EDIÇÃO 24
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Sergio Filho (ou Sergio Rangel Filho) é guitarrista da banda grunge carioca TCHOPU, botafoguense e produtor musical. Apesar dos seus 22 anos, Sergio já tem experiência de sobra e uma visão clara sobre o mercado musical, talento esse que ele simpaticamente reparte com os leitores desta edição de O Martelo.
Entrevista em vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=RCBbB-mRdNs)
Como você entrou no mundo da música, quais foram suas primeiras influências? O que te fascinou na guitarra como instrumento? Eu fui criado imerso em uma cultura musical bastante heterogênea. Minha mãe sempre escutou muita mpb, desde Chico, Tom e Vinícius, até os artistas mais modernos como Adriana Calcanhotto e Marisa Monte. Por outro lado, meu pai sempre trouxe a parte mais rock, com Titãs, Queen e, principalmente, Pink Floyd. Foi com essa banda que eu me identifiquei de verdade e um certo dia vi minha madrinha tocando violão. Pedi a ela que me ensinasse e então ela me deu o seu violão. Ali eu comecei a tirar os primeiros acordes de “Wish You Were Here”, faixa-título do álbum de 75 do quarteto inglês. Meu fascínio pela guitarra começou quando um grande amigo apareceu com uma guitarra na minha casa e ele tinha um pedal. Foi a primeira vez que eu ouvi distorção e fiquei apaixonado por aquele som poderoso. Infelizmente ele é canhoto e eu não pude tocar na guitarra. Mas isso foi bom, porque logo logo eu ganhei a minha primeira Stratocaster. Daí pra frente foi só alegria...
Você gravou no estúdio Toca do Bandido com a banda grunge carioca TCHOPU. Fale sobre a experiência de ter sido produzido pelo Fernando Magalhães (Barão Vermelho) e Roberto Lly (Herva Doce) e conte o que você mais aprendeu nessa empreitada. O Tchopu foi formado em 2000, portanto, quando eu passei a fazer parte da banda, os outros caras já tinham bastante experiência e eu nem tanto. Por exemplo, eles já haviam gravado o primeiro CD, intitulado “A Escolha”, e todas as minhas experiências com gravação foram desenvolvidas exclusivamente na minha casa (risos). Ensaiamos por um ano para gravar o disco homônimo e quando eu conheci o Fernando, descobri que tínhamos muitas coisas em comum. A veia do rock clássico que em mim havia sido mascarada por alguns anos de heavy metal ressurgiu com esse encontro. O fato mais interessante dessa empreitada foi quando o Fernandão resolveu que não iríamos buscar referências externas para a gravação do disco. Tudo que a gente fez naquele disco foi um produto das nossas influências individuais consolidadas em um momento da história, e nada mais. Essa talvez tenha sido a maior lição que aprendi com o Fernando Magalhães. Digo, lição musical, pois pessoal houve muitas, pois a sua gentileza e amizade são valores que a gente fica muito feliz quando encontra em alguém nessa estrada tão tortuosa que é a música, cheia de egos e estrelismos. O Roberto Lly desenvolveu um grande papel no que diz respeito à parte técnica do trabalho. Ele é o braço direito do Fernando e vice-versa.
A guitarra te levou à banda e depois aos estúdios de gravação, já como técnico. Como rolou o interesse em estudar Produção Musical? Alguns anos após o início dos meus estudos com a guitarra eu já esboçava a vontade de gravar. Só que eu não sabia que era uma profissão e nem tinha ideia de como fazer isso. Em algum momento desse período eu arrumei uma cópia do Cakewalk (acho que foi meu pai quem me deu), famoso software de gravação digital dos anos 90 e talvez o primeiro que se popularizou no Brasil, antes do Pro Tools. Com um microfone de PC eu comecei a experimentar as diferentes posições para microfonar o meu amplificador e a partir disso comecei a gravar as minhas primeiras composições. Com alguns amigos (inclusive aquele da guitarra canhota, que hoje também é músico e se chama Raphael Giraldez), fizemos projetos instrumentais ou não e gravamos um monte de coisas engraçadas. O tempo passou, as coisas evoluíram e no momento em que eu conheci o Roberto Lly, durante a gravação do disco do Tchopu, eu resolvi tornar aquele instinto em profissão. Colei com ele e absorvi osmoticamente tudo o que podia. Quando a mixagem do disco acabou, pedi a ele que me deixasse acompanhar alguns trabalhos e acabei indo parar na casa dele por algumas semanas, praticamente fazendo um curso de áudio. E detalhe, de graça! Eu devo muito ao Lly por esse período fenomenal e, a partir dali, eu arrumei emprego em um estúdio na Tijuca e segui sozinho. Espero que um dia eu possa voltar a trabalhar com o Lly, pois ele é um profissional de extremo respeito e, mais importante do que a parte técnica, aprendi a como lidar com os meus clientes nesse tempo de convívio com ele.
