Home Page
 
 
   home ¥ quem somosarquivos ¥ cds e dvdsbizarro ¥ matériasentrevistas ¥ literatura
 
 
 
 
 


 
P.O. BOX 33132, ZIP CODE 22440.970 RIO DE JANEIRO, BRASIL omartelo@omartelo.com

        "Hitler foi um dos primeiros rock stars” - David Bowie

O nazismo é pai efetivo de muitas coisas, fora o fusquinha e os foguetes. O sentimento, muitas vezes místico, que se tornou tão visível no nacional-socialismo também existe no rock a partir do momento que o espetáculo dos grandes festivais tomou forma na virada dos 60 para os 70. Das vestimentas, luzes e efeitos especiais, até o gestual, tudo foi assimilado pelo rock, a partir do advento da grande indústria de entretenimento, seja em forma de assimilação indireta, crítica ou devoção. O sentimento de pureza e totalitarismo é bastante comum nos grupos mais underground do rock (black metal por exemplo). Se há o sentimento religioso sem religião existe também o folclore nazista tanto na estética como nas idéias como nas bandas skin nazistas. Grupos atuais como o Turbo Negro vestem roupas nazistas e há algumas décadas, o baixista do Sweet se vestia de Hitler “gay” na tevê inglesa. A influência nazi/religiosa é nítida em filmes ingleses como Tommy e The Wall, escritos por músicos bombardeados pelos foguetes alemães. Keith Richards já se referiu aos ataques nazistas como parte de sua formação em sobrevivência. 

Dimebag Darrel, guitarrista da banda Pantera foi assassinado em 2004 por um fã insatisfeito com a dissolução do grupo. Arnaldo Jabor, diretor de cinema e comentarista no Jornal da Globo afirmou em nove de dezembro do mesmo ano que os shows de rock eram “comícios fascistas”. “Com a pressão do mercado, mais sólida e invencível, a falsa violência comercial, sem meta, nem ideologia, fica mais louca e ridícula. Os shows de rock viram missas negras que lembram comícios fascistas. É música péssima, sem rumo e sem ideal. A revolta se dissolve e só fica o ódio e o ritual vazio. Hoje, chegamos a isso, a essas mortes gratuitas. A cultura e a arte foram embora e só ficou a porrada.”

O Iron Maiden cantava que “mulheres gostam de uniformes”. Mas não são apenas as senhoras que merecem essa exclusividade. Toda farda impõe respeito. É parte da fantasia que referencia um dito conteúdo moral (o indivíduo) sobreposto pela exibição dessa moralidade (a farda). Porém, a farda não ganha sempre, a fantasia sim. O Kiss sempre compreendeu isso. Se no auge da Beatlemania, as fãs resumiam as personalidades dos músicos siameses (mesmo corte de cabelo, mesma roupa) em palavras curtas como “bonito” ou “inteligente”, a banda mascarada de Nova Iorque não deixou que seus (futuros) fãs perdessem tempo desvendando suas personalidades: as exibiu em preto e branco como máscaras kabuki (o termo significa respectivamente, canto, dança e habilidade). Mas a essência do uniforme é impor respeito. Isso sem esquecer o próprio logotipo do Kiss que tomou emprestado da SS nazista a forma de sua consoante duplicada.

O estranho fascínio que a estética neo-nazista provoca nos fãs e nos músicos de rock and roll pode ser compreendido como a necessidade de se fazer respeitar. No mesmo nível do garoto imberbe que exibe o bigodinho ralo para dizer que virou homem. Não importa o conteúdo, só a aparência. Troque a palavra bigode por farda ou altos volumes ou uma postura agressiva como a Blitzkrieg na guerra. O rock, que por tradição, escolheu a própria tradição, como seu alvo prioritário erra ao não assumir que repete os mesmos defeitos do inimigo. O pior cego é aquele que tem olhos e não quer ver. Cabeludo de direita, tatuado, consumista e homofóbico é um dos exemplos mais nítidos. Uma nova direita travestida. O sentimento religioso então é ainda mais fácil de reconhecer: troque Jesus por John Lennon e Judas por Mark David Chapman. Os uniformes negros e as caveiras da SS (os dois S do logotipo do Kiss) revivem nas camisetas negras dos fãs de heavy metal estampadas com caveiras. O usual em capas de CDs da bandas de black metal é utilizar apenas um par de cores: preto e branco (ou prata) e quando muito, vermelho para lembrar a força do sangue. Cores essas utilizadas tanto no uniforme dos times de futebol como pelos asseclas de Hitler. Mas essa proximidade do nazismo com o rock não é exclusividade da cena de rock pesado.

