EDIÇÃO 24
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Dia 1º de abril de 1964. Queda do Presidente da República João Goulart que viaja para o Rio Grande do Sul, onde recusa as propostas de resistência feitas por Leonel Brizola. No dia seguinte, os dois deixam o país e partem para o autoexílio no Uruguai. No dia 10 de abril, as primeiras cassações: os ex-presidentes João Goulart e Jânio Quadros, o governador Miguel Arraes, o secretário geral do PCB, Luís Carlos Prestes, diversos deputados, dirigentes sindicais e intelectuais. As cassações mais surpreendentes foram a do ex-presidente Juscelino Kubitschek, que já estava organizando sua campanha presidencial à sucessão de Castelo Branco e a prisão de três dos cinco autores da obra História Nova do Brasil. A intensa produção de filmes, estimulada na Era JK começa a ser freada em abril de 1964. Mesmo assim, surgem clássicos do cinema brasileiro, como Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha; Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos; Os fuzis, de Ruy Guerra; e Garrincha, a alegria do povo, de Joaquim Pedro de Andrade.
Ainda despercebido pela censura, em 1964, Chico Buarque cria, para O Balanço de Orfeu, de Luís Vergueiro, a composição que inaugura a cronologia de sua obra musical. Tem mais samba contrapõe a situação real de repressão, que se alastra pelo país, ao “Tem mais samba no pranto de quem vê”. E num viés metafórico, a canção conclama: “Vem que passa / Teu sofrer / Se todo mundo sambasse / Seria mais fácil viver”.
Em 1965, Paulinho da Viola entra definitivamente para o meio musical, ao participar do espetáculo Rosa de Ouro, montado por Hermínio Belo de Carvalho, com o conjunto Os cinco crioulos, formado por: Nelson Sargento, Anescarzinho, Jair do Cavaquinho, Elton Medeiros e Paulinho da Viola. O espetáculo, em cartaz por quase dois anos, no Teatro Jovem do Rio viajou, depois, para São Paulo e Salvador. O Rosa de Ouro foi o marco do retorno da cantora de teatro de revista Araci Cortes e do lançamento de Clementina de Jesus. Nesse período em que a Bossa-Nova e a música estrangeira dominam o cenário da música popular brasileira, o espetáculo Rosa de Ouro é o grande responsável pelo retorno triunfal do samba.
I Festival da Excelsior. São Paulo. Abril de 1965. Chico Buarque participa, com Sonho de Carnaval (“Carnaval, desengano. Deixei a dor em casa me esperando”), defendida por Geraldo Vandré: Essa composição foi gravada em compacto simples com Pedro Pedreiro. Vence o festival Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, defendida por Elis Regina.
Rio de Janeiro. Julho de 1965. Boate Argêpe. Show Meu Refrão. Direção e produção de Hugo Carvana e Antônio Carlos Fontoura. Primeiro entrevero com a censura. No show, dezesseis músicas só de Chico. É proibida Tamandaré (“Pois é, Tamandaré / a maré não tá boa / vai virar a canoa / e este mar não dá pé, Tamandaré...”). Nunca chegou a ser gravada. Considerada uma ofensa ao patrono da Marinha, o almirante Tamandaré, personagem da nota de um cruzeiro.
Rio de Janeiro. Fevereiro de 1966. Paulinho da Viola vence, pela Portela, com o samba-enredo Memórias de um sargento de milícias.
II Festival da Record. São Paulo. Ano 1966. Empate entre A Banda, de Chico Buarque, defendida por ele e por Nara Leão; e Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, defendida por Jair Rodrigues, Trio Maraiá e Trio Novo. O compacto de Nara Leão com A Banda vende, em menos de uma semana, 100 mil cópias. Quatro dias depois do festival, o poeta Carlos Drummond de Andrade saúda A Banda numa Crônica no Correio da Manhã. A crônica foi reproduzida na contracapa do primeiro song book lançado em dezembro de 1966, pela Editora Francisco Alves. Nesse mesmo festival, Paulinho da Viola e Capinam vencem, em 3º lugar, com Canção para Maria, defendida por Jair Rodrigues.
II FIC da TV Globo. Rio de Janeiro. Ano 1967. Chico Buarque vence, em 3º lugar, com Carolina, defendida por Cynara e Cybele. A imagem de “bom moço” de Chico, conseguida com A Banda, foi reforçada com Carolina. Tanto que Aguinaldo Rayol grava Carolina no LP com as doze preferidas do general Costa e Silva, o novo “presidente” eleito indiretamente.
