»
S
I
D
E
B
A
R
«
O nosso Brasil de Mindlin, Villa Lobos, ETs e Lula
8 mar, 2010 por Carlos Lopes

Este texto, meio que começou a nascer em um final de semana, no qual faleceram dois brasileiros supimpas: o sambista Walter Alfaiate e o bibliófilo José Mindlin. Senti que o país ficou mais pobre e isso cutucou meus brios.

José Mindlin
José Mindlin

Digo “começou a nascer” porque de fato o texto atual foi inseminado no ano passado, mas até hoje era impossível transcrevê-lo para o mundo real das palavras escritas. Há bastante tempo não escrevo, fruto de um desinteresse crônico em compartilhar idéias escritas. Tenho preferido ler (livros) e assistir filmes e documentários, estudar cada vez mais, uma das minhas paixões. Inclusive, tem sido mais fácil escrever canções e gravá-las, apesar que todo o processo envolvido, muitas vezes, te faz perder o amor pela música. Mas isso é assunto para outro texto, este agora está reservado para uns pensamentos sobre o meu Brasil.

Repito e digo “o meu Brasil”, pois nem tudo pode ser repartido, pois somos pessoas com sentimentos diferentes e isso faz toda a diferença na hora de emitir um julgamento. E achismos não surgem apenas do povo iletrado, mas de profissionais esclarecidos, que acham que podem cuspir suas análises fundamentadas em racismo crônico. Se dependesse de muitos que cá nasceram, esse país seria uma colônia não mais da União Soviética do pós-guerra, como poderia ter sido antigamente, mas do mundanismo internacional. Já escrevi anteriormente que me causa repugnância quando alguém fala que “esse país é um lixo”, “só pode ser Brasil mesmo”, “país de preto” e coisas assim. Em primeira instância, essa elite que existe desde os tempos da colônia de Portugal ficou e ainda está muito fula porque, apesar dos escândalos, o PT ainda é o partido que manda no quintal e o seu porta-voz é o presidente mais popular do mundo, mesmo falando errado, coisa que horroriza a classe alta, que associa postura (o externo, o socialmente aceito) com bom comportamento. E essa associação quer nos continuar impondo presidente homem e branco. Um nordestino que fala errado não poderia, em “um país sério” sonhar em ser presidente, é o que pensam.

passado, presente e futuro
passado, presente e futuro

Se o Brasil ganhou o direito de sediar, principalmente a Olimpíada é porque Lula fez e aconteceu, colocou o Brasil no mapa. Ele soube usar a mídia a seu favor, o que no final das contas, conta a nosso favor. O sociólogo rancoroso, esse mesmo, que só sabe reclamar, não conseguiu. Por causa disso, dessa dor de cotovelo crônica, e apesar do seu francês fluente, o que ele pretende? Se hoje, americano (que ainda manda no mundo) sabe quem somos, que os brasileiros existem,é mais por causa da popularidade de Lula do que por causa dos nossos talentos. Isso se faz notar em produções cinematográficas como 2012, que despencou o nosso Cristo e com o atual seriado V (para fãs de Lost), que coloca uma nave-mãe gigante no ar falando português à frente do mesmo e popular Cristo Redentor (anexo imagem). Vejam bem: Nova Iorque, Los Angeles, Paris e… Rio.

Os ETs invadem o Rio
Os ETs invadem o Rio

Já escrevi também, que amo a ideia do Tropicalismo de Caetano e Gil e os filmes do cinema novo, que fundem o estrangeirismo com o olhar e o sentir local. O Brasil não deve se fechar, pois esse tipo de coisa gerou duas guerras mundiais, e coisas como o Iraque, o Irã e a Coreia do Norte. Há a necessidade de ensinar aos jovens, aos estudantes, e inclusive aos mais velhos, o orgulho de ser quem somos e ser como somos. Quando alguém comenta que o canto orfeônico do Villa Lobos, só foi possível em um contexto ditatorial, eu me pergunto, então por que não podemos resgatá-lo , se somos livres, e donos dos nossos narizes? Por que não voltar a ensinar música nas escolas? Para disponibilizarmos computadores em todos os colégios, é necessário educar o aluno para que ele não use a máquina (ainda mais) a serviço da futilidade.

