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O BRASIL DO SUCESSO TRAIU O GOLEIRO BRUNO
12 jul, 2010 por Carlos Lopes

A cara do Brasil

A cara do Brasil

Este texto é um desabafo.

Muito se fala sobre o caso do goleiro Bruno e o assassinato da jovem Eliza Samudio. Pouco se fala sobre o fato dela ter usado o jogador, que também a usou para logo depois jogar fora como se fosse uma laranja chupada. Eliza era uma garora de programa e por isso merecia ser punida? Era uma Maria Chuteira que deveria ter sido morta? Era uma garota ambiciosa que usou a fraqueza de caráter de um deslumbrado, como ela,  para praticar mais maldades?

Todas as respostas estão corretas, mas há uma questão que não tem sido debatida.

Por quê?

Fácil de compreender.

Como botafoguense, torci pelo Uruguai na Copa e nem tanto pelo Brasil pois eu não me senti representado pelo Robinho, Kaká, Felipe Melo etc. Não sou menos brasileiro por causa disso pois amo música brasileira, amo a nossa mestiçagem, adoro praia, manifestações folclóricas e não conheço nada da vida uruguaia além da guerra do Paraguai e afins. Foi uma escolha do coração pois me senti mais botafoguense (Loco Abreu) do que “brasileiro”. Sempre tive problemas com o Bruno, goleiro do Flamengo enquanto jogador (nos tirou de 2 finais no último jogo agarrando penâltis mal cobrados pelo Botafogo) mas quando ele defendeu o Adriano no caso do pau na mulher-encrenca e depois pelo seu comportamento na história da orgia, vi que era hipocrisia braba e que os fãs, os jornalistas, a imprensa, o time, os brasileiros enfim, todos se negaram a ver os fatos como eram: o BRUNO culpado ou não é A PRÓPRIA CARA DE UM CERTO BRASIL.

Santa? Ou candidata a BBB da vida Real?
Santa? Ou candidata a BBB da vida Real?

Eu vejo o Bruno como um espelho da maioria dos garotões, dos carreiristas (homens e mulheres, ricos e pobres), dos arrumadores de confusão, dos super-homens, dos ególatras, dos que se acham o máximo, dos que adoram o jeitinho brasileiro, dos que não são honestos, dos que falam uma coisa e fazem outra, dos que não se manifestam para não perderem oportunidades.

Engraçado, o que mais ouço de “homem” é que o negócio é “pegar mulher”…

E muita gente que conheço me desencantou (em função da minha própria ingenuidade, assumo) por serem corruptos, mentirosos e hipócritas e por apontarem o dedo para mim, covardes até para assumir suas deficiências.

O que mais ouço de todos é que o que vale na vida é o status, a inveja que você desperta nos outros, o seu poder na sociedade, hoje muito resumida ao status de ter pertencido a um BBB. O que a Eliza faria na vida se não tivesse corrido atrás de vários jogadores? Teria ido para o BBB ou teria que trabalhar!

Qual é a diferença do Bruno para todo esse pessoal? O que difere a forma de pensar do goleiro da maioria? Só por que ele matou e os outros não? Quer dizer que tem que matar, tem que ser pego em falso, para ser condenado? Se fizer o que fizer entre quatro paredes e não acontecer nada, está tudo bem?

Crucificam o Bruno não só porque ele é o mandante de um assassinato, MAS PORQUE ELE É O BRASIL QUE NÃO QUER SE VER, QUE NÃO SE ACEITA, DO BRASIL MENTIROSO, DO BRASIL DO STATUS, DA MÍDIA, DO MARKETING, DO MBA.

CRUCIFICAM UM CRISTO PARA POUPAREM OS FARISEUS.

COMO O BRUNO, VÁRIOS TRAEM AS ESPOSAS, TEM CASOS, SE DROGAM, MENTEM PARA CRESCER NA PROFISSÃO E COMO MACHOS QUE SÃO, SE RELACIONAM COM GAROTAS DE PROGRAMA. E É CLARO, NÃO PODEMOS ESQUECER DAS ALINHADAS ESPOSAS QUE CASAM PELA BOLSA -FAMÍLIA DO MARIDO! POR QUE ELAS NÃO PODEM SER CHAMADAS DE PROSTITUTAS DE LUXO? SÓ PORQUE APARECEM NA IMPRENSA COMO BEM SUCEDIDAS DAMAS DA SOCIEDADE? Desculpem, se ofendi as prostitutas, que pelo menos assumem que são.

