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É impossível dizer de que parte do mundo vocês são, apenas ouvindo
o som do Confronto. Como vocês vêem isso? De forma positiva?

Felipe Ribeiro (baterista) - Nós não precisamos que as pessoas saibam de qual parte do mundo nós somos apenas pelo som que a gente faz. Essa não é a nossa preocupação. Acreditamos que se realmente existir um interesse pela banda, automaticamente a pessoa que se interessar e gostar da música irá buscar esse tipo de informação. Não julgo isso como sendo positivo e nem negativo, apenas não é a nossa maior preocupação no que diz respeito à música que a gente toca.


No show do Rattus, por exemplo, era evidente que eles eram finlandeses e que o Periferia S/A era uma banda brasileira. É dessa identidade que falo. A banda tem vários trabalhos lançados e prima pela globalização da sonoridade e não pela identidade. Vocês já refletiram sobre isso antes ou foi natural e intencional essa busca pela não-identidade? É mais fácil agradar ou desagradar encontrando um caminho distinto?

Então, veja bem... Como disse antes, musicalmente falando, essa idéia de globalização da sonoridade é a ultima coisa que nos passa pela cabeça na hora de criarmos música e fecharmos um disco, se é que isso um dia já passou pela cabeça de algum de nós. Na questão das bandas citadas acima eu não vejo essa evidência de que o Rattus é Finlandesa e o Periferia S/A é brasileira... Quer dizer, pra mim a diferença básica entre as duas bandas, no que diz respeito aos seus países de origem é única e exclusivamente pela língua em que eles cantam. Isso se aplica ao Confronto também, pois acho que as pessoas, de cara já se surpreendem pelo fato de cantarmos em português, porque soa bem diferente da maioria das bandas do mundo. Agora, se é mais fácil agradar ou desagradar, eu realmente não sei... O que sei é que no caso do Confronto, principalmente fora do Brasil, isso se torna um atrativo, porque apesar da dita sonoridade globalizada citada acima, as pessoas vêem claramente que não somos europeus ou americanos, por motivos óbvios.   


Em sociologia muitas questões de identidade são debatidas mas no mundo do rock o questionamento a essas mesmas e importantes questões são menosprezadas. Fala-se contra a globalização, mas o rock, seja ele de que país venha, só tem similaridades e não identidade. É bom para o rock ser globalizado?

Então... Não se falava em globalização nos anos 60, mas já existiam bandas do mundo todo que imitavam os Beatles. A jovem guarda queria ser como a “juventude transviada” americana, a Dorsal Atlântica fazia thrash metal como Kreator (Alemanha), Slayer (EUA), etc... E nessa época não se falava em globalização, não se abordava esse assunto como se trata hoje em dia. Acho que a globalização imposta é um problema. Problema é quando você tem como opção somente consumir cultura estrangeira. Falo de globalização econômica imposta, sistema de mercado que destrói as culturas ditas inferiores. Veja bem... O Sepultura se tornou uma das maiores bandas do mundo colocando elementos indígenas na sua música, assim como tem bandas da Escandinávia que tratam de sua própria cultura nórdica, bandas aqui em Caxias que falam de Viking e grupos no Japão que tocam samba misturado com rock. Isso é um minúsculo exemplo de que existe sim certa identidade no rock. Agora, se é bom para o rock ser globalizado, fica difícil pra eu dizer, porque na verdade, quem sou eu pra dizer o que é certo ou errado para rock ou definir os caminhos que devem ser trilhados por ele? É aquela história, né? Nós somos apenas amantes, apreciadores e admiradores que modestamente tenta praticá-lo de alguma forma.


Há alguma forma de pensamento religioso, social ou político que os agrade? Ou como muitos dizem, rock não deve tomar partido, ser apenas rock.

Acho que as pessoas devem ser verdadeiras com elas mesmas, Falar e fazer o que acreditam. Acredito que tudo que é sincero é melhor, pois é puro de sentimento. Se a pessoa acha que deve usar uma banda como plataforma política, religiosa ou social ela tem todo o direito de fazer isso... Como disse antes, quem sou eu para definir o que é certo ou errado para o rock? Acho que as pessoas devem ser livres pra se expressarem como quiser e se acham que o rock é o que conduzirá a idéia, que seja. O rock pode ser apenas música sim, mas pode não ser também... Isso depende de cada um. Existem várias formas de pensamentos políticos, sociais e religiosos que nos agrada, mas não misturamos isso com a banda. O CONFRONTO não levanta nenhuma bandeira política, apenas pegamos o que achamos de melhor em cada idéia, em cada livro, em cada conversa, em cada observação, em cada rua, em cada bairro que passamos, em cada país que atravessamos e tentamos trazer pra nossa realidade. O que nós não vamos fazer nunca é fugir da nossa realidade, fingir que as coisas não existem e simplesmente ignorar o cotidiano. O CONFRONTO fala o que pensa, mas nunca impõe suas verdades. Expõe apenas o ponto de vista.



Para fazer uma excursão longa, vocês necessariamente tem que se dedicar a banda ou no mínimo ter uma estrutura que os faça conciliar vida pessoal, trabalho e música. O que vocês fazem fora da banda? Se formaram em alguma profissão, algum de vocês é casado, trabalham em algo diferente?

-Por uma coincidência, todos na bandas já exercíamos profissões que não tomavam de todo o nosso tempo, fato esse que desde o início da banda nos jogou de cabeça em turnês no Brasil e América Latina (com 2 anos de banda passamos mais de um mês tocando na Argentina e Chile, voltamos e retomamos nossos respectivos trabalhos)  O único que é formado na banda é o Felipe Chehuan, que é advogado.  Nós sempre corremos atrás de sobreviver com a banda, pois seria impossível trabalhar e cuidar de tantas coisas relacionadas ao CONFRONTO. Nós temos a banda como atividade principal e secundariamente alguns de nós pelo menos tenta cuidar de outras coisas, como por exemplo o Maximiliano que é polidor de pranchas de surf e o Dudu que mexe com mecânica de carros. Seria impossível ficar 3 meses em turnê pela Europa e emendar inúmeras turnês se nós não tivéssemos a banda como atividade principal. Vivemos a banda intensamente praticamente 24 horas por dia.

Vocês se reconhecem como brasileiros no exterior?

Com certeza... Impossível ser diferente.

 

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