Revista O Martelo

O Poder da Escolha

Uma notícia recente dá conta que muitos norte-americanos estão deixando os seus CDs no lixo para não carregar “peso morto” nas mudanças. Pois é…a praticidade dos MP3s derrotou de vez os espaçosos e dispendiosos CDs. Parece que os tempos mudaram de vez.

É a velha diferença entre a qualidade do áudio dos CDs em relação à compressão dos MP3s? Isso não significa mais nada. Não tendo mais onde serem guardados e por valerem bem pouco no mercado de usados, seus antigos e felizes proprietários preferem deixá-los na caçamba mais próxima do que carregar estas “malas sem alça” na viagem. O espaço fisico dos tocadores também mudou: de um enorme tocador de CDs para um minúsculo pendrive. A tendência é reduzir sempre, poupar espaco, cortar custos, popularizar.

Velhos amigos que foram morar nos Estados Unidos comentavam que há algumas décadas era fácil descolar móveis e televisões semi-novas nas ruas. Como a mão de obra era dispendiosa e os produtos baratos, o americano não perdia tempo consertando-os: compravam tudo de novo. Parece que não mudou muita coisa por lá nestas décadas. A diferença é que de certa forma, isso também está acontecendo no Brasil: o custo da mão de obra está tão caro que muitas vezes não vale a pena consertar aparelho quebrado. E a mão de obra chinesa tem muita a ver com isso. Uma vantagem que gera uma gigantesca desvantagem, pois o desenvolvimento chino é baseado no carvão. A China é o maior poluidor e você, que compra produto chinês barato é co-responsável. Não dá para comprar? Não compre.
Música sempre me pareceu algo importante na vida, mas pelo visto hoje tem o mesmo valor de um sofá velho, de uma televisão danificada. Quem não abrir o olho acaba acreditando nessas fantasias, nas necessidades preementes que nos vendem como verdades absolutas.
O mais curioso no capitalismo (nos países onde este sistema funciona) é que as mentes mais brilhantes são regiamente pagas para desenvolver objetos que facilitem as nossas vidas, mas que também nos deixem mais escravos desta “máquina” faminta. Quem tem posses muda de carro todo ano, não porque o mesmo esteja com defeito mas porque o design mudou, a lanterna está fora de moda… Em país rico não há lanternagem, assistência técnica cara, essas coisas. O sujeito joga fora e compra um novo. Na sequência dos acontecimentos, manés-espertos criaram essa história de “vintage”: o objeto que não é mais fabricado e que por isso mesmo, vale muito mais hoje. É um valor intrínseco (adoro essa palavra) que acumula outras preciosidades como cor do mofo, perda da elasticidade, verniz rachado… Tipo o pinguim de geladeira que voltou a moda porque agora se chama “kitsch” ou “cult”. Subiu o valor do objeto inútil no mercado de pulgas.
O ponto onde quero chegar é que acabamos perdendo o nosso maior bem, que é decidir por nós mesmos, pela nossa capacidade de escolha, por nosso valor e compreensão. Algo importante como plugar uma velha guitarra em um amplificador e saber – de cara – que esse é o instrumento certo; que o livro cheio de traças escondido no sebo contem uma mensagem inigualável, mas que não está na lista dos 100 mais vendidos; que a menina  chatinha da rua vai ser a mais perfeita mulher de nossa futura vida. Isso se chama sensibilidade. Os sensíveis são os otários deste mundo, os que pensam duas vezes antes de acreditar nas necessidades do Capitalismo, os que perdem tempo e dinheiro porque não se adequam. Não são ovelhas e não querem ser. Aqueles que sabem a diferença sem olhar a marca. Esse é o “X” da questão.
As pessoas acabam perdendo os sentidos, o sentimento genuíno, a experiência, o poder da escolha ao acreditar neste canto de sereia. As vontades deste capitalismo faminto exigem que nossos computadores sejam trocados ano após ano, porque se não o fizermos classificados como “pesos mortos” ou “malas sem alça”.

