Revista O Martelo
 
 
  

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Pode a música negra mais brasileira e quente de todas ser “feita” em um país (muito) branco e frio? Por incrível que pareça, a resposta é sim. Há bandas de blues em todo canto (que apesar de tudo, conta com o apoio e o poderio da indústria), e apesar da desproporção de pressão midiática, há sim quem se empolgue com os nossos sambas-enredo em detrimento da música norteamericana.

Helsinque, a capital da Finlândia, com 580 mil habitantes, espalha-se por várias ilhas, entre as quais estão Seurasaari, Lauttasaari, Korkeasaari e a ilha fortaleza de Suomenlinna.  A Finlândia, com pouco mais de 5 milhões de pessoas, faz fronteira com a Suécia a oeste, com a Rússia a leste e com a Noruega ao norte. Um quarto do país está dentro do círculo polar ártico (faz calor com 15 graus) e a sauna é uma invenção finlandesa.

O Helsinki Samba Carnaval ocorre em um final de semana no meio do ano, normalmente por ocasião do dia da cidade de Helsínque em 12 de Junho, devido a impossibilidade de realizá-lo nos meses de janeiro a março, obviamente por causa do tempo. Apenas cinco das treze escolas locais organizadas pela Suomen Sambakoulujen Liitto ou Association of Samba Schools (ASSF) concorrem ao título.

Se o futebol é brasileiro, por que o samba não pode ser finlandês?

Esta matéria foca o Império do Papagaio de Helsinque, a mais famosa delas, sem desmerecer as outras que são a Carioca da cidade de Turku, a Maracanã de Lahti fundada em 1981, El Gambo (referência ao bairro carioca da Gamboa) da cidade de Kokkola e a União da Roseira de Tampere. O evento, apesar de pequeno comparado com o do Rio, cresce consideravelmente a cada ano e desperta bastante a atenção. Inclusive em 2007, a presidenta Tarja Halonen marcou presença para prestigiar o carnaval local.

Todos os anos, integrantes dessas escolas vem ao Rio para aprender e acompanhar in loco as novidades do mundo do samba. Em março do ano passado, integrantes do Império do Papagaio estiveram em Penedo, município de Itatiaia no estado do Rio para o Festival Finlândia, que comemorou os 80 anos da chegada dos colonos finlandeses à cidade. A fundadora da escola e organizadora da apresentação, a finlandesa Hannelle Leppäneva tem uma casa em Penedo.

A Império foi criada inicialmente com o nome de Escola de Samba de Helsinki. Após unir-se a uma escola mais recente, assumiu o nome de Império do Papagaio, que hoje conta com cerca de 200 integrantes.

Hannelle contou que veio ao Brasil pela primeira vez em 1974, para um estágio, tendo trabalhado durante um ano no primeiro restaurante finlandês de Penedo. A ideia de fundar uma escola de samba na Finlândia ocorreu quando ela atuava como guia de turismo no Rio de Janeiro, onde conheceu Jussy Virkilla, que tinha ido a Penedo visitar os pais. Em 1976 eles fundaram a Escola de Samba de Helsinki. Jussy ficou encarregado de ensinar o “samba no pé” e Hannelle tomou conta da confecção das fantasias, dos adereços e da parte administrativa. Apesar do prematuro falecimento do sócio, ela prosseguiu com a escola.

Desde 2000, passistas e alguns integrantes da Escola de Samba Império do Papagaio vêm ao Rio de Janeiro, convidados oficialmente para desfilar e visitar as escolas tradicionais, e aproveitam para aprender os truques. Alguns dos integrantes cá estiveram no Brasil desde a segunda metade dos anos 80 para tomar lições de calor e liberdade em um país que já foi conhecido pela falta de liberdade. E toma português de finlandês com cavaquinho e tamborins com as peles originais.

A Império do Papagaio foi retratada com carinho no programa “Passagem Para...” (Canal Futura) do jornalista e botafoguense Luís Nachbin. Esse programa, que é um dos meus favoritos exibido em um dos meus canais favoritos, trouxe imagens estonteantes que falaram mais do que mil palavras ou mil tamborins em brasa.  Imediatamente pensei em escrever esta matéria, pois eu não poderia ser o único do meu círculo social que ouvira falar de samba na Finlândia. Depoimentos dos participantes, inclusive das quase desnudas (faz frio) passistas, das baianas e dos puxadores de samba, que não falam português, me deixaram assustadamente orgulhoso, como também me fizeram pensar nas conquistas e estragos da globalização. Mas enfim, e  cá entre nós, não desaprovo a globalização verdeamarela.

