Revista O Martelo
 
 
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LIVROS DE CABECEIRA

1808 – 1834 – As Maluquices do Imperador / Pergunte ao Urso / Como Enrolar Seu Chefe (e progredir na empresa) / Para Ler na Escola – Crônicas / A Economia Sustentável do seu Dinheiro / Almanaque das Guerras

Para Ler na Escola – Crônicas – Carlos Heitor Cony – 156 páginas – Objetiva


Sem Sem querer soar muito afetado e já soando, faço a pergunta para respondê-la em seguida: quem é Cony? Um fofo, no melhor dos bons sentidos. Parece que o escritor nasceu iluminado ou em outras palavras, cônego, termo que de certa forma se assemelha a Cony, que na vida real realmente estudou para ser padre.

Este livro reúne 49 crônicas sobre o cotidiano corriqueiro, que analisadas sob a ótica do mestre, tornam-se iluminuras ricas em detalhes, filigranas do coração. Muitas histórias reais e outras inventadas, posam e dançam magicamente perante nossos olhos e miram com convicção, a nossa alma como dardos mergulhados no líquido da paixão. Cuidado para não se apaixonar.
Cony, um pensador nato, reflete docemente sobre a vida, mede a grandeza e a mediocridade da raça humana com dedos de não-me-toques e palavras sensíveis. Parece que Cony nos analisa - e a ele mesmo – do alto do Monte Olimpo localizado em algum bairro suburbano carioca, margeado pela linha férrea. Enfim, o desfile de personagens nobres e outros pateticamente humanos celebra a existência. E é disso, que toda arte é feita, de existência.

Há uma sensação dúbia e gostosa que permeia a leitura: ao mesmo tempo que parece não haver tempo passado porque os personagens se comportam como “humanos” atuais e não como seres inventados, ao mesmo tempo há um sentimento nostálgico que se adere à obra, que fala de rádios de válvula, fazendas, Ary Barroso, coxinhas de galinha da Confeitaria Colombo, antigas geladeiras, cavalos míticos e integralistas.

Seres de um passado remoto, extremamente relevante e atual.

Delicioso como a coxinha de galinha da Colombo.

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1808 – 1834 – As Maluquices do Imperador – Paulo Setúbal – 246 páginas - Geração Editorial


Sem sombra de dúvida, o nosso primeiro imperador era um verdadeiro craque em angariar interpretações negativas sobre a sua personalidade. Realmente não há quem não tenha uma má notícia para nos dar sobre este personagem. Pode até ser que pelos padrões de hoje, ele fosse considerado um “Lula”, ou um líder nacional com educação e cara de povo; ou em outras palavras, um popular ao extremo. Naquela época, o mundo era bem diferente no que concerne em manter uma certa aparência de “ordem”, de hierarquia social para que a turba de brasileiros, escravos e mosquitos não se enfezasse.  Hoje é muito fácil vasculhar a vida íntima de alguém, agora imagine naquelas priscas eras, como foi possível que tantas fofocas saíssem do Palácio para chegar às ruas chiques como a do Ouvidor, no centro do Rio, ou aos botecos cariocas. Só há uma explicação: Pedro não se dava ao respeito, era humano demais, ditador demais, emotivo demais, violento e sexualista demais, ou seja, Pedrão era gente como a gente. O príncipe maluquinho não ajudava muito, chegado que era às mulheres, farras, puladas de cerca e a não a leitura de livros.
Por acaso, na época que recebi este livro, estava lendo outra interessante biografia sobre o homem. Porém, esta reedição (originalmente de 1926) escrita por um dos mestres do romance histórico, Paulo Setúbal (quem diria, foi o pai dos fundadores do Banco Itaú) é um verdadeiro primor. Aproveitando o momento, e para inspirar enquanto escrevo, ouvi uma das obras escritas por Pedro I, que entre tantos talentos, também era músico, chamada “Credo (Sanctus, Benedictus e Agnus Dei) para Coro, Solistas e Orquestra.” Incrível, não é? Que sujeito interessante esse com os olhos da mãe e as bochechas do pai!
Teria sido Pedrão, apenas “um maluco” como cita o subtítulo ou um garoto mimado, que devido à crises pessoais e políticas não teve tempo suficiente para atingir um mínimo grau de maturidade? Todas as opções são possíveis, mas a bem da verdade, o livro de Setúbal não peca por qualquer um dos possíveis excessos, seja incensá-lo ou detoná-lo, o que digamos é bem mais fácil. Na verdade, o livro de Setúbal é delicioso, e para os leitores mais reticentes ele não carrega nas tintas. Abolindo a seriedade de alguns romances históricos, Setúbal nos brinda com um livro ainda mais pitoresco de uma já conhecida saga para lá de pitoresca.
 A obra tem início na fuga da Família Real de Portugal para o Brasil e prossegue até a morte do Pedrão. Histórias maliciosas e fofocas bem detalhadas são contadas, como não, mas sem excessos que poderiam tornar o livro menos interessante aos menos fanáticos por história.   Muitos se lembram do Pedro histórico por causa do seu fundamental papel na independência brasileira e por sua campanha vitoriosa em Portugal após deixar o Brasil. Mas espancá-lo moralmente é facílimo, principalmente quando se lembra do seu rumoroso caso com a amante Domitila, que ele teve o peito de contratar como funcionária da corte, e em cargo diretamente ligado à sua real esposa, Leopoldina, que descuidada de sua aparência facilitou as puladas de cerca do marido.