A seleção brasileira perdedora, recebida com frieza pelos patrícios, diferentemente da argentina que foi amada e compreendida na derrota, mostra bem como MUITOS brasileiros são. Os jogadores eram a cara do chefe, o Dunga, estivesse ele certo ou errado, não importa, eles vestiram a camisa e foram a extensão do mandante. O Brasil jogou de salto alto, com jogadores machucados, egóicos, mas mesmo assim SOB a força da hipnose coletiva e da massificação, nos impuseram a vontade de VENCER SEM ESTAREM CERTOS, SEM DAREM A MÌNIMA PARA A REALIDADE. Isso sim me incomodou… Além disso, a seleção tinha uma vibração péssima.

O Brasil perdeu porque dizem “não foi Brasil” mas foi sim, eu afirmo o contrário: PERDEU PORQUE FOI BRASIL, mas não o MEU Brasil, o Brasil que jogou foi o mesmo do BRUNO, desqualificado, despreparado, petulante, do “brasileiro que não admite perder pois nasceu para ganhar – de qualquer jeito”. Vão imolar apenas um para amanhã de manhã, quando servirem o café para nós dois, todos se sentirem mais limpos e dignos, como os cara-pintadas? Todo mundo sabe que a Argentina ganhou as Copas com esperteza além do futebol, todo mundo sabe do jogo com o Peru em 1978, da mão da bola (o Fabiano pode segundo o Galvão Bueno, porque é “nosso”!), do governo militar que causou a inglória guerra das Malvinas, da água benzida dada ao jogador brasileiro Branco, ato esse confessado pelo próprio Maradona na TV. Mas ninguém na Argentina, quer ver a verdade, assim como no Brasil. Se nossos problemas são semelhantes e nossa postura também, então por que condenar os hermanos e nos absolver? Sujos, todos somos. O Bruno é prova disso, além de sujos, somos covardes, pois imolamos o jogador para poupar a sociedade.

BRASIL COVARDE.

BRASIL COVARDE.

BRASIL COVARDE.

RENEGA O CRISTO TRÊS VEZES, ANTES DO GALO CANTAR.

A diferença é que a seleção perdeu e voltou rica para casa, mas o Bruno sempre ganhou na carreira, mas perdeu na vida, perdeu feio no que é verdadeiramente importante, se desfez, como muitos do que vem do coração, da alma.

Condenado pelos SRUS

Condenado pelos SEUS

Bruno, o pária social que ascendeu, é o representante maior não do Brasil de HOJE, mas do Brasil de sempre, da Senzala e da Casa Grande, do Itamaraty, de Antonio Conselheiro, de um país que vira as costas para o que é correto, o Brasil dos pós-graduados, dos engenheiros trabalhando como garis, dos advogados gananciosos e dos empregados que invejam os patrões, de Búzios e de Bangu, do Brasil dos coronéis, o Brasil da TV FAMA, do Brasil da violência, do Brasil do BBB. Bruno é o representante do DINHEIRO QUE CORROMPE A DIGNIDADE, da FAMA das telecelebridades, dos assessores de imprensa, do Futebol. Brunão é o cara mais querido pelos ricos, pobres e traficantes, MAS NÃO É O ÚNICO.

ESPERTO É O CARA QUE TRANSA COM A MULHER DO OUTRO, QUE TRAI O AMIGO, QUE DESVIA UMA GRANINHA, QUE DÁ UM DINHEIRINHO PARA O GUARDA, QUE SEMPRE SE DÁ BEM.

OTÁRIO É QUEM ESTÁ PRESO.

Bruno, você caiu no fosso da indignidade, não pela morte de uma atriz de filme pornô, por causa de uma carreirista, mas por causa da elite invejosa, por causa das garotas de programa que todos “pegam”, por causa da cocaína que todos cheiram, da bebida que todos bebem, da BRAHMA, do sexo com muitas mulheres fora do casamento, do status tão desejado, do país do “jeitinho”, da corrupção, da aparência.

