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GRAVANDO! – Os Bastidores da Música – Phil Ramone e Charles L. Granata – Editora Guarda-Chuva

“Rodem as fitas!”

Com prefácio do guitarrista Tony Bellotto, o livro que nos apresenta o conceituado produtor fonográfico e músico Phil Ramone não apenas conta a história de sua carreira mas a própria história da música pop produzida nos últimos 50 anos, onde personagens e música não conseguem e nem podem ser dissociados.
As histórias dos bastidores das gravações mesclam suspense e sempre um final feliz (o trabalho pronto) como em qualquer bom thriller. Mesmo que o detetive seja um Ramone e os “culpados” sejam Bob Dylan, Paul McCartney, Ray Charles, Paul Simon, Bono Vox, Slash e Billy Joel. Muitos desses nomes parecem não dizer muita coisa em relação a crescente falta de perenidade do mundo pop, mas é exatamente isso o que o livro tem de melhor: contar humanidades entre botões de “record”. E os “causos” são muitos.
Em 1993, o aposentado Frank Sinatra foi convencido a gravar um disco de duetos com outros artistas – desde que não gravasse pessoalmente com os convidados. Por mais incrível que pareça, mesmo um artista como Sinatra, tem seus dias. Logo na primeira sessão, o cantor sentiu-se tão desconfortável que abandonou a sessão logo no início, o que se repetiu no dia posterior. Imagine a tensão e o terror reinante no coração do produtor, dos 55 músicos e dos executivos. Como que por milagre na terceira sessão, Sinatra mandou ver, gravando uma após a outra, apesar dos apelos da metaleira, já com os lábios e bocas rachadas.

“Vamos fazer um intervalo?”, Ramone sugeriu. “De quanto tempo?”, Sinatra perguntou.
“Dez minutos.”
“Dê-lhes cinco”, disse ele, brincando.

Ramone diz em determinada passagem do livro: “Durante semanas ou meses em que passam juntos produzindo um disco, o produtor pode vir a ficar mais íntimo do artista do que qualquer outra pessoa em sua vida. A intimidade entre eles é essencialmente tácita; ela fere suscetibilidades, e, se o produtor é especialmente bom naquilo que faz, ele ajuda o artista a pôr para fora a ansiedade e o medo que habitam todo artista.” Em “Gravando!”, Ramone cita os detalhes sobre a feitura de um disco – tanto técnicos como criativos -, do processo que envolve a composição (onde cada autor tem a sua própria maneira), o desenvolvimento dos arranjos e a parte técnica. O livro é boa leitura para quem trabalha em estúdio. É a confirmação do que se vê (e ouve) diariamente. Para o leigo é uma porta de entrada ao mundo mágico da criatividade.

“Poucas coisas abalam mais rápido a fé de um artista em um produtor do que ele perceber que um problema não foi tratado devidamente, não importa quão pequeno ele seja”.

Outros grandes momentos de “Gravando!” são a história da película “Nasce Uma Estrela” com Barbra Streisand em 1975, toda feita ao vivo e em tempo real durante a interpretação; o solo perdido de Slash no CD tributo a Les Paul porque o assistente de estúdio não colocou a fita no gravador a tempo; o comentário indiscreto de um baterista sobre a atriz Jodie Foster; a demissão de um violinista em uma sessão com Paul McCartney; o álbum “Blood on the Tracks” de Bob Dylan (“era raro Bob tocar duas vezes da mesma maneira”) e a técnica antiga de se obter eco em câmaras de eco feitas de concreto ou madeira(!).

O Brasil recebe menção especial em três momentos. Em 1963, na gravação do LP Getz/Gilberto, com Stan Getz, João Gilberto, Antonio Carlos Jobim e a “Garota de Ipanema” Astrud Gilberto; com a banda Chicago em 1978 e o percussionista Laudir de Oliveira (“ele não tinha um bom domínio de nossa língua”) e em 1989 no disco The Rhythm of the Saints de Paul Simon. Ramone conta as complicações de gravar no Brasil e versa sobre a criatividade nacional: “Certa noite em Salvador, Paul, o produtor brasileiro Mazzola ouvimos o som de tambores à distância. Lá, no meio da rua, tocava um grupo que mais parecia uma banda marcial. A ressonância do som produzido por seus tambores, como se fossem batidas do coração, eram eletrizantes. Mazzola falou com o grupo e descobriu que se chamava Olodum.”

