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O nosso Brasil de Mindlin, Villa Lobos, ETs e Lula
8 mar, 2010 por Carlos Lopes

Este texto, meio que começou a nascer em um final de semana, no qual faleceram dois brasileiros supimpas: o sambista Walter Alfaiate e o bibliófilo José Mindlin. Senti que o país ficou mais pobre e isso cutucou meus brios.

José Mindlin
José Mindlin

Digo “começou a nascer” porque de fato o texto atual foi inseminado no ano passado, mas até hoje era impossível transcrevê-lo para o mundo real das palavras escritas. Há bastante tempo não escrevo, fruto de um desinteresse crônico em compartilhar idéias escritas. Tenho preferido ler (livros) e assistir filmes e documentários, estudar cada vez mais, uma das minhas paixões. Inclusive, tem sido mais fácil escrever canções e gravá-las, apesar que todo o processo envolvido, muitas vezes, te faz perder o amor pela música. Mas isso é assunto para outro texto, este agora está reservado para uns pensamentos sobre o meu Brasil.

Repito e digo “o meu Brasil”, pois nem tudo pode ser repartido, pois somos pessoas com sentimentos diferentes e isso faz toda a diferença na hora de emitir um julgamento. E achismos não surgem apenas do povo iletrado, mas de profissionais esclarecidos, que acham que podem cuspir suas análises fundamentadas em racismo crônico. Se dependesse de muitos que cá nasceram, esse país seria uma colônia não mais da União Soviética do pós-guerra, como poderia ter sido antigamente, mas do mundanismo internacional. Já escrevi anteriormente que me causa repugnância quando alguém fala que “esse país é um lixo”, “só pode ser Brasil mesmo”, “país de preto” e coisas assim. Em primeira instância, essa elite que existe desde os tempos da colônia de Portugal ficou e ainda está muito fula porque, apesar dos escândalos, o PT ainda é o partido que manda no quintal e o seu porta-voz é o presidente mais popular do mundo, mesmo falando errado, coisa que horroriza a classe alta, que associa postura (o externo, o socialmente aceito) com bom comportamento. E essa associação quer nos continuar impondo presidente homem e branco. Um nordestino que fala errado não poderia, em “um país sério” sonhar em ser presidente, é o que pensam.

passado, presente e futuro
passado, presente e futuro

Se o Brasil ganhou o direito de sediar, principalmente a Olimpíada é porque Lula fez e aconteceu, colocou o Brasil no mapa. Ele soube usar a mídia a seu favor, o que no final das contas, conta a nosso favor. O sociólogo rancoroso, esse mesmo, que só sabe reclamar, não conseguiu. Por causa disso, dessa dor de cotovelo crônica, e apesar do seu francês fluente, o que ele pretende? Se hoje, americano (que ainda manda no mundo) sabe quem somos, que os brasileiros existem,é mais por causa da popularidade de Lula do que por causa dos nossos talentos. Isso se faz notar em produções cinematográficas como 2012, que despencou o nosso Cristo e com o atual seriado V (para fãs de Lost), que coloca uma nave-mãe gigante no ar falando português à frente do mesmo e popular Cristo Redentor (anexo imagem). Vejam bem: Nova Iorque, Los Angeles, Paris e… Rio.

Os ETs invadem o Rio
Os ETs invadem o Rio

Já escrevi também, que amo a ideia do Tropicalismo de Caetano e Gil e os filmes do cinema novo, que fundem o estrangeirismo com o olhar e o sentir local. O Brasil não deve se fechar, pois esse tipo de coisa gerou duas guerras mundiais, e coisas como o Iraque, o Irã e a Coreia do Norte. Há a necessidade de ensinar aos jovens, aos estudantes, e inclusive aos mais velhos, o orgulho de ser quem somos e ser como somos. Quando alguém comenta que o canto orfeônico do Villa Lobos, só foi possível em um contexto ditatorial, eu me pergunto, então por que não podemos resgatá-lo , se somos livres, e donos dos nossos narizes? Por que não voltar a ensinar música nas escolas? Para disponibilizarmos computadores em todos os colégios, é necessário educar o aluno para que ele não use a máquina (ainda mais) a serviço da futilidade.

1,2,3,4
1,2,3,4

Essa necessidade mórbida de olhar sempre para fora, se preocupar com o “primeiro” mundo e pisar no que temos de melhor, o “nosso”, aí sim, mesticismo é fruto de ignorância, medo e  covardia de deixar a pele escurecer e os cabelos encaracolarem. E o esquecimento, promovido pela mídia, faz parte dessa conspiração que pode ser alcunhada de educação regressiva, como um espelho embaçado que não reflete os nossos rostos e nem as nossas infinitas possibilidades. Muitas vezes, penso no que deve existir de baixa estima, quando o sujeito NÃO se vê na TV porque só há gente loura de olhos claros, biótipo alienígena e nazista. Isso só pode fazer o sujeito se sentir um lixo, e certamente o faz. Se você não abrir o olho, o negócio pode ficar feio mesmo, criando um ambiente para dominação cultural e inserção de valores que não são úteis para o nosso, aí sim, desenvolvimento e para a nossa liberdade, ainda que tardia. A mais perigosa das armas é a mídia, que inculta nas pessoas, o sentimento mesquinho de assimilar valores opressivos que deseducam.

Aconselho aos meus amigos leitores o excelente canal Futura, com um primor de programação; a TV Brasil, que está cada vez melhor; programas como Por Toda Minha Vida da Rede Globo e o fantástico documentário “O Homem que Engarrafava Nuvens” de Lírio Ferreira, diretor de Baile Perfumado e Cartola – Música para os Olhos sobre o compositor Humberto Teixeira (1915-1979), o “doutor do baião”, parceiro de Luiz Gonzaga.

Amigos e leitores, olhem e sintam o Brasil com outros olhos, com orgulho de quem sabe quem são. Se vocês não gostam do Brasil é porque não gostam de vocês, pois nós somos o Brasil. E ninguém mais pode ser.

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Adeus Oiticica, a Queimada da Cultura Brasileira
17 out, 2009 por Carlos Lopes

“Na realidade a sucessão de obras é para fazer inteligível o que eu sou. Eu passo a me conhecer através do que faço. Que na realidade  não sei o que sou. Porque se é invenção eu não posso saber. Se já soubesse o que seriam essas coisas não seria mais invenção. A existência delas é que possibilita a ‘concreção’ “

(Helio Oiticica)

1968 - Caetano e Parangolé de Hélio

1968 - Caetano e Parangolé de Hélio

Esse sábado certamente não amanheceu como outro qualquer, não porque há uma chuva ácida em andamento e nem porque criminosos do Morro dos Macacos na zona norte do Rio derrubaram um helicóptero da polícia.

