EDIÇÃO 24
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Você acreditaria se te dissessem que o presidente da maior nação do mundo, atado a uma cadeira de rodas, havia morrido de hemorragia cerebral enquanto estava sendo retratado por uma pintora, amiga de sua amante, com o conhecimento da filha do presidente que nada contou à mãe? E tudo isso em meio a uma guerra mundial?
Em 7 de dezembro de 1941, os japoneses tiveram a ideia estapafúrdia de pagar para ver em Pearl Harbour. E viram no que deu: o Presidente norteamericano Franklin Delano Roosevelt (1933 – 1945) declarou guerra ao eixo (Alemanha-Itália-Japão). Entre 1943 e 45, o único presidente norteamericano a se eleger para mais de dois mandatos e que sofria de poliomielite, criou o mundo do pós-guerra ao reparti-lo com outros dois líderes (Stalin e Sir Winston Churchill, primeiro-ministro inglês). Porém, mesmo sendo considerado uma pessoa íntegra, e que havia resgatado o país de um fabulosa crise financeira, Roosevelt era um homem, falho como todos: e tinha amantes.
Em abril de 45, o trem no qual havia viajado para suas merecidas férias, agora se tornara o seu trem-funerário, que conduzia o corpo de volta à capital. Hoje, sete décadas após a morte do presidente, vários documentos sobre como foi organizada a travessia do corpo, ainda permanecem catalogados como secretos. Confidenciais.
Presentes nesse trem de volta a washington, estavam assessores; militares; alguns jornalistas escolhidos a dedo; a esposa do presidente, Eleanor Roosevelt; o cãozinho do presidente (um terrier escocês chamado Fala e apelidado como “O Informante”); 18 sacos de equipamento para golfe; um espião russo (o conselheiro econômico, Lauchlin Currie de 43 anos, de total confiança do presidente que após ser acusado de espionagem se exilou na Colômbia); todos os juízes da Suprema Corte e o novo presidente Harry S. Truman, que como todo vice, era posto de lado em decisões importantes e que agora, por um misterioso movimento do destino, havia se tornado o novo presidente dos Estados Unidos. Quando o trem presidencial rodava, os manobristas recebiam ordens para montarem um trem-armadilha e o colocavam inteiro nos trilhos, para enganar possíveis sabotadores. Como era época de guerra mundial, todo cuidado era pouco.
Após ter vasculhado arquivos esquecidos e documentos do Serviço Secreto, o jornalista e historiador Robert Klara nos reconta essa incrível história em seu livro O TREM FUNERAL (Larousse – 240 páginas), inclusive sobre uma antiga relação do presidente com sua amante de décadas. Lucy Mercer Rutherfurd conhecia o casal Roosevelt desde 1914, mas o caso entre ela e o presidente teve um final abrupto quando a esposa Eleanor, descobriu um maço de cartas apaixonadas de Lucy endereçadas a Roosevelt em 1918. Só não houve o divórcio por conveniências políticas.
Em 1943 e 45, secretamente, Lucy levara uma amiga, a pintora de origem russa Elizabeth Shoumatoff, a retratista favorita dos milionários americanos, para pintar o presidente, sem que Eleanor soubesse (curiosamente esses foram os mesmos anos do encontro dos três grandes: Roosevelt, Stalin e Churchill). Como Roosevelt estava muito fragilizado, Lucy de 55 anos disse a Elizabeth: “Se é para pintar o retrato, trabalhe rápido”. Em 9 de abril, o presidente hospedou as duas amigas em um chalé próximo ao seu. Claro, que a primeira dama não estava presente. No dia seguinte, teve início a sessão de pintura, e no dia 12 de abril de 1945, a uma da tarde, Roosevelt sentiu uma definitiva “dor terrível na parte de trás da cabeça” e morreu de derrame cerebral, duas horas e meia após o comentário. Como a esposa, Eleanor, estava distante, cumprindo compromissos oficiais, Polly Delano, a prima de Roosevelt, que não gostava de Eleanor, ligou para a Casa Branca para dizer que o presidente “havia sofrido um feitiço mas que não havia motivo para se preocupar”. Na verdade, Polly queria ganhar tempo para apagar todas as pegadas de Lucy Rutherford da casa. Inclusive, Anna, a filha do casal Roosevelt, marcava os encontros do paizão com Lucy, quando a mãe se ausentava da Casa Branca.
O corpo do presidente retornou à capital, em seu vagão favorito (o blindado Ferdinand Magellan) no trem Potus, o mais seguro do mundo, talvez com exceção do trem de Adolf Hitler, que às vezes rodava com o sarcástico nome de Amerika. Como a guerra provocava escassez de metal, e ninguém queria enterrar o presidente em um caixão “barato e popular” de plástico, mandaram trazer dois, um de mogno e outro, adornado com metal de longe. O corpo, não foi exposto ao público, por causa de seu avançado rigor mortis, além das artérias esclerosadas, que dificultaram o embalsamamento do cadáver. Três médicos atestaram que o corpo era do presidente e de que ele não havia sido envenenado pelo serviço secreto russo. O novo e inexperiente presidente Harry Truman, que só era convidado para festas, entrou de “gaiato no navio” sem nada saber sobre a invasão de Berlim ou sobre a criação da Bomba Atômica, o que até surpreendeu Churchill.
Truman foi aconselhado a lançar as bombas atômicas sobre o Japão para poupar um milhão de soldados americanos que seriam mortos ao tomar a terra dos kamikases, o que provavelmente levaria anos. As estatísticas mais alentadoras estimavam as mortes americanas em 220 mil, somente para tomar a ilha de Kyushu. Há três meses testavam as bombas secretamente e Truman nada sabia. Só em julho de 45, o novo presidente fez uma referência à bomba em seu diário.
Roosevelt foi enterrado “onde fica o relógio de sol”, conforme a sua vontade.
Eleanor Roosevelt se tornou uma das maiores voluntárias de ajuda humanitária da história dos Estados Unidos.
Lucy Mercer Rutherford morreu de leucemia, três anos após o seu amante.
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