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P.O. BOX 33132, ZIP CODE 22440.970 RIO DE JANEIRO, BRASIL omartelo@omartelo.com

Luiz Nélio Cavalcanti Rodrigues. 56 anos é biólogo de formação com pós-graduação em Botânica pela USP. No entanto, não exerce essa profissão há um bom tempo. É roqueiro 24 horas por dia. E por causa disso Nélio foi convocado para dar umas boas marteladas em nossas páginas. Grande figura, felizmente não perdeu o carinho pela natureza e nem a consciência ecológica. Esse é o cara!

POR CARLOS LOPES

 

Como, quando e por que você começou a escrever sobre rock?
 
Existem muitas histórias sendo levadas pelo vento sem terem sequer chegado ao conhecimento de muita gente. Ou ainda: mal contadas. No caso dos Rolling Stones, por exemplo, existem livros publicados no exterior cheio de equívocos quando se referem a uma das primeiras visitas de Jagger e Richards ao Brasil. Até mesmo Stonemaníacos e roqueiros de primeira hora que eu conheço se surpreendiam ao saber que Jagger havia passado pelo Brasil antes de aparecer por aqui com Keith. Algo semelhante ocorre quanto o assunto é o rock brasileiro dos anos 60 e 70, cheio de bandas maravilhosas como a Equipe Mercado, os Lobos, Soma, Analfabitles, A Bolha, Módulo 1000, O Terço, os Brazões, Paulo Cláudio & Maurício, The Outcasts (Nota: lançou um LP e um compacto, pelo selo Elpa, da Elenco, com originais e covers de The Who, Rolling Stones e Bob Dylan), Karma  e Som Beat, entre outras, mas sobre as quais pouco ainda se sabe. Acho que foram essa coisas que me levaram a escrever sobre o assunto... De fato, eu e meu prezado parceiro Zé Emílio Rondeau, com quem dividi o livro “Sexo, Drogas e Rolling Stones”, estamos nos preparando para encarar mais um desafio: contar a história do rock brasileiro desse período.

Falando das melhores bandas sulamericanas dos anos 60, há como comparar os uruguaios dos Los Shakers com os Mutantes? Ambas teriam a mesma importância?

Eu adoro os Shakers. E eles foram grandes mesmo. Há coisa mais incrível do que uma banda uruguaia ser lançada nos EUA em 66 pela Audio Fidelity? O primeiro álbum do grupo foi relançado em 80 ou 82 por um selo da Austrália comprovando a importância da banda. Há um interesse muito grande por eles até hoje. Eles eram os Beatles na região da Argentina e Uruguai. Os Mutantes estavam mais próximos do underground. São circunstâncias distintas. A onda dos Shakers era outra, eram grandes músicos que sabiam tocar de tudo, rock, jazz. Era tudo cobra criada. Hugo Fattoruso tocou com o Airto, Milton e Chico. (nota: Depois do fim da banda, Hugo, Caio e Pelin decidiram viver no Brasil. Pelin e Caio acompanharam Leno no trabalho “Vida e Obra de Johnny McCartney”). No show dos Mutantes ninguém gritava, nos Shakers sim. Era outra pegada. No estilo deles, essa onda meio Beatles não tinha ninguém melhor. Eles acabaram em 68, quando os Mutantes estavam gravando o segundo disco.

  Como você analisa o rock brasileiro atual? Existe alguma banda que te agrade?

Achei curioso o Mofo de Alagoas, e do sul o Bidê ou Balde. O Cachorro Grande tem algumas músicas boas. Eles manjam muito das bandas inglesas, mas sinto que falta apurar mais os vocais.

Sendo um sessentista e setentista incurável, como você vê a influência do movimento punk na questão da “atitude” da música nos últimos 30 anos?

