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   Arquivo-X, o poder da fé e da busca pela verdade e Batman, o poder da força em busca do equilíbrio social.

Esse texto compara não apenas os dois filmes, mas o que eles simbolizam. O que de certa forma, pretendem dizer nas entrelinhas.


Parte do clima dos primeiros anos do Arquivo-X foi recuperado nesse segundo longa metragem da saga. “The X-Files: I Want To Believe” é o nome da sequência dirigida por Chris Carter. Mulder (David Duchovny) segue querendo acreditar e Scully (ou Gillian Anderson) reluta. Como visto nos últimos anos do seriado, Scully crescida na fé católica se vê mais uma vez dividida entre sua condição de médica-racional e a de devota. Racionalidade e fé. Intrigada com as visões de um padre pedófilo (Billy Connoly) que auxilia o FBI, ela o confronta em busca de soluções. Inclusive para ela. Scully ainda tem essa mania de procurar quem lhe pareça suspeito para desvendar-lhe os próprios mistérios. O padre apenas diz: “Não desista.” E ela fica furiosa. Furiosa por compreender, negar e repetir que isso é verdade em todos os momentos de sua vida. Não desistir de lutar pela vida de pacientes terminais e não desistir de auxiliar Mulder a acreditar. O velho cartaz “I Want To Believe” (Quero acreditar) ainda vive, porém não mais em um escritório no FBI, mas no quarto dos fundos em uma casa que Fox Mulder e Dana Scully compartilham o isolamento “voluntário” de Fox contra o mundo “civilizado”. A “dona da casa” ainda se ressente (reforçado pelas marcas - reais - no rosto da atriz) de ter doado o filho William para melhor protegê-lo. Só lhe restou Fox. Parece pouco. O companheiro continua procurando a verdade. Segundo Scully isso só os leva à escuridão. Tema esse, debatido mais profundamente em Batman. Vejam bem, Fox não trabalha, vive às custas da companheira (que afirma que não é casada com ele) que recebe sua nova barba e barriga sem reclamar muito. Scully está bem mais envelhecida fisicamente como profissionalmente, mas vive uma outra fase, de legista à cirurgiã. De sua maneira ela também anseia ser Deus, quando mesmo contra a ordem de seus superiores, a médica insiste em uma operação perigosa, uma chance em mil. E isso não significa ter fé? Fé na ciência e fé nas melhores probabilidades, fé no risco necessário para a evolução. As dúvidas desses personagens são exatamente as nossas, quando nos dividimos entre racionalidade (mundo cartesiano visível) e fé (mundo invisível cheio de possibilidades inicialmente não palpáveis).

 

Os bandidões do filme são cirurgiões russos que descobrem que a solução para a cura do câncer consiste em literalmente “perder” a cabeça para costurá-la no corpo de um “candidato” com saúde respeitável, no caso feminino com afinidade consanguínea. Cabeça = mente. Corpo = matéria. O Frankenstein moderno que almeja ser Deus, a ciência contra a razão espiritual que ainda deixa Scully tão confusa. Sem ter em quem confiar após desaparecimento de Fox, que persegue os bandidões, Scully busca apoio em Walter Skinner (Mitch Pileggi em aparição relâmpago). A moça então recorda de um versículo da Bíblia ditado pelo padre pedófilo, que serve como insight para que ela encontre Mulder. Um insight precioso. Mais fé do que ciência. Mais Jung do que Freud.

Arquivo-X também fala, a seu modo sobre aparências e pré-julgamentos, tema muito utilizado no Batman, que em compensação abole todo e qualquer sentimento religioso. Em Batman o negro, a força da máquina é a razão final. Não há Deus. O Deus é a tecnologia. Deus é Frankenstein.

 

Batman prega que a esperança e a harmonia residem na força, na tecnologia, no dinheiro e na mentira. Batman não vê esperança possível no futuro da humanidade, apesar de querer resguardá-la. Essa massa passiva e constantemente refém das máquinas e de loucos diletantes. O “herói” vê o mundo como um local com crianças amedrontadas, onde só o chinelo de um pai feroz pode impor sua vontade baseada na única premissa possível: a falta de diálogo. No fundo, todo herói - por possuir um poder excepcional - é um ditador. A fé do herói é baseada no uso da força, da invasão, da falta de leis pois não consegue e não quer acreditar que seja possível que a humanidade encontre o seu caminho sozinha.