O sábado havia começado bem ao receber a mensagem de uma amiga que está na França: “Resolvi que não vou mais entrar em museu até segunda, senão não faço outra coisa. Obs: museu de país que valoriza cultura é uma felicidade sem fim.”

Meu semblante mudou e logo depois liguei a TV.

Ingênuo que sou, coitado de mim.

Como se não bastasse o desprazer de ver um helicóptero queimado e dois policiais mortos, uma outra notícia incendiária derrubou meu sábado: o acervo de um dos fundadores do neoconcretismo, o artista Hélio Oiticica, falecido em 1980, que se queimou entre sexta e sábado.  Se fossem perdidos “meia dúzia de objetos”, a perda já seria irreparável, mas o problema é que simplesmente perdeu-se 90% das obras do artista que não estavam seguradas, um prejuízo calculado em 200 milhôes de dólares. Só se salvaram CDs e arquivos de computador. E lá se foram todos os parangolés. Queimou-se o Tropicalismo, a idéia do Brasil novo, a possibilidade do inédito, do eterno velho Brasil renovado. Fica a lição: as chamas da ignorância destroem, mas não podem vencer. Jamais.

O acervo do artista, guardado no primeiro andar da casa da família no bairro do Jardim Botânico no Rio de Janeiro, se perdeu enquanto seus parentes, que estavam no segundo andar, sentiram um forte cheiro de queimado.

Hélio em forma de Arte

Hélio em forma de Arte

O pior dessa história é que a prefeitura teve um longo entrevero com a família pela posse e preservação das obras.  Em 1981, foi criado sob responsabilidade da família, o Projeto Hélio Oiticica. Em 1996, a secretaria municipal de artes do Rio de Janeiro fundou um centro de artes para abrigar todo o acervo, mas brigas entre a família e o governo por causa de (não) pagamentos azedaram o diálogo. Em abril de 2009, os herdeiros de Hélio suspenderam uma exposição, alegando falta de pagamento, que foi regularizado, mas a família não devolveu a maior parte das obras, que estava na reserva técnica do Projeto Hélio Oiticica, que segundo eles, possuía as condições necessárias para a preservação das obras, as mesmas que foram queimadas ontem, seis meses após a contenda.

Jandira Feghali, a secretária de cultura lamentou a perda, mas declarou que a prefeitura lutou pelas obras. César, o irmão de Oiticica que se dedicou a proteger a obra do irmão, declarou emocionado que assume sua falha, apesar da sala na qual ocorreu a tragédia, ter controle de umidade e temperatura.

Para variar, quem perde é o Brasil, quem perde é a arte mundial.

OLIMPÍADAS, DESENVOLVIMENTO E INCLUSÃO SOCIAL
3 out, 2009 por Carlos Lopes

2016

2016

66 votos contra 32.

A vitória do Brasil como futura sede das Olimpíadas em 2016 representa a superação dos nossos defeitos através do esporte e da política; simboliza um momento histórico: o caminho inevitável para o desenvolvimento. Digo isso, porque o Rio pode ser o cartão postal e a sede, mas acima disso, a cidade sintetiza o melhor e o pior deste país, a vitória é de todos nós, é uma conquista do Brasil.

Cartada Final

Cartada Final

Temos menos de 7 anos para superar todos os nossos limites.

Basta o leitor analisar a sequência dos fatos para comprovar que, apesar dos críticos, o país caminha sempre em frente: Collor, FHC, Lula, BRIC, G20, Pré-Sal, Copa do Mundo e Olimpíadas.

O Cara

O Cara

No dia 2 de abril em Londres, Obama chamou Lula de “o cara” na reunião do G20 e em 2 de outubro ganhamos dos Estados Unidos, sem tapetão e na moral. Os republicanos norte-americanos devem ter soltado fogos.

“Sim, nós podemos.”

A conseqüência desse inexorável caminhar, pode ter nascido na frase de Collor que se referia aos carros nacionais como “carroças”, passando pelo FHC e uma nova política econômica, mas foi no momento Lula que essa mudança de paradigma assumiu sua grande forma com um presidente carismático e de liderança indubitável na América do Sul. O complexo de vira-latas acaba aqui, não temos que ser norte- americanos, não temos que ser como os europeus, só temos que crescer com trabalho e respeito pelos exemplos vitoriosos e escaldados pelos fracassos.

Vitória do Coração

Vitória do Coração

A nossa vitória nas Olimpíadas é a possibilidade de erguer a tocha de um país único, mulato sim, místico sim, cheio de problemas mas muito criativo e trabalhador.

E a eleição vitoriosa no COI não foi consequência da exploração de nossas mazelas, mas de nossas conquistas. O campeão Brasil ganhou quando incluímos na sociedade as comunidades carentes, quando somamos o rico ao pobre, do descendente de imigrantes ao ex- escravizado, quando buscamos soluções próprias. O Brasil soma, sintetiza, regurgita o Bispo Sardinha sem espinhas.

Daniel Dias

Daniel Dias

O fator emocional contou muito a nosso favor. A presença dos mui conhecidos Paulo Coelho e Pelé, principalmente o segundo – o rei do futebol, antes um garoto pobre -, mostrou que o caminho do Brasil é a soma dos extremos, da aliança do morro com o asfalto, da inserção social. A dupla vitoriosa foi o nadador paraolímpico Daniel Dias, um garoto de 16 anos que superou suas limitações, e a atleta Bárbara Leôncio, uma menina que corria descalça e vencia todos os garotos até sagrar-se campeã mundial juvenil nos 200 metros rasos.

Bárbada Leôncio

Bárbada Leôncio

65 milhões de jovens brasileiros farão parte dessa inclusão social através do esporte.

Todos que assistiram o povo nas ruas em cada um dos países concorrentes e que viu os 30 mil que estavam na praia de Copacabana, anteciparam a nossa vitória, a vitória da vontade. Olhe para os japoneses sem garra e os americanos preocupados com o aumento dos impostos e por fim a derrota dos hermanos espanhóis, que prepotentemente não queriam nos dar a chance de sermos o primeiro país na Sul América a sediar uma Olimpíada.

“Uma imagem vale mil palavras.”