Em 1976, David Bowie convenceu Iggy Pop, que vinha de uma internação em uma clínica psiquiátrica em Los Angeles, a trabalharem juntos na Alemanha. Na verdade, ambos nutriam uma prévia simpatia pela Germânia. Por três anos residiram em Schöneberg, um distrito em Berlim. Iggy cunhou uma frase famosa a respeito desse período: “Sempre fui fascinado pelos alemães. Muitos caras do rock and roll gostam de uniformes.” No mesmo ano, Bowie foi detido em um trem por horas na fronteira da Polônia com a Rússia pelos funcionários da alfândega, que descobriram botas nazistas em sua bagagem. Bowie argumentou que interpretaria o Ministro da Propaganda Nazista, Joseph Goebbels em um filme. Essa película nunca foi realizada, mas Bowie participou de dois filmes “germanófilos”: “Just a Gigolo” com Marlene Dietrich e o filme drogado “Cristiane F.”. E como esquecer a saudação nazista que Bowie fez para o público na Victoria Station em Londres em 2 de maio de 1976? Até hoje não há explicação convincente. Na entrevista dada ao repórter / futuro diretor de cinema Cameron Crowe no início da gravação do disco Low em 1976, Bowie afirmou que acreditava fortemente no fascismo. “É o único caminho para nos livrarmos do liberalismo que paira no ar neste momento. Precisamos acelerar o desenvolvimento de uma direita totalmente ditatorial e tirânica para acabar com isso o mais rápido possível. O povo sempre responde melhor a uma liderança forte. Os astros de rock são fascistas também. Adolf Hitler foi um dos primeiros rock stars.”

Como falamos de Iggy, não há como não lembrar dos Stooges e do guitarrista Ron Asheton. Desde os 8 anos, Ron coleciona artefatos nazistas, principalmente adagas compradas pelo pai, um veterano da Segunda Guerra. “Pareciam coisa de desenho animado”, disse em entrevista em 2006. O guitarrista não via problema algum em vestir um uniforme completo da SS na rua. “As pessoas perguntavam se era algum tipo de protesto contra a guerra do Vietnã”, disse. Certa vez, Ron trajou as roupas da Luftwaffen, inclusive com as luvas de couro para jantar na casa da namorada judia. O pai da moça procurava ver o lado engraçado da história: “Melhor você vestindo isso do que eles”, disse jocosamente.

 

O mais aterrador sobre Hitler e sua bem sucedida hipnose coletiva é que não há como culpá-lo de absolutamente tudo. Ron Rosenbaum, professor de jornalismo na Universidade de Colúmbia nos Estados Unidos, destrói em seu livro “Para Entender Hitler” todas as teorias que afirmam que Hitler fez o que fez porque sofreu algum trauma ou porque era simplesmente “mal”. Entre os argumentos mais conhecidos estão a história da avó de Hitler que parece ter sido engravidada por um menino judeu ou o misterioso suicídio da sobrinha, que ele aparentemente amava, na residência de Hitler, enquanto ele não estava em casa. E há a explicação mais bizarra que associa o Holocausto com uma deformidade genética nos testículos do Führer. Entre todas, e após falar com cada historiador, Rosenbaum escolhe a resposta mais assustadora: Hitler era um ser humano como qualquer outro. Em outras palavras, o fenômeno pode se repetir em qualquer outro país, em qualquer outra época com qualquer outra pessoa. “A cultura germânica que gerou Goethe, Schiller e Beethoven, pôde gerar Hitler e Himmler – Hitler como produto cultural e não como (i) moral”, palavras do ex-presidente Bill Clinton durante inauguração do Memorial ao Holocausto.

