Revista O Martelo
 
 
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O desenhista e compositor de boa cepa, MANAUS (que nasceu em Manaus, pasmem!) veio ao mundo em 26 de outubro de 1974. Cursou 2 anos na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1993 e 1994 e atualmente cursa Filosofia na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Instalou-se no município de Presidente Figueiredo, localizado a 107 km de Manaus, desde janeiro de 1995, desenvolvendo sua pesquisa na região. Dois trabalhos do artista estão disponíveis nesta edição do seu Martelo: "Não Tenho Medo" e "Mongolóide". No primeiro trabalho, Manaus soma quadrinhos e música com uma unidade e qualidade poucas vezes vista (ele se estende mais sobre o assunto na entrevista abaixo). Como em um livro em capítulos, cada parte de "Não Tenho Medo" ganhou composições eletrônicas climáticas e com boas guitarras nas quais o próprio Manaus canta com o tom da desesperança. As 12 faixas (as ouvi em versão não mixadas que nem precisam mais de ajustes) não possuem altos e baixos, todas são como partes de uma cara jóia feitas por um ourives inspirado.

A obra de Manaus tece interligações que multiplicam seus quadrinhos em mil possibilidades. O profundo sentir do artista, se nutre de indignação e esperança para com uma rara sensibilidade explodir à flor da pele, nos ouvidos do ouvinte e aos olhos do leitor.

A entrevista está inserida entre os quadrinhos. No final o produtor Bruno Prestes fala sobre o disco. Boa leitura.

ENTREVISTA COM MANAUS

Explique a temática das 2 HQs "Mongolóide" e "Não Tenho Medo".

Não sou muito bom com letras, palavras, essas coisas, é por isso que o trabalho virou esse monstrinho que mistura desenho, pintura, fotos, animação e música. Falar ou escrever a respeito já é complicado, mas vou tentar. Há mais de 6 anos tive o prazer de conhecer o Flávio Marques e ele me passou umas bases (musicais). Coloquei a letra em 6 meses e devolvi o trabalho. Percebemos a influência direta do Walter Franco nas letras (por isso a homenagem na HQ) e achamos que a sequência das músicas sugeria uma história, e a melhor maneira de contá-la seria em quadrinhos. Desenvolvi os personagens tendo como referências alguns artistas que foram importantes pra minha formação como Walter Franco, John Fante (o nome do personagem Arturo Bandit vem daí, e do Johnny Quest também), David Lynch, Trufault, Sganzerla, Mojica, o ar documental do Coutinho, João Moreira Sales, Walter Sales, Artaud, Ferlinghetti, Rimbaud, etc. Levei 1 ano pra desenhar, o processo foi doloroso, odeio desenhar quadrinhos. O engraçado nisso tudo foi a descoberta do meu trabalho artístico. Misturando as mídias consegui me despreender um pouco do suporte parede da pintura e experimentar novas possibilidades... Acho que agora não tem mais volta. O Não tenho medo de morrer é a tentativa de misturar literatura, teatro, cinema e música em um produto (uma história em quadrinhos que acompanha um CD com 12 músicas, que são os respectivos 12 capítulos da história e um DVD com 12 vídeos sobre cada capítulo. No fim, acho que é um grande exercício de linguagem.

Em “Não tenho Medo de Morrer”, o personagem principal Arturo Bandit, que vem de uma tentativa de suicídio mal executada (frustrada), procura um bar dentro da cabeça de uma mulher nua e careca. Chegando ao bar ele assiste pela TV os ataques às torres gêmeas no 11 de setembro e percebe que a sociedade na qual ele vive está completamente defasada, arcaica e virada ao avesso e que ele não tem mais razão pra seguir as suas regras. Começa então uma busca pessoal de auto-conhecimento, o personagem tenta se encontrar e definir o seu papel na sociedade .
A temática do “Mongolóide”, acho que é meio autobiográfica, é a necessidade de exorcizar os fantasmas de um passado bonito, e entender que podemos, e temos, que usar a memória pra esquecer e seguir adiante. O Mongolóide é um menino de 12 anos, adventista do 7º. Dia, seus pais são coelhos. Ele conversa com seu único amigo, o tubarão (bullterrier) e tenta se matar quando sua namoradinha (Grace) lhe dá o fora. Detalhe: a história se passa dentro da tromba de um elefante velho. A letra de “Rena do nariz vermelho” retrata bem o Mongolóide:

Eu acredito na rena do Nariz Vermelho
Eu acredito na televisão
Eu acredito quando olho no espelho
Eu acredito na religião
Eu acredito nas promessas que me fazem
Eu acredito até no Oscar
Eu acredito nas bromélias ao invés das papoulas
Eu tenho olhos baby
Eu tenho olhos nas costas
Eu acredito na justiça e no trabalho
Sempre acreditei na tropicália
Eu acredito nessa tal vanguarda musical
Eu acredito nos irmãos metralha
Eu acredito na globalização
Eu acredito nos inteligentes
Eu acredito no futuro da nação
Aaaahhh eu acredito em tanta gente

A síntese tem mais a ver comigo (www.manausmacaco.com), meus quadros mostram isso. O Mongolóide será dedicado a Daniel Johnston e está sendo produzido por AB Groove, Léo Cólera e Bruno Prestes.

Você tem algum artista que lhe inspire a desenhar, seja do passado ou presente?
Alguém que realmente faça a diferença?

Vários. O mais engraçado é que quase nunca são desenhistas ou pintores: Charles Bukowski, o diretor de “Let the Right one in”, Tomas Alfredson, o diretor de “Jake’s Closet”, Shelli Ryan, Beto Brant, a música do Clint Eastwood no filme “A Troca”, Thomas Mann, Fante e até mesmo o Ronaldo Joelho Podre jogando pelo Corinthians, acredita?