Sexo, Drogas e Rolling Stones – José Emílio Rondeau e Nélio Rodrigues – 352 páginas - Agir

Suspeitíssimo para resenhar esse livro, o sujeito que vos escreve assume a paixão maior pelos Beatles (e menor pelas críticas feitas a eles) na queda de braço entre Liverpool e Londres. Até alguns anos atrás, confesso, o sentimento pelos Stones era menor porque eu adorava as atitudes deles, mas não compreendia muito aqueles blues e souls. Sendo o tempo, o senhor da razão é natural que Cronos nos conduza ao equilíbrio entre os extremos. E foi o que de fato ocorreu. Há dia para os Beatles, dia para os Stones e todo dia é dia para os dois. Nessa mais compreensível fase “hindu” é lançado no Brasil um ótimo livro (escrito por brasileiros) sobre as eternas majestades satânicas. “Sexo, Drogas e Rolling Stones” é fruto de uma paixonite aguda. Rondeau e Rodrigues, seus autores, fazem das tripas coração para recontar a história tantas vezes recontada. E o resultado final é surpreendente. A dupla (de fãs) coletou as informações por décadas, as condensou e transformou em um belo e digerível almanaque de como os rapazes deram início à dominação mundial a partir do imundo apartamento em Edith Grove, número 12.

Meio que para esculachar a banda “rival”, os autores malandramente incluíram de cara um depoimento de John Lennon (sobre os Stones) à Playboy em setembro de 80, ou seja um mês antes do bardo partir desse para o outro mundo. “Andam parabenizando os Stones por estarem juntos a 112 anos.... O liderzinho teme ser esfaqueado pelas costas? Vão olhar para os Beatles e os Stones como se fossem relíquias. Mostrarão fotos do cara de batom rebolando a bunda e os quatro caras de maquiagem negra e diabólica nos olhos tentando parecer atrevidos. Vai ser essa a piada no futuro.” Desculpe, mestre Lennon mas seu amargor nublou sua visão. Os anos 80 não te mereciam e vice-versa. Se estivesse vivo, certamente suas palavras seriam mais amenas e você compreenderia que tanto a sua como a genialidade dos Stones são substâncias diferentes da mesma matriz. E sobreviver, saber superar tantas divergências (e olha que não faltou molho à essas brigas, de infidelidade, dúvidas sobre paternidade até divergências empresariais) não é para qualquer um. Os Stones provaram que são os maiores. Não há mais dúvida. Pelo menos no quesito qualidade e sobrevivência.

O texto, apaixonado, conduz seus refletores para as grandes personagens Michael Phillip Jagger (26 de julho de 1943) e Keith Richards (18 de dezembro de 1943): “Mick Jagger é um dos maiores performers que o mundo já produziu. Se não o maior”. “Jagger dirigiu sozinho a banda nos anos em que Keith Richards mergulhou na heroína, e se recusou a abrir mão do poder quando o amigo se livrou do vício – o que deu início a um longo desentendimentos entre os dois”. Isso sem esquecer dos sempre míticos Lewis Brian Hopkins Jones (28 de fevereiro de 1942 – 3 de julho de 1969), Ian Ar Stewart (18 de julho de 1938 – 12 de dezembro de 1985), William George Perks (24 de outubro de 1936), Charles Robert Watts (2 de junho de 1941), Mick Taylor (17 de janeiro de 1949) e Ronald David Wood (1 de junho de 1947).