Mesmo sendo jovem, voce possui um currículo de respeito. Qual é a maior dificuldade que um técnico jovem enfrenta para se firmar no mercado de trabalho e ter mais e melhores oportunidades? A maior dificuldade sem dúvida é vencer a sua própria insegurança. Eu sempre soube que fazia bem o meu trabalho, mas transformar isso em ação, para saber se colocar diante dos clientes e até cobrar o valor justo pelo seu trabalho é muito difícil. Você já acha que ninguém irá querer pagar o que você pede simplesmente pelo fato de ser novo e desconhecido, o que é claro é uma grande bobagem. Nesse ramo, creio que o mais importante é ter uma boa relação com os seus clientes, para que eles confiem em você e queiram gravar o seu próximo disco com a sua produção. Eu gravo algumas bandas há anos. Outra boa prática é, caso você esteja começando, pegue uma banda e grave suas músicas de graça. É bem fácil conseguir alguém que queria isso (risos). E, é claro, busque espaço em um estúdio, como técnico ou mesmo como assistente. Isso vai te dar uma vivência que nenhum curso formal vai. Hoje, para mim, a maior dificuldade é fazer uma banda acreditar que precisa de um produtor. Ninguém sabe direito o que faz esse profissional e muitos simplesmente ignoram que ele existe. Muitas bandas acham que podem se produzir, às vezes simplesmente para economizar. Mal sabem elas que, com o produtor certo é mais fácil fazer um disco excelente usando até uma garagem do que conseguir esse resultado entrando num estúdio bom sem produtor.
Quais seus truques favoritos de estúdio ao gravar uma banda? O que é de praxe e o que é inusitado? Bem, eu nunca fiquei parado em relação aos estudos. Embora eu não tenha feito tantos cursos assim (até porque, no Brasil, a maioria deles é de nível básico), eu sempre li livros dos produtores famosos e frequentei sites e fóruns gringos atrás de informação e conhecimento. Foi aí que eu comecei a ter acesso às práticas pouco usuais no Brasil, como a famosa compressão de Nova Iorque, ou compressão paralela (técnica usada para dar mais punch às baterias e qualquer coisa que você quiser). Essa eu posso considerar de praxe pros gringos. Alguma coisa inusitada seria a minha total falta de preconceito com o experimento. Usar microfones esquisitos e coisas do tipo fazem parte do meu repertório.
Conte histórias inusitadas de estúdio que nunca foram contadas (sem citar os nomes dos envolvidos é claro!)? Ih, há várias. Tem aquelas clássicas de bandas que entram no estúdio sem saber o que querem e aí rola o maior estresse, climão mesmo. Pessoal brigando, coisa feia. Mas teve uma vez muito engraçada em que eu fui gravar um samba-enredo que iria concorrer ao carnaval do próximo e então entraram 10 pessoas num estúdio apertadinho, pois cada um iria tocar uma coisa. O engraçado é que, após a gravação cada um queria dar a sua opinião e foi o maior caos. Imagine 10 pessoas dizendo coisas do tipo “o tantã tem que ficar mais alto” ou “aumenta a voz”. É de deixar qualquer técnico louco!
Cite as 5 melhores gravações (de qualquer estilo musical) e nos explique o por quê.
Ih, essa é difícil, hein? Vamos lá:
1 – Dark Side of The Moon: Clássico, maravilhoso e abençoado, hahaha! Esse disco marca o auge do Pink Floyd como banda e tem tudo que um artista pode se espelhar no quesito “união”. Os timbres de guitarra e teclado são referência pra qualquer um.
2 – Sgt Peppers: Esse é clichê mas tem o seu motivo. O trabalho feito pelos Fab Four e sua trupe é fantástico e é impressionante imaginar que foi tudo feito em quatro canais.
3 – Continuum (John Mayer): Excelente trabalho de produção musical, com timbres e mixagem impecável. Nota mil!
4 – Thriller: Um absurdo em qualidade de arranjos. Mixagem excelente também, um dos meus discos preferidos de todos os tempos.
5 – Ten (Pearl Jam): Ícone do movimento grunge. Apesar de um pouco datado, esse disco transformou a sonoridade do grunge em algo pop, mas da melhor qualidade.
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