Revista O Martelo
 
 
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CDS E DVDS

DISCOS DE CABECEIRA

THE SETTING SON - Spring of Hate – Bad Afro records

O Setting Son é literalmente freguês aqui de casa. Apaixonado pela banda e pela música independente que se produz na Escandinávia, não me canso de babar o ovo de quem merece. No mínimo o que posso dizer é que o S.S. (do bem) me rejuvesnece à cada audição com lufadas frescas de estranheza e convicção sessentista. "Spring of Hate" é o segundo trabalho da banda de Sebastian T.W. Kristiansen, que amadureceu bastante em relação ao bom álbum de estreia. A primeira faixa e o título do álbum exibe sua psicodelia dançante que mostra unidade, ainda mais com a produção adequada de Lorenzo do Baby Woodrose (ler entrevista na revista O Martelo). Pode-se inclusive comparar a sonoridade em comum das duas bandas, The Setting Son e Baby Woodrose sem constragimentos. Os levemente afetados vocais de Kristiansen são curiosamente viciantes entre lá-lá-lás e reverb. Atenção às faixas "Girl Of Sorrow", uma pequena jóia de delicadeza lisérgica e a curiosa "Out Of Tune", que ao contrário do título, está bem afinadinha.

 

RAMONES – The Family Tree – MusicBrokers

A palavra árvore do título tem a ver mesmo com genealogia. Encontramos nesse CD duplo faixas originais, trabalhos paralelos, regravações e participações dos músicos do sempre popular Ramones, os inesquecíveis Dee Dee, Joey, Johnny, Mark e C.J.
Os destaques são “Blitzkrieg Bop” com Die Toten Hosen com Joey;  “I Am Seeing U.F.O´s” com Dee Dee e Joey; “3 Cheers For You” comos Intruders de Marky Ramone;  “Good Enough for Me” e “Do It To Me” do Bad Chopper com CJ;  a faixa clássica gravada pelo rei Elvis “Good Rockin´Tonight” com Johnny e Lemmy do Motörhead;  “On the Beach” com os Rattlers e Joey;  “Negative Creep” com Dee Dee; Joey e Blackfire com “Lying to Myself”; Nina Hagen dando as caras com Dee Dee em “I´m Making Monsters For My Friends”; a ex-dama das Runaways Joan Jett com os Intruders de Mark com “Don´t Blame Me”; Youth Gone Mad e Joey Ramone em “Meatball Sandwich”; o trio parade dura Mark ramone, Cherie Currie (ex-vocalista das Runaways) e o guitarrista Wayne Krmaer do MC5 com a faixa das própria Runaways “Cherry Bomb”; o recém levado por Deus Lux Interior dos Cramps com Dee Dee em “Bad Horoscope”; o misterioso Uncle Monk (na verdade Tommy Ramone) com “Round the Bend” e o Bowery Electric Crew que é a soma das potencialidades de Marky, CJ e Tommy. Coletânea para fã algum botar defeito.

 

Ritual Tropicalista

"Assumir completamente tudo que a vida dos trópicos pode dar, sem preconceitos de ordem estética, sem cogitar de cafonice ou mau gosto, apenas vivendo a tropicalidade e o novo universo que ela encerra, ainda desconhecido", escreveu o poeta e jornalista Torquato Neto em "Tropicalismo para principiantes".

CAETANO VELOSO - 1969  

Nesta edição especial do Martelo, que coloquialmente chamo de "Repensando o Brasil", dois discos não poderiam faltar em nossa viagem de (re) descobrimento do nosso país. Colocamos à disposição do leitor, dois trabalhos geniais de Caetano Veloso e Gilberto Gil para análise.

O álbum de 1969 de Veloso, sem foto na capa, meio que inspirado na idéia do álbum branco dos Beatles, para início de conversa é uma das obras primas do tropicalismo. E de onde teria vindo a idéia da capa, fora o toque dado pelos ingleses? Por excesso de idéias ou pela falta delas, a gente sempre diz que "deu um branco". Talvez para Caetano, o branco de um país que se negava, que se contradizia na bandeira branca da mentira e da opressão fosse a mensagem simples da cor escolhida como solução para a falta de soluções. Antes de partir para o exílio, em abril e maio de 1969, Caetano gravou as bases de voz e violão para esse disco, que foram enviadas para São Paulo, para que o maestro Rogério Duprat finalizasse o LP.