Depoimentos de músicos brasileiros (Charles Gavin, Rita Lee, Roberto Frejat, Pedro Lima da Bolha etc) declarando paixões pela banda fazem parte do livro, assim como fichas de tudo quanto seja relevante e trechos especiais de entrevistas dadas pelos próprios Stones em mais de 40 anos de existência. Ouvir a própria história diretamente dos personagens é mais do que ler um livro, é como se tivéssemos a chance de participar de um papo íntimo no Olimpo. A relação dos Stones com o Brasil (antes da Rede TV) também é destrinchada com saborosas revelações e deliciosas fotos (cite-se que Nélio havia lançado em 2000, o livro “Rolling Stones no Brasil”). Bahia, Rio, São Paulo e Minas foram terreno pisado por Jagger em 68 e 69, antes dos shows ocorridos anos depois (a revista HITPOP, em furo de reportagem-denúncia, prometeu esse primeiro show para os anos 70 – Ó santa ingenuidade, Batman!). O livro também inclui lista de regravações de músicas dos Stones por artistas brasileiros (The Bubbles ou A Bolha, Caetano Veloso, Rita Lee, Serguei, Ronnie Von, Os Baobás e o misterioso Mac Rybell).

De certa forma, também é um pouco entristecedor saber a respeito da submissão dos artistas aos donos de seus fonogramas. Explicando: há alguns anos me dava um certo incômodo saber que ao comprar um CD dos Beatles eu estava dando dinheiro ao Michael Jackson. Nada contra o autor de Thriller (um clássico com O maiúsculo), mas tomar conhecimento que músicas são meras ações (da bolsa de valores) que podem mudar de dono é uma coisa um tanto estranha. Fora essa lembre-se que Jackson casou (ou quase isso) com a filha de Elvis. O negócio dele não era bem “negócios”, mas fazer parte desse Olimpo à força (como se precisasse). O velho conhecido empresário Allen Klein, nova-iorquino que de certa forma catalizou o fim dos Beatles (outra da cegueiras dos 3 contra Paul McCartney, que sabia das coisas e amava trabalhar com a banda que lhe deu respeito e fama) só comandou os business dos Beatles porque ele havia feito um bom trabalho para os Stones, conseguindo, à época o melhor contrato já feito no show-business. Mas a lontra malandra não tardaria a colocar a cabeça para fora. Para que os Stones se libertassem de vez, e fundassem seu próprio selo, foi acordado que todas as músicas até 1969 seriam de propriedade da ABKCO, ou seja de Allen Klein. Surprise, Surprise: quando você rebola o popozão ao som de “Sympathy for the Devil”, o diabo a quem você está dando o seu suado dinheirinho é ao advogado mandrião que quase quebrou as duas bandas. Cuidado. MP3 nele! Allen devia aos Stones algo como 17 milhões (por baixo) e a banda estava endividada com o fisco britânico, um buraco sem fundo. Após uma sessão entre os advogados de ambas as partes, que durou 36 horas, Allen Klein tornou-se dono de todo o catálogo dos Stones pré-1970. O custo? 100 mil dólares por fonograma.

Para fechar a tampa (inesgotável) uma dúvida relevante obtêm uma resposta com a cara (e o nariz) do próprio autor da façanha: Keith Richards.

“É verdade que Keith cheirou as cinzas do pai?”

“Sim, mas o lance da cocaína foi invenção. Eu disse que tinha batido meu pai como se fosse cocaína e não com cocaína. Abri a caixa (com as cinzas) e disse: “Preciso fazer alguma coisa com meu pai. Plantar um carvalho? Tirei a tampa e um pouco do meu pai caiu na mesa de jantar. Pensei: “Não posso usar um espanador para limpar isso.´ Então descobri que ingerir seus ancestrais é uma maneira bastante respeitosa de...entendeu? Ele caiu bem.”

Sentenças:

“Se Keith Richards não existisse, o rock and roll teria que inventá-lo” - Revista canadense Chatêlaine.

“Liverpool curva-se a Londres. A cortina de ferro foi transposta” - New Musical Express, 15 de novembro de 1963.