Conteúdo para quê? Existe concurso público.

Sim, eu torci contra esse Brasil da Copa e contra o Brasil do Bruno, pois esse não é o meu mundo, não é a  minha turma. Eu detesto esse lixo, essa mentira ambulante, essa hipocrisia, essa cambada de covardes.

Campeão? Perdedor? Certo? Errado?
Campeão? Perdedor? Certo? Errado?

Falam de como a ditadura brasileira foi horrível, mas me digam, por que ninguém tocou nesse assunto durante a Copa, quando falavam da seleção de 70? Quando querem dar uma pernada em alguém, associar um sucesso a um mal maior, para prejudicar mesmo, associam sem refletir. O Dunga é mal porque só convocou soldados, porque não falava com a Imprensa. Ele é o mal. O Bruno era o máximo, antes da Eliza. Quando não querem não falam nada. Toda a imprensa sempre soube quem era o Bruno mas ele era o goleiro que “quase” foi convocado para a seleção, do time mais popular do país.

CONDENARAM O BRUNO À FORCA, NÃO PELO SEU CRIME MAS PELO CRIME DE TER EXPOSTO TODA UMA NAÇÃO, QUE VIA NELE O SEU REPRESENTANTE MAIOR DE CRESCIMENTO SOCIAL, DO CAPITÃO QUE ERGUEU A TAÇA DO EGO, DO CARA QUE VEIO DE BAIXO E QUE DEIXOU O POVO QUE PEGA TREM MAIS FELIZ, QUE DEIXOU O CHEIRADOR DA COBERTURA MAIS SATISFEITO.

QUEIMA-SE A OFERENDA PARA POUPAR A MAIORIA.

FERNANDO COLLOR SABE DISSO. COLLOR NUNCA FOI SANTO, ASSIM COMO O BRUNO, MAS NÃO ERA ASSASSINO (APESAR DE TER UMA HISTÓRIA FAMILIAR COM AJUSTE DE CONTAS NA BALA). O EX-PRESIDENTE FOI TRAÍDO PELOS SEUS, FOI TRAÍDO PELA SUA INOCÊNCIA, PELA SUA PETULÂNCIA.

BRUNO FOI TRAÍDO PELOS MESMOS COVARDES, QUE NÃO SÃO APENAS POLÍTICOS, FOI TRAÍDO PELA NAÇÃO DAS SOMBRAS, FOI TRAÍDO PELO BRASIL QUE CANTA E É FELIZ, PELA MÚSICA DA ELITE E PELO POP VAGABUNDO. BRASIL, EU GOSTO DE VOCÊ, QUERO CANTAR AO MUNDO INTEIRO A ALEGRIA DE SER BRASILEIRO, CANTE COMIGO BRUNÃO, A ALEGRIA DE SER BRASILEIRO.

TENHO VERGONHA DE FAZER PARTE DA “MASSA”, DO “VAMOS PULAR! VAMOS PULAR! VAMOS PULAR! VAMOS PULAR!”. NÃO SOU “PÃO” DE MANOBRA, NÃO VÃO ME “AVATAR”. EU SOU BRASILEIRO TAMBÉM E TENHO ORGULHO DE AMAR O MEU PAÍS, MAS NÃO AMO O SEU PAÍS!

O BRUNO É O BRASIL QUE NÃO SE ASSUME: BRUNO É A MAIORIA.

Bonecos da Hipocrisia
Bonecos da Hipocrisia
O ADEUS DE EZEQUIEL NEVES, O EXAGERADO
8 jul, 2010 por Carlos Lopes

Ezequiel Neves, um dos mestres da escrita roqueira se foi deste mundo aos 74 anos,  em 7 de julho de 2010, curiosamente no mesmo dia em que Cazuza decidiu partir desse mar de lágrimas para o paraíso dos grandes poetas brasileiros, há vinte anos.  Que coisa… Sincronicidade braba.