A Alemanha teria sido refém de uma hipnose coletiva? Certa vez, Renato Russo, vocalista da Legião Urbana, pediu ao público que repetisse seus gritos de torcida de show de rock. Feito sua vontade, o cantor emendou um comentário chamando o público de ovelha que repete sem pensar o que o artista pede. Renato estava de certa forma certo ao detectar em seu universo o mesmo tipo de atitude que fez o povo alemão levantar seus braços hipnoticamente à presença de Adolf Hitler. A força da multidão unida em prol de uma só força, de um só coração é algo que foi levado à enésima potência na Alemanha nazista e que teve um inusitado seguidor na cultura rock. Pelo menos, nesses últimos 30 anos não há show em estádio onde não haja uma repetição dos pirotécnicos efeitos dramáticos criados pela propaganda alemã. O nazismo desenvolveu os elementos de mesmerização das massas que o rock adotou viróticamente. O termo Thingspiel significa uma mistura de toque de recolher, circo e dança orgiástica. Esse espetáculo acontecia em anfiteatros alemães para mesmerizar as mentes e almas dos jovens. Nada mais próximo do mundo das grandes arenas da música pop. Goebbels, um maníaco sexual incurável saltava de leito em leito trocando corpos femininos de jornalistas, secretárias e atrizes por favores governamentais. Nada mais humano e nada mais parecido com o comportamento de um grande astro de rock. A sensação indescritível do Poder e do Ego.

A história mostra que os vencedores assimilam o melhor dos perdedores. O verdadeiro espólio de guerra. Mesmo que esse “melhor” seja moralmente questionável. Se os índios norte-americanos de priscas eras exibiam os escalpos dos inimigos como troféus, os americanos dos anos 40 desenvolveram a sua tecnologia a partir de alguns sucessos obtidos pelos derrotados nazistas e por cientistas alemães judeus, exilados do regime nazi-fascista. O caso mais notório dessa união euro-norte-americana, e que veio a decidir a segunda grande guerra, foi a criação da bomba atômica, engendrada por físicos estrangeiros. 

 

Nos anos 40, cientistas como Werner von Braun, o criador dos foguetes V-8 que arrasaram Londres, foram convidados a colaborar com o governo norte-americano no final da Segunda Grande Guerra, com tudo o que tinham direito, de casa mobiliada a um ótimo salário. A razão maior para unir ex-desafetos era a nascente “Guerra Fria” contra os comunistas, o inimigo maior. O presidente Harry Truman autorizou o início da Operação Paperclip em setembro de 1946, mesmo sabendo que muitos desses alemães foram membros da Gestapo e criminosos de guerra, além de terem feito experiências com prisioneiros vivos em campos de concentração.  Em 1955, mais de 750 “convidados” ingressaram legalmente no país. Porém, Von Braun disse que só colaboraria com os americanos, se trouxessem o oficial nazista Walter Dornberger para trabalhar com ele. Werner era grato a Dornberger por tê-lo ajudado no início da carreira. Walter foi para os Estados Unidos para trabalhar no projeto aéreo-espacial americano, mesmo sendo acusado de ter comandado e assassinado operários judeus que trabalhavam na fábrica dos foguetes V-2 em Dora, na Alemanha. Dessa forma, Dornberger escapou do julgamento de Nuremberg, após o fim da guerra, tornando-se um dos diretores da Bell Helicopters.  Werner Von Braun – o criador dos foguetes V-8 nazistas e do programa norte-americano Apollo – era o seu chefe. Os helicópteros fabricados pela Bell foram utilizados na Guerra do Vietnã.

E o que dizer dos negros norte-americanos retirados dos guettos e enviados para sangrentas batalhas em solo europeu na defesa da democracia? Mas o negro que não era bobo, refletia sobre que tipo de democracia era essa que não o respeitava em seu próprio lar. Mas estavam todos lá na Europa derramando o mesmo sangue vermelho. Santo de casa não faz milagre. O negro podia auxiliar a democracia, mas a música negra era tudo o que a América queria ocultar: sensual, barulhenta e básica. A esse tipo de música dariam o nome de rock and roll. Shows segregados, rádios segregadas, assentos diferenciados em ônibus, nada disso bastou para impedir que tal estilo musical se espalhasse pelo país e depois pelo mundo assim que a indústria farejou o cheirinho de lucro fácil. Mas havia admiradores do sistema nazista (e das valsas vienenses), tanto na América como no Brasil.