III Festival da Record. São Paulo, Outubro de 1967. Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, defendida por Marília Medalha, vence em 1º lugar. Chico Buarque vence, em 3º lugar, com Roda Viva, defendida por ele e pelo MPB4. Neste mesmo ano, Chico escreve a peça Roda Viva, encenada em 1968.
Passeata dos cem mil. Manifestação estudantil de rua. Chico Buarque, Edu Lobo e Milton Nascimento, dentre outros artistas, saem na linha de frente da passeata, em resposta ao assassinato do estudante Edson Luís, morto a tiros pela Polícia Militar, em março de 1968, no Rio de Janeiro, quando protestava contra o aumento das refeições no restaurante universitário Calabouço. O enterro foi uma grande passeata de protesto, com 50 mil pessoas.
I Bienal do Samba. TV Record. São Paulo. Junho de 1968. Chico Buarque vence, em 2º lugar, com Bom tempo (“Um marinheiro me contou / Que a boa brisa lhe soprou / Que vem aí bom tempo”). Sem atentar para a real mensagem da composição artística, o público critica a participação de Chico, como se Bom tempo se caracterizasse como uma canção “alienada”, num momento em que no país tudo prenunciava mau tempo. Paulinho da Viola vence a bienal, em 6º lugar, com o samba Coisas do mundo, minha nega. São dessa época, os filmes Terra em transe, de Glauber Rocha; O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla; e Macunaíma, de Mário de Andrade, dirigido por Joaquim Pedro. Este discutia a necessidade de um herói brasileiro moderno que superasse o individualismo de Macunaíma, o herói da nossa gente. Nessa época, dentre outras, são encenadas as peças: O rei da vela, de Oswald de Andrade; e Roda Viva, de Chico Buarque. Com direção de José Celso Martinez Corrêa, Roda Viva estreia, em 15 de janeiro de 1968, no Teatro Princesa Isabel, Rio de Janeiro. Viaja para São Paulo. Em 17 de julho, o Comando de Caça aos Comunistas invade o Teatro Galpão, destrói o cenário. A peça estreia em Porto Alegre. Em 3 de outubro, a repressão cerca o hotel, sequestra dois do grupo, os abandona num matagal distante e embarca os demais, num ônibus, para São Paulo. E Roda Viva só tematiza um artista popular triturado pelos mecanismos do showbiz.
IV Festival da Record. São Paulo. Ano 1968. Chico Buarque vence, em 1º lugar, com Benvinda, defendida por ele próprio. Paulinho da Viola, por solicitação de Hermínio Bello de Carvalho, música Sei lá, Mangueira, defendida por Elza Soares. Classificada entre as finalistas no festival, desperta ciúme dos companheiros da Portela (já a escola do coração do compositor). Em 1970, no entanto, Paulinho da Viola cria um de seus maiores sucessos, verdadeiro hino à Portela, o samba de morro Foi um rio que passou em minha vida.
III FIC da Globo. Rio de Janeiro. Ano 1968. Chico Buarque e Tom Jobim vencem, em 1º lugar, com Sabiá, defendida por Cynara e Cybele, sob vaias de um público que torcia por Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré, por desvelar um engajamento político explícito, no entanto, sem atentar para Sabiá, como a nova e premonitória canção do exílio.
Auto-exílio.
Chico Buarque foi para a Itália em janeiro de 1969, com a esposa grávida da primeira filha e, em 10 dias, faria um show no Midem, em Cannes, França; e lançaria um disco na Itália pela RCA. Por sugestão da família e dos amigos, ficaram por lá 14 meses. Motivo: as perseguições no país iam se acentuando. A composição de 1969 Nicanor, de Chico, não deixa de retratar “a obra e arte das predestinações da Ditadura”: (“Onde andará Nicanor? / .../ E mais viúva / Todas elas fazem ninho da saudade e da virtude / mas carinho / Queira Deus que Deus ajude”). Em reação à propaganda nacionalista do governo militar “Brasil, ame-o ou deixe-o”, o jornal Pasquim publica, em junho de 1969, “Em terra de cego, quem tem um olho, emigra!”