Pedro é um personagem delicioso, este é um livro delicioso e por que não devorá-los com a paixão de Pedro, o luso-brasileiro?

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Pergunte ao Urso – Marcelo Vitorino – 133 páginas – Matrix


Você imagina o que se passa na cabeça das mulheres quando elas se referem ao sexo oposto? E digo, é tão oposto mesmo, que parece que, apesar da convivência, as moças precisam de manual. Pois bem, o publicitário Marcelo Vitorino, autor do blog “Pergunte ao Urso” parece ter todas as respostas, pois em um ano de existência na internet, o blog já conseguiu mais de 500 mil acessos e cerca de 3 mil perguntas, muito bem respondidas. Citando Vinicius de Moraes, o poetinha, que escreveu (ou falou, tanto faz)“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”, Vitorino dá uma aula de perspicácia e sapiência em textos muito bem escritos e realmente explicativos. E não esperem meras respostas de “prontuário”, mas sim completos vernáculos sobre a arte da convivência. E vale acrescentar que Vitorino diz não ser do grupo dos “ursos”, homens peludos que gostam de homens peludos, ele é “macho” mesmo, com todos os defeitos.
O livro implica em uma certa generalização, mas como não fazer isso ao abordar tema tão humano? Cá entre nós, seria ótimo ler um livro que tivesse todas as respostas, mas não há nada mais difícil no mundo do encarar um relacionamento, do jardim da infância até a aposentadoria. Apesar de sermos seres sociais, a mente humana é sim, capaz de transformar criaturas puras de Rousseau em bestas incompreensíveis, que deixam “lelé” todo bem intencionado filósofo. O livro dividido em educativos capítulos como “Depilação, calcinhas da vovó e menstruação”; “Os dez mandamentos da corna moderna”; “Eternamente sozinha”; “A inveja dentro do universo feminino”; “Transformando a relação eventual em habitual”; “Por trás e com tudo”; “Ele goza muito rápido”; “A pipa não sobre como eu gostaria” e “A vida pós-broxeada” é extremamente bem sucedido em suas análises, sinceras como um bom chute nos “ovos”.

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Como Enrolar Seu Chefe (e progredir na empresa) – João José da Costa – 126 páginas – Matrix


O advogado e administrador José Carlos da Costa foi executivo de Recursos Humanos em grandes empresas. Com tal currículo, como pensar que o autor pudesse escrever um livro de humor?   O mais engraçado ou o mais duro de ouvir (ler) é que o livro foi todo baseado em fatos reais, fruto de 5 décadas de experiência do autor, que comprova que o funcionário que trabalha mais, necessariamente não será quem mais crescerá na firma.  José da Costa conclui, não sem uma grande dose de humor, que quem menos trabalha, e que investe em propaganda pessoal é quem mais tem chances de sucesso. “Enrolar no emprego é uma arte. Enrolar e progredir na vida é uma arte muito mais sofisticada”, é o que este curioso “manual de sobrevivência” demonstra em 35 boas lições. Várias boas dicas são dadas: o programa de avaliação de desempenho é algo pouco apoiado pela chefia e enrolar com classe é aproveitar as oportunidades que a empresa dá para trabalhar o mínimo possível, o que não tem nada a ver com matar horas de trabalho.
Um dos casos mais fantásticos, presenciados pelo autor, foi a de um assistente de contabilidade, que apesar da função, saía horas do local de trabalho para espairecer e se relacionar. Foi eleito presidente do grêmio recreativo e esportivo da empresa. Quando percebia que o chefe já tinha “sacado” a tática, o departamento de Recursos Humanos recebia a proposta de transferência do “alvo” para outra área da empresa, pedido feito por ele mesmo. E com tal estratégia, as promoções se sucederam:  das Vendas para Pesquisa de Mercado e para o Marketing.  Terminou na presidência da empresa até que dois anos depois, perceberam que se tratava de um “enrolador VIP”. Quando foi dispensado, os funcionários ficaram tristes, mas para assombro geral, descobriram que durante o seu reinado, ele desenvolveu paralelamente um negócio próprio. Como parte do acordo de demissão, o enrolador VIP conseguiu que sua fábrica fosse fornecedora da empresa, o que o manteve no topo da enrolação durante muitos e muitos anos.

