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O mestre das histórias em quadrinhos, Eugênio Colonnese, morreu na sexta-feira, 8 de agosto, às 5h, em um hospital de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, vítima das complicações de um AVC (acidente vascular cerebral). Nascido na Itália, o criador de personagens como a vampira Mirza tinha 78 anos. Pedimos do Martelo pedimos ao amigo e desenhista Márcio Baraldi, que tecesse algumas palavras sobre Eugênio Colonnese, o que ele fez prontamente.

Eu era criança nos anos 70. Um moleque espevitado que não parava quieto, quase insuportável. Garoto ariano, muita energia pra gastar. Só uma coisa me acalmava: ler gibis e desenhar compulsivamente na mesa da cozinha,lotando cadernos e mais cadernos com super-heróis,naves espaciais, carros absurdos e outras doideiras que é melhor nem lembrar. Consumia gibis vorazmente.Preferia os nacionais:Mônica, Pererê, Satanésio, Gabola, Sacarrolha, CRÁS, e claro, os "proibidos", aqueles que minha mãe não queria que eu lesse pois julgava prejudiciais a minha tenra saude mental:os de Super-Heróis e de ...TERROR!!!
Pois lógico que eram justamente esses , que eu descolava escondido dela, que eu mais queria ler! E ali, naquele território "proibido" descobri a genialidade de dois mestres do quadrinho mundial: "Eugênio Colonnese e Rodolfo Zalla". O primeiro ,italiano, e o segundo ,argentino, ambos radicados no Brasil,eram uma espécie de irmãos-gêmeos de profissão.Tinham um estúdio juntos, o histórico "D-Arte", onde criaram milhares de páginas de quadrinhos em verdadeira linha de produção. Suas cabeças ferviam de idéias,madrugadas eram passadas na prancheta, quilos e quilos de lápis, papel,borracha e tinta nanquim eram consumidos mensalmente numa pequena "fábrica de quadrinhos" tocada por dois artistas geniais e alguns colaboradores esporádicos. Foi uma ótima época para o quadrinho nacional:muita demanda, muita produção! Uma época em que crianças e adultos liam MUITO, sem a concorrência desleal da internert e dos video-games e quando a TV colorida ainda dava seus primeiros passos no Brasil.

Nesse cenário Colonnese e Zalla sabiam ser comerciais sem perder a qualidade artística de seu trabalho. Ambos eram mestres em anatomia e dominavam técnicas modernas e vanguardistas de ilustração e acabamento.Tinham vivência internacional e estavam antenados com o que havia de mais atual no gênero. Colonnese era o mais radical. Virginiano detalhista e obssessivo,não deixava escapar minúcia alguma em seus cenários elaborados, repletos de referências fotográficas, ou nas curvas irresistíveis de suas deliciosas mulheres "mignons". Boêmio convicto e grande fã do sexo oposto, se especializou em desenhar mulheres típicas brasileiras: morenas, baixinhas, quadris largos, seios fartos, bumbums arrebitados e ...ahhhh!...bocas carnudas!

Suas mulheres de papel viraram sua marca registrada.Inconfundíveis, eram reconhecidas a distância. Nos anos 70 elas pareciam uma coqueluche, estavam em todo lugar:nos gibis de Super-Heróis como Mylar e Escorpião (também produzidos pela D-Arte), nos de terror onde Colonnese criou a mais famosa delas, a vampira Mirza, em anúncios publicitários variados e acreditem se quiser...nos livros escolares! Como bons artistas"paus-pra-toda obra", Colonnese e Zalla não negavam fogo e trabalhavam  maciçamente para os mais variados veículos. Nos anos 70 e 80, a maioria dos livros e cartilhas escolares eram com ilustrações suas.


E foi assim que travei meu segundo contato com Colonnese! Estudei com seus livros e reconheci os traços daquele mesmo autor dos arrepiantes quadrinhos de terror e super-heróis que eu gostava tanto."Que mundo pequeno! Será que algum dia eu ainda vou conhecer esses artistas pessoalmente?" pensava eu do alto dos meus dez anos de idade.

Pois bem, o tempo passou ,aqueles desenhos na mesa da cozinha evoluíram e eu também me tornei um desenhista de quadrinhos profissional. Publicava em zilhões de revistas nas bancas e ainda não conhecia pessoalmente meus mestres da infãncia. Porém, num dia no final dos anos 90, o destino tratou de corrigir essa falha. Foi na estação de trens de Santo André, bem no coração da cidade onde nasci e a qual Colonnese adotou como seu lar desde que chegou ao Brasil, nos anos 60. Vi aquele senhorzinho baixo e magro esperando o trem, com uma pasta dessas típicas de desenhistas debaixo do braço. Me pareceu familiar, embora com certeza não o conhecesse. Porém um detalhe foi determinante para eu puxar papo: um broche da editora Opera Graphica, uma das editoras para  a qual eu trabalhava, na lapela de seu paletó!

Cheguei junto no hómi e o diálogo foi esse:
-"O senhor trabalha na Opera Graphica?"
-"Sim, faço quadrinhos e ilustrações pra eles."
-"Coincidência, senhor! Eu também.Qual seu nome?"
-"Eugênio Colonnese."
-"Carvalho!!! Eu moro na mesma cidade e trabalho na mesma empresa que o mestre Colonnese e nem sabia?!???"

Por coincidência (se é que elas existem) eu tinha feito recentemente uma HQ para uma revista da Opera Graphica, onde parodiei a vampira Mirza. E por mais coincidência ainda a revista estava na minha pasta (sim, eu também tenho uma  pasta de desenhista!). Puxei-a e mostrei pra ele. O hómi ficou surpreso e disse que conhecia a HQ, tinha adorado e queria conhecer o autor. "Mundo pequeno!" pensei de novo, dessa vez do alto dos meus vinte e muitos anos. Entramos animados no trem e viramos amigos instantaneamente. Peguei a revista e escrevi na contracapa:
"Mestre Colonnese, a vida é como uma longa viagem de trem. A cada estação alguns vão chegando e outros partindo.Vamos trocando de trens e de estações até chegar a uma  estação final ,grande e luminosa, que existe em algum lugar, e onde nos encontraremos todos novamente. Obrigado por pegar um destes trens comigo." Ele leu emocionado ,enxugou uma lágrima que se insinuou e agradeceu a revista.
Dali pra frente nos encontramos muitas vezes, em convenções de quadrinhos, premiações, eventos, enfim, em muitas outras estações.

 

 

Agora Colonnese pegou outro trem.

Obrigado pela viagem, Mestre!

E até a próxima estação!

 

 

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