O ator Christian Bale e o diretor Christopher Nolan já eram uma dupla dinâmica desde o filme anterior “Batman Begins” de 2005, mas quem rouba a ação em “The Dark Knight” (O Cavaleiro das Trevas) é o finado e amaldiçoado Heath Ledger, que representa um dos dois melhores Coringas já vistos. O palhaço enlouquecido não mede esforços para dividir sua dor. Deseja ardentemente ser compreendido. Mas como todos mostram-se horrorizados com sua boca costurada, pinta (melhor dizer borra) a cara, desenvolve sua força interior para fazer-se ouvir. O Coringa não tem dom para o diálogo sincero, não tem aptdão para a franqueza, pois aprendeu – a duras penas – que a humanidade é surda, cega, muda e covarde. Como Batman, ele também não acredita em humanidades.

Heath Ledger perdeu a vida após uma má sucedida ingestão de remédios (será?) em janeiro de 2008, antes mesmo da estréia do filme. Sua interpretação é tão vigorosa, que o aproxima do insuperável James Dean, que também deixou como testamento uma entrega nunca vista na tela. Não há como esquecer dos clássicos Coringas de César Romero e Jack Nicholson, mas Ledger personificou como ninguém o Coringa dos quadrinhos, o entendimento moderno do maléfico, aquele que é abusado por família e sociedade, o interno do SANATÓRIO ARKHAM. O personagem Coringa (o original) foi inspirado na perfomance do ator Conrad Veidt, em “O Homem Que Ri” (The Man Who Laughs), um filme mudo de 1928. Por sua vez, o filme é uma adaptação do romance “O Homem Que Ri” (1869), do escritor francês Victor Hugo.

Para se preparar para o papel, Ledger viveu sozinho num quarto de hotel por um mês, formulando a postura, voz e psique do personagem. Enquanto que, inicialmente, ele achou difícil, Ledger finalmente conseguiu gerar uma voz que não soava como o Coringa de Jack Nicholson do filme Batman de Tim Burton. Ele começou um diário, no qual escreveu os pensamentos e sentimentos do Coringa para se guiar durante sua performance. Ele também recebeu “Batman: The Killing Joke” e “Arkham Asylum: A Serious House on Serious Earth” para ler, o que ele "realmente tentou [...] mas desistiu". Ledger também citou como inspiração o filme “Laranja Mecânica” e “Sid Vicious”.

Por mais informação que exista na internet, por mais possibilidades de compreensão que existam, o lugar-comum acaba prevalecendo sobre possibilidades criativas. O Deus desse mundo é o visível, o músculo, a arma, o poder da comunicação. Hoje não se aceita mais um super-herói sem músculos, assim como hoje não se entende como é possível existir o maléfico sem a loucura. E muito do que o Coringa diz em seus discursos, não nasce de sua boca cortada e nem de sua insanidade, mas de conclusões racionais sobre as pessoas. Sua loucura o faz ver com clareza. Ciente de sua força, que reside em sua ampla percepção, faz o que quer.

A película fala prioritariamente sobre aparências e conveniências. Batman se veste de negro, trás a raiva dentro de si, mas é tão “correto” que se recusa a tirar a vida de alguém. Machuca, mas não mata. Sua meta é não repetir a atitude do ladrão que tirou a vida dos seus pais. Porém, sua busca incessante pela solução dos crimes só trás mais problemas para todos em Gotham City: perde quem mais gosta em uma explosão, causa o caos nos transportes da cidade e destrói um hospital. O Coringa ao contrário é um sujeito que não se esconde apesar de ocultar um rosto que não pode ser ocultado; usa a seu favor a corrupção que equilíbra a sociedade, e enlouquece o heróico, ingênuo e intolerante promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart). O Coringa consagra a sua análise da sociedade como vitoriosa. As grandes reflexões do filme são propostas pelo próprio Coringa. Ele é o grande comunicador, é a mídia, usa a televisão, as reuniões de massa para agir. Ele se divulga, usa a fraqueza do ouvinte a seu favor. Sabe que são apenas humanos. Ele não é só um palhaço (a loucura externa), que necessita dos aplausos, mesmo que medrosos, do público (o que ele também anseia). Ele ri do púiblico.