Sexta, o dia do resultado, foi ponto facultativo para os funcionários da Prefeitura e dia livre para os estudantes, como não? Qualquer crítico que se levantar contra essa tática é apenas um ingênuo, porque a cidade não parou por causa disso, ela prosseguiu produzindo e mesmo assim havia uma massa emocionada na praia para representar o Brasil nas televisões e internets de todo o mundo.

Em entrevista, imediatamente após a vitória arrasadora e até certo ponto surpreendente, Lula, um presidente emocionado, e um tremendo pé-quente, declarou:

“As pessoas falam: não pode fazer uma olimpíada porque tem criança pobre, porque tem favela, porque precisa investir na educação. É preciso a gente fazer tudo isso (…) e provar que a alma generosa do brasileiro vai fazer a mais extraordinária olimpíada que o Brasil já viu, que o mundo já viu.”

Este texto não se refere e nem pretende analisar os futuros desafios que teremos para desenvolver e preparar o Rio de Janeiro em 7 anos, esse é um momento de festa, mas como disse o presidente o trabalho começou “ontem”. A sociedade tanto civil como política, já está devidamente estruturada para controlar os excessos e implementar os desafios. Os pontos que cito devem ser analisados, com atenção. Provavelmente, falaremos sobre isso, e muito.

  • O Rio retoma seu papel de capital, perdido desde a transferência para Brasília.
  • A união política faz a força: Lula, Cabral e Paes. Melhor ganhando juntos do que perdendo separados. Cansei de ver minha cidade perder por causa de divergências políticas. Quero o Brasil maior e o Rio melhor.
  • Como se prevê, haverá atrasos nas obras para a nova cidade remodelada, mas não acredito em grandes desvios de verba, porque o tempo é curto e em pelo menos 7 anos caminharemos “no sapatinho”, sem grandes assaltos ao dinheiro público, porque há a necessidade de cumprir os prazos e resolver problemas de transporte, saúde, ecologia, hotelaria e segurança em menos de uma década. Muita coisa para pouco tempo. A cara do país muda a partir de agora; os mais capacitados investidores brasileiros farão parte da aliança da vitória, construirão não mais a nação do futuro, mas o país do presente. Não há mais tempo para roubo e demagogia.
  • Em 2016, o Brasil será a quinta economia mundial.
  • O Pré-Sal já mudou e vai mudar este país.
  • Dilma, apesar da falta de carisma, ganhou um empurrãozinho em sua campanha presidencial.

A Dinamarca é pé quente.

VIOLÊNCIA, VÍTIMAS OU ALGOZES?
29 set, 2009 por Carlos Lopes
Rio, Pobreza, Desespero, Solução

O caso ocorrido no mês de setembro, na zona norte do Rio de Janeiro, quando o assaltante Sérgio Ferreira Pinto Júnior manteve por 40 minutos a comerciante Ana Cristina Garrido como refém, sob a mira de uma granada, suscitou uma enxurrada de cartas de leitores em todos os meios de comunicação, textos cheios de preconceito e desespero, verdadeiramente nauseabundos defendendo o extermínio não só dele, mas de todos os bandidos.

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99% dos leitores ou palpiteiros de plantão de jornais como O Globo on line e a corja que grasseia no You Tube, se posicionaram a favor de uma solução “rápida” como a que o “sniper” ou atirador do Bope teve que praticar para salvar a vida da refém: executar sua missão ou em outras palavras, “atirar na cabeça do criminoso”, para que “não se gaste mais dinheiro hospedando vagabundo na prisão”, como foi dito em uma das cartas que li. O major Busnello, o autor do disparo fatal, fez o que se esperava dele e por isso ganhará a medalha Tiradentes, os leitores, ganharão o inferno. Isso se o lar do capeta não for aqui. Uma outra criatura, que se diz leitor, escreveu que aceitaria de bom grado, um aumento de impostos para que comprassem balas para exterminar os bandidos nas prisões. Um único ser pensante, que levantou a voz contra essa debilidade foi chamado de “viado, politicamente correto (hoje é palavrão) e petista”. Só não acrescentei ao saldo, o bolsa família e o PAC, que chegaram a citar como exemplos do “Brasil que gosta de negros e pobres.”

4 shots, início, meio, fim e término

4 shots, início, meio, fim e término

Não me cabe julgar que o bandido que nasceu em uma sociedade injusta, e que teve uma vida difícil, se ache no direito de “correr atrás do prejuízo”, como também não é justo que um inocente seja mantido refém ou roubado, porque tem mais e outros tem menos. Como muitos brasileiros, lembro de outro famoso caso policial carioca, o do ônibus 174, transmitido ao vivo pela TV, que resultou em um duplo assassinato duplamente desqualificado. De fato, esse foi o nosso 11 de setembro. E se puxar da memória e dos livros de história, o problema do “preto e pobre” começou na escravidão, emendou nas guerras do Paraguai e em Canudos e na falta de casas e soldos e por fim em uma libertação de escravos demagógica e sem a mula e o acre. Aí não dava mesmo. Fico até imaginando que devem ter debatido o assunto na época, as possíveis seqüelas, mas alguém deve ter falado “deixa que a outra geração resolve.” Pois é, nunca se quis resolver dignamente nada e o resultado se faz ver hoje, um século depois, amparado pelo pó cheirado pela classe média que se assusta com a violência praticada e financiada por ela.

Há alguns anos, bandido, pobre, negro e favelado virou sinônimo de cinema premiado no exterior e novela na Rede Record. É Zé Pequeno, é Dadinho, é Capitão Guimarães, é Vidas Opostas, é pau, é pedra, é o fim do caminho. Dar tiro na testa de bandido na vida real pode, mas a mesma classe média, que pede extermínio em massa na internet, como se fosse piada ou solução, paga o ingresso para elogiar as nossas mazelas nas telas dos cinemas, e se debulha em elogios às ONGs e ao novo Brasil, muito mais justo e humano.

Bope na moita

Bope na moita

Certa vez, um conhecido, ao ver na TV uma passeata contra as drogas na praia de Ipanema, comentou: “Eu conheço esse cara – e apontou um sujeito segurando um cartaz “Diga Não As Drogas” na tela – ele já cheirou comigo.” Essa história mostra o grau de hipocrisia. Como se pretende que exista uma “nova sociedade”, “mais justa e humana” quando só se varre o lixo para baixo do tapete? Como se pode achar normal que alguém cheire, encha a cara até cair, que fume e que “pule a cerca” e vá reclamar contra sequestro e assalto? O mais ultrajante é que todas as classes sociais estão unidas, como irmãos siameses, pelo “pior do cordão umbilical”, pois se entorpecem e traem igualmente, isso não é exclusividade da classe baixa. É fácil escrever “mete a bala na cabeça do neguinho”, como é fácil “bater uma rapa” em seguida e abrir a boca para protestar contra a violência. Assim como é normal, o aborto.

