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Dalva e Herivelto
9 jan, 2010 por Carlos Lopes
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Trio de Ouro

Em janeiro, a Globo exibiu uma minissérie irretocável em 5 episódios: “Dalva e Herivelto: Uma Canção de Amor”. Feita com requintes cinematográficos, e até mesmo melhor do que vários filmes nacionais produzidos para a telona, a série encantou pelo talento da direção, do texto e dos atores, destacando a melhor atuação da carreira de Adriana Esteves como a sofrida cantora Dalva de Oliveira.

Desce criança acompanho as adaptações dos clássicos de nossa literatura feitas pela Globo, que tantas vezes mudou de diretores e atores, mas que continua sendo a única emissora brasileira capaz de transformar televisão em arte. Inclusive espero que a emissora exiba mais adaptações à noite, dando o devido espaço a produtos verdadeiramente artísticos. O horário impróprio, a famosa hora de dormir para quem desperta as 6 da manhã, não favorece que a maioria dos trabalhadores possa assistir produções desse porte, mas se o mercado não permite que grandes obras sejam exibidas mais cedo, que seja lançado urgentemente o DVD da série em magazines populares para que todos possam vê-la.

O Passado Ronda

O Passado Ronda

A história do amor e da famosa separação do casal Dalva de Oliveira e do seu “criador” , o compositor Herivelto Martins foi contada em livro por um dos filhos dessa união, o cantor Pery Ribeiro. O relato é emocionante e foi devidamente adaptado para que não se perdesse a intenção da obra: falar sobre o falho amor humano e relembrar ou lembrar ao público atual que não existe só música pop e que artistas nascem, crescem e morrem como se não existissem, como se não tivessem importância quando saem de moda ou envelhecem. Uma das cenas mais tocantes da história mostra Dalva, já idosa, ainda procurando um amor (apesar de saber que o mulherengo Herivelto foi o único) cantando em churrascarias e circos para sobreviver.

Lembro de assistir com minha mãe à Dalva, com cabelos embranquecidos, cantando na TV Tupi com o filho Pery, ainda com imagem em preto e branco e TV com válvulas G & E. Às vezes minha mãe tentava contar algo sobre a tortuosa relação da cantora com Herivelto. Mas eu era uma criança que nem havia dado um beijo na boca, eu não poderia entender o que é sofrer por amor. Ainda era cedo para mim. Mais tarde viveria a mesma situação e então saberia como é amar sem ser amado, ser amigo de uma pessoa que não é sua amiga. A gente cai, mas aprende ou pelo menos acha que aprende. Certa vez ela me disse que ia à Rádio Nacional, no prédio na Praça Mauá no Rio, para ver as favoritas Marlene e Emilinha. Eram tempos antes da Bossa Nova e do Rock and Roll, tempos de um Brasil menos internacionalizado e mais ingênuo em um mundo mais ingênuo. Cresci ouvindo os sambas e boleros dos LPs dos meus pais, que incluíam Miltinho, Nelson Gonçalves, Clementina de Jesus e Elizeth Cardoso. Por mais que eu não gostasse ou não entendesse esse estilo musical na época, a ficha acabou caindo mais tarde, há alguns anos. Hoje ouço o que meus pais escutavam com imenso prazer. Respeito a nossa música e na minha casa, samba e rock convivem muito bem tropicalísiticamente.

Se há uma única falha foi a divulgação que comparou o casal brasileiro a Sid (dos Sex Pistols) e Nancy. Uma comparação desonrosa e submissa, que propõe indiretamente que para se conhecer o Brasil é necessário antes compará-lo com o que vem do exterior. Ora, me poupe, me economize.

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Fábio Assunção e Adriana Esteves

“A gente falou e pensou muito sobre o amor com esse trabalho. Dalva falava que o que ela tinha de mais importante, de tudo que ela viveu, foi por causa do amor, ou pela falta dele. O amor ficou muito forte em mim durante esse período. E um amor que estava diretamente direcionado a mim, estava na minha cara todos os dias, era meu amor por ele [Fábio]. E o amor que ele transmitia por mim. Ele me emocionava a cada dia com a presença, companheirismo, entrega. Aquilo foi uma das formas de amor que ficou mais clara na minha vida. Esse trabalho solidifica nossa vida e trajetória. É um caminho não só pessoal, mas profissional também. Temos o mesmo tempo de profissão, e, eventualmente, trabalhamos juntos. Foi um presente esse romance desse casal para selar nossa parceria pessoal e profissional” Adriana Esteves em depoimento à Famosidades.