Pela tevê, o Coringa insiste que Batman revele a sua verdadeira identidade. Cobra "transparência". Antes que o cruzado se decida, o palhaço com o rosto mal maquiado, cobra prendas da cidade refém. Em um dos últimos momentos da película, o “bandido” coloca bombas em um par de balsas, que transportam passageiros. O detonador que pode afundar o barco X está nas mãos dos passageiros do barco Y, um em frente ao outro, como reflexos deles mesmos, o bem e o mal ou o mal e o bem. Em uma das embarcações estão passageiros comuns, do “bem”. Na outra, prisioneiros, condenados pelo sistema vestidos com a cor laranja, a mesma cor dos garis e dos budistas. A princípio, grande parte dos passageiros do “bem” pensa em explodir o oponente. Por que não, se do outro lado está a escória? No barco “do bem” decide-se por uma eleição, o princípio que sustenta a sociedade americana, que sustenta o barco. Democracia é a opinião da maioria, e mesmo em um barco a ser explodido, os passageiros recorrem a essa última alternativa para sentirem-se menos culpados pela provável sentença. O medo age em bloco e se sustenta em bloco, seja na democracia ou em sistemas totalitários. A pena de morte consentida, a execução baseada nas leis é abalizada pelo pleito universal indolor e sem cara. O uso do mal a favor da sobrevivência, dos valores morais que legitimam a execução, a pena de morte, a exclusão. No barco do “bem”, apesar da morte ser eleita campeã não há nenhum dedo firme de executor para torná-la vitoriosa. No barco do “mal”, o detonador é confiscado por um prisioneiro com grande estatura, que se propõe  a fazer o que deve ser feito. Apesar de todos pensarem que ele vai apertar o botão, esse prisioneiro – condenado pela sociedade – atira o detonador ao mar. Não há revolta no barco dos condenados, há entrega ao destino inexorável. No barco do “bem”, um porta voz exaltado, toma a frente baseado no resultado da eleição que optou pela morte. Sente-se alicerçado pela democracia que optou pelo extermínio, a morte sustentada pelo consenso, pelo sufrágio universal. O sujeito tenta, mas não consegue apertar o botão do detonador e matar os condenados. Nesse momento, ambos os lados ou barcos se equivalem não em humanidade, mas em Golpes de Estado. Decisões tomadas por um único homem e referendadas por todos. Vence o princípio da decisão unitária em detrimento da maioria, vence a ditadura salvadora qualquer que seja o argumento para sustentá-la, vence a fé na decisão de alguém maior que vence a apatia do ser humano acovardado. Vence quem late mais alto, quem usa a força. Batman vence.

Mas Batman mente, (ou se ilude) ao impor sua ladainha civilizatória ao Coringa dominado: que o princípio do bem é o eterno vencedor, que a vitória do ser humano é a vitória do ser racional que não utiliza os piores instintos para sobreviver. É mentira porque a coletividade não raciocina, ela se sustenta em sua própria covardia. A única evolução possível é a que ele e o Coringa tomaram: a opção pela busca individual da verdade. Ambos não são democratas.

Harvey Dent, já deformado e enlouquecido como o Duas-Caras, optou pela democracia ao atirar uma moeda ao alto para legitimar a execução ou a absolvição? Uma decisão pode ser baseada na escolha do destino, no peso das probabilidades? No poder do voto? Os detonadores não foram usados por decisões pessoais e nunca por escolhas coletivas. A democracia perdeu em ambos os barcos. O do “bem” teve um surto individual de humanidade e o “mal” não mandou o outro barco para o espaço porque um único indivíduo decidiu tudo sozinho. Sempre o indivíduo.

Salvam-se os barcos, mas não os oponentes Batman e Coringa. As perdas são muitas. De ambos os lados. Coringa não ama, não acredita em nada, então não perde ninguém. Do outro lado, Bruce Wayne perde muito: perde o gênio Lucious Fox (Morgan Freeman), o criador dos seus artefatos na Wayne Enterprises, ao utilizar um subterfúgio imoral para descobrir o paradeiro do Coringa; o mascarado também perde a verdade ao acreditar que sua amada e promotora assistente Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal) se decidiria por ele em detrimento de Harvey Dent. Ciente que a mentira é mais benéfica do que a verdade, o mordomo Alfred (Michael Caine) queima a última carta da moça endereçada a Wayne para deixar o patrão viver na falsa crença do amor, pois Gotham precisa mais de Batman, do que da verdade. E finalmente ao assumir que é necessário manter a população na ignorância redentora, enterram Dent como herói, com uma Só-Cara. Daí nasce um acordo entre o incorruptível tenente James Gordon (Gary Oldman) e Batman: que o mascarado será tratado como criminoso para dar sustentação à uma sociedade que não consegue viver sob o fardo da verdade. A mesma verdade que não existe em nenhum dos lares em Gotham City. A mesma escuridão que é a essência de nós mesmos.

Arquivo-X propõe a fé e Batman propõe a força. Apesar do filme de Chris Carter apenas ser razoável, ele vence em uma premissa verdadeira: mesmo que a espiritualidade pareça menos poderosa no mundo visível, ela é vencedora em todos os aspectos que envolvam consciência e a busca pela verdade interna. Batman foge porque não a encontrou; não a busca de fato; é tão atormentado que não pode tê-la.

 

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