V Festival da Record. São Paulo. Ano 1969. Paulinho da Viola vence o festival, em 1º lugar, com Sinal Fechado. Para os opositores ao regime, Sinal Fechado escancarava as tensões de uma sociedade sem liberdade, de um povo calado pela censura, pelos exílios, pelo medo da tortura.
O samba, no início de 1970, se configura como um dos elementos mais importantes da contracultura que florescia; e também como a forma de expressão mais natural do morro. Para respaldar essas afirmações, Autran resgata a opinião de Paulinho da Viola sobre o binômio samba & marginalidade: “Samba, como forma de manifestação cultural, é o veículo ideal da nova política, por atingir a todas as camadas da população. Marginal é o cara que se coloca contra o vigente. O marginal, no nosso tempo, sempre, é justamente o que é vivo, o que questiona, o que incomoda. O samba, nesse sentido, continua vivo, questionando, incomodando.”
1970.
Em pleno apogeu da ditadura militar, Chico Buarque volta da Itália com a família. Por orientação do amigo Vinicius de Moraes, somente após ter garantido todo um processo de divulgação de um especial na TV Globo, de uma apresentação na boate Sucata e do lançamento do LP Chico Buarque nº 4. A censura prévia estava instituída. Para aprovação, ou não, as letras das músicas iam para Brasília. E a censura do governo Médici deixa escapar, a canção Apesar de você (“Hoje você é quem manda / Falou, tá falado / Não tem discussão / .../ Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia”).
O próprio compositor fala sobre essa experiência: “Quando cheguei da Itália já existia a censura prévia, mas eu não tinha conhecimento de toda essa parte burocrática. Cheguei com esse disco, essas músicas, com certeza, foram submetidas à censura. Foi na volta que fiz e gravei Apesar de você. O problema começou aí porque a música foi submetida à censura e passou. O disco saiu, começou a fazer sucesso, tocar no rádio. Então foi apreendido. Proibiram uma coisa que já tinha sido liberada. O censor que deixou passar foi punido. Ficou então aquela marcação cerrada. Fiquei sendo uma espécie de traidor que tinha enganado a censura e o negócio começou a pesar.”
Com o deslize no rigor da repressão à criação, num momento em que estava instituída a censura prévia e Apesar de você passou, Chico também passa a conhecer, de perto, a força da censura: “Os soldados de plantão só perceberam quando o compacto já alcançava quase cem mil cópias vendidas. Foram até a gravadora, impediram a distribuição e quebraram os discos que estavam prontos. Só não conseguiram destruir a matriz. Apesar de você virou hino de repúdio à ditadura.” Em setembro de 1971, Chico declara “De cada três músicas que faço, duas são censuradas.” Tanto que Chico grava o disco Construção, com músicas parcialmente censuradas e, com isso, tem que alterar alguns versos. O mesmo ocorre com Partido alto (1972), por sua letra reveladora da sofrida realidade social brasileira: (“Diz que Deus dará / .../ Deus é um cara gozador, adora brincadeira / Pois pra me jogar no mundo, tinha o mundo inteiro /.../ Na barriga da miséria, eu nasci batuqueiro (brasileiro ) / Eu sou do Rio de Janeiro”). O boicote à produção do criador, depois de Construção, se instala. Além de Apesar de você (1970), dentre outras, foram vetadas Minha História (1970), Atrás da porta (1972), Tanto Mar (1975).
Ano 1972. A censura não deu descanso, mas a composição Quando o carnaval chegar, de Chico Buarque, explode em metáfora. É o grito abafado da liberdade tão ansiada pelos brasileiros: (“Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar / Tô me guardando pra quando o carnaval chegar”). No filme Quando o carnaval chegar, dirigido por Carlos Diegues, Chico estreia no cinema como compositor, cantor e artista, ao lado de Nara Leão e Maria Bethânia.
Ano 1973. A composição Cálice, de Chico e Gilberto Gil, era apresentada, vez por outra, à Polícia Federal com o nome Pai. Às vezes passava, mas não passou no show Phono 73, realizado pela gravadora Phonogram (ex-Philips e depois PolyGram), em maio de 1973, no Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo. Os compositores, todavia, tentaram executá-la sem a letra. Os microfones foram cortados. Os problemas com a Censura e com a gravadora se intensificaram. Eis parte da letra de Cálice que não pôde ser cantada: “Pai, afasta de mim esse Cálice / .../ Mesmo calada a boca, resta o peito / .../ Como é difícil acordar calado / Se na calada da noite eu me dano /.../ Mesmo calado o peito, resta a cuca / Dos bêbados do centro da cidade / .../ Quero morrer do meu próprio veneno / Quero / Me embriagar até que alguém me esqueça.”