Os sambas em finlandês podem ser ouvidos no site da escola em http://www.papagaio.fi/en/index.html. Lá se lê que "o samba é mais do que um ritmo, é uma disposição mental."

Fotos da página oficial do Império do Papagaio e do blog http://www.flickr.com/photos/mrhands-/

Para minha surpresa, um dia após postar esta matéria sobre a Império do Papagaio e o carnaval finlandês, recebi um e-mail da president“a” Johanna Vehmas do Papagaio. Como de praxe, ela já esteve no Rio para assistir e conhecer in loco os barracões e assistir os desfiles. O mais surpreendente da pronta resposta de Johana foi o fato de que ela estava totalmente atolada com o seu trabalho, pois faltava apenas 3 dias para o carnaval, mas mesmo assim, ela arrumou um tempinho para me responder. Não nego que a gentileza da moça me surpreendeu. Se eu tivesse escrito para qualquer presidente de Escola de Samba no Brasil eu nunca seria respondido, três dias antes do desfile. Entendo que existam diferenças culturais, fora o tamanho da festa, que na Finlândia ainda é humilde se comparada com os gigantes carioca e paulista.

Deixando o jornalismo de lado (sem problema, já que “rasgaram” o meu diploma mesmo...) e enveredando pelo lado emocional, o que mais me impressiona nesse carnaval finlandês é a sua existência, esse encontro entre Brasil e Finlândia é algo quase filosófico. Apesar de haver tantas bandas de rock espalhadas no mundo, inclusive em ambos os países, a simples reprodução física de um produto cultural gerado no calor dos trópicos em um ambiente frio e inóspito é no mínimo surpreendente, num nível de entendimento próximo à incredulidade. Os meninos e meninas do frio fazem o seu trabalho muito bem, ao reproduzir o carnaval brasileiro com tudo o que tem de direito, com passistas, porta-bandeira, puxadores (olha o Jamelão, aí gente!) e baianas. E merecem todo o apoio daqueles que amam o Brasil e a sua cultura.

As palavras de Vehmas, em português perfeito, esclarecem o kaamos, à luz do sol da meia-noite.

“Agradecemos pelo seu interesse em samba finlandês, e pelo seu conhecimento do nosso modo de fazer samba brasileiro aqui em nosso país.

No momento, estamos nos preparando pro Carnaval, o dia do desfile é justamente daqui a três dias.

Este ano não tem concurso entre as escolas, mas todas as escolas de samba do país (que em total são 7 e não 13 como você escreveu) vão se juntar para fazer um grande desfile em conjunto, o enredo é "A História do Samba". Este é uma forma de comemorar o vigésimo aniversário do nosso Carnaval e a entidade organizador, a Liga da Escoas de Samba na Finlândia, a SSKL.

O trabalho nas alegorias e fantasias foi dividido entre as escolas, que vêm com suas próprias alas, mas além disso temos também alas juntando pessoal de todas escolas, como a ala das baianas que vai desfilar com quase 40 integrantes, mais uma ala de casais de MS&PB das sete escolas. A bateria vai ser uma só, com 80 ritmistas. No total, 600 sambistas vão desfilar, divididos em 25 alas.

O desfile todo vai cantar um samba-enredo em finlandês (aqui no desfile se canta samba-enredo feito por finlandeses, em finlandês), porém este samba começa com "Axé, Mama Africa!". O enredo aborda a história do samba desde África até a Finlândia e o resto do mundo, passando pela Bahia, o carnaval de rua do Rio de Janeiro, as primeiras escolas de samba, e a Hollywood de Carmen Miranda.

Eu sou a carnavalesca, trabalhei com um equipe de pesquisadores e figurinistas de todas as escolas pra desenvolver o tema, as fantasias e alegorias. Já estava várias vezes no Rio pesquisando a arte de fazer Canaval, e tenho tido oportunidade de conhecer e trocar idéias com vários carnavalescos e pessoal das escolas de samba. Meu sonho é no futuro poder estudar o Carnaval no Rio e me formar como carnavalesca profissional.

Mais informações sobre o Carnaval se encontra no site oficial da Liga: www.samba.fi

Atenciosamente,
Johanna Vehmas
Presidente
G.R.E.S. Império do Papagaio.”

 

 

 

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