Ezequiel era produtor (do Barão Vermelho, primeira casa de Cazuza), jornalista e artista barroco, que tão bem soube desprezar o mundo que ele considerava “careta” ao se expressar através de mil firulas linguísticas em resenhas que muito me encantaram na fina flor da idade. E assim 20 anos após Cazuza, a sua grande “criação”, o seu autorretrato, Ezequiel pediu asilo da materialidade, pegou a mochila e embarcou para outra galáxia ao som dos Rolling Stones. Tal “pai”, tal “filho”, o exagerado codinome do beija-flor de Ipanema nos deu adeus.

Sincronicidade amorosa
Sincronicidade amorosa

A última vez que o vi pessoalmente foi na pré-estreia do filme Shine a Light dos Rolling Stones, acho que em 2007 e ele lá, batendo um papo com Jamari França, outra criatura pensante gerada das páginas de leitores da Rolling Stone brasileira, que Ezequiel coeditou em versão pirata nos anos 70. Aquela cena no cinema me fez recordar de muita coisa, do meu primeiro LP de rock e é claro, da primeira publicação de rock que adquiri com minhas parcas economias, lá com meus 12 anos: “Rock: A História e A Glória”, uma revista preto e branca com 24 ricas páginas, escrita por quem havia de melhor na nossa imprensa: Tárik de Souza, Ana Maria Baiana e Ezequiel Neves, o último, o enfant  terrible da crítica roqueira, o sétimo Rolling Stone, o eterno Barão Vermelho, o insaciável Dionísio.

Não há como relatar aos amigos e leitores, toda a admiração que tenho e continuarei a ter por esse personagem que me educou nos meandros da crítica, não como um mestre presente, mas como todo bom rebelde, como um mestre ausente fisicamente, mas presente em cada edição da minha querida revista preto e branca, na mesma época em que me arrisquei a  comprar a revista bicolor (ou tricolor) do Fradim, escrita pelo cartunista Henfil, que me proporcionou vários arrepios com as histórias daquele frade perversamente lascivo. Assim era Ezequiel, chegado a nos dar arrepios. A banca de jornais me parecia mais livre do que a minha casa, na época da “ditacuja”.

Pelado, Pelado, Nu Com A Mão No Bolso
Pelado, Pelado, Nu Com A Mão No Bolso

Com sua escrita insatisfeita misturada com inglês debochado e coluna social, Ezequiel influenciou uma legião de fãs, que se tornaram críticos musicais, a partir dos anos 80. Eu mesmo, segui adiante com minhas próprias pernas e coragem, mas certamente, entre os responsáveis pela fagulha inicial, aponto, sem dúvida o dedo para o seu “Zeca Jagger”, que depois na revista Pop de São Paulo, durante a eclosão punk em 1977, alterou a sua alcunha para “Zeca Rotten” além de outros codinomes e personas como “Zeca Zimmerman” e “Angela Dust”. Era muitos em um corpo. Todos, um só. Exagerado, jogado aos nossos pés. Nosso Lester Bangs de Belo Horizonte, ave lisérgica com asas esplêndidas que cobriam a luz do sol para que a nossa razão crítica planasse nas trevas do pensar. Razão da falta de razão.

Tudo o que fazemos, escrevemos ou compomos influencia alguém lá no outro lado do planeta, isso é fato. E ironia das ironias celestiais, fomos surpreendidos com a sincronicidade final que permitiu que Deus levasse Ezequiel, nome de anjo caído e elevado, na mesma data da pessoa que era como o seu próprio retrato de Dorian Gray, rejuvenescido.

Baron Rojo

Baron Rojo

Seu último trabalho foi o livro “Barão Vermelho – Por que a gente é assim?” lançado em 2008 e escrito com o baterista Guto Goffi e o jornalista Rodrigo Pinto.