O que se diz sobre Isabella de Oliveira Nardoni, Eloá, Jéssica Picolo e muitas outras meninas, mortas por loucos, pais e namorados?

Há 70 anos, no dia 3 de setembro, a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha nazista, que executava com “um tiro na testa” os ciganos, os judeus, os inimigos e os pobres até criarem as câmaras de gás, que facilitou o trabalho e não “expunha os soldados a danos psicológicos”. Se a desculpa para a matança hoje é roubo, ontem foi outra, não importa, sempre há uma razão e um motivo para tudo.

Luta de Classes, Marx já dizia

Luta de Classes, Marx já dizia

Estou cansado de receber tanto lixo na porta de casa, de tantas mentiras ditas e repetidas, de tanto preconceito vagabundo. Agora mesmo ouço na TV que um restaurante em Ipanema foi assaltado por bandidos com granadas, que um militar aposentado roubou duas latas de leite em pó em um supermercado na Siqueira Campos em Copacabana, que uma professora em Duque de Caxias roubou o celular da aluna e que um prédio na zona sul do Rio, foi assaltado por 3 marginais vestidos como se fossem garis. E tudo isso entre ontem e hoje! Imagine o que não foi noticiado sobre todos os assaltos em nosso país. Acho que ninguém dormiria mais. E sobre os que gritam que o extermínio é a solução? O que a pessoa mais idiota que você conhece diria? Que “não vai ter ninguém para limpar a rua”? Muito bem, um dia também não haverá quem te venda o pó, um dia não haverá quem ouça teus gemidos durante um sequestro, ou um assalto.

Por que acham normal que os educados jovens deste Brasil varonil, brinquem com jogos nos quais posam de soldados que matam seus inimigos com metralhadoras, onde mulheres são estupradas e idosas surradas?  A falta de respeito, o egoísmo e o preconceito vão se entranhando na sua alma, pelas beiradas, subindo como erva daninha pelas paredes até tomarem a sua mente e um dia, você achará normal dar um tiro na cabeça de um criminoso, porque “você não tem nada a ver com isso” e “antes ele do que você”.

Não vou reproduzir aqui, os comentários das pessoas que me deixaram enojado, ninguém merece, não vou mais alimentar isso. Para contrabalançar, abro espaço para e-mails de amigos incógnitos (para os leitores deixo claro, pois são muito “cógnitos” para esse que vos escreve), que debateram o assunto comigo, via internet. Essas pessoas escreveram coisas profundas e que merecem ser lidas por todos. Meus amigos são gente como a gente, estão espalhados por esse grande Brasil, são humanos e pensam, não são animais e eu os agradeço publicamente por acreditarem que é possível acreditar. E digo, o mal pode ter tentado estuprar meu corpo, mas nunca abortará minha alma, meu último sacrossanto lar.

Três amigos pensando sobre a violência e as cenas transmitidas pela TV:

“O que mais me impressiona é que as pessoas se colocam como “narradores observadores” do mundo. Será que ninguém se vê fazendo parte desse mesmo mundo, sendo uma peça da engrenagem, ninguém percebe que cada gesto, por menor que seja faz com que isso tudo aconteça? Com esses depoimentos, damos de cara com o crescimento do individualismo.  Parece que nós só temos duas opções:  os idiotas dos direitos humanos X os ótimos exterminadores do mal ou os ótimos dos direitos humanos X os idiotas exterminadores do mal. A verdade é que em todos nós há um pouco do bandido que levou um tiro na cabeça, existe um pouquinho dele no desejo de cada criança que inocentemente pega o brinquedo do amiguinho, dentro de cada adolescente marginalizado que picha uma parede porque se sente injustiçado, de cada servidor público que leva pra casa uma caixa de clipes só porque não tem ninguém olhando e amanhã, num passe de mágica o almoxarifado manda outro pra ele, de cada pai de família que paga todos os impostos em dia mas comete pequenas infrações de trânsito no caminho pro trabalho e se justifica alegando que “todo mundo faz”… Não sei mais o que pensar, não sei mais o que escrever… só um suspiro e uma pergunta: será que vale a pena continuar tentando?”


“O atirador tinha algo de nobre e fascista ao mesmo tempo.  Mas não consigo só ver o bandido e sim o ser humano caindo e partindo. E a vida do cara? Se foi porque ele era um monstro,  mas quem não tem suas sombras? Os caras comemoravam e o povo aplaudia… não consigo comemorar aquilo, nem ficar com pena, apenas acho uma tragédia. Odeio ladrão de colarinho branco. Daniel Dantas é muito mais letal do que aquele ser bizarro. Sartre disse que todos nós estamos condenados a ser livres, então por que o ódio ao ladrão? Foi a opção dele ou a falta de opção…o ato de roubar para mim vai além do meandro jurídico, é espiritual mesmo…mas odeio o cara que apertou o gatilho…sniper…jamais apertaria o gatilho para Daniel Dantas. O assaltante era uma aberração, mas não consigo deixar de ver uma equação sociológica e patológica: preto, pobre, vagabundo e ordinário, mas humano… quem não ameaça quando está acuado?”


“Isso tudo é uma tristeza. Uma tristeza.
Tristeza.
Tristeza.
Xeque-mate social.
Precisa de escola séria, com professor qualificado e bem remunerado. Precisa mais desenvolvimento regional, com menos migração interna. Precisa de mais mão-de-obra qualificada e mercado de trabalho para absorver a demanda. Precisa de um programa sério de controle de natalidade nas cidades grandes, com pais que assumam seus filhos, porque criar filho dá trabalho. Enfim, precisa controlar a corrupção e o esquema feudal que contribui muito para que nós fiquemos assim. São essas instâncias que diminuem a desigualdade social, eu acredito.
Também menos publicidade, menos fashion e mais consistência e perspectiva futura. Educação, cultura e civilidade não são frescura de “elite”. Mas estão todos desesperados: os caras que jogam pedras nos carros do alto da passarela, o cara da granada, os caras que arrastaram o menino fora do carro, os caras que atiram por nada, o policial que se sobe o morro e o que faz conchavo, as quadrilhas rivais e todos “nós” que andamos por aí, rezando pra não errar o caminho ou dar azar. “Nós” e “eles” estamos uns odiando os outros, sem mirar no real inimigo comum. Mas, apesar de tudo, o rapaz que foi morto estava armado, praticando terrorismo e ameaçando uma pessoa. No meio do nosso xeque-mate, do cansaço, desespero e sentimento de impotência geral, qual é a solução imediata?”