Quem vendia combustível para as máquinas de guerra tanto da Alemanha como para os seus inimigos (os aliados dos Estados Unidos)? A I. G. Farben, associada da “U.S. Standard Oil”, empresa norte-americana ligada a família Rockefeller. Foram usados 20 milhões de combustível para bombardear Londres. E quem mais financiou o nazismo? A Union Bank Corporation de Nova Iorque onde um certo senhor Bush dava as cartas e recomendava para quem emprestar dinheiro. Esse senhor é o avô do atual presidente norte-americano.

A união estética nazista e rock and roll é uma brincadeira sem maiores conseqüências? O rock (and roll) apesar dos pesares, ainda é uma música negra, mesmo que digam o contrário. E toda música expressa valores. A resposta para a existência do rock neo-nazista deve ser a mesma para a existência do unblack metal evangélico. Enquanto que os primeiros gritam Sieg-heil ao som de uma batida tribal (tipicamente negra), os black (metal) de Cristo pintam os rostos, urrando no maior volume que podem para louvar a vinda do Senhor.

 

Alimentando a fera

É hilária a roupa e os trejeitos de Hitler “gay” que Steve Priestly, o baixista da banda glam inglesa The Sweet (de preto com braçadeira com a suástica, capacete e bigodinho) usou no programa Top of The Pops no início dos anos 70. O título da canção? “Blockbuster”. Em outra época, Steve talvez fosse passível de um atentado em função de tamanha libertinagem.

O livro “Sexo, Drogas e Rolling Stones” de José Emílio Rondeau e Nélio Rodrigues (nota: ler entrevista nessa edição) nos lembra de duas peripécias promocionais dos Stones, conscientes ou não: as fotos de Brian Jones com sua cara-metade Anita Pallenberg “posando em uma série de fotos com uniformes e símbolos nazistas” no final dos anos 60 e a atribulada fuga do fisco britânico no início dos anos 70, quando os Stones se refugiaram no sul da França em uma villa em Nellcote, “na municipalidade costeira de Villefranche-sur-Mer na Côte dÁzur” para gravar (com uma unidade móvel) o LP duplo Exile on Main Street. O local adquirido pelo guitarrista Keith Richards havia sido residência de nazistas.

“Gostaria de saber mais sobre como se monta um concerto de rock moderno, possivelmente o espetáculo sensualmente mais arrebatador da história humana fora dos períodos da guerra, e que pode até ser sido inventado, na forma, e no foco em um indivíduo carismático, nos comícios gigantes de Hitler”. Roger Ebert do Chicago Sun-Times, escreveu esse comentário em primeiro de janeiro de 1983 sobre o filme “Let´s Spend The Night Together” que cobriu a excursão dos Rolling Stones na América.

 

O dono da bola e seus amigos

Ian Stuart (Donaldson) da banda punk inglesa Skrewdriver foi o sujeito que uniu os skin-heads com os grupos neo-nazis no final dos anos 70. Além de abrir os shows do The Police (!) e Siouxsie and the Banshees, Ian gravou um dueto com Lemmy do Motörhead (notório colecionador de artefatos de guerra). Lemmy é famoso colecionador de quinquilharias nazistas, apesar de se recusar a ser classificado como um. Entre as preciosidades, o músico possui um capacete da SS de 1935 e um “autógrafo” de Hitler dado por Ozzy Osbourne. “Feliz natal e próspero ano novo, Adolf Hitler” está escrito no pedaço de papel.

O grupo neo-Nazi National Front ajudou Stuart a organizar a White Noise, que consistia em uma gravadora, uma divulgadora e um fanzine. Seu primeiro lançamento foi o EP “White Power” de Stuart, o modelo definitivo para a nascente música de ódio. Em 1986 Stuart criou sua própria organização, a Blood & Honour, nome de um dos discos do Skrewdriver. Três dos lançamentos do mesmo Skrewdriver são considerados a Bíblia para os nazistas de hoje: “White Rider”, “Hail the New Dawn” e “Blood & Honour”. O lema “Blunt Und Ehre” (Sangue e Honra) era cunhado na lâmina das facas com bainhas metálicas negras da Juventude Hitlerista. O discípulo só podia recebê-la após ter passado pelo último teste de coragem.