1,2,3,4
1,2,3,4

Essa necessidade mórbida de olhar sempre para fora, se preocupar com o “primeiro” mundo e pisar no que temos de melhor, o “nosso”, aí sim, mesticismo é fruto de ignorância, medo e  covardia de deixar a pele escurecer e os cabelos encaracolarem. E o esquecimento, promovido pela mídia, faz parte dessa conspiração que pode ser alcunhada de educação regressiva, como um espelho embaçado que não reflete os nossos rostos e nem as nossas infinitas possibilidades. Muitas vezes, penso no que deve existir de baixa estima, quando o sujeito NÃO se vê na TV porque só há gente loura de olhos claros, biótipo alienígena e nazista. Isso só pode fazer o sujeito se sentir um lixo, e certamente o faz. Se você não abrir o olho, o negócio pode ficar feio mesmo, criando um ambiente para dominação cultural e inserção de valores que não são úteis para o nosso, aí sim, desenvolvimento e para a nossa liberdade, ainda que tardia. A mais perigosa das armas é a mídia, que inculta nas pessoas, o sentimento mesquinho de assimilar valores opressivos que deseducam.

Aconselho aos meus amigos leitores o excelente canal Futura, com um primor de programação; a TV Brasil, que está cada vez melhor; programas como Por Toda Minha Vida da Rede Globo e o fantástico documentário “O Homem que Engarrafava Nuvens” de Lírio Ferreira, diretor de Baile Perfumado e Cartola – Música para os Olhos sobre o compositor Humberto Teixeira (1915-1979), o “doutor do baião”, parceiro de Luiz Gonzaga.

Amigos e leitores, olhem e sintam o Brasil com outros olhos, com orgulho de quem sabe quem são. Se vocês não gostam do Brasil é porque não gostam de vocês, pois nós somos o Brasil. E ninguém mais pode ser.

blog_Cartaz-OHEN_JB

Dalva e Herivelto
9 jan, 2010 por Carlos Lopes
dalva_trio

Trio de Ouro

Em janeiro, a Globo exibiu uma minissérie irretocável em 5 episódios: “Dalva e Herivelto: Uma Canção de Amor”. Feita com requintes cinematográficos, e até mesmo melhor do que vários filmes nacionais produzidos para a telona, a série encantou pelo talento da direção, do texto e dos atores, destacando a melhor atuação da carreira de Adriana Esteves como a sofrida cantora Dalva de Oliveira.

Desce criança acompanho as adaptações dos clássicos de nossa literatura feitas pela Globo, que tantas vezes mudou de diretores e atores, mas que continua sendo a única emissora brasileira capaz de transformar televisão em arte. Inclusive espero que a emissora exiba mais adaptações à noite, dando o devido espaço a produtos verdadeiramente artísticos. O horário impróprio, a famosa hora de dormir para quem desperta as 6 da manhã, não favorece que a maioria dos trabalhadores possa assistir produções desse porte, mas se o mercado não permite que grandes obras sejam exibidas mais cedo, que seja lançado urgentemente o DVD da série em magazines populares para que todos possam vê-la.

O Passado Ronda

O Passado Ronda

A história do amor e da famosa separação do casal Dalva de Oliveira e do seu “criador” , o compositor Herivelto Martins foi contada em livro por um dos filhos dessa união, o cantor Pery Ribeiro. O relato é emocionante e foi devidamente adaptado para que não se perdesse a intenção da obra: falar sobre o falho amor humano e relembrar ou lembrar ao público atual que não existe só música pop e que artistas nascem, crescem e morrem como se não existissem, como se não tivessem importância quando saem de moda ou envelhecem. Uma das cenas mais tocantes da história mostra Dalva, já idosa, ainda procurando um amor (apesar de saber que o mulherengo Herivelto foi o único) cantando em churrascarias e circos para sobreviver.