 

A Tutela Estatal

Foi noticiado que um “metaleiro” sueco de 42 anos chamado Roger Tullgren não consegue trabalhar. Ate ai nada de novo. Muitos não pegam no batente por problemas fisicos ou preguiça. O que nos interessa nessa história é que Tullgren tem sérias dificuldades para permanecer estável em um trabalho pois ele não consegue deixar de ir a shows de heavy metal, onde quer que eles ocorram. Segundo o noticiário, Tullgren conseguiu persuadir os seus terapeutas ocupacionais para que assinassem um termo alegando que, sendo ele submisso a esta compulsão, ele não teria condições de assegurar o seu sustento. Por causa disso o Estado sueco lhe paga um seguro desemprego no valor de 400 euros. O texto final assinado pelos terapeutas diz: “O Senhor Tullgren sente-se compelido a viver seu estilo de vida heavy metal. Isso o coloca em situação difícil no mercado de trabalho. Em razão disso ele necessita de auxilio financeiro.” Só no ano passado Roger assistiu a quase 300 shows! Praticamente um por dia! E somente de heavy metal. Mas para receber a “mesada” Roger Tullgren teve que assinar um documento afirmando estar ciente que sua paixão é uma “deficiência”. “Não consigo deixar de ser assim. É meu estilo de vida”, disse em entrevista.
Mal essa noticia caiu na boca-do-povo, a imprensa bateu na porta do tal restaurante onde Roger trabalha (ou quase isso). Descobriram que o serviço de Tullgren é lavar pratos. O proprietário do estabelecimento confessou ser bastante tolerante com o vicio do empregado. Até permitir que continuasse escutando heavy metal durante o trabalho, o dono permitiu para manter o empregado. “Desde que não muito alto quando os fregueses chegarem”, argumentou. Ou seja, o sueco ainda ganhou o direito de escutar som enquanto trabalha… Você já imaginou a tragédia que deve ser trabalhar o dia inteiro e como se fosse pouco, ter que escutar ininterrupdamente a seleção das 110 mais do pagode, porque o seu companheiro de repartição ganhou o direito na justiça? E toda essa loucura embasada por lei?
Trocando em miúdos, o cara é viciado e o Estado banca. Você que cheira pó ou fuma maconha (estou sendo o mais direto possível) o dia inteiro, que tal entrar com um pedido de pensão? É tudo igual. Se esse é o caso, Roger Tullgren deveria ser submetido a um tratamento e não receber pagamento para alimentar seu “vício” ou “deficiência”. Todo alcóolatra pode pedir ajuda a um A.A. e todo adicto a um N.A. Há nada de errado nisso. Já imaginaram se todo jogador compulsivo pedir o direito de receber indenização por não ter dinheiro para jogar? Tenho uma velha implicância sobre Estado tutelar artista. Acredito que o Estado possa ajudar (lei Rouanet) mas não deve bancar sonho de ninguém, como a velha Embrafilme, empresa estatal que financiou várias porcarias nos anos 70, gastou mais dinheiro do que melhorou o padrão cultural do povo. Ou seja, os filmes que não tinham público, mas que tinham apoio do Estado e dinheiro para fazê-los. A bufunfa era liberada por um governo militar para filmar comédias com cenas de amor explícito transformadas em sexo chulo. Dinheiro vindo da arrecadação de impostos. Essa tutela oblíqua gerava monstruosidades como refilmagens de livros de Nelson Rodrigues que não passavam de pornografia de quinta com artistas globais. Cobrança é fundamental, pois estimula quem cria a desenvolver sua arte, seja para ir assumidamente contra o mercado (e fazer história) ou seguir fielmente as regras deste mesmo mercado para gerar um produto comercialmente viável. A decisão é pessoal e não deve envolver protecionismo de espécie alguma.
Por fim, gostaria de sugerir a todos os jovens “metaleiros” brasileiros que lutem pelo direito de não assistirem mais aula ou trabalharem pois isso os impede de escutar os últimos lançamentos. Não há a mínima possibilidade de dormir, comer, namorar, comprar disco e DVD, assistir todos os shows e ainda ter que trabalhar… Você que é brasileiro, não desista nunca, esse é o seu lema. Entre na justiça agora.