Em 1994 nasceu a Resistance Records, uma gravadora nazista localizada em Detroit, comandada pelo canadense George Burdi, então com 24 anos. Uma das letras de sua banda Rahowa dizia: “Judeuzinho, é melhor cair fora / Bastardo de nariz grande, seu tempo acabou agora.” Pacifíco ele até pode dizer que é, mas não escapou de uma condenação por ter agredido Alicia Reckzin em 1993, que protestava contra os nazis. Assim como Hitler, Burdi não fumava, bebia e era vegetariano. Com mãe meio inglesa, meio ucraniana e o pai, italiano, Burdi foi criado em um típico ambiente católico. Amava U2 e seu primeiro disco foi In Through the Out Door do Led Zeppelin.

Cientes da qualidade inferior dos CDs das bandas skin e da dificuldade de atingirem um patamar maior, Burdi e seu sócio Mark Wilson optaram por melhores produções e melhores artes-gráficas. Foram editados os trabalhos das bandas Bound for Glory (a mais popular das bandas nazis), The Voice, New Minority, Aggravated Assault, Centurion, Max Resist and the Hooligans, Nordic Thunder e Berserkr.

Mark e George da Resistance se conheceram no grupo Church of the Creator fundado em 1973 por Ben Klassen. “Rahowa!” era o cumprimento local assim como “Sig-Heil” e “Anauê”. Significa “guerra racial santa”. Um dos planos da comunidade era assassinar Ice-T e Ice Cube. Klassen tirou sua própria vida em 1993 e o grupo se desmantelou.

Na cola da gravadora editaram a revista Resistance com média de 15 mil cópias por edição, segundo Burdi. Tudo isso em prol da difusão dos ideais racistas em embalagem mais aceitável, financiada por grupos secretos. “Estava receoso do estado no qual a música white-power se encontrava. As bandas estão no limite de sua paciência.... Jovens brancos de todos os lugares não tinham noção de onde encontrar CDs de Supremacia Branca que falassem verdades à nossa geração.... Algo tem que ser feito e rápido.”, dizia o editorial de estréia.

Em 30 de setembro de 1994, com apenas seis meses de gravadora deram o seu mais ousado passo: organizaram um festival para 300 cabeças (raspadas) em Wisconsin com luz e som profissionais. Era um evento em homenagem a Ian Stuart, que havia partido dessa para melhor em um acidente de carro em 1993. A banda “No Remorse” veio da Inglaterra para dividir o palco com outros expoentes do gênero como Bound for Glory, Rahowa, Centurion e Berserkr. No Remorse fechou o evento com a canção “Farewell Ian Stuart”, cantada também pelos membros das outras bandas. Na celebração pós-concerto, Joe Rowan, líder do Nordic Thunder e uns skins tiveram um entrevero com alguns afro-americanos em uma loja de conveniências. Rowan foi atingido por um tiro e faleceu. Pronto. Já havia bastante mártires para acender a vela da canonização. Além de Stuart e Rowan; Eric Banks, o vocalista original do Bound for Glory e Robert Mathews morto em um tiroteio com autoridades entraram na lista.

Em 1995, teve lugar o festival Adolf Hitler Memorial Concert em Idaho. Exatamente, 50 anos depois do suicídio de Hitler. Katya Lane, a apresentadora Adolf Hitler Memorial Concert, fez as honras da casa. Esposa do condenado David Lane, líder do grupo de supremacia branca, The Order. David foi sentenciado a 140 anos por vários crimes, entre eles o assassinato de Alan Berg, apresentador de um talk-show em 1984. Nem precisa acrescentar que ele é um herói para os nazistas americanos. A esposa leu uma mensagem do marido escrita na prisão: “Meus gostos mudaram um pouco. Prefiro Wagner e Tchaikovsky. Mas hoje saúdo o sucesso das bandas white-power...” Para acrescentar, no calendário neo-nazi a maior festividade anual se chama Aryan Youth Assembly.