Penso que a música não tem que ser política, ninguém é obrigado a fazer um statement. Se quer fazer política, vai fazer outra coisa. A música é algo que toca a alma, não sou eu que escolho, não tenho controle, parece genética, invade minha alma, é espontâneo. Da mesma maneira a criação deve deixar a alma produzir, não deve ser totalmente pensada, ser mais verdadeiro do que apenas xingar alguém. Os Stones eram rebeldes, mas para se libertar de velhos costumes, porque no pós guerra, o adolescente não tinha direito a quase nada. Os jovens se revoltaram para criar a sua arte, a sua roupa, a sua música, o seu cinema. No caso dos punks foi curioso porque o rock naquele momento estava se exaurindo. O rock progressivo explorou tudo o que era possível e esse tipo de coisa começou a cansar – era mais uma exibição do talento, do que feito para tocar as pessoas. O punk veio com a naturalidade, tornou tudo possível de novo. O punk brasileiro de verdade é fruto da periferia de São Paulo, mas não é um movimento espontâneo. Na verdade ele não surgiu como o Clash na Inglaterra, o punk brasileiro veio na onda. Tem coisa legal eu aplaudo, mas quando se exalta acho uma bobagem. Ele quebrou modelos? Sim, mas musicalmente não me diz nada. Quando você coloca tudo em um patamar histórico, independente do gosto você pode avaliar a influência de certas bandas, discos e artistas. É relevante, mas nada é tão interessante quanto o Clash.

Você diria que o rock é a sua maior paixão? Ou o seu maior karma? Como teve início?

A música é minha maior paixão. Espera aí... Bobagem! O rock é a maior. Comecei assim, com as primeiras canções que tocavam na rádio, como do “I Can´t Stop Loving You” do Ray Charles; “Only You” dos The Platters e João Gilberto. Era garoto e me sentia bem ouvindo essas músicas, fazia sentido, bem diferente da música de Orlando Silva, Cauby. Aquilo me causava certa repulsa. Até podia ser “Teresa da Praia” com Lúcio Alves e Dick Farney, que você parava para escutar e achava interessante, curioso, mas a melodia, as harmonias dos Platters, só as minhas células entendiam aquela sonoridade que me pegou quando o rádio estava ligado. Era nítido o meu desgosto em relação a cantores com vozes operísticas, era sintoma de coisa velha. Quando comecou a tocar twist achei legal, nada além de uma moda, mas quando um amigo colocou o LP “Beatles Again” ai fodeu – ai mudou o mundo! Agora não tem mais jeito. Vi que música era uma coisa vital, minha vida passou a depender da existência da música. Sem música eu não estaria vivo, estava irremediavelmente atrelado à música. Houve uma mutação, foi um impacto tão grande, virava de lado sem entender, achando aquilo absurdamente fantástico. Como seres humanos podiam fazer aquele som? Foi um momento mágico, vi algo maravilhoso e pronto. A mesma coisa aconteceu quando ouvi “Satisfaction” dos Rolling Stones. Nesse meio tempo comecei a me interessar por bandas inglesas como os Animals em “A Casa do Sol Nascente”. Precisava ter esse tipo de música na minha casa, antes mesmo de ter vitrola. Eu era um cara com 13 anos e meio duro. Escutava os compactos na casa de amigos. Há... O primeiro LP que comprei foi o “Out of Our Heads” dos Rolling Stones.

Me descreva a sensação de ouvir os Stones no início dos 60? Imagino o impacto, já que não havia parâmetros como há hoje. Seria algo muito pesado e sujo? Indescritivelmente fora dos padrões?

Era pesado sim.  Aquele som distorcido da guitarra causou espanto em todo mundo no contexto da época. Hoje você ouve e acha comum.  A gente debatia como aquele som era feito, as pessoas na esquina achavam que era saxofone. Era tão contundente e tão fora de tudo do que tínhamos escutado antes, que ou causava repulsa, ou achávamos que era algo infinitamente superior. Te pegava ou te mandava pra longe. Era um som altamente virulento.

E naquela época mulher gostava de rock?