Lembro de assistir com minha mãe à Dalva, com cabelos embranquecidos, cantando na TV Tupi com o filho Pery, ainda com imagem em preto e branco e TV com válvulas G & E. Às vezes minha mãe tentava contar algo sobre a tortuosa relação da cantora com Herivelto. Mas eu era uma criança que nem havia dado um beijo na boca, eu não poderia entender o que é sofrer por amor. Ainda era cedo para mim. Mais tarde viveria a mesma situação e então saberia como é amar sem ser amado, ser amigo de uma pessoa que não é sua amiga. A gente cai, mas aprende ou pelo menos acha que aprende. Certa vez ela me disse que ia à Rádio Nacional, no prédio na Praça Mauá no Rio, para ver as favoritas Marlene e Emilinha. Eram tempos antes da Bossa Nova e do Rock and Roll, tempos de um Brasil menos internacionalizado e mais ingênuo em um mundo mais ingênuo. Cresci ouvindo os sambas e boleros dos LPs dos meus pais, que incluíam Miltinho, Nelson Gonçalves, Clementina de Jesus e Elizeth Cardoso. Por mais que eu não gostasse ou não entendesse esse estilo musical na época, a ficha acabou caindo mais tarde, há alguns anos. Hoje ouço o que meus pais escutavam com imenso prazer. Respeito a nossa música e na minha casa, samba e rock convivem muito bem tropicalísiticamente.

Se há uma única falha foi a divulgação que comparou o casal brasileiro a Sid (dos Sex Pistols) e Nancy. Uma comparação desonrosa e submissa, que propõe indiretamente que para se conhecer o Brasil é necessário antes compará-lo com o que vem do exterior. Ora, me poupe, me economize.

dalva

Fábio Assunção e Adriana Esteves

“A gente falou e pensou muito sobre o amor com esse trabalho. Dalva falava que o que ela tinha de mais importante, de tudo que ela viveu, foi por causa do amor, ou pela falta dele. O amor ficou muito forte em mim durante esse período. E um amor que estava diretamente direcionado a mim, estava na minha cara todos os dias, era meu amor por ele [Fábio]. E o amor que ele transmitia por mim. Ele me emocionava a cada dia com a presença, companheirismo, entrega. Aquilo foi uma das formas de amor que ficou mais clara na minha vida. Esse trabalho solidifica nossa vida e trajetória. É um caminho não só pessoal, mas profissional também. Temos o mesmo tempo de profissão, e, eventualmente, trabalhamos juntos. Foi um presente esse romance desse casal para selar nossa parceria pessoal e profissional” Adriana Esteves em depoimento à Famosidades.

Sexo, Pornografia e Falsa Liberdade.
19 set, 2009 por Carlos Lopes
descoberta

descoberta

Nesta sexta a ficha caiu.

Há um tempo, um assunto me incomodava, mas como se diz, deixava para lá, porque não era problema meu. Não assisto sexo na TV e nunca vi um filme pornô. Quero dizer, minto, só vi um, uma vez na casa de amigos adolescentes que, por uma questão de sociabilidade, tive que comparecer pela curiosidade e para exibir a minha normalidade. Claro, que todos adoraram, ou fingiram adorar e naquele ritual coletivo, todos aprendemos que as mulheres não são apenas mães, são prostitutas.

Meus pais nunca falaram sobre sexo comigo. Para meu pai, o homem devia sempre ser o “comedor” e minha mãe achava que não era conversa para se ter com filho. O que acontece é que a falta de diálogo, nos leva sempre ao lugar comum, que é ver revistas nas quais mulheres surgem como objetos fornicantes e assistir filmagens com mulheres americanizadas com implantes, e próteses serem dominadas por machos vigorosos. A partir daí, após a primeira visão distorcida da cópula, tudo está arruinado. Não há mais volta. Aprende-se tudo errado, criam-se mitos e muito pelo contrário, não se dá ao cliente a opção da escolha: apenas uma forma de se fazer sexo é imposta. O espectador já pode se considerar lobotomizado, nunca mais, em sua fase adolescente, elogiará uma comédia romântica, por medo de ser considerado baitola.  O proibido, antes que me esqueça, não tem mais nada de oculto, e está pertinho de você, aqui mesmo na internet, ao toque de um botão.

conhecimento

conhecimento

Provavelmente todos já leram aquele pensamento que diz que “quando eles vieram pegar os judeus, você não fez nada porque não era judeu, mas no dia que eles vieram te pegar, não havia ninguém para socorrê-lo”. Foi assim que me senti nesta sexta, quando a ficha caiu. Muitos querem nos fazer acreditar que o desvio de caráter e de conduta, é algo lícito, normal. E o que se esconde por trás de uma educação distorcida que exibe sexo entre duas mulheres e um homem, que exibe troca de casais como sendo a mais contundente prova de liberdade, da consumação do direito de escolha? Dinheiro, dinheiro e dinheiro. O que mais cresce nesse mundo, fora as contas e dá lucro de cornucópia? Sexo. Isso desde o início dos tempos. A diferença é que antes não havia televisão ou internet.