“Feliz natal a todos os cabeleireiros famintos e suas famílias” – Anúncio veiculado pelos Rolling Stones na edição de fim de ano do Melody Maker em dezembro de 1963.

“Lábios de Mick Jagger! Encomende já o seu par! Fique na onda da juventude! Mais detalhes no seu vendedor de lábios local.” – Anúncio publicado na imprensa musical inglesa pelo empresário e produtor fajuto Andrew Oldham.

“Cuidado com a ABKCO” – Trecho da letra original de “Beware of Darkness” do primeiro álbum pós-Beatle de George Harrison, o triplo All Things Must Pass, lançado em 1970. O trecho foi excluído, e só é ouvido na demo que George fez pra mostrar as músicas ao produtor Phil Spector.

 

Ascensão e Queda do terceiro Reich (volumes I e II)

William L. Shirer – Agir

O jornalista William L. Shirer, nascido em Chicago foi um renomado correspondente internacional. Em Berlim, presenciou o crescimento do nazismo e conheceu suas figuras exponenciais desde a década de 20. Não nutriu paixões, deixou a razão lhe alertar. Errou apenas ao considerar o (futuro) cruel Himmler um “pacato criador de galinhas”.  Mas em pouco tempo, o cérebro das SS mostraria as garras. Da ascensão à queda, como o título sugere, é uma obra indispensável para todos que desejam compreender o movimento da história humana, geralmente circular. Terrorismo, nazismo, socialismo, comunismo, democracia, capitalismo são abalos sísmicos em forma de palavras.

Absorver as lições que a história da humanidade proporciona é um dos passos para a compreensão de quem somos. Ao mesmo tempo, essa mesma história, infelizmente, é capaz de comprovar nossas limitações. Pequenos grandes homens limitados por conceitos parciais. Grandes ideais e mentes pequenas, ambições desmedidas que fogem ao controle.

O movimento histórico não segue adiante, como um trem bala, é preso a um círculo repetitivo de fatos idênticos. Concêntricos. Todos têm uma opinião (quase) formada sobre vários assuntos, de futebol até Adolf Hitler. É comum comparar as atitudes do atual presidente americano com as do austríaco que ascendeu ao poder no início da década de 30 na Alemanha.  Nada mais distante da verdade. Bush é pequeno e sua ambição é limitada por fatores contingenciais. E nem tudo pode ser feito em um mundo sob a vigilância das bombas atômicas e dos satélites. Hoje a inteligência é muito mais poderosa do que a força. O controle também é maior. Há 70 anos ainda havia dúvida sobre a queda de braço entre força x intelecto. Hoje temos duas guerras mundiais no currículo, não se conseguia fotografar o território “inimigo” do espaço e o foguete nem havia surgido. O homem ainda dependia de sua visão limitada de fera no chão e dos próprios passos.


A história da humanidade é uma constante troca de países, que anteriormente infalíveis caem perante botas mais cruéis. Uma troca de passos. Ou de botinas.
Hitler refez os passos e os erros de Napoleão, tanto em relação à Inglaterra quanto à Rússia. Seria mera coincidência? Ou apenas o mesmo efeito circular de ambição e queda? A Prússia que foi derrotada e derrotou o Corso criou em suas fileiras um sentimento militar ditatorial que um século depois daria sustentação a Hitler e ao nascente nazismo.

Cai o dominador, nasce o dominador.

E o lugar-comum é tolo. O Tratado de Versalhes (1919) que deu por encerrada a Primeira , não deu fim a guerra alguma e nem foi responsável pela estocada final nos alemães. Os próprios militares prussianos caíram de podre culpando os vencedores. Sempre é mais fácil agir dessa forma. Se a política e a economia alemães iam mal, o nazismo mais se beneficiou em destratar o inimigo do que em construir o novo. O sonho das glórias passadas e do pão na mesa sustentaram a ganância de um povo que lavou as mãos antes das refeições, até a imolação final de Hitler. Ascensão e Queda na ponta da bala.

 

 

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