Se hoje, o PT faz essas alianças com partidos de “oposição” difíceis de engolir, o mesmo pode se dizer do Aryan Nation americano ligado há décadas ao movimento Cristian Identity. Se eles estudaram bem a lição de casa, esse tipo de coalizão faria o Fuhrër balouçar no túmulo. O nazismo sempre foi pagão e se opunha a católicos e protestantes, substituindo o Deus único por deuses vikings. William Pierce, um dos expoentes da corrente direitista da América e líder do National Alliance faleceu em 2002, deixando o comando para os mais jovens que prosseguem na luta. O slogan do N.A. é direto: “Novidades para os brancos produzidas por brancos.” O site do partido convoca os adeptos a usarem uma fitinha amarela que singelamente proclama: “Tragam nossas tropas de volta e os coloquem na fronteira com o México.” Caso você queira lê-lo em português basta clicar no local certo e voilá. Reflita sobre pensamentos como “A Lei da Desigualdade”, “Uma Sociedade Ariana” e “Uma Política Baseada em Princípios Raciais”. Como o uso do gerúndio é constante conclui-se que o tradutor é brasileiro.

"O Führer é profundamente religioso, embora completamente anti-Cristão; ele vê o Cristianismo como um sintoma de decadência. E com razão, é uma ramificação da raça judia.” - Diário de Joseph Goebbels, 28 de Dezembro de 1939.

"O Cristianismo é o protótipo do Bolchevsmo: a mobilização pelos Judeus das massas de escravos com o objetivo de minar a sociedade”. - Hitler, 1941.

Entre os mais novos artistas da gravadora Resistance estão a cantora sueca Saga; os Angry Aryans e o o Max Resist, ambos de Detroit; o Cut Throat da California, o Definite Hate; Kremator do Canadá e os gregos do Iron Youth.

 

Brasil radical

Umas das primeiras matérias que associava os punks brasileiros com o movimento nazista foi publicada no jornal Repórter em dezembro de 1979. “Pobre, Brigão e Nazista” era o título pouco elogioso. “Divertem-se tomando leite com limão e arrotando sem parar nas festas. Contestam o regime brasileiro, reclamam de falta de liberdade e vêem como solução para o país “explodir tudo de uma vez”.

"Adoram bater uns nos outros. Admiram Hitler, acham o nazismo o regime ideal para o Brasil, começa o texto de Rivaldo Chinen. Um certo entrevistado chamado William Mackpower, negro e com feições indígenas declara: “Os nazistas estavam certos quando invadiram outros países e resolveram matar os judeus. Isso deve ser feito. Porque eles eram superiores.Tenho preconceito de mim mesmo. Gostaria de ser branco”. Outro companheiro das reuniões aos domingos na estação do metrô São Bento em São Paulo de nome “Gordo” ou “MC5” residente no Parque São Rafael no extremo leste da cidade ratifica: “O pensamento dos alemães era certo, pô. Os judeus vão dominar a Terra. A começar pelo domínio do petróleo. Então, tinha que matar tudo, queimar tudo, botar tudo na câmara de gás. Tem que fazer isso mesmo. Só que os alemães fizeram de maneira errada, não souberam fazer. Tem que acabar com tudo, com livro, peça, filme, com tudo o que é judeu. Tem que acabar com certo tipo de raça que só quer dinheiro pra eles”. A matéria elucidativa termina com a análise de um personagem sem nome: “Os pânquis cultivam em paz seu ódio à sociedade e a paixão ao nazismo, forma que encontraram para “contestar o regime político em que vivemos”.”

Em maio de 1988, o show dos Toy Dolls em São Paulo foi interrompido pelos carecas, que àquele momento se dividiam entre anarquistas e neo-nazistas. Em março de 1991, esfaquearam um metalúrgico em um dos shows dos Ramones. Em maio do mesmo ano, Alexandre Salzedo morreu por um tiro dado à queima-roupa dado por um careca em um show do Sepultura. CDs com discursos de Hitler e Mussolini eram vendidos bem nos fundos de uma livraria perto da Galeria do Rock no centro da Paulicéia há poucos anos. Porém, São Paulo não fica isolada na competição de quantos jovens nazistas fazem mais balbúrdia em um só recinto. O Rio de Janeiro não fica atrás. O proprietário de uma extinta loja especializada em metal extremo em um shopping no bairro da Tijuca, estampava na parede em seu pequeno escritório, uma cópia de um cartaz do século XIX, onde se lia “paga-se bem por informações sobre negro fujão”. Fora isso, ainda eram ministradas aulas sobre nazismo para jovens e uma camiseta com simbologia nazista chegou a ser encomendada na loja vizinha, especializada em silk-screen.