Assim teve início a minha sexta.

À tarde vi um programa de auditório, no qual garotas de programa falavam sobre os clientes, prioritariamente homens casados. Alguém citou uma pesquisa recente , que afirma que praticamente há um empate técnico, entre traição feminina ou masculina. Os sexos não se superam no quesito traição, há uma equivalência nas intenções, empatam quase de igual para igual. Disseram que o problema é genético, outros que é cultural. As pessoas traídas faziam papel de coitadas e as que vendem o corpo ou traem, o que dá no mesmo, se justificam, usando as palavras dinheiro e liberdade. Atenção: muitos compram liberdade com dinheiro, outros dizem que dinheiro traz felicidade. Felicidade e liberdade caminham juntas, pelo visto.

soma

soma

À noite na mesma sexta, zapeando através dos canais, passei pelo Multishow e vi uma mulher chupando outra e sendo penetrada por trás ao mesmo tempo. Se não descrever o que vi, também não posso descrever o que me passou pela cabeça. É um canal a cabo e nessa barafunda de emissoras e programações, pode-se ver sexo grupal ou um pastor pregando em nome de Jesus. A escolha é de cada um, vê quem quer. E é claro, o tal canal só exibe a sua orgia após a meia noite, horário considerado próprio para isso, mas o problema não é a exibição, são 3 palavras que há por trás dessa história: “liberdade”, “felicidade” e “dinheiro”. Concordo que cada um vê o que quer, acredita no que quiser, mas a partir dessa sexta, a tal da frase da guerra, citada anteriormente, começou a fazer muito mais sentido do que antes. Há diferenças e semelhanças entre religião e o sexo, e às vezes até confluem na mesma direção, como no tantra. Mas há coisa pior do que ver casais fornicando na televisão, e uma pequena listinha inclui egoísmo, inveja, racismo, preconceito, vício, roubo e assassinato. O problema é a educação distorcida que ensina como “se” deve fazer; a falsa educação que diz que existe diferença entre amor e sexo.

O homem que é homem trai porque é macho, não respeita casamento, não respeita amor, não respeita a dor alheia; e a mulher que trai está certa porque ela precisa “viver o momento”, “seguir sua verdade interior”, “ser livre”, “ser moderna”. É isso o que ensinam. Pois é, vê quem quer, ouve quem quer. É o preço da liberdade.

Assistir essas coisas, mulheres e homens como vieram ao mundo, eu já vi, mas nesse momento aquela imagem bateu muito forte em mim, como forte foi a minha náusea, o meu desprezo contra uma empresa de comunicação que se presta a uma papel desses, que acredita que atende a todos os segmentos do público exibindo uma “verdade” distorcida, em nome de uma hipócrita liberdade de pensamento. Censura é uma palavra ignóbil para mim, é tão pornográfica quanto a entrevista com mulheres risonhas, que praticavam o swing entre casais;  como é imundo não lidar com a verdade, e como é sujo mentir socialmente para conquistar popularidade nesse universo de culto à celebridade.

i dream of eve

i dream of eve

O problema desse comportamento, dito liberal, é que não há qualquer verdade nessa premissa: isso não é liberdade, é prisão, é hipnose, é burrice.

O amor dos séculos anteriores, onde não havia aprendizado áudio-visual, certamente era mais misterioso. No máximo, desenhos eróticos e posteriormente fotografias, ensinavam o básico aos interessados, mas nada que fosse como um curso completo de como fazer cabelo, barba e bigode. Seria então, ingênuo ou errôneo, idealizar o amor? Imaginar como se poderia retirar o espartilho da amada? É, os tempos eram outros. Nós que nascemos em um mundo áudio-visual temos as nossas próprias questões para resolver, complexamente diferentes.

Já dizia Santo Agostinho que “nada de útil pode nascer de um lugar do qual se urina”. Mas onde há luz, há trevas, também não dá para ser como Lenin, que considerava sexo uma coisa burguesa, que desviava a atenção do trabalho.

Não dá para inibir todos os nossos instintos, negar que somos falhos, mas há uma coisa que aprendi: que quando se compreende que amor não é troca de parceiros, mas aprendizado em comum, você se liberta. O amor de fato existe e quando você o sente, nunca o esquece. O amor real cria uma energia própria que te eleva não à condição do fanatismo, mas à realização da unicidade entre dois seres que se completam, da soma entre os opostos, do homem e da mulher (e até mesmo do homem com o homem, como muitos acreditam) que se transformam em deuses, que aprendem a amar juntos. O sexo mostrado como necessidade fisiológica é uma distorção da realidade, é uma mentira perpetuada por quem não deseja educar o indivíduo à liberdade de escolha.