Gostava de rock sim, mas tinha que ser bonitinho como os Beatles.  Era uma forma de gostar de música mais aliada a beleza. Elas aceitavam o cabelo comprido porque os Beatles eram bonitos.
Mas elas não tinham aversão. Começaram a entrar na onda, usando minissaia, calça apertada.

E você teve cabelo comprido? Chocava? O cabelo dos Stones era mesmo coisa do outro mundo?
 
O meu era comprido, mas só até o meio da orelha. Imagine que naquela época o corte era do tamanho de um soldado reco. Por exemplo, se você passasse na porta de uma obra, os caras encarnavam. O cabelo dos Stones era comprimido mesmo. Mas alguns no Brasil eram cabeludos mesmo. Na capa do disco dos Selvagens de 66, um deles tinha o cabelo liso até o ombro, os outros da banda não. O cabelo do cara do Brazilian Bitles do disco de 67 era comprido para a época, cabelo grande mesmo.

A redescoberta da Jovem Guarda por bandas mais novas, ressurgiu com um viés debochado, como que dizendo “olha, eu toco, mas é só para tirar onda porque isso não é bom, é cult”. A Jovem Guarda era de mal gosto, popularesca?

O pessoal da Jovem, o Erasmo por mais que gostasse de rock era mais ligado aos anos 50, baladas suavizadas. O rock foi absorvido e ganhou historinhas bonitinhas. Wanderley Cardoso era o supra sumo da breguice, era um roquinho que não assustava, não te instigava. “Festa de Arromba” era legal, mas principalmente para quem ouvia a fonte da Inglaterra, a Jovem Guarda era feita com guitarra vagabunda, contribuía negativamente. A Jovem Guarda na verdade foi consumida pelo Brasil inteiro menos pela zona sul do Rio e é claro, pela outra galera que era mais antenada no rock com conecção direta com Londres, Liverpool e São Francisco. Existiam bandas com os Analfabitles, The Outcasts, The Bubbles que coexistiam naquele momento, mas que não tinham nada a ver com a Jovem Guarda, eram mais Swinging London. Quando você ouvia o “Rubber Soul”, o “Revolver” dos Beatles era um passo grande, o rock foi evoluindo. Ouve “Quero Viajar” da Bolha e compara com uma música dos Renatos e seus Blue Caps. Esse pessoal tocava em inglês, tinha a mesma estética de roupa, estava no paralelo, no underground, mas precisavam da Jovem Guarda para aparecer. Quando surgiu o Tropicalismo, misturando guitarra com cavaquinho, a coisa mudou. Quem não conseguiu evoluir como os Fevers tá até hoje fazendo baile. As bandas que eram paralelas à Jovem Guarda pensaram que se quisessem evoluir teriam que construir o próprio material. O tropicalismo incentivou o uso da língua. O Arnaldo Brandão dos Bubbles vivia querendo passar o nome da banda para português. Quando eles foram para a Inglaterra viram que não dava para ser a cópia das bandas de lá. A Bolha (ex-Bubbles) fazia um rock pesado mas com uma linguagem própria e seria mais interessante se misturassem esses elementos todos.

Qual foi o primeiro show internacional que aportou no Brasil que você assistiu?