 

Reflexões sobre loucura e o mundo musical

"A pior das loucuras é, sem dúvida, tentar ser sensato em um mundo de loucos."

Inicio e termino a coluna com pensamentos do filósofo Erasmo de Roterdã
retirados de sua obra maior: “Elogio da Loucura”.
O princípio da democracia – ou quase isso – é a opinião da maioria. Até rimou. E a maioria se preocupa apenas com as coisas básicas: dinheiro (não necessariamente emprego), saúde, sucesso no amor e sucesso social. Também não quero sugerir que não sejam assuntos importantes, mas a vida pode ser bem mais do que isso.
Rock sempre foi um negócio. Ninguém deve se iludir a esse respeito. O que tem crescido desproporcionalmente é o valor dos negócios em relação ao produto que se vende: a música.
A imprensa nem sempre tem a missão de informar. No fundo serve para vender algo, seja um disco ou a própria revista. O melhor jornalista geralmente é o melhor vendedor.
Novamente retornamos aos princípios básicos: comer, dormir etc. Inclua aí vender.
“Reflexões” é o titulo dessa análise, pois li/ouvi algumas argumentações diferentes sobre o mundo musical que me chamaram a atenção. Na verdade, mais do que chamar me referendam o inexeqüível.
Em um recente debate, um inteligente ex-diretor artístico de uma gravadora independente citou que a crítica/imprensa musical acabou, porque hoje se dá espaço a qualquer um que deseje escrever, mesmo que não saiba lidar com as palavras e com a lógica. O lado mais sensível dessa história, ou seja: o público reage de diversas formas quando demonstra seu desapreço pelo que lê. Principalmente de forma desmedida. Quem não lê não pode escrever. E critica não é opinião, achismo: é reflexão, raciocínio.

Outra coisa que ouvi recentemente é a opinião de alguns artistas adeptos da filosofia de abrir as portas à força, mesmo na base do dá-lá-toma-cá, pagando por entrevistas, por aberturas de shows, para tocar em rádios, consertando seus erros com programas de computador etc. “É o melhor investimento”, ouvi. Agora adicionem crítica inadequada e passional a artistas comerciantes e vocês terão basicamente o que existe no mercado, seja dito underground, ou pop: repetição de fórmulas. Parâmetros pré-formatados. Esteriótipos. O óbvio. A música caminhou para um lugar comum, o círculo da repetição.
Longe de ser a vanguarda e o restaurador dos verdadeiros princípios do rock, como já foi uma dia, há pelo menos 15 anos, o conteúdo do rock se tornou linear, vulgar, repetitivo. A publicidade alimenta o consumo e não o pensar. O público e a crítica aceitaram a superficialidade e agora o resultado é esse ambiente musical inócuo dividido em grupos que alimentam esteriótipos punk, hard rock, gótico, prog.

Isso não é liberdade de escolha, é a imposição de dogmas, de imagens estáticas.
E a quem serve? Certamente a quem não te quer ver crescer e ser independente.
A quem serve alimentar a loucura de que está tudo bem. Voltando a Erasmo é dele a última reflexão: “De fato, que mais poderia convir à Loucura do que ser o arauto do próprio mérito e fazer ecoar por toda parte os seus próprios louvores? (...) E, enquanto o modestíssimo homem fica a escutá-lo, o adulador ostenta penas de pavão, levanta a crista, modula uma voz de timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de nada, apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtudes, muito embora saiba estar ele muito longe disso, enfeitando com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por alvejar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um elefante. Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo.”

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