É ou não é um livro fascinante? Merece, urgente, uma parte 2 com mais detalhes e dicas. E sem nenhuma enrolação.

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A Economia Sustentável do seu Dinheiro – Gustavo Nagib – 120 páginas – Matrix

Este livro é uma pequena e econômica pepita. Explico as associações: “pequeno” porque só tem 120 páginas (apesar de sua grandeza), mas a associação com a pepita é válida, porque são as 120 páginas mais valiosas do mercado. Você, querido leitor, sairá desta leitura como uma nova pessoa, como se tivesse ressuscitado em corpo esplêndido. Isso não é propaganda e nem recebo porcentagem do autor, minha sinceridade me precede. Este manual de sobrevivência é uma obra transcendental que além de iluminar, desopila o fígado.

Conhecido como “pão-duro”, apelido que pega e não larga mais, o bem humorado jornalista Gustavo Nagib, explica nesse seu quarto livro como lidar com dinheiro, explicitamente ao associar o pão-durismo com as questões sociais. Nagib explica sua filosófica visão na introdução: “pão-duro e dinheiro não existem, um sem o outro. Uma pessoa sem sentimento é fria, não necessariamente pão-duro; uma pessoa sem humor é maçante, mas nem por isso pão-duro. Um sujeito que negocia na hora de comprar, gasta com cuidados, aí sim é logo chamado de pão-duro, não tem jeito. Dinheiro e pão-durismo estão intimamente ligados.”

Nagib inclusive confessa que dá aos filhos dos amigos, um cofrinho para que aprendam a poupar desde cedo.

O autor mostra que o leitor deve poupar antes que seja prejudicado por situações de “saia justa” neste mundo que nos obriga a abrir o bolso em razão de uma aceitação social. Por exemplo, Nagib diz que tudo o que se gasta com a ex pode virar um carro popular (como já ocorreu com ele); que jantares com candidatas a namoradas devem ter a mesma conta compartilhada; que namoradas boas são aquelas que moram perto etc. E a tese mais interessante é a que afirma que o pão-duro é o sujeito mais ecologicamente confiável, que mais colabora com o planeta. Boa.

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Almanaque das Guerras – Sérgio Pereira Couto – 294 páginas – Idéia e Ação

“Os animais lutam, mas não fazem a guerra. O homem é o único primata que planeja e executa entusiasticamente o extermínio de sua própria espécie e em grandes dimensões.” Hans Magnus Enzensberger, poeta e tradutor alemão.

Sérgio Pereira Couto, editor da revista Leituras da História, não é só versado na arte da guerra, mas também em tecnologia. Em seu currículo, consta que Pereira Couto também lançou outros livros como “Sociedades Secretas” e “Help – a lenda de um beatlemaníaco”.  
Este almanaque sobre as guerras entrega ao leitor, uma seleção de batalhas em ordem cronológica, que tanto tiveram significado histórico como tecnológico (mesmo em se tratando de temas da antiguidade, há sim tecnologia), assim como explica o desenvolvimento das táticas e dos artefatos para a arte da guerra, sabidamente importantes para a vitória praticada com inteligência, nos moldes descritos pelo pensador Sun Tzu, o autor de A Arte da Guerra, no século IV antes de Cristo.

Egípcios, Assírios, Persas, Gregos, Romanos e Mongóis são os personagens envolvidos nesses conflitos e batalhas como a Guerra dos Cem Anos, a maior das escaramuças ocorrida entre 1337 e 1453 (na verdade 116 anos) são explicadas de forma correta. Líderes como Alexandre, o Grande; Saladino; Napoleão e Carlos Magno são detalhados dentro dos limites possíveis de um almanaque.  

O almanaque explica as causas e as conseqüências dos milhares de conflitos ocorridos na história da humanidade com uma escrita simples e interessante. Se há alguma crítica a fazer, mesmo com as escusas do autor, é que não há uma citação ou um capítulo sobre as guerras nas quais o Brasil se envolveu (principalmente a com o Paraguai).  

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