Bom, show de uma banda? Vi o Santana no Teatro Municipal em 71. O som estava bom, me lembro que estava um pouco baixo, a guitarra se ouvia claramente. Eles vieram para o Festival Internacional da Canção, fizeram shows separados, eu acho que só tocaram no Rio, não lembro. Depois o Santana voltou em 73 no Maracanãzinho tocando o Caravanserai. Tava todo mundo no maior silêncio porque era um som mais etéreo. O Alice Cooper em 74 veio com um som ruim no Maracanãzinho, mas o show foi ótimo. O Brasil não era rota de ninguém. Antes do Santana estive em alguns festivais, em um deles veio o David Clayton-Thomas, o cantor do Blood, Sweat & Tears. Vi o show, mas nem me lembro. Era uma coisa muito fugaz, algum artista estrangeiro defendia uma música no festival, e ia embora. Perdi os Herman's Hermits no Canecão em 67. Estava sem dinheiro, não lembro, mas todos foram importantes para a gente ter uma noção mais exata do que era ver um show de rock de verdade e servia para percebermos que algumas bandas brasileiras eram muito boas, mas precisavam de um equipamento melhor, de uma infra. Era necessário para a coisa se desenvolver aqui e vimos a importância do técnico de som. No Brasil era tudo brincadeira, ninguém sabia equalizar. Tudo era muito difícil, havia uma taxa para impedir de comprar coisa importada. Os caras dessas bandas são uns verdadeiros heróis do rock brasileiro. Era tudo muito amador, muito mambembe. Aprendeu-se a compor uma música, como cultivar uma platéia. Para divulgar então era terrível. Batia com a cabeça na parede e encontrava falta de apoio. O Júlio Hungria dava nota na imprensa, mas era difícil na mídia tipo JB e O Globo, só dava os de sempre: Erasmo, Rita Lee. Tinha que ser em uma coluna especifica, o que era raro. Revista de rock não era feita para durar, suava para manter nas bancas de jornais.

Qual foi o primeiro show de uma banda brasileira que te deixou arrepiado? Você consegue descrever o contexto da época para localizar o leitor.

Não foi um só, mas um que me deixou de quatro, foi um show do Soma no MAM (Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro) em dezembro de 73. Era a temporada de verão no MAM, e nessa noite tocavam o Soma, o Terço e os Mutantes, acho que o Arnaldo estava na banda. Eu já conhecia o Terço e os Mutantes, achava legal. O Soma eu conhecia de falarem que tinha uns americanos na banda. Na curiosidade assisti, e também sem nenhuma expectativa. Era uma sexta e estava muito cheio, nego saindo direto da faculdade, eu mal conseguia entrar, de tanta gente. A primeira foi o Soma. O Bruce (Henry, baixista, ex-The Outcasts) tinha voltado de Londres com uma aparelhagem, tinha trazido um P.A. Entra no palco 4 caras com violão, sentam nos banquinhos, cabeludos, o Ritchie (vocalista e flautista Richard Court que gravaria nos anos 80 o sucesso “Menina Veneno”) tava lá, cabeludaço. Começam a cantar acústico em inglês. Falei tô vendo o Crosby, Stills, Nash & Young! 30 minutos e eu babando, o vocal maravilhoso, tava delirando e dali a um pouco pára, pegaram os instrumentos elétricos ai foi outra porrada. Quem entrou depois acho foi os Mutantes, mas apagou da minha mente, o Soma foi tão foda que não lembro dos Mutantes. O último foi o Terço o som muito agradável, dos Mutantes lembro zero. Vi o Módulo 1000 ao ar livre no MAM no evento que eles fizeram em 70 ou 71. O evento tinha um nome como “domingo do papel” com milhares recortando, “domingo da música” onde levavam os instrumentos, tipo um happening ao ar livre, tinha flautas e violão. No final da tarde, o Módulo colocou o equipamento e tocou, teve o lançamento do LP “Não Fale com Paredes”. Foi muito bom, mas como já conhecia um pouco não me surpreendeu tanto. Os Mutantes em 72, sem a Rita Lee no Teatro Tereza Raquel foi foda. Saí tremendo do teatro, bateu tanto dentro do meu cérebro, foi um show alucinante. Ver os Novos Baianos no ginásio da PUC tocando “Acabou Chorare” e “Futebol Clube” os dois inteiros foi incrível. Nunca vou esquecer, posso esquecer do Genesis no Maracanãzinho, mas nunca desses shows.

Como está o seu projeto sobre o livro sobre a história do rock carioca, dos anos 50 a 70, se não engano?
 
Na verdade conto a história de algumas importantes bandas do underground carioca que reinaram entre os anos 60 e 70. O projeto foi interrompido por causa do livro dos Stones que escrevi com Zé Emílio. Agora, se engatarmos o outro projeto do qual me referi aí em cima, então esse ficará aguardando mais um pouquinho, embora esteja adiantado.

