alguns instantes, recobrou a consciência e pôde trocar algumas palavras com sua mãe, porém os novos exames constataram insuficiência renal. Após a virada de ano, Phil veio a desenvolver pneumonia, o que tornou o quadro ainda mais grave. Devido a uma infecção generalizada Phil Lynott Parris desencarnou em 4 de janeiro de 1986, mas continuará na eternidade e certamente será sempre lembrado com destaque enquanto a história do rock for contada no planeta terra.

O corpo que vestiu Phil nessa vida foi velado no dia 9 de janeiro na igreja católica St. Elizabeth Of Portugal, mesmo local em que o seu casamento com Caroline foi celebrado. Quase todos os ex-membros do Thin Lizzy estiveram presentes. Posteriormente foi levado a Dublin para um novo velório na igreja Howth Parish no dia 11 de janeiro, vindo então a ser sepultado no St. Fintan’s Cemetery onde seu túmulo recebeu uma placa, criada pelo amigo ilustrador Jim Fitzpatrick, contendo adornos celtas e a frase escrita em dialeto gaélico “Go dtuga Dia suaimhneas da anam” (“que Deus abençoe a sua alma”).

O passado é uma roupa que não nos serve mais...

Em 17 de janeiro de 1986 (treze dias após o desencarne de Lynott) realizou-se, em Dublin, o evento beneficente Self Aid que contou, dentre outros, com shows dos artistas irlandeses U2, Rory Gallagher e Van Morrison. Durante sua apresentação o U2 chamou ao palco os ex-membros do Thin Lizzy Scott Gorham (guitarra), Gary Moore (guitarra), Brian Downey (bateria) e Darren Wharton (teclado) e juntos realizaram um show tributo a Phil Lynott onde foram tocadas várias músicas do Thin Lizzy. Só de imaginar essas músicas com a voz de Bono eu já fico arrepiado! Caramba, deve ter sido demais! Pelas barbas do profeta, cadê esse bootleg???

Em 1991 é lançada a coletânea Thin Lizzy - Dedication contendo a faixa título (de autoria de Lynott e Laurence Archer) até então inédita. Em 1994 o Thin Lizzy volta à ativa. Sykes (que tem a voz idêntica à de Phil) assume os vocais e toca guitarra ao lado de Scott Gorham (guitarra), Darren Wharton (teclados), Marco Mendoza (ex-Whitesnake) e Tommy Aldridge (ex-Black Oak Arkansas, Gary Moore Band, Ozzy Osbourne Band e Whitesnake). Com esse line up lançam, em 2000, o ótimo ao vivo One Night Only só com clássicos da época de Phil Lynott.

Em 2003 Mendoza dá lugar a Randy Gregg (ex-Dee Snider Band e Angel) e Aldridge, ao seu turno, é substituído por Michael Lee (ex-Page Plant Band). Em 2005 Mendoza reassume o posto e o ‘novo’ Thin Lizzy continua até hoje na estrada como uma live band, não havendo sequer comentários sobre o lançamento de um disco de estúdio.

No dia 19 de agosto de 2005, antecipando em quase seis meses os eventos de lembrança aos 20 anos de desencarne do líder do Thin Lizzy, foi inaugurada (no cruzamento da Grafton com a Harry Street) em Dublin, Irlanda, a estátua de Philip Parris Lynott. Feita em bronze, no tamanho real, o monumento foi descerrado por Philomena Lynott e Catherire Byrne, prefeita de Dublin. Também estiveram presentes ao ato as filhas do cantor, Sarah Philomena e Cathleen Elizabeth, o ilustrador Jim Fitzpatrick, o ex-Skid Row Brendan “Brush” Shields, Smiley Bolger, organizador do Vibe For Philo (tributo a Phil Lynott que ocorre anualmente na Irlanda), além dos ex-membros do Thin Lizzy Brian Downey, Eric Bell, Gary Moore, Brian “Robbo” Robertson, Scott Gorham e Darren Wharton. Apenas John Sykes e Snowy White não compareceram.

 

 

 

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