“A gente pode não mudar a TV brasileira, mas a gente vai tentar”, foi a última frase do apresentador Marcos Mion ao término do primeiro programa mezzo jornalismo jovem, mezzo humor apimentado com crítica social antenada, mezzo programa de auditório. Visivelmente animado, e talvez aliviado por ter estreado, o apresentador sabe que hoje fez a diferença na modorrenta TV aberta brasileira. Por isso, e se possível, que tenha vida longa, mas que venha para mudar e não para manter o continuísmo tão ao gosto da audiência média cansada.
Mion Man
O grupo de “Legendários” comandados por Mion inclui o seu clone mudo, João Gordo e “os” Hermes e Renato”s”. Por questões contratuais, “os” H. e R. não podem fazer uso dos seus personagens patenteados pela antiga emissora, que não teve o nome mencionado na nova atração – quiçá, uma boa estratégia de marketing. Farpas para a MTV saíram pelos poros para acertar o alvo, mas como se diz, a fila anda. A antiga emissora já contratou um novo grupo de humoristas e a vida prossegue, sendo que a MTV não tem a verba da Record, que por sinal, não esconde o seu grande objetivo, que é arrancar a Globo do mapa, e impor um novo tipo de imperialismo, o da audiência com objetivos religiosos.
Há uma dicotomia curiosa que rola há bastante tempo entre as duas maiores emissoras do país, ambas com qualidades e defeitos. Se a Globo nasceu de algum acordo escuso com a Time Life e por tabela, com o imperialismo norte-americano, isso já acabou, são águas passadas, pois a Globo fez mais pela cultura desse país do que todos os governos civis. A Record também não esconde que pretende alcançar a presidência da República, como a mesma Globo fez ao seu modo, quando apoiou Fernando Collor para liderar a nação, contra o ainda muito nordestino “sapo barbudo”. Enfim, eles que são brancos que se entendam, eu quero é ver TV e de preferência, de qualidade.
Se uma coisa realmente me incomodou foi o formato de auditório, e a anaconda utilização do sexismo com dançarinas fazendo chifrinhos com as mãos. Imagino o quanto deve ter custado de debates e divergências nas reuniões de produção, para inserir tantas possibilidades dentro de um formato que pudesse ser assistido pela média da audiência. Mas essa opção, dançarinas do capeta, os aproxima dos Brothers e do Pânico, quando deveria afastá-los para crescer com independência e com um rosto realmente novo para informar e fazer rir com leveza e graça. Claro, que entendo a motivação e os lógicos argumentos para a inclusão dessas moças: a audiência masculina, mas se houvesse justiça na TV, incluiríam homens igualmente seminus e rebolativos. Mas deixando esse assunto de lado, o melhor do programa é a boa quantidade de matérias críticas como racismo e preservação do meio-ambiente. Os acertos serão feitos com o tempo e rezo para que cheguem a um consenso e que esse consenso traga à bojo a tal e desejada audiência.
Legionários, sejam bem-vindos, desde que seja pelo não continuísmo, mas para que muitos como eu não continuem acreditando que faleceremos vendo a TV brasileira aberta, mais covarde do que já é. Derrubem os muros, façam o possível, pois a tal da fila anda.
E verdade seja dita, esta não é apenas uma análise sobre televisão, mas sim uma análise política, pois tudo na vida é política, inclusive o que você ouve ou assiste.
“Na realidade a sucessão de obras é para fazer inteligível o que eu sou. Eu passo a me conhecer através do que faço. Que na realidade não sei o que sou. Porque se é invenção eu não posso saber. Se já soubesse o que seriam essas coisas não seria mais invenção. A existência delas é que possibilita a ‘concreção’ “
(Helio Oiticica)
1968 - Caetano e Parangolé de Hélio
Esse sábado certamente não amanheceu como outro qualquer, não porque há uma chuva ácida em andamento e nem porque criminosos do Morro dos Macacos na zona norte do Rio derrubaram um helicóptero da polícia.
O sábado havia começado bem ao receber a mensagem de uma amiga que está na França: “Resolvi que não vou mais entrar em museu até segunda, senão não faço outra coisa. Obs: museu de país que valoriza cultura é uma felicidade sem fim.”
Meu semblante mudou e logo depois liguei a TV.
Ingênuo que sou, coitado de mim.