Calabar ou O elogio da traição, de Chico Buarque e Ruy Guerra. O diretor Fernando Peixoto ensaia a peça. A censura proíbe sem maiores explicações, deixando, na época, um prejuízo de 30 mil dólares. O livro é publicado e o disco Chico canta é lançado em 74. Chico conta que, a partir de 1978, 1979, começa a receber cartões do CCC, com mensagens sempre da mesma natureza, mais exatamente do tipo: “O Comando de Caça aos Comunistas deseja a você, ativista da canalha comunista que enxovalha nosso país, um péssimo Natal e que se realize no ano de 1979 nosso confronto final.”
Como membro do Partido Comunista, Paulinho da Viola participa de debates e reuniões, e organiza shows para angariar fundos para a causa. A obra do compositor caracteriza-se por ser engajada, completamente sintonizada e coerente com o momento histórico, todavia, uniforme, isenta de contaminações de modismos. Segue a mesma linha que marcou toda sua carreira e se revolta com os “patrulhadores da MPB”, que cobram do samba uma renovação constante: “Ninguém diz que o blues precisa ser renovado.” Em Argumento, de 1975, (“Olha que a rapaziada está sentindo falta / De um cavaco, um pandeiro e um tamborim”), o compositor reafirma um estilo próprio.
Depois do episódio do show Phono 73, com Cálice, a situação de Chico Buarque foi se agravando com a censura e se fragilizando com a PolyGram. Até que, em 1980, “a voz foi buscar outro dono”. Ironia. Chico termina de gravar Almanaque pela Ariola e ela é vendida justamente para a PolyGram. A situação de ironia se estampa na conotação metafórica referente à gravadora imbricada à censura, na composição referida A voz do dono e o dono da voz, finalizada com “O que é bom para o dono é bom para a voz”.
Ao buscar canções que tratam do desencanto diante da falta de perspectiva de vida, este artigo resgatou canções de 1971 como Construção, Deus lhe pague e Cotidiano de Chico Buarque e canção de 1973 como Comprimido, de Paulinho da Viola, uma vez que esta efetua uma referência direta à composição Cotidiano, de Chico Buarque.
Chico “mais ligado à linha social”, estampa em Construção, no plano de reconstituição da realidade, o esmorecimento dos sonhos do “milagre econômico”, tão propalado no governo Médici, de um operário da construção civil, que constrói edifícios e nem sequer tem moradia. O próprio compositor admitea existência de uma carga emocional inerente ao momento da produção poética, que pode desvelar um efeito de sentido sócio-emocional em Construção: “/.../ Na hora em que componho, não há intenção, só emoção. Em Construção, a emoção estava no jogo de palavras (todas proparoxítonas). Agora se você coloca um ser humano dentro de um jogo de palavras, como se fosse ... um tijolo – acaba mexendo com a emoção das pessoas.”
A canção explicita a idealização do retirante frente à vida a ser conseguida na cidade grande. Sonho desfeito. Desencanto frente à vida. A morte surge como alento (“Seus olhos embotados de cimento e tráfego”). Para ele, ele morre “como se fosse” (“E flutuou no ar como se fosse um príncipe”); para a sociedade, até morto, ele é uma “coisa” que atrapalha, por estar fora de lugar (“E se acabou no chão feito um pacote bêbado / Morreu na contramão atrapalhando o sábado”). E, por extensão, o fato do “corpo” (do retirante) também estar num local indesejado (que ironicamente é público) por parte da sociedade (proprietária de automóveis) (“Agonizou no meio do passeio público / Morreu na contramão atrapalhando o tráfego. Após o “operário” ser descaracterizado como ser, visto que “máquina” estabelece a desumanização do personagem no trabalho e no amor, o compositor – num momento máximo de ironia que se contamina de sarcasmo – grava, na sequência, a canção Deus lhe pague, num tom, não de agradecimento nem de desabafo, mas de revolta não contida, não resignada. Toda dose de sarcasmo se evidencia na falta de expectativa, no “ter que engolir”. A relação sociedade / operário, em Deus lhe pague, é mais aviltante, à medida que a ideia de troca de trabalho pela remuneração não se configura como: quando um precisa, trabalha e recebe e, o outro, também precisa, contrata e paga; mas está presente a ideia única “de condescendência” (“Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir / A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir / Por me deixar respirar, por me deixar existir / Deus lhe pague”).