Ainda há espaço para a arte nesse mundo?

Acho que agora mais do que nunca. Seríamos muito mais brutos sem a arte, e já percebemos isso, parece ficar ainda mais claro quando as crises mundiais como a que estamos passando agora, acontecem.

Você se considera um incompreendido que virou artista ou um artista incompreendido?

Não penso muito nisso, não me considero um artista, não acredito em mim, não acredito no que faço, não levanto bandeiras. Só acho que tenho que fazer, produzir, não me preocupo se as pessoas vão compreender, se eu vou compreender, por que temos que compreender tudo? Por que tudo tem que ser tão enlatado? Só acho que tem que ser natural, compreensível ou não. Minha função aqui é matar o tempo, se você mata se divertindo, ponto pra você.

Você acredita que a sua vivência, os diversos Estados nos quais você residiu, as diferenças culturais que enfrentaste, te conduziram a uma liberdade artística real ou em outras palavras, a uma compreensão de que para que a sua obra seja reconhecida é necessário de fato se inserir no mercadão (mesmo independente)?

Acho que as duas coisas. Você acaba fazendo esse tipo de trabalho pra apresentar, você precisa mostrar e não adianta fazer um trabalho pra meia dúzia de amigos pseudo-intelectuais. Acho um desafio alcançar um número de pessoas maior, não que seja esse o objetivo, não vai ser nunca, mas se você conseguir, ótimo. Tudo é produto hoje, a informação é produto hoje, a cidadania é produto hoje, o amor é produto hoje, porque a arte não pode ser produto? É entender a tua relação com o teu tempo.

 

Escreva sobre quanto o Amazonas é importante na sua arte e vida.

Eu costumo dizer que “A minha cidade está me expulsando” e eu agradeço a ela todo dia por isso. Às vezes é complicado produzir arte no Amazonas, principalmente quando não depende só de você. Sou indiozinho, cidadão da Amazônia, e tenho o maior orgulho disso. Todas essas reflexões, analogias, surgiram da minha cidade, coisas boas e ruins. Só que não funciona mais, mas também acho que essa tristeza tropical que nos acompanha acabaria acontecendo em todo lugar. De qualquer forma, você precisa sair pra sentir e começar tudo de novo, só que agora como cidadão do mundo e convivendo muito bem com espécimes raras de tuatara, filhotes de morsa ou lobos guará.

 

Bruno Prestes (novo produtor do CD Não Tenho Medo)

NÃO TENHO MEDO é um trabalho que se iniciou com um grande amigo do Manaus chamado Flávio Marques. Como se tratava de um cara que assim como eu era um curioso do áudio profissional, Flávio acabou gravando suas idéias com problemas técnicos considerados mortais pela indústria fonográfica atual, ainda mais se tratando de música eletrônica. Talvez o conceito na época fosse tentar ser o mais espontâneo possível no registro das guitarras, sintetizadores, loops, etc. tentando imprimir um aspecto mais “humano” dentro da precisão extrema ou talvez “fria” da música eletrônica, aceitando pequenos erros de execução, desafinações nos instrumentos, falta de sincronia em loops, compondo sequências praticamente “no braço”, ou no “dedo” pra ser mais preciso, sem as devidas quantizações de tempo requeridas para esse tipo de música.

Por causa das falhas de captação partimos para o segundo momento do projeto, uma vez que finalizadas as partes do Flávio, Manaus necessitou experimentar arranjos com outros instrumentos como trompetes, vozes femininas, etc. Surgiram então, pontos extremamente positivos e que foram determinantes para que eu aceitasse o desafio de não ter medo do NÃO TENHO MEDO. Primeiramente, tratava-se de um trabalho com música eletrônica com um conceito mais livre, vinculada a um quadrinho muito bem feito em uma cidade onde dificilmente aconteceria de novo algo do gênero nos próximos 100 anos. Isso era uma oportunidade única. Outro fator foi ter recebido “carta branca” do Manaus para, como ele mesmo diz, “virar do avesso” toda a estrutura musical do projeto, isto é: liberdade criativa. E por último e não menos importante, Manaus sempre foi um cara humilde.

Pois bem, loops quantizados, estrutura refeita, baixo e guitarras gravadas, vozes devidamente “picotadas” e reorganizadas de acordo com a nova estrutura, chegamos a um momento em que as músicas estavam começando a fugir do propósito, soando como “banda de rock” e definitivamente não era isso que queríamos. Era necessário ter um clima de trilha sonora acima de tudo, para enfim enquadrá-la no conceito do quadrinho, soturno, diga-se de passagem. Comprei um controlador midi usado pelo Ebay e começamos a experimentar os softwares de instrumentos virtuais (Reason, FM7, Moog, etc.). Foi difícil no começo, mas definitivamente era brinquedo na mão de duas crianças na casa dos 30, um novo horizonte para as músicas surgiu e deu o tom que faltava ao projeto, com padrões sequenciados no mesmo BPM da música, strings, pianos e synths e etc.

Existem diversas outra característica nas musicas muito fortes, mas devo ressaltar mais duas. Primeiro, quanto aos delays carregados nas vozes. Esse foi um ponto muito difícil de entender no início, foi necessário conhecer mais a fundo as influências do Manaus (Walter Franco) para que “caísse a ficha” desse conceito tendo em vista que um dos objetivos da produção é tentar “limpar” o campo das frequências e distribuir bem o panorama das duas caixas e o Manaus acabou me obrigando a ir de encontro a isso tudo, isto é, “sujar” os parâmetros convencionados pelo mundo da “mixagem”. E por último, as músicas são deliberadamente curtas para não encher o saco do ouvinte.

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