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por Carlos Lopes

Honoráveis Bandidos – Um Retrato do Brasil na Era Sarney - Palmério Dória – Geração Editorial

“Qual é a pior coisa do Maranhão?”
“A família Sarney.”
“Qual é a melhor coisa do Maranhão?”
“Ser da família Sarney.”

As primeiras notícias que recebi a respeito do lançamento deste livro do jornalista Palmério Dória, 60 anos (com o auxílio de Mylton Severiano), no Estado do Maranhão é que o ambiente foi tumultuado por um grupo de arruaceiros.

E por que será? A lógica induz à seguinte conclusão: só pode ter sido gente mandada pelo personagem atacado no livro. Ou será que você sairia de casa para criar tumulto por causa de um mero livro entre milhares que são lançados anualmente? Será possível que uma figura tão poderosa como o ex-presidente realmente se preocupe, ou perca suas noites de sono por causa de meras 200 páginas, quando ele tem o Estado do Maranhão em suas mãos e suas decisões influenciam a política deste país desde a metade do século XX? Talvez ele tenha perdido o sono sim, porque essas são as 200 páginas mais chocantes já lidas sobre a política brasileira, desde o golpe de 64, passando pela Nova República, Plano Cruzado, sequestro da poupança em 1990 e o loteamento do setor elétrico.

Com 50 anos de vida pública, o ex-presidente ressurgiu – mal - na mídia em 2009 por causa do escândalo dos atos secretos - as decisões do Senado que não tinham qualquer controle público, em sua maioria para pagamentos extras para assessores de parlamentares – muito bem documentados através de gravações autorizadas pela Justiça. Os atos também envolveram a contratação dos namorados das netas. E vale a pena recordar: súmula do STF (Supremo Tribunal Federal) proíbe a nomeação de "parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau".

Sarney hoje avô e antes Filho, foi deputado federal, governador do Maranhão, presidente da República e Senador por 5 vezes. E como todo poderoso, ele tem os seus súditos, o seu clã. A lista de honoráveis súditos ou “bandidos” pertencentes ao clã é exposta na própria orelha do livro: Edemar Cid Ferreira do liquidado Banco Santos; Renan Calheiros; Edison Lobão (o Ministro do Apagão); Gim Argello; Agaciel Maia; Michel Temer; Wellington Salgado e Silas Rondeau entre outros menos qualificados. Essa é a turma do Sarney, que envolve filhos, irmãos e netos procurados ou investigados pela Polícia Federal.

E onde essa história de mandos e desmandos teve início? Talvez tenha começado nas ações de uma figura que não possui laços de sangue com os Sarney, mas que os têm, e muito, com o Maranhão. Seu nome era Ana Jansen, a Rainha do Maranhão que mandou na terrinha de 1820 a 1860 (o autor que não por acaso, diz que o Sistema Mirante de Comunicação – Globo - fica na Avenida Ana Jansen). Ela foi casada com o homem mais rico do Maranhão, que fez fortuna negociando cheques devidos à Coroa e comprando as terras dos jesuítas. Como Sarney, ela também tinha os meios de divulgar o único ponto de vista existente: o seu. No jornal O Guajajara fazia gato e sapato dos oponentes. Ela mandou bater, matar, despejar e sabotar um moderno sistema de abastecimento de água potável, porque faturava com o comércio de pipas d´água. E o que ela mais queria era o título de baronesa, que em sua imaginação seria dado sem atropelos por Dom Pedro II, o que nunca ocorreu: foi indeferido.

O autor nos lembra e prova que existe uma Ana Jansen rediviva que se chama Roseana e é a filha dileta do Sarney, a Princesinha do Calhau – menção à mansão na praia do Calhau, que ocupa um quarteirão, em frente à Baía de São Marcos em São Luís. A própria é servidora do Senado graças a um trem da alegria de 1982, assinado pelo então Senador e coronel Jarbas “às favas os escrúpulos” Passarinho. Roseana, que ganhou recentemente um governo no tapetão, é fissurada em jogatina e para isso faz todo vôo possível. Por exemplo para jogar em Assunção, ela gasta uma baba com o custo operacional, reabastecimento, aluguel de hangar e tudo isso sai mais caro do que viajar pelas vias legais de São Luís para el capital del juego no sul.

O livro destrincha com detalhes escabrosos, e dá os nomes aos bois, que praticaram e praticam toda a “sorte” de artimanhas e politicagens favorecendo a família, parentes próximos, assessores e cunhados. É uma lista enorme que poderia ser facilmente trocada a peso de ouro por fichas na mesa verde. E as histórias são tantas, que não há como listá-las, sem magoar o autor. A leitura é obrigatória para quem deseja compreender o porque deste país ser único. Por exemplo, quem se lembra que em primeiro de março de 2002, oito agentes e dois delegados da Polícia Federal vasculharam a empresa de Roseana e do seu marido Jorge Murad onde encontraram 1 milhão e 350 mil reais em dois imensos cofres, o que enterrou o sonho de Roseana se tornar a presidenta da Nação. Escapamos por pouco. Mas o que será do amanhã se vós, brasileiros conscientes não se informarem, não lerem livros de peito aberto como esse?

Um dos capítulos mais curiosos e tétricos do livro, fala sobre a quantidade de nomes Sarney em tudo quanto é canto do Estado, dados esses coletados pelo blogeiro Veridiana Serpa. Curvem-se: Maternidade Marly Sarney, vila Roseana Sarney, vila Sarney Filho, escola Municipal Rural Roseana Sarney, Biblioteca José Sarney, Tribunal de Contas Roseana Murad Sarney, Ponte José Sarney, Avenida Presidente José Sarney, Rodoviária Kyola Sarney, Fórum José Sarney de Araújo Costa, Sala de Imprensa Marly Sarney, Sala de Defensoria Pública Kyola Sarney, entre outras menos solicitadas tais como travessas e ruas com os nomes da famiglia.  

Coisa de louco.

 

 

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