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Sexo, Pornografia e Falsa Liberdade.
19 set, 2009 por Carlos Lopes
descoberta

descoberta

Nesta sexta a ficha caiu.

Há um tempo, um assunto me incomodava, mas como se diz, deixava para lá, porque não era problema meu. Não assisto sexo na TV e nunca vi um filme pornô. Quero dizer, minto, só vi um, uma vez na casa de amigos adolescentes que, por uma questão de sociabilidade, tive que comparecer pela curiosidade e para exibir a minha normalidade. Claro, que todos adoraram, ou fingiram adorar e naquele ritual coletivo, todos aprendemos que as mulheres não são apenas mães, são prostitutas.

Meus pais nunca falaram sobre sexo comigo. Para meu pai, o homem devia sempre ser o “comedor” e minha mãe achava que não era conversa para se ter com filho. O que acontece é que a falta de diálogo, nos leva sempre ao lugar comum, que é ver revistas nas quais mulheres surgem como objetos fornicantes e assistir filmagens com mulheres americanizadas com implantes, e próteses serem dominadas por machos vigorosos. A partir daí, após a primeira visão distorcida da cópula, tudo está arruinado. Não há mais volta. Aprende-se tudo errado, criam-se mitos e muito pelo contrário, não se dá ao cliente a opção da escolha: apenas uma forma de se fazer sexo é imposta. O espectador já pode se considerar lobotomizado, nunca mais, em sua fase adolescente, elogiará uma comédia romântica, por medo de ser considerado baitola.  O proibido, antes que me esqueça, não tem mais nada de oculto, e está pertinho de você, aqui mesmo na internet, ao toque de um botão.

conhecimento

conhecimento

Provavelmente todos já leram aquele pensamento que diz que “quando eles vieram pegar os judeus, você não fez nada porque não era judeu, mas no dia que eles vieram te pegar, não havia ninguém para socorrê-lo”. Foi assim que me senti nesta sexta, quando a ficha caiu. Muitos querem nos fazer acreditar que o desvio de caráter e de conduta, é algo lícito, normal. E o que se esconde por trás de uma educação distorcida que exibe sexo entre duas mulheres e um homem, que exibe troca de casais como sendo a mais contundente prova de liberdade, da consumação do direito de escolha? Dinheiro, dinheiro e dinheiro. O que mais cresce nesse mundo, fora as contas e dá lucro de cornucópia? Sexo. Isso desde o início dos tempos. A diferença é que antes não havia televisão ou internet.

Assim teve início a minha sexta.

À tarde vi um programa de auditório, no qual garotas de programa falavam sobre os clientes, prioritariamente homens casados. Alguém citou uma pesquisa recente , que afirma que praticamente há um empate técnico, entre traição feminina ou masculina. Os sexos não se superam no quesito traição, há uma equivalência nas intenções, empatam quase de igual para igual. Disseram que o problema é genético, outros que é cultural. As pessoas traídas faziam papel de coitadas e as que vendem o corpo ou traem, o que dá no mesmo, se justificam, usando as palavras dinheiro e liberdade. Atenção: muitos compram liberdade com dinheiro, outros dizem que dinheiro traz felicidade. Felicidade e liberdade caminham juntas, pelo visto.

soma

soma

À noite na mesma sexta, zapeando através dos canais, passei pelo Multishow e vi uma mulher chupando outra e sendo penetrada por trás ao mesmo tempo. Se não descrever o que vi, também não posso descrever o que me passou pela cabeça. É um canal a cabo e nessa barafunda de emissoras e programações, pode-se ver sexo grupal ou um pastor pregando em nome de Jesus. A escolha é de cada um, vê quem quer. E é claro, o tal canal só exibe a sua orgia após a meia noite, horário considerado próprio para isso, mas o problema não é a exibição, são 3 palavras que há por trás dessa história: “liberdade”, “felicidade” e “dinheiro”. Concordo que cada um vê o que quer, acredita no que quiser, mas a partir dessa sexta, a tal da frase da guerra, citada anteriormente, começou a fazer muito mais sentido do que antes. Há diferenças e semelhanças entre religião e o sexo, e às vezes até confluem na mesma direção, como no tantra. Mas há coisa pior do que ver casais fornicando na televisão, e uma pequena listinha inclui egoísmo, inveja, racismo, preconceito, vício, roubo e assassinato. O problema é a educação distorcida que ensina como “se” deve fazer; a falsa educação que diz que existe diferença entre amor e sexo.

O homem que é homem trai porque é macho, não respeita casamento, não respeita amor, não respeita a dor alheia; e a mulher que trai está certa porque ela precisa “viver o momento”, “seguir sua verdade interior”, “ser livre”, “ser moderna”. É isso o que ensinam. Pois é, vê quem quer, ouve quem quer. É o preço da liberdade.

Assistir essas coisas, mulheres e homens como vieram ao mundo, eu já vi, mas nesse momento aquela imagem bateu muito forte em mim, como forte foi a minha náusea, o meu desprezo contra uma empresa de comunicação que se presta a uma papel desses, que acredita que atende a todos os segmentos do público exibindo uma “verdade” distorcida, em nome de uma hipócrita liberdade de pensamento. Censura é uma palavra ignóbil para mim, é tão pornográfica quanto a entrevista com mulheres risonhas, que praticavam o swing entre casais;  como é imundo não lidar com a verdade, e como é sujo mentir socialmente para conquistar popularidade nesse universo de culto à celebridade.

i dream of eve

i dream of eve

O problema desse comportamento, dito liberal, é que não há qualquer verdade nessa premissa: isso não é liberdade, é prisão, é hipnose, é burrice.

O amor dos séculos anteriores, onde não havia aprendizado áudio-visual, certamente era mais misterioso. No máximo, desenhos eróticos e posteriormente fotografias, ensinavam o básico aos interessados, mas nada que fosse como um curso completo de como fazer cabelo, barba e bigode. Seria então, ingênuo ou errôneo, idealizar o amor? Imaginar como se poderia retirar o espartilho da amada? É, os tempos eram outros. Nós que nascemos em um mundo áudio-visual temos as nossas próprias questões para resolver, complexamente diferentes.