Se em Deus lhe pague, a “repressão” e o “sofrimento” são impostos por “forças da sociedade”; em Cotidiano, metaforicamente, surge “ela”, como a figura, paradoxalmente: desinteressante (“Todo dia ela faz tudo sempre igual”); prestativa (“Me sacode às seis horas da manhã”); artificial (“Me sorri um sorriso pontual”); amorosa (“E me beija com a boca de hortelã / de café”); protetora (“Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar”); dominadora (“E essas coisa que diz toda mulher /.../ Seis da tarde como era de se esperar / Ela pega e me espera no portão”); sufocante (“Diz que está me esperando pro jantar”); ardente (“Diz que está muito louca pra beijar / E me beija com a boca de paixão“); insegura (“Toda noite ela diz pra eu não me afastar / Meia-noite ela jura eterno amor / E me aperta pra eu quase sufocar / E me beija com a boca de pavor”).
A composição Comprimido de Paulinhoatualiza uma situação de violência presente no dia-a-dia de muitos casais (“Deixou a marca dos dentes dela no braço / Pra depois mostrar pro delegado / Se acaso ela fosse queixar / Da surra que levou / Por causa de um ciúme incontrolado”). A alteração de comportamento do “nego”: provoca ciúme na mulher (“Ele andava tristonho guardando um segredo / Chegava e saia / Comer não comia / E só bebia / Cadê a paz? / Tanto que deu pra pensar que poderia / Haver outro amor na vida do nego / Pra desassossego e nada mais”); aguça a curiosidade dos conhecidos (“O povo ficou in trigado / Com o acontecido / Cada um dando a sua opinião”); provoca desespero na mulher (“Ela acendeu muita vela / Pediu proteção”); e resulta num ponto de interrogação (“O tempo passou / E ninguém descobriu / Como foi que ele se transformou”). O próprio título, Comprimido, carrega mais de um sentido: denotativamente, “comprimido” remete-se a um remédio que cura uma doença física (“Ele chegou / Pedindo um copo d’água pra tomar um comprimido”); econotativamente, “comprimido” suscita o efeito provocado pelo desassossego. A morte / renúncia em Comprimido, de Paulinho da Viola – contrariamente à sublimação presente em Cotidiano, de Chico Buarque – surge como válvula de escape, frente à opressão provocada pelo status quo (“Ele andava tristonho / guardando um segredo / Chegava e saia / Comer não comia / E só bebia / Cadê a paz?”).
Em 1969, Paulinho da Viola cria em Sinal Fechado (“Olá como vai / eu vou indo e você / tudo bem / eu vou indo /.../ quanto tempo / pois é / quanto tempo /.../ me perdoe a pressa / .../ não tem de que”) frases num processo inédito na música popular brasileira (“Pra semana / o sinal eu procuro você / vai abrir”), uma estratégia de construção composicional, para desnudar as tensões de uma sociedade sem liberdade, de um povo calado pela censura, pelos exílios, pelo medo da tortura; Chico Buarque, por uma questão de sobrevivência do criador, frente à censura, em 1974, recorre à criação de um pseudônimo: Julinho da Adelaide. O próprio Chico Buarque afirma: “Serviu para testar se passava. E passou.” Destarte grava, justamente, no disco Sinal Fechado, como intérprete, Acorda amor (1974), de Leonel Paiva & Julinho da Adelaide, e músicas de outros compositores. Chico Buarque como Julinho da Adelaide, consegue gravar Acorda amor (1974), Jorge Maravilha (1974) e Milagre Brasileiro (1975) e imprime a essas composições uma carga irônica, sarcástica e satírica tão ácida.
Desmascarado pelo Jornal do Brasil, Julinho da Adelaide morre em 1975. Chico Buarque sente de forma realística o impacto do “sinal fechado”, trabalhado em samba sofisticado por Paulinho da Viola. A partir desse “furo” do jornalismo brasileiro, as letras continuaram indo para Brasília, só que acompanhadas, da documentação pessoal do compositor.
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