Uma música que me embalava na infância - através do rádio - era "Irene", logo a que abre o trabalho. Como todos, também queremos dar "a nossa risada": Irene, ri, Irene, ri; um canto de tristeza pois a canção foi composta na cadeia em homenagem à irmã; um canto de simplicidade harmônica e objetivação orgiástica; um canto de busca pelas coisas simples da vida: uma risada livre, leve e solta, fora das grades e da censura. Os arranjos de Rogério Duprat são no mínimo irretocáveis e a guitarra amalucada de Lanny Gordin faz a diferença. Ele não pode ser comprado com Hendrix, como muitos de seus contemporâneos ufanisticamente fizeram, mas em termos de Brasil, Gordin era um guitarrista necessário e inovador. A vocalização feita com Gilberto Gil em Irene é cativante, para falar o mínimo. E olha, que mixar essas camas de instrumentos e cordas, influenciadas pelo disco-mor do Sargento Pimenta não deve ter sido muito fácil: um verdadeiro trabalho de artesões. Em seguida, "The Empty Boat" em inglês triste segue no barco para o exílio, como o escravo impotente que dá suas costas à chibata, assim como o arranjo de cordas, sinuoso e depressivo. A canção tradicional "Marinheiro Só" recebe um coro de negras com voz aguda e um suíngue Novos Baianos que desaba em uma levada de rock and roll puro com muito fuzz e wah na guitarra e viradas de bateria no estilo Experienced. Mais uma vez Caetano faz questão de dividir a sua tristeza com o ouvinte: "Eu não sou daqui, eu não tenho amor, sou da Bahia, de São Salvador". A saborosa "Lost in Paradise" em inglês mostra uma grande influência de Lennon e McCartney entre arranjos sublimes no estilão Bossa Nova, filmes preto e branco e mais uma vez a guitarra fuzzeada de Lanny. A faixa "Atrás do Trio Elétrico" carece de uma melhor mixagem, mas em compensação essa aparente falha transforma o que seria uma marcha de carnaval regular em uma apoteose sonora. O fado "Os Argonautas" fala de descontentamento e do coração abatido em pleno ar; nessa faixa Caetano remete aos nossos ancestrais lusitanos ao mandar o imortal recado dos valentes: "Navegar é preciso, viver não é preciso". Nesse caso, o autor foi navegar mesmo porque era preciso. Com sotaque baiano, canta "seu pranto não vai me ajudar" no samba "Carolina" de Chico Buarque, em versão irrepreensível. Chamando o mundo de "porcaria", o tango "Cambalache" confirma a autenticidade do disco e o eleva à categoria de clássico, caso alguém não tenha desconfiado disso antes. E os versos? Napoleão com Ringo Starr, John Lennon e San Martin? O máximo, inclusive a mixagem em estéreo. Com linha de guitarra, totalmente inspirada em Hendrix, o "iê-iê-iê romântico" (Objeto) Não Identificado delineia a obra com o tocante samba "Chuvas de Verão (podemos ser amigos simplesmente, coisas do amor nunca mais, amores do passado no presente repetem velhos temas tão banais, ressentimentos passam como o vento, são coisas de momento, são chuvas de verão); o poema cinemascope "Acrilírico" (com Gilberto Gil e Jussara Moraes) - bem inspirado em Revolution number 9 do álbum branco dos Beatles, só que mais melancólico e não tão suicida como a versão bretã; o suingue absolutamente t-r-a-n-s-l-u-m-b-r-a-n-t-e de "Alfômega" (uma de minhas faixas favoritas) com os gritos de Gil e (o negócio é o seguinte) "Charles Anjo 45" com Jorge Ben. Essa obra absolutamente atemporal, branca e revolucionária é um marco não da música brasileira mas da universalidade.

 

GILBERTO GIL (e os Mutantes) - 1968 (Philips)

Essa obra pode ser perfeitamente curtida por qualquer fã dos Mutantes, pois todos os elementos que fazem da banda de Arnaldo, Sérgio e Rita (principalmente) uma experiência sônica somam-se à perfeição com um dos mestres da música brasileira moderna, Gilberto Gil e seu bigode mefistofélico (sobre esse adjetivo bigódigo ler a matéria sobre o livro "O Bondinho" na sessão de livros). "Coragem Pra Suportar" é algo fora da nossa órbita com sua guitarra "de ouro" rústica, seu baixo a lá McCartney e o canto nordestino do açum de Gil. "Domingou" é uma delicatessen sonora ("quanto custa o feijão?"). Alguém teria cantado a palavra feijão nas bobas letras do bobo movimento da Jovem Guarda?