Justiça Brasileira para Todos
21 mai, 2009 por Carlos Lopes
Nos fazem de palhaços

Nos fazem de palhaços

Há algumas semanas escrevi sobre o bate-boca no STF, o que me fez refletir (mais um pouco) sobre as classes dirigentes. Logo depois da escaramuça no Supremo tivemos a declaração estonteante do deputado federal Sérgio Moraes (PTB – RS) que dispensou o cargo de relator do caso do deputado Edmar Moreira (Sem partido – MG), acusado de uso irregular de verba indenizatória. Moraes perdeu a função após dizer que o colega era “boi de piranha” e que ele mesmo estava “se lixando para a opinião pública”. Vê-se que não dar a mínima para a opinião pública nunca foi exclusividade dos ditadores, muito pelo contrário. Nós, do outro lado do muro, ficamos tão anestesiados, tão cansados de tanta displicência e desrespeito conosco, que o primeiro ímpeto é desligar a TV, não ler notícias e não fazer mais nada. Mas as notícias entram em nossas vidas por osmose ou pelas manchetes de jornais espalhados pelas bancas. Então o que nos resta é separar o joio do trigo e gastar nossa energia com algo útil e digno, seja para a mente e para a alma.

O assunto da justiça brasileira nunca se esgota e os exemplos que escolhi mostram o ridículo da situação a começar pelo mais absurdo detodosm, que vi na TV e cuja matéria incluí com o texto.

Celestino, a cara do Brasil que é punido exemplarmente pela Justiça Cega

Celestino, a cara do Brasil que é punido exemplarmente pela Justiça Cega

O sapateiro aposentado Celestino Eugênio da Silva de 78 anos passou seis dias preso por um crime que aconteceu há 42 anos. Ele era acusado de homicídio, mas nunca teve a prisão decretada nem foi a julgamento. O mandado de prisão de 1999 levou uma década para ser cumprido entre atrasos e trâmites burocráticos, acreditem se quiser e o tal crime foi praticado há 42 anos, em 1967. Celestino foi solto ontem, após um alvará de soltura, que determinou a extinção do processo porque o prazo para o julgamento do crime foi prescrito.

E só houve esse caso no Brasil, o país da Justiça e dos justos? Fazendo uma pequena pesquisa encontrei vários, mas destaco esses dois:

Um portador de deficiência intelectual ficou preso injustamente por seis anos em Extrema, Minas Gerais. O homem foi parar por engano na cadeia em março de 2003, acusado de morte de um homem a pauladas. Natural de Pernambuco, ele foi confundido com o verdadeiro autor do crime, que também era pernambucano, e morreu em 2005. Os dois tinham nomes parecidos. Quando foi preso, o homem não estava com documentos. Como havia um mandato de prisão contra o criminoso, que tinha o nome semelhante, a polícia e a Justiça acharam que tinham prendido o homem certo. Há alguns meses, depois que ele fez tratamento de saúde, um policial desconfiou do engano e comunicou a Defensoria Pública.

Em 2008, Júlio Eglesias Soares recuperou a liberdade em Mato Grosso após permanecer um ano e seis meses preso por um crime que não cometeu. Soares foi preso e condenado no lugar do irmão, que assaltara uma agência bancária no interior do Estado em 2003 e dera o nome do próprio irmão para a polícia. A Defensoria Pública pediu revisão do processo assim que soube do caso.

Por essas e outras meus amigos e amigas, abram o olho porque não basta pagar as contas, impostos e cumprir suas obrigações. Saiba que a sua palavra parece que nada vale em um país com gente que se lixa para a opinião pública e que é regido por uma justiça modorrenta e várias vezes injusta. Somos todos personagens de um livro do Kafka.

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