Já dizia Santo Agostinho que “nada de útil pode nascer de um lugar do qual se urina”. Mas onde há luz, há trevas, também não dá para ser como Lenin, que considerava sexo uma coisa burguesa, que desviava a atenção do trabalho.

Não dá para inibir todos os nossos instintos, negar que somos falhos, mas há uma coisa que aprendi: que quando se compreende que amor não é troca de parceiros, mas aprendizado em comum, você se liberta. O amor de fato existe e quando você o sente, nunca o esquece. O amor real cria uma energia própria que te eleva não à condição do fanatismo, mas à realização da unicidade entre dois seres que se completam, da soma entre os opostos, do homem e da mulher (e até mesmo do homem com o homem, como muitos acreditam) que se transformam em deuses, que aprendem a amar juntos. O sexo mostrado como necessidade fisiológica é uma distorção da realidade, é uma mentira perpetuada por quem não deseja educar o indivíduo à liberdade de escolha.

Uma carta para Ivete Sangalo
19 jul, 2009 por Carlos Lopes
Dá no couro.

Dá no couro.

Querida Ivete Sangalo.

Essa é uma carta que escrevi com o coração e a razão.

Não tenho o hábito de assistir o Altas Horas por causa do horário e também por causa dos entrevistados. Como todo grupo empresarial, o programa vende os produtos da emissora, dando destaque às suas produções e artistas, o que é bem natural. Nada contra. E como espectador livre tenho o direito de compactuar ou não.

Trabalho de madrugada no computador e sempre deixo a TV ligada. Por pura e completa preguiça estava na Globo. Esclareço que não vi o programa, apenas o ouvi. A entrevistada era você, Ivete Sangalo. Como gostei muito do novo trabalho “Pode Entrar”, do qual tomei conhecimento zapeando pelos canais até cair no Multishow, no qual foram exibidos episódios da gravação do CD em um estúdio na sua casa em Salvador, deixei rolar. Você é uma grande profissional, a maior estrela da nossa música, assim como Elis Regina foi há décadas. Claro que o repertório é completamente diferente, até mesmo por questões históricas e mercadológicas.  A primeira vez na qual você me soou simpática foi por causa da gravação de “Coleção” de Cassiano (“Sei que você gosta de brincar de amores, mas comigo não”). E é claro ouvi “Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim” como todo mundo.

No Altas Horas de 19 de julho de 2009 ouvi o seu dueto com Marcelo Camelo, tocando a linda “Teus Olhos” (inclusive a versão ao vivo no programa me soou mais interessante do que a do CD/DVD). No quesito musical nota dez, mas aí é que veio a bomba.

A sexóloga Laura Müller aconselhou as mulheres a não engolirem sêmem por causa das bactérias, você respondeu brincando que sêmem “tem proteína”.

Então ouvi, meio no tumulto dos risos, um “Tem é que gozar”. A frase dita por ti, por si só, teve um quê de liberalidade positiva, mas não consegui parar de pensar no que uma palavra dita de qualquer jeito, faz com a cabeça alheia. E no que ela pode alimentar.

“Gozar” segundo o Aurélio significa “Experimentar grande prazer na posse de. / Ter a posse de uma coisa de que se tiram vantagens; desfrutar: gozar saúde. / Bras. Pop. Achar graça em, rir de. / Passar a vida em prazeres.”

Releia e veja a palavra “vantagem” como sinônimo de “gozar”. O Brasil de hoje luta para se libertar daquele país do Gerson, o jogador, o país no qual “todo mundo tirava vantagem”.  Não quero esse Brasil para mim, não quero esse mundo para mim, nem para os outros. Entendi o seu “gozar” no contexto. Mas por que não trocar a palavra “gozar” que soou chula por “amar”? Poderias ter dito: “Tem mais é que gozar com seu parceiro, ser fiel e amar muito”. Seria mais bonito e estaria à altura de uma pessoa pública.

Falar espontaneamente é uma coisa, ser McCartista é outra. Como o público do programa é “jovem”, você foi devidamente espontânea, como estou sendo agora e só te escrevo porque me incomodou e muito.  Estou cansado de ver e ouvir as pessoas (na rua) dizerem que querem “viver o momento”, “serem felizes” e coisas do gênero, e ao mesmo não serem sinceras, “galinharem”, mentirem e arrastarem os outros ao poço sem fundo da mentira.

Essa é a base da sociedade, esse é o futuro do mundo, o futuro do Brasil, esses são os valores dos jovens que se acham melhores dos que as gerações anteriores, envelhecidas e com idéias envelhecidas?

A juventude não é a solução, a solução está no coração de todos nós, sejamos jovens, idosos, negros, brancos, índios, brasileiros, estrangeiros, homossexuais, evangélicos, budistas…

Enfim, a resposta está no exemplo e você é um exemplo para milhões de pessoas.

Seja fiel, ame e goze muito com o seu parceiro. Gozar é muito pouco.

Justiça Brasileira para Todos
21 mai, 2009 por Carlos Lopes
Nos fazem de palhaços

Nos fazem de palhaços

Há algumas semanas escrevi sobre o bate-boca no STF, o que me fez refletir (mais um pouco) sobre as classes dirigentes. Logo depois da escaramuça no Supremo tivemos a declaração estonteante do deputado federal Sérgio Moraes (PTB – RS) que dispensou o cargo de relator do caso do deputado Edmar Moreira (Sem partido – MG), acusado de uso irregular de verba indenizatória. Moraes perdeu a função após dizer que o colega era “boi de piranha” e que ele mesmo estava “se lixando para a opinião pública”. Vê-se que não dar a mínima para a opinião pública nunca foi exclusividade dos ditadores, muito pelo contrário. Nós, do outro lado do muro, ficamos tão anestesiados, tão cansados de tanta displicência e desrespeito conosco, que o primeiro ímpeto é desligar a TV, não ler notícias e não fazer mais nada. Mas as notícias entram em nossas vidas por osmose ou pelas manchetes de jornais espalhados pelas bancas. Então o que nos resta é separar o joio do trigo e gastar nossa energia com algo útil e digno, seja para a mente e para a alma.

O assunto da justiça brasileira nunca se esgota e os exemplos que escolhi mostram o ridículo da situação a começar pelo mais absurdo detodosm, que vi na TV e cuja matéria incluí com o texto.