Nem pensem que me deslumbro com a brasilidade tardia do feijão bem preto, mas afirmo sim, Glauberianamente, que os tropicalistas tanto salvaram o Brasil, como simplesmente eram a linha evolutiva da música brasileira. Sim, os Mutantes contribuíram como a luva certa para dedos mágicos. "Marginália II" é tropical melancolia com arranjos maravilhosos do maestro Rogério Duprat e participação lírica do poeta Torquato Neto (eu brasileiro confesso minha culpa, meu pecado, meu degredo, meu sonho desesperado, meu bem guardado segredo, minha aflição, tropical melancolia, negra solidão, aqui é o fim do mundo). Em "Ele Falava Nisso Todo Dia" Gil ironiza e agoura o - repetido à exaustão - argumento da segurança de um emprego etável e promissor onde em um misto de refrão, repente nordestino, mantra e reza católica, Gil canta sobre "um rapaz de 25 anos que morreu atropelado em frente à companhia de seguros". Na sequencia, a guitarra furiosa de Serginho desdenha dos concorrentes na intro do clássico "Procissão" (e Jesus prometeu coisa melhor pra quem vive nesse mundo sem amor ... depois de morrer nesse sertão). Para fechar, a trinca "Luzia Luluza", "Pé da Roseira" e "Domingo no Parque" ferroam os corações dos descrentes à caminho do infinito.

 

CDS:  PROJECT 46// CUMMINGS // MANUFACTURE´S PRIDE // SNOW WHITE´S POISON BITE // TONI BITE – MILLION DOLLAR BEGGARS // METAL FOR THE MASSES // NUCLEAR BLAST // BUENOS AIRES PARIS // RYGEL // MORTAES //

PROJECT 46 – Promotional EP

Thrash técnico com vocais gritados e instrumental bem executado com bom senso melódico. O EP que a redação recebeu conta com as faixas "Survival Sign", "Tomorrow" e "Wake Up". O trio de composições mostra que a banda entra no mercado com objetividade e extremado bom senso para não abalar as regras do seu próprio universo. Give the people what they want. That´s all folks.

 

CUMMINGS – Mais Vale um Sorriso do que uma Piada Bem Contada – Casulo

Trio punk na linha da velha escola, algo como um Cólera sem as mensagens ou um Ramones cheio de não-me-toques. Esse simpático CD exala paixão pelo punk simples, sincero e ingênuo, que a banda faz, como que nos lembrando dos velhos dias onde não havia futuro e nem bola de cristal, para saber o que aconteceria com o nosso amado e ainda jovem punk rock. Um disco cheio de sinceridade, com boa gravação que capta bem a essência do trio e nos entrega um produto correto, que deve alegrar os pogos na faixa etária de 15 anos.

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MANUFACTURE´S PRIDE – Sound of God´s Absence – Off Records

12 faixas consistentes de um death metal com vocais agressivos e melódicos, bases de guitarra cheias de médio, teclados e uma boa produção. “Maggot Infested”, “Mind and Machine”, “Murder Mandate”, “Adeptus Satanicus”, “Waste in Flesh” e “Departure” são ótimos exemplos de como fazer o óbvio, mas fazê-lo bem. Um disco de metal nada criativo (como de praxe), mas com pontos positivos como o bom uso de refrões melódicos com bases eficientes e orgânicas.

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SNOW WHITE´S POISON BITE – Drama Through Your Stereo – Poko Records / Northern Swing

Da Finlândia e cantando em inglês essa banda com nome longo, cabelos do fresno, gravatas escuras e roupas vermelhas toca o conhecido som punk pop. A primeira faixa “Glitter And Sparkle” é nessa linha, enquanto a próxima “The Nursery Rhyme” se confunde em uma mescla de death metal com um pouco mais de punk pop.  Receita boa para vomitar no banheiro. A guitarra ainda tenta cavalgar no riff inicial de “She´s a Trendy Designer on her Wrists” (e seus dois bumbos) e para fechar a acústica e nada agradável “Sleeping Beauty” , que fecha o caixão. Na boa, uma confusão pra lá de danada e sem criatividade.