Descreva as melhores 5 bandas brasileiras ou cariocas que ninguém cita em enciclopédia de rock alguma que não poderiam ter sido relegadas ao esquecimento.
 
Bom, algumas são até citadas, como A Bolha e o Módulo 1000, mas não como deveriam. Agora, a super-vanguardista e surreal Equipe Mercado (que fazia de suas apresentações um repto, e que acabou antes mesmo de ser entendida), e o grupo Soma (tão bom quanto as melhores bandas estrangeiras daquela época), ah, estas sequer são lembradas. Outra que também não costuma ser citada é a banda de Niterói Os Lobos, cujo álbum “Miragem” é um dos melhores do rock brasileiro. E olha que ainda estou deixando de fora os Analfabitles e o Karma, por exemplo.

Como foi o processo de divisão do trabalho entre você e o Emílio na confecção do livro “Sexo, Drogas e Rolling Stones”?
 
Foi muito fácil trabalhar com o Zé Emilio. E prazeroso, diga-se de passagem. Zé é um profissional competentíssimo, o que me deixou absolutamente tranqüilo quanto ao resultado final do nosso trabalho: o livro “Sexo, Drogas e Rolling Stones”. Zé Emilio viu muitos shows da banda fora do país e teve a oportunidade de entrevistá-los algumas vezes.  Por outro lado, vi todos os shows que os Stones fizeram no Brasil e testemunhei as primeiras visitas brasileiras de Jagger e Richards. Enfim, unimos todo o nosso conhecimento e nossas informações em prol da realização desse livro que percorre 46 anos de vida de uma das mais importantes bandas de rock de todos os tempos. E, como já mencionei em algum lugar, temos outros projetos no horizonte.

Clique aqui para ler a resenha sobre o livro “Sexo, Drogas e Rolling Stones” nessa edição


 
Já existe um público que consome literatura sobre rock no país?

Sim, a literatura musical tem merecido especial atenção das editoras nos últimos anos. E tem formado público interessado no assunto. O livro do Eric Clapton, por exemplo, ficou meses entre os dez mais vendidos de não-ficção. O nosso chegou a aparecer na lista do Jornal do Brasil. Isso sem falar no sucesso extraordinário da biografia do Tim Maia, escrita pelo polivalente Nelson Motta. Ou seja, prova de que a literatura musical está conquistando seu espaço no país.
 

Houve algum fato que você desconhecia sobre os Stones que você só tomou conhecimento durante a feitura do livro?
 
Que me lembre, só algumas histórias que Ron Wood deixou escapar em sua recente autobiografia, publicada um pouco antes de começarmos a escrever “Sexo, Drogas e Rolling Stones”. Inclusive incluímos alguma coisa em nosso livro, entre as quais, o bonito comentário de Ron sobre o show de Copacabana.

Qual o seu Stone favorito?
 
Gosto dos Rolling Stones, da banda como um todo, portanto não tenho Stone favorito.

Mataram ou não mataram o Brian Jones?
 
Mataram, sim. Não sei se intencionalmente ou acidentalmente, mas que mataram, mataram.

Você é apaixonado por literatura? Qual seu jornalista de rock favorito e qual seu escritor favorito?
 
Pra ficar no Brasil, sempre admirei o trabalho da Ana Maria Bahiana e do meu amigo Zé Emilio Rondeau. E o do meu caro Jamari França. Posso estar esquecendo de alguém, mas quando falo de rock no Brasil, em princípio, penso neles. Meus livros são quase todos ligados à música. Quando tenho tempo de escapar do assunto, recorro aos livros da minha mulher. Um dos últimos que li foi “Quando Nietzsche Chorou”, de Irvin Yalom. Gostei muito.

Vamos dar início a um questionário básico? É capcioso, mas é legal. Escolha apenas um: Beatles ou Stones?

Os dois. Costumo dizer que Beatles é Apolo e Stones, Dionísio; positivo e negativo, é a antítese mais perfeita do outro, preciso desse outro lado.