Celestino, a cara do Brasil que é punido exemplarmente pela Justiça Cega

Celestino, a cara do Brasil que é punido exemplarmente pela Justiça Cega

O sapateiro aposentado Celestino Eugênio da Silva de 78 anos passou seis dias preso por um crime que aconteceu há 42 anos. Ele era acusado de homicídio, mas nunca teve a prisão decretada nem foi a julgamento. O mandado de prisão de 1999 levou uma década para ser cumprido entre atrasos e trâmites burocráticos, acreditem se quiser e o tal crime foi praticado há 42 anos, em 1967. Celestino foi solto ontem, após um alvará de soltura, que determinou a extinção do processo porque o prazo para o julgamento do crime foi prescrito.

E só houve esse caso no Brasil, o país da Justiça e dos justos? Fazendo uma pequena pesquisa encontrei vários, mas destaco esses dois:

Um portador de deficiência intelectual ficou preso injustamente por seis anos em Extrema, Minas Gerais. O homem foi parar por engano na cadeia em março de 2003, acusado de morte de um homem a pauladas. Natural de Pernambuco, ele foi confundido com o verdadeiro autor do crime, que também era pernambucano, e morreu em 2005. Os dois tinham nomes parecidos. Quando foi preso, o homem não estava com documentos. Como havia um mandato de prisão contra o criminoso, que tinha o nome semelhante, a polícia e a Justiça acharam que tinham prendido o homem certo. Há alguns meses, depois que ele fez tratamento de saúde, um policial desconfiou do engano e comunicou a Defensoria Pública.

Em 2008, Júlio Eglesias Soares recuperou a liberdade em Mato Grosso após permanecer um ano e seis meses preso por um crime que não cometeu. Soares foi preso e condenado no lugar do irmão, que assaltara uma agência bancária no interior do Estado em 2003 e dera o nome do próprio irmão para a polícia. A Defensoria Pública pediu revisão do processo assim que soube do caso.

Por essas e outras meus amigos e amigas, abram o olho porque não basta pagar as contas, impostos e cumprir suas obrigações. Saiba que a sua palavra parece que nada vale em um país com gente que se lixa para a opinião pública e que é regido por uma justiça modorrenta e várias vezes injusta. Somos todos personagens de um livro do Kafka.

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Transparência: Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa, as passagens, o padre e o zulu.
23 abr, 2009 por Carlos Lopes

Irene ri, Irene ri, Irene ri. Quero ver Irene dar sua risada.

Irene ri, Irene ri, Irene ri. Quero ver Irene dar sua risada.

Não há como, ainda mais em um blog, ser 100 % jornalista atado às normas cultas da análise e da escrita. Blog é velocidade, é tosse que não se esconde, é ser técnico de futebol sem ter jogado bola… Mas há algo em todos nós, em diferentes graus, que nos motiva: a busca pela justiça. Todo mundo ficou indignado com essa história da “farra das passagens aéreas” bancadas por dinheiro de impostos, dinheiro público para amigos e parentes de deputados (mais de metade foi para o exterior por conta da Câmara entre 2007 e 2008). O orçamento do Congresso brasileiro é o segundo maior orçamento do mundo, logo depois do norte-americano.

Desde ontem, os gastos da Câmara estão disponíveis na internet. E agora seja o que Deus quiser. Você acredita em contos de fada? Mas é melhor lê-los ou não?


Passagens dadas a artistas que ganham muito bem e que não precisavam ter feito isso, ter dito sim, ter viajado para curtir a vida, para participar de carnavalzinho bancados pelo bolso de todos nós. O desconhecimento das leis, da verdade, nos faz menores e controláveis, mas graças a Zeus existe a imprensa livre, a que nos serve de olhos, ouvidos e consciência.

Ler é ter poder, o poder do discernimento. O poder da escolha. Prefiro brigar pela Verdade, ser ferido pelos espinhos da verdade, do que me calar. Escrevo e debato vários temas, porque acredito que existam pessoas interessadas em ler, em abrir as mentes e não em viver apenas discutindo obviedades.

É preto no branco ou branco no preto?

É preto no branco ou branco no preto?

Ter visto na TV a discussão acalorada entre o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, e o ministro Joaquim Barbosa que ocorreu ontem na TV, me fez pensar sobre essas mesmas verdades e pensar muito sobre meu país, sobre a formação do nosso povo.Viu-se e sabe-se que ambos têm problemas pessoais. Há pontos de atritos entre amigos e colegas de trabalho, até aí nada demais, mas pela harmonia do ambiente pede-se que pelo menos haja tolerância entre as partes. Mas se um bate boca daqueles ocorre ao vivo (e graças a Deus vivemos em um país no qual podemos ver deputados, vereadores, senadores e juízes trabalharem) e em algumas horas o mesmo pode ser debatido pelo público e juristas é motivo de júbilo, é uma benção para todos nós.

Nossa sociedade tem chagas e várias delas ainda não cicatrizadas. E o caminho da libertação se inicia no debate para se chegar à compreensão. No caminho da clareza, no caminho do bem. Não no caminho da força ou da mentira.

À luz da razão ou cego pela emoção?

À luz da razão ou cego pela emoção?

Abrindo um pouco o leque da análise, para não falar apenas sobre o Brasil, o umbigo do mundo, vejamos o caso do Paraguai e da África do Sul cujos presidentes (ou um candidato vitorioso desde o início, tanto faz) recentemente se envolveram em escândalos sexuais. O presidente paraguaio Fernando Lugo fez um monte de filhos quando ainda era bispo católico, na época que ainda não tinha abandonado a batina e enveredado pela política de fato. A tal política do padre era pregar sua fé e ao mesmo tempo não controlar a sua libido. Repito, o ex-bispo e atual presidente do Paraguai, Fernando Lugo dormiu com moças de todas as classes sociais e idades. Era um padre (em espanhol, essa palavra significa tanto pai como sacerdote ) bom de cama, literalmente. Se um escândalo desses tivesse ocorrido no próprio Paraguai há 20 anos, certamente teria havido um golpe de Estado para depô-lo, ainda mais por causa de alguém que tanto falou sobre moralidade, brigou com o Brasil por causa da injusta hidrelétrica de Itaipu, o mesmo sujeito que abriu mão de mais de um salário mínimo por mês e de uma casa presidencial confortável para governar, para manter sua imagem de padre recatado. Literalmente o slogan “mulher do padre” pode ser muito bem aplicado a esse caso. A letra de uma música satírica paraguaia diz que os “parlamentares vão pensar três vezes, a partir de agora, antes de mandar a mulher para o confessionário.”