Como se não bastasse o desprazer de ver um helicóptero queimado e dois policiais mortos, uma outra notícia incendiária derrubou meu sábado: o acervo de um dos fundadores do neoconcretismo, o artista Hélio Oiticica, falecido em 1980, que se queimou entre sexta e sábado. Se fossem perdidos “meia dúzia de objetos”, a perda já seria irreparável, mas o problema é que simplesmente perdeu-se 90% das obras do artista que não estavam seguradas, um prejuízo calculado em 200 milhôes de dólares. Só se salvaram CDs e arquivos de computador. E lá se foram todos os parangolés. Queimou-se o Tropicalismo, a idéia do Brasil novo, a possibilidade do inédito, do eterno velho Brasil renovado. Fica a lição: as chamas da ignorância destroem, mas não podem vencer. Jamais.
O acervo do artista, guardado no primeiro andar da casa da família no bairro do Jardim Botânico no Rio de Janeiro, se perdeu enquanto seus parentes, que estavam no segundo andar, sentiram um forte cheiro de queimado.
Hélio em forma de Arte
O pior dessa história é que a prefeitura teve um longo entrevero com a família pela posse e preservação das obras. Em 1981, foi criado sob responsabilidade da família, o Projeto Hélio Oiticica. Em 1996, a secretaria municipal de artes do Rio de Janeiro fundou um centro de artes para abrigar todo o acervo, mas brigas entre a família e o governo por causa de (não) pagamentos azedaram o diálogo. Em abril de 2009, os herdeiros de Hélio suspenderam uma exposição, alegando falta de pagamento, que foi regularizado, mas a família não devolveu a maior parte das obras, que estava na reserva técnica do Projeto Hélio Oiticica, que segundo eles, possuía as condições necessárias para a preservação das obras, as mesmas que foram queimadas ontem, seis meses após a contenda.
Jandira Feghali, a secretária de cultura lamentou a perda, mas declarou que a prefeitura lutou pelas obras. César, o irmão de Oiticica que se dedicou a proteger a obra do irmão, declarou emocionado que assume sua falha, apesar da sala na qual ocorreu a tragédia, ter controle de umidade e temperatura.
Para variar, quem perde é o Brasil, quem perde é a arte mundial.
Sábado, 7 e meia da noite. Tinha acabado de chegar na cidade, cheio de coisas para fazer, mas soube que um artista americano havia criado uma obra chamada “UFO” e que a exporia à noite. Provavelmente como o nome mencionava, a peça artística voaria. Sem pensar duas vezes, decidi ser lúdico e busquei meu pote no final do arco-íris em forma de disco-voador-artístico.
Fui para a praia. Toda a orla do bairro estava tomada de gente de todas as matizes, curiosos, casais, velhinhos e cachorros. Muitos perguntavam: “O que vai acontecer?” “Quem viver verá!” Centenas de câmeras digitais esperavam a hora do ataque ou da invasão para registrar a sensação coletiva de ser contactado. Tudo era ansiedade e festa fora da hora.
Um pouco depois das 8 da noite, o ruído abafado de um helicóptero mimetizado na noite trouxe um grande disco de 7 metros sob si, que surgiu como uma deusa, primeiro como um feixe horizontal azul seguido por 2 outras luzes em formação traingular. As crianças gritavam com toda a esperança que lhes é peculiar: “Eu sabia que eles são reais!” Aplausos ecoaram por toda a praia. Cada vez mais perto, o disco dava as boas vindas aos moradores deste planeta impulsionado por uma valsa de luzes coloridas e formações carnavalescas em forma de luzes digitais. Foi um espetáculo bonito, mágico, que evocou uma mágica possibilidade, de sermos contactados, como se os UFOS reais passassem em carreata na orla da praia, para alimentar sonhos de gentileza, pureza e amor intergaláctico. O disco, simpático mas pequeno, não conseguiu manter a atenção de alguns, mais acostumados com os gigantescos carros-alegóricos do carnaval, que abusam de requintes hollywoodianos. Esse disco-amigo não veio para concorrer com a Mangueira, apesar do verde rosa que emanava do seu corpo circular, mas para talvez nos lembrar que a vida pode sim, ser vivida com esperança e amor.
Nada mais justo. Obrigado disco amigo por trazer mais alegria a todos nós.
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