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TONI BITES – MILLION DOLLAR BEGGARS – (Schecter Guitar Research) – Shadow World Records

Fala sério… A faixa de abertura “Do Ya Do Ya (Wanna Please Me)” é um balacobaco inaceitável e sem criatividade com o único objetivo de fazer pop de quinta mal disfarçado com um cabeludo guitarrista na capa. Se fossemos comparar o som aqui pretende copiar o “Him” mas falta um pouco mais de talento. “Understand” a segunda faixa do CD promocional  é uma coisa safada que até daria para o “Him” processá-los. Um lick de guitarra dobrada abre a faixa título com vocal um pouco mais agressivo (sem ser gutural) tipo Alice Cooper, uma influência nítida (somente nessa faixa).

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METAL FOR THE MASSES – Century Media

18 faixas de metal brabo lançadas pela conhecida gravadora metálica. Para começo de conversa, o negócio aqui é guitarra alta, vocais rasgados e guerreiros triunfantes.  Alguns exemplos são até mais suportáveis como a boa, mas convencional faixa hard rock “Flatline” da Duff Mckagan´s Loaded (a melhor da coletânea), o Arch Enemy (ao vivo no Japão), a porradaria monstro do Napalm Death (com “Diktat” do álbum Time Waits For No Slave), o Nevermore (com a faixa ao vivo “Final Product” gravada em 2006) e caso você seja fã do estilo Iron Maiden antigo recomendo o “Wolf” com a faixa Curse You Salem.

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COLETÂNEA NUCLEAR BLAST – Nuclear Blast

19 bandas metaleiras (algumas até com a cabeça aberta) comprazem-se em compilar um trabalho até que regular. O metal gótico do Deathstars mostra as garras na razoável faixa “Blood Stains Blondes” do novo CD “Night Electric Night”; o bom Pain com “Have a Drink on Me” (do CD Cynic Parade) exibe um slide de blues usado como tema, que carrega a canção nas costas; o Edguy mostra as caras com “Ministry of Saints”; o Rage manda o recado pesado e melódico com “Never Give Up”; o “Hammerfall” com “Any Means Necessary” segue a velha tradição de bandas alemães como o Accept com um misto de Saxon; a banda Mantic Ritual toca thrash old school na boa faixa “Panic” com muito do Anthrax do primeiro disco; o Amorphis exibe a qualidade habitual em “Towards and Against” do álbum Silent Waters. Outras participações incluem o Avantasia e a Sonata Arctica, que prosseguem, para variar,  no velho metal sem criatividade e sem lei.

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BUENOS AIRES PARIS – Troisième Voyage – MusicBrokers

Por que um estilo antigo como o Tango, que marcou uma determinada época não pode emocionar ou ser compreendido por gerações mais novas? O próprio rock é uma expressão jovem que se renova há décadas. E assim como ocorreu com a Bossa Nova revigorada pelas batidas eletrônicas para exportação, o novo Tango dá a cara a tapa para o julgamento e se sai muito bem. O terceiro volume da série Buenos Aires/Paris nos mostra os maiores representantes da música eletrônica portenha com faixas retiradas de álbuns originais e remixes de feras como Tanghetto, Federico Aubele, Narcotango, Amelita Baltar, Mondotango, Zambo, Natalia Clavier, Tangothic e Malevo.

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RYGEL – Realities...Life as It is - Die Hard

Técnicamente bem executado e bem produzido pela banda (de Santos) e por Wanderson Barreto, o primeiro CD de fato do Rygel (após um single e uma produção totalmente independente) exibe influências do Iron Maiden, em alguns aspectos e prioritariamente uma mescla com a escola técnica do Dream Theater. "Another Life", a faixa que abre o CD mostra que todos os ingredientes se harmonizam para exibir o que, provavelmente, a banda mais deseja, que é mostrar seu domínio técnico e melódico no estilo que escolheram.

 

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MORTAES – Obssesive Visions – Die Hard Records

O vocalista e guitarrista Fabrício Moraes (ex-Dark Avenger de Brasília) comanda o Mortaes que é uma banda agressiva que trafega bem entre os estilos thrash, death e black (do metal) com solos técnicos no pé do sueco "vocês-sabem-quem". O álbum de estreia conta com vários convidados de renome como Edu Ardanuy (Dr. Sin), Alírio Neto (Khalice), Marcelo Barbosa (Almah, Khalice), Hecate (Miasthenia) e Robson Aldeoli (Abhorrent). das 9 faixas, 3 são boas instrumentais. Um bom trabalho.

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