Na África do Sul, após quase quatro décadas vivendo sob o domínio de uma minoria branca, a mesma que trancafiou Mandela, é natural que negros, a maioria esmagadora da população cheguem ao poder. Mas se joga sujo na política, ainda mais em uma campanha presidencial, e onde há telhado de vidro, a pedra vem que vem. Soube-se que o candidato Jacob Zuma (ou Msholozi pelo nome do seu clã), o líder do CNA, estuprou uma aidética… Como zulu, ele pode ter (e tem) 4 esposas e não pode nunca rejeitar uma fêmea, podemos colocar as coisas dessa forma. Como zulu, ele tem que mostrar que é “homem-macho”. Além de ter sido acusado de corrupção, Zuma confirmou que foi “atentado” por uma moça e como zulu, sua única opção foi estuprá-la, e a senhora é aidética… Mas isso não o fez perder a popularidade. A canção que Zuma canta em seus comícios se chama singelamente “Traga-me a minha metralhadora”, composição que ficou famosa durante o período de luta contra o apartheid.

Dá-lhe Joaquinzão

Dá-lhe Joaquinzão

A quase briga (física) entre Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa (se tivesse ocorrido na rua e à base de algumas garrafas de cerveja a coisa teria descambado para o tapa) nos coloca em uma discussão moral e uma análise histórica. Vivemos em uma fase da história do nosso país na qual queremos justiça a todo custo, mesmo que seja feita à força. O branco (ou quase isso) Gilmar é considerado o responsável por libertar o banqueiro Daniel Dantas e em Barbosa vemos o ex-negro escravo que ascendeu ao ápice da nossa sociedade, assim como o zulu e o padre em outras Nações. A tendência (a minha inclusive, confesso) é colocar Mendes ao lado dos que gastam nosso dinheiro com passagens aéreas com seus amigos e em Barbosa vemos um herói, que se libertou do jugo da escravidão e que levanta a voz contra seu algoz, mesmo que ambos estejam – aparentemente – na mesma posição social e profissional.

Na sessão de ontem, a discussão começou quando Mendes, durante julgamento sobre a previdência pública no Paraná, indagou o fato de Barbosa ter questionado uma suposta ’sonegação de informações’ sobre o caso. Barbosa atacou Mendes e disse que o presidente ‘destrói a credibilidade do Judiciário brasileiro’ e que só se preocupa em aparecer em jornais, revistas e televisões. ‘Vossa Excelência não tem condição de dar lição a ninguém’, disparou Mendes. ‘E nem Vossa Excelência. Vossa Excelência me respeite. Vossa Excelência não tem condição alguma. Vossa Excelência está destruindo a Justiça deste país e vem agora dar lição de moral em mim? Vossa Excelência não está falando com os seus capangas do Mato Grosso, ministro Gilmar. Respeite!’, rebateu Barbosa.

O padre paraguaio, o zulu e os juízes brigões são seres humanos, capazes de cometer erros, como todos nós.. Só que em uma situação típica de acomodação (“eu votei para que alguém faça o trabalho por mim e então ele tem que ser cobrado pois recebe por isso) com indignação (“mas ele está ganhando para ser honesto”), como fica o papel do público, do eleitor? Como você se sente? Melhor ou igual aos seus pares?

Graças a Deus vivemos a transparência das ações humanas, falhas. Agradeço por isso, agradeço de coração, por poder escrever sobre isso, ainda mais porque cresci em uma ditadura da qual não podia se discordar.

OS CLÁSSICOS SUBESTIMADOS DO SÍNDICO
27 fev, 2009 por Carlos Lopes

 

Manueeeel!!! O maior homem do mundo, homem sábio e profundo, semeou conhecimento...

Manueeeel!!! O maior homem do mundo, homem sábio e profundo, semeou conhecimento...

 

“Este país não pode dar certo. Aqui prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme e traficante se vicia”
“Não saio com mulheres famosas pois não pago acima da tabela”
“Tudo é tudo e nada é nada”
“Passou de branco, preto é. Não existe esse negócio de mulato. Mulato para mim é cor de mula”
“Gosto de cantar com sentimentos. Se você não transmitir sentimento, não atinge ninguém”
“Os meus cachorros são os meus melhores amigos”

 

 

O “Tim Maia Racional” de 1975 é venerado como uma das maiores jóias do nosso cancioneiro, assim como o retorno dos Mutantes, bancado pelos gringos e não pela mídia nacional. A diferença é que apesar dos Mutantes serem mortos vivos, ainda assim estão mais vivos do que o Tim que só pode olhar mesmo de cima e pedir a Deus que aumente os graves e melhore o som. Mas o intuito desse texto é desmistificar o lugar-comum, que afirma que somente os “Racionais” são discos dignos de culto. Nada mais longe da verdade.

 

Leia em http://www.omartelo.com/omartelo2/materia4.html

 

Entrevista com Gerson King Combo
27 fev, 2009 por Carlos Lopes

 LEIA em  http://www.omartelo.com/omartelo7/entrevista4.html

 

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Durante a ditadura nos anos 70 e apesar de toda repressão, os jovens só queriam viver como jovens, curtir um som, vestir as roupas mais legais, ganhar a menina do baile. Esse processo ocorre com todas as classes sociais e não poderia ser diferente em nenhum outro lugar. As comunidades negras influenciadas pelo som do mestre James Brown deram início a um movimento que transformou o “I´m Black And I´m Proud” em uma versão nacional do orgulho negro. A música foi o veículo mais utilizado, bem mais do que a política. O movimento Black Rio teve entre seus expoentes um ex-dançarino chamado Rodrigues Cortes ou Gerson King Combo, que após rodar muito (inclusive como vocalista de apoio do Wilson Simonal) teve a chance de registrar em seu primeiro LP solo em 1977 uma pérola chamada “Mandamentos Black” onde dizia que um black de verdade deveria “amar como ama um black”. A partir daí veio o sucesso, o carrão e as roupas vistosas mas tudo isso acabou em pouco tempo. Alijado do mercado, voltou à obscuridade. Muitos anos depois reapareceu do nada em uma participação na banda Clave de Soul na finada casa Ballroom no bairro do Humaitá no Rio em 14 de setembro de 1998. Após trocarmos umas figurinhas, marcamos a entrevista que durou 4 horas. Mas só me dei por vencido, quando o próprio Gerson me pediu um intervalo para participar de um churrasco com os vizinhos.

 

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