Uma carta para Ivete Sangalo
19 jul, 2009 por Carlos Lopes
Dá no couro.

Dá no couro.

Querida Ivete Sangalo.

Essa é uma carta que escrevi com o coração e a razão.

Não tenho o hábito de assistir o Altas Horas por causa do horário e também por causa dos entrevistados. Como todo grupo empresarial, o programa vende os produtos da emissora, dando destaque às suas produções e artistas, o que é bem natural. Nada contra. E como espectador livre tenho o direito de compactuar ou não.

Trabalho de madrugada no computador e sempre deixo a TV ligada. Por pura e completa preguiça estava na Globo. Esclareço que não vi o programa, apenas o ouvi. A entrevistada era você, Ivete Sangalo. Como gostei muito do novo trabalho “Pode Entrar”, do qual tomei conhecimento zapeando pelos canais até cair no Multishow, no qual foram exibidos episódios da gravação do CD em um estúdio na sua casa em Salvador, deixei rolar. Você é uma grande profissional, a maior estrela da nossa música, assim como Elis Regina foi há décadas. Claro que o repertório é completamente diferente, até mesmo por questões históricas e mercadológicas.  A primeira vez na qual você me soou simpática foi por causa da gravação de “Coleção” de Cassiano (“Sei que você gosta de brincar de amores, mas comigo não”). E é claro ouvi “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim” como todo mundo.

No Altas Horas de 19 de julho de 2009 ouvi o seu dueto com Marcelo Camelo, tocando a linda “Teus Olhos” (inclusive a versão ao vivo no programa me soou mais interessante do que a do CD/DVD). No quesito musical nota dez, mas aí é que veio a bomba.

A sexóloga Laura Müller aconselhou as mulheres a não engolirem sêmem por causa das bactérias, você respondeu brincando que sêmem “tem proteína”.

Então ouvi, meio no tumulto dos risos, um “Tem é que gozar”. A frase dita por ti, por si só, teve um quê de liberalidade positiva, mas não consegui parar de pensar no que uma palavra dita de qualquer jeito, faz com a cabeça alheia. E no que ela pode alimentar.

“Gozar” segundo o Aurélio significa “Experimentar grande prazer na posse de. / Ter a posse de uma coisa de que se tiram vantagens; desfrutar: gozar saúde. / Bras. Pop. Achar graça em, rir de. / Passar a vida em prazeres.”

Releia e veja a palavra “vantagem” como sinônimo de “gozar”. O Brasil de hoje luta para se libertar daquele país do Gerson, o jogador, o país no qual “todo mundo tirava vantagem”.  Não quero esse Brasil para mim, não quero esse mundo para mim, nem para os outros. Entendi o seu “gozar” no contexto. Mas por que não trocar a palavra “gozar” que soou chula por “amar”? Poderias ter dito: “Tem mais é que gozar com seu parceiro, ser fiel e amar muito”. Seria mais bonito e estaria à altura de uma pessoa pública.

Falar espontaneamente é uma coisa, ser McCartista é outra. Como o público do programa é “jovem”, você foi devidamente espontânea, como estou sendo agora e só te escrevo porque me incomodou e muito.  Estou cansado de ver e ouvir as pessoas (na rua) dizerem que querem “viver o momento”, “serem felizes” e coisas do gênero, e ao mesmo não serem sinceras, “galinharem”, mentirem e arrastarem os outros ao poço sem fundo da mentira.

Essa é a base da sociedade, esse é o futuro do mundo, o futuro do Brasil, esses são os valores dos jovens que se acham melhores dos que as gerações anteriores, envelhecidas e com idéias envelhecidas?

A juventude não é a solução, a solução está no coração de todos nós, sejamos jovens, idosos, negros, brancos, índios, brasileiros, estrangeiros, homossexuais, evangélicos, budistas…

Enfim, a resposta está no exemplo e você é um exemplo para milhões de pessoas.

Seja fiel, ame e goze muito com o seu parceiro. Gozar é muito pouco.

»  Contato: mustangmartelo@gmail.com  
© .:: O Martelo ::.