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Clarice Lispector nasceu na Ucrânia em Chechelnyk em 10 de dezembro de 1920, mas posteriormente se naturalizou brasileira. Seu nome original era Haia Lispector, a terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector.
Sua família foi perseguida pela Revolução Russa de 1917. A razão? Judeus. Clarice nasceu por acaso em Chechelnyk, durante a rota de fuga para a América. E essa América era abaixo do Equador, mas exatamente no Brasil.

Aportaram em Maceió em março de 1922, sendo recebidos por Zaina, irmã de Mania, e seu marido e primo José Rabin. Para uma melhor adaptação, abrasileiraram seus nomes à exceção de Tania – irmã: o pai virou Pedro; Mania, Marieta; Leia – irmã, Elisa; e Haia, Clarice. Clarice Lispector começou a escrever logo que aprendeu a ler, na cidade do Recife, onde passou parte da infância. Falava vários idiomas, entre eles o francês e inglês. Cresceu ouvindo no âmbito domiciliar o idioma materno, o iídiche.

Em 1944 publicou seu primeiro romance, “Perto do Coração Selvagem” na época na qual a literatura brasileira era basicamente dominada pelo regionalismo. Clarice surgiu com uma temática existencialista. Alguns críticos viram nítidas influências de James Joyce e Virginia Woolf. A escritora e filósofa francesa Hélène Cixous escreveu que há uma literatura brasileira A.C. (Antes da Clarice) e D.C. (Depois da Clarice). Seu romance mais famoso talvez seja “A Hora da Estrela”, o último publicado antes de sua morte. Este livro
narra a vida de Macabéa, uma nordestina criada no estado de Alagoas que migra para o Rio de Janeiro, e vai morar em uma pensão, tendo sua rotina descrita por um escritor fictício chamado Rodrigo S.M.

Entre 1943 e 1959, período em que esteve casada com o diplomata Maury Gurgel
Valente, a escritora o acompanhou em suas missões, vivendo em lugares tão distintos como Belém do Pará, Nápoles (Itália), Berna (Suíça), Torquay (Inglaterra) e Chevy Chase, localidade próxima de Washington (EUA).

Clarice faleceu de câncer (cancro) no Rio de Janeiro em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu 57º aniversário.

O jornal The New York Times, em 11/03/2005, descreveu a escritora como o Kafka latino-americano. Gregory Rabassa, tradutor para o inglês de Jorge Amado, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e de Clarice foi o autor.

A Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e a Edusp lançaram em parceria “Clarice Fotobiografia” em 2008. Organizada em ordem cronológica por Nádia Battella Gotlib, professora da USP e reconhecida como uma das maiores especialistas na obra de Clarice Lispector, a obra traz cerca de 800 imagens em função dos lugares habitados ou percorridos por ela.

 

Não se conta tudo porque o tudo é um oco nada.

E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço.
 
Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar.
Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros.

Fique de vez em quando só, senão será submergido. Até o amor excessivo pode submergir uma pessoa.

Com todo perdão da palavra, eu sou um mistério para mim.

Teu Segredo
 
Flores envenenadas na jarra. Roxas azuis, encarnadas, atapetam o ar. Que riqueza de hospital. Nunca vi mais belas e mais perigosas. É assim então o teu segredo. Teu segredo é tão parecido contigo que nada me revela além do que já sei. E sei tão pouco como se o teu enigma fosse eu. Assim como tu és o meu.

Meu Deus, me dê a coragem
 
Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e
receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar.

 

O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão mais inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre.
Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo.

Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. 
Sou irritável e firo facilmente. 
Também sou muito calmo e perdôo logo. 
Não esqueço nunca. 
Mas há poucas coisas de que eu me lembre.
 
Eu queria escrever luxuoso. Usar palavras que rebrilhaassem molhadas e fossem peregrinas. Às vezes
solenes em púrpura, às vezes abismais esmeraldas, às vezes leves na mais fina seda macia

Gosto do modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo
e cai sem graça no chão.

É tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas. É tão silencioso. Como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois? Dificílimo contar. Olhei pra você fixamente por instantes. Tais momentos são
meu segredo. Houve o que se chama de comunhão perfeita. Eu chamo isto de estado agudo de felicidade.

É que por enquanto a metarmofose de mim em mim mesma não faz sentido. É uma metamorfose em que eu perco tudo o que tinha, e o que sou. E agora o que sou? Sou: estar de pé diante de um susto. Sou: o que vi. Não entendo e tenho medo de entender, o material do mundo me assusta, com seus planetas e baratas.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com seu amante.

 

Mude,
mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.
 
Sente-se em outra cadeira,
no outro lugar da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
 
Quando sair,
Procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,...

 

A palavra é o meu domínio sobre o mundo.

Sou como você me vê.
Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania,
Depende de quando e como você me vê passar.

 

Eu já começara a adivinhar que ele me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando
mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu
sofra.

Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo - quero sempre ter a garantia
de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

É uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde.

Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu
amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por
ter tido carinho, pensei que amar é fácil.

O que importa afinal, viver ou saber que se está vivendo?

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão
profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.

Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.

"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma?

E se me achar esquisita,
respeite também.
até eu fui obrigada a me respeitar.

A palavra é meu domínio sobre o mundo

Eu não sou tão triste assim, é que hoje eu estou cansada

Sou um coração batendo no mundo

Ter nascido me estragou a saúde

Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante
 
...e ela cada vez maior, vacilante, túmida, gigantesca
se conseguisse chegar mais perto de si mesma, ver-se-ia inda maior...
e em cada olho podia-se-lhe mergulhar dentro e nadar sem saber que era um olho...

...sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebrada. 
e se quisesse podia permitir-se o luxo de se tornar ainda mais sensível, 
ainda podia ir mais adiante...

...faz de conta que ela nao estava chorando por dentro -
pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado;
ela saíra agora da voracidade de viver.

É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho
medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se
transforma lentamente no que eu digo.

Não te amo mais
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada
Não poderia dizer mais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso
edifício inteiro.

Brasília. Uma prisão ao ar livre.

Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.

Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever

Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero
uma verdade inventada.

Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.
(A Hora da Estrela)

Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.
(Perto do Coração Selvagem)

Terei toda a aparência de quem falhou, e só eu saberei se foi a falha necessária.
(A paixão segundo G.H)
Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... 
Ou toca, ou não toca.

É difícil perder-se. É tão difícl que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.

Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender,
do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco.
Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.

O que verdadeiramente somos é aquilo que o impossível cria em nós.

Porque há o direito ao grito.
então eu grito.

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