 


Em setembro de 1992, o show dos Ramones no Canecão no Rio foi interrompido por uma granada de gás lacrimogênio (de uso exclusivo das Forças Armadas) pretensamente lançada por um grupo de skin-heads. O diretor de criminalística Carlos Èboli (ICCE), Mauro Ricart encontrou pontos chamuscados no tapete da casa de shows. “Quem tentou pôr fogo no carpete do Canecão usou isqueiros. Só não ocorreu um incêndio porque os carpetes sofreram tratamento de ignificação, que impede a propagação do fogo”, disse em entrevista.
Os 12 integrantes do grupo Carecas do Brasil foram protegidos por 50 policiais militares para não serem linchados pelo público. Desse grupo que danificou o Canecão e provocou lesões corporais em mais de 20 jovens, dois eram menores.
Luanda Vieira da Silva de 19 anos, uma das carecas disse que a única saída para o Brasil era o nacionalismo exacerbado. “Temos de acabar com essas empresas estrangeiras que retiram tudo o que é nosso e não deixam emprego para a gente. Os homossexuais têm que acabar, ser exterminados, sei lá. Nós queremos um mundo melhor”, disse Luanda.

Na década de 90, surgiram no Brasil os Carecas de Cristo, na onda do neo-evangelismo ressurgente, que promoveu de metaleira evangélica até grupos de reggae que louvavam as glórias do Senhor. O uniforme, o mesmo de sempre: suspensórios sobre camisetas brancas, calças com estampas militares e coturnos do Exército.

Em fevereiro de 1988, algumas famílias de descendentes de alemães em Curitiba receberam um boletim chamado Pátria Livre, assinado pelo Núcleo de Ação Nacional-Socialista com ideais nazistas. Ambos os dirigentes do partido eram cariocas: Armando Zanire Júnior, Presidente Nacional e Fábio da Costa Batista, torneiro-mecânico e Presidente da Juventude. Fábio alardeava a proximidade do partido com a esquerda. “Muitos de nossos filiados vieram do PT e do PDT”, disse ao Jornal do Brasil.
Meses depois, o documentário “Hitler, uma carreira?” deixou de ser exibido no Cineclube Estação Botafogo no Rio por causa da pressão do Presidente da Federação Israelita, Ronaldo Gomlevsky e em razão do tumulto causado pela entrevista dada por Fábio da Costa Batista ao Jornal do Brasil, onde desancou judeus e homossexuais. O Secretário de Polícia Civil, Hélio Saboya, mandou abrir inquérito. Fábio da Costa, roqueiro inveterado, foi sócio-fundador do Garage, casa de rock na rua Ceará na Praça da Bandeira, antro de motociclistas e de metaleiros. Fechado há vários anos (apesar de adquirida no ano passado pelo grupo Casa da Matriz) o Garage viveu o seu auge na década de 90, quando abrigou centenas de bandas underground, de Planet Hemp a Buzzcocks. A casa ficou mais conhecida por uma péssima administração e por várias histórias que dariam um livro difícil de acreditar.
Quase uma década depois, Fábio se reconciliou com a entrevista dada ao JB, tornando-se espírita kardecista. A sentença “Não acreditamos em Deus, Messias, Bíblia, nada”, ficou definitivamente no passado.

Em 2008 nada parece ter mudado. No orkut, grupos pró e contra o nazismo trocam ofensas, como se fossem torcidas de futebol. Mas a falta de discernimento é mundial. Basta ler as agressões escritas no fórum do YouTube em cada filmete de Hitler. São alemães ofendendo americanos que ofendem latinos que se imolam. Todos ocultos e seguros sob codinomes e distância física.

 

VOLTA AO TOPO