Caetano ou Gil?

Caetano tem mais músicas que eu gosto e talvez por achá-lo um cara mais interessante. Os dois são tão geniais na história da música brasileira que não dá para escolher. Eu não tenho a cabeça deles, ambos criaram um movimento, não são artistas comuns. Sobre o Gil, acho que o envolvimento com a política atrapalha um pouco sim, teve que se posicionar com outro público, criou pontos de atrito com outros artistas.

Os Mutantes ou A Bolha?

E difícil, porque eu nunca vi a pegada de rock nos Mutantes. Pularam para o progressivo e a pegada psicodélica da Bolha era muito forte, não nego que podem ter mesmo ter servido de modelo. Em um show dos Mutantes com Rita Lee mais o Analfa e Bubbles, o público do Rio curtia mais a sonoridade das duas últimas. A gente não tem que comparar. Sem comparar prefiro dizer que as bandas mais interessantes e as mais criativas são todas ou quase todas do Rio. Fora do Rio, onde existia um Os Lobos?  Uma Equipe Mercado? A Equipe foi a vanguarda que os Mutantes nunca conseguiram alcançar, nunca chegaram lá. Onde você tem uma Bolha? Os Incríveis, por exemplo, tinha músicos incríveis, o Manito por exemplo, mas um repertório de altos e baixos alucinante, do brega ao sensacional. O Made in Brazil, era um sub sub Stones sem graça; Rita Lee e Tutti-Frutti era muito bom, mas em São Paulo não há variedade. Só o Módulo Mil fazia hard psicodélico; Os Lobos tocavam algo como Beatles com Charleston e psicodelia. E os happenings loucos da Equipe Mercado? Pintaram os rostos muito antes dos Secos e Molhados, era a vanguarda da vanguarda, cada grupo carioca numa linha, um estilo completamente diferente, todos criativos. Outro grupo fantástico era o Spectrum do filme Geração Perdida. Esse era o rock brasileiro mais interessante da virada dos anos 60 para os 70.

 

Secos e Molhados ou Novos Baianos?  

Sou Novos Baianos, dez mil anos na frente. O Secos não me estimulava, o disco era bacaninha, mas não era coisa de outro mundo. Eu furei o LP "Acabou Chorare". Recordo de uma história, fui ao clube do Fluminense com meu irmão para assistir os Novos Baianos. Vi um monte de hippies entrando no salão nobre do Fluminense. Eu e meu irmão fomos barrrados por causa do chinelo. Mas quando vimos os Novos Baianos chegarem, todos cabeludos, hippies, de qualquer jeito, com aquela guitarra tosca do Pepeu foi demais! Depois o Pepeu passou por mim, e perguntou se a gente tinha gostado.  Os únicos cabeludos do show. A gente já conhecia a banda da música "Ferro na Boneca".

Led, Purple ou Sabbath?

Led definiu o estilo. Tem discos que gosto mais, apesar da voz do Robert Plant me cansar às vezes, mas acho que também gosto mais porque eu adorava os Yardbirds. O "Paranoid" do Black Sabbath não me estimulou. Já prefiria o Pink Floyd seguido pelo Yes. O som pesado nunca me atraiu.

LP, CD ou MP3?

LP porque minha cultura é a do som do vinil que é mais bacana e o CD me parece mais descartável tanto que até está acabando. Não excluo, mas sou colecionador.

Orkut, You Tube ou My Space?

Só tem gente que não sabe nada no Orkut. É infantil e eu fujo do Orkut. Tem muita coisa interessante na rede é claro. Hoje não basta ter um e-mail. Claro que a busca por informação aumentou e já encontrei muita coisa boa, mas também me deparei com gente nova que não sabe porra nenhuma. O You Tube tem a imagem muito ruim, não dá nem pra gravar. É legal ver e procurar, mas a qualidade é lamentável na tela grande, mas acho tudo bacana. A internet facilitou.

 

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