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Adeus Oiticica, a Queimada da Cultura Brasileira
17 out, 2009 por Carlos Lopes

“Na realidade a sucessão de obras é para fazer inteligível o que eu sou. Eu passo a me conhecer através do que faço. Que na realidade  não sei o que sou. Porque se é invenção eu não posso saber. Se já soubesse o que seriam essas coisas não seria mais invenção. A existência delas é que possibilita a ‘concreção’ “

(Helio Oiticica)

1968 - Caetano e Parangolé de Hélio

1968 - Caetano e Parangolé de Hélio

Esse sábado certamente não amanheceu como outro qualquer, não porque há uma chuva ácida em andamento e nem porque criminosos do Morro dos Macacos na zona norte do Rio derrubaram um helicóptero da polícia.

O sábado havia começado bem ao receber a mensagem de uma amiga que está na França: “Resolvi que não vou mais entrar em museu até segunda, senão não faço outra coisa. Obs: museu de país que valoriza cultura é uma felicidade sem fim.”

Meu semblante mudou e logo depois liguei a TV.

Ingênuo que sou, coitado de mim.

Como se não bastasse o desprazer de ver um helicóptero queimado e dois policiais mortos, uma outra notícia incendiária derrubou meu sábado: o acervo de um dos fundadores do neoconcretismo, o artista Hélio Oiticica, falecido em 1980, que se queimou entre sexta e sábado.  Se fossem perdidos “meia dúzia de objetos”, a perda já seria irreparável, mas o problema é que simplesmente perdeu-se 90% das obras do artista que não estavam seguradas, um prejuízo calculado em 200 milhôes de dólares. Só se salvaram CDs e arquivos de computador. E lá se foram todos os parangolés. Queimou-se o Tropicalismo, a idéia do Brasil novo, a possibilidade do inédito, do eterno velho Brasil renovado. Fica a lição: as chamas da ignorância destroem, mas não podem vencer. Jamais.

O acervo do artista, guardado no primeiro andar da casa da família no bairro do Jardim Botânico no Rio de Janeiro, se perdeu enquanto seus parentes, que estavam no segundo andar, sentiram um forte cheiro de queimado.

Hélio em forma de Arte

Hélio em forma de Arte

O pior dessa história é que a prefeitura teve um longo entrevero com a família pela posse e preservação das obras.  Em 1981, foi criado sob responsabilidade da família, o Projeto Hélio Oiticica. Em 1996, a secretaria municipal de artes do Rio de Janeiro fundou um centro de artes para abrigar todo o acervo, mas brigas entre a família e o governo por causa de (não) pagamentos azedaram o diálogo. Em abril de 2009, os herdeiros de Hélio suspenderam uma exposição, alegando falta de pagamento, que foi regularizado, mas a família não devolveu a maior parte das obras, que estava na reserva técnica do Projeto Hélio Oiticica, que segundo eles, possuía as condições necessárias para a preservação das obras, as mesmas que foram queimadas ontem, seis meses após a contenda.

Jandira Feghali, a secretária de cultura lamentou a perda, mas declarou que a prefeitura lutou pelas obras. César, o irmão de Oiticica que se dedicou a proteger a obra do irmão, declarou emocionado que assume sua falha, apesar da sala na qual ocorreu a tragédia, ter controle de umidade e temperatura.

Para variar, quem perde é o Brasil, quem perde é a arte mundial.

Disco Voador, eu estou aqui!
25 mai, 2009 por Carlos Lopes

Sábado, 7 e meia da noite. Tinha acabado de chegar na cidade, cheio de coisas para fazer, mas soube que um artista americano havia criado uma obra chamada “UFO” e que a exporia à noite. Provavelmente como o nome mencionava, a peça artística voaria. Sem pensar duas vezes, decidi ser lúdico e busquei meu pote no final do arco-íris em forma de disco-voador-artístico.

Fui para a praia. Toda a orla do bairro estava tomada de gente de todas as matizes, curiosos, casais, velhinhos e cachorros. Muitos perguntavam: “O que vai acontecer?” “Quem viver verá!” Centenas de câmeras digitais esperavam a hora do ataque ou da invasão para registrar a sensação coletiva de ser contactado. Tudo era ansiedade e festa fora da hora.

Um pouco depois das 8 da noite, o ruído abafado de um helicóptero mimetizado na noite trouxe um grande disco de 7 metros sob si, que surgiu como uma deusa, primeiro como um feixe horizontal azul seguido por 2 outras luzes em formação traingular. As crianças gritavam com toda a esperança que lhes é peculiar: “Eu sabia que eles são reais!” Aplausos ecoaram por toda a praia. Cada vez mais perto, o disco dava as boas vindas aos moradores deste planeta impulsionado por uma valsa de luzes coloridas e formações carnavalescas em forma de luzes digitais. Foi um espetáculo bonito, mágico, que evocou uma mágica possibilidade, de sermos contactados, como se os UFOS reais passassem em carreata na orla da praia, para alimentar sonhos de gentileza, pureza e amor intergaláctico. O disco, simpático mas pequeno, não conseguiu manter a atenção de alguns, mais acostumados com os gigantescos carros-alegóricos do carnaval, que abusam de requintes hollywoodianos. Esse disco-amigo não veio para concorrer com a Mangueira, apesar do verde rosa que emanava do seu corpo circular, mas para talvez nos lembrar que a vida pode sim, ser vivida com esperança e amor.

Nada mais justo. Obrigado disco amigo por trazer mais alegria a todos nós.

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