Presto aqui, minha sincera homenagem reproduzindo trechos dos comentários do irrecuperável rebelde, a começar pelo primeiro texto que li, saído da pena do mestre:

“Com “Their Satanic Majesties Request”, os marginais do rock inglês conseguiram fazer um álbum surpreendente que, apesar de obedecer à mesma fórmula do show-contínuo já usado pelos Beatles em Sgt. Pepper´s, está mais ligado às experiências musicais de vanguarda (…) o resultado obtido aqui (…) alcança um clima de angustiante paroxismo.” (Jornal da Tarde, 21/10/69)

“…Basta, como eu, ouvir as centenas de lançamentos do jazz-rock ou jazz-elétrico lançados a partir de 1971 para se perceber que tudo não passa de uma descarada mentira.(…) Quando meto o pau em um Vitor Assis Brasil, todo mundo me chama de burro. Eu, burro? Mal informado é quem me chama de burro. Podiam é me chamar de macaco velho e portanto sábio em pular pra outros galhos (…) Genial é o meu guru Hermeto Paschoal, ele como Miles Davis, sabe o segredo da música do futuro. Porque o jazz-elétrico, my friends, já era.” (“Rock, A História e A Glória” 20)

“Apesar de seis LPs totalmente repulsivos, tiro o meu chapéu para Acquiring the Taste do Gentle Giant. Aqui a receita de misturar rock, jazz e música clássica deu em algo totalmente gênio.” (“Rock, A História e A Glória” 10)

“É impossível ouvir qualquer tempestade do Led Zeppelin sem a cabeça feita. E foi o que fiz para saborear Presence. E não aconselho aos incautos a fazerem o mesmo. Depois de ouvir os dois lados desse arrasa-quarteirão estava literalmente em frangalhos no chão. Não tinha forças nem para me levantar, nem para esboçar o mínimo gesto. Tinha impressão de que havia sido massacrado por dez marginais perigosíssimos.” (“Rock, A História e A Glória” 20)

“… a música, propriamente dita, do Wish You Were Here do Pink Floyd é uma bobagem. Mas isso é secundário, já que o Floyd está mesmo num beco sem saída. Depois do Atom Heart Mother, o som do quarteto virou uma encheção de lingüiça.” (“Rock, A História e A Glória” 11 – 6/10/75)

“Não há nenhum exagero em dizer que o Quadrophenia do The Who está para o rock, assim como o “Retrato do Artista Quando jovem” de James Joyce, está para a literatura inglesa.” (Jornal da Tarde, 7 de junho de 1974)

“Não há nada como um dia após o outro: o Beatle mais babaca acabou passando os outros para trás.” (Ezequiel sobre o LP Venus and Mars dos Wings na “Rock, A História e A Glória” 10)

Depois do império do Amor, agora foi a vez da seleção do Brasil cair, já foi tarde
5 jul, 2010 por Carlos Lopes
Destemperado

Destemperado

Na hora da queda só lembraram do Dunga, mas me diga com quem tu andas e te direis quem és. O Dunga na história da Branca de Neve não andava sozinho…

O Dunga não é o único culpado e nem os jogadores.

Vocês leram algo sobre o auxiliar-técnico Jorginho ter influenciado o Dunga sobre essa história de só convocar bom moço para a Copa? Alguém aí lembra que o mesmo indivíduo citado quis tirar o símbolo do América só porque era a representação de um diabo, o Brasinha?

Não tenho mais o que acrescentar após dezenas de ótimos textos rolando na imprensa oficial e oficiosa sobre a derrocada do Brasil. Só faço aqui uma observação sobre quando a questão religiosa (pessoal) interfere no trabalho coletivo.

Brasinha Pegando Fogo!

Brasinha Pegando Fogo!

Tenho minha religião ou minha filosofia de vida mas não vou explicá-la ou te empurrá-la goela abaixo se você não me permitir. Infelizmente, muitos evangélicos não pedem permissão, eles estão imbuídos de uma convicção cega, que muitas vezes é agressiva. Respeito é bom e eu gosto. Não me interessa esmiuçar o assunto, apontar o dedo para uma igreja ou outras, não estou aqui para isso, fiz a minha parte ao citar no último Martelo (19) tanto o espírita Chico Xavier, o criador da Conscienciologia Waldo Vieira e o pastor Caio Fábio. Tem para todos.

Soldados, À Batalha!

Soldados, À Batalha!

Um menino veio fazer um conserto aqui em casa e após conversarmos sobre alguns assuntos em geral, antes de ir embora, ele me falou que o caos vai tomar conta do Brasil se a lei que proíbe a discriminação contra os homossexuais passar. De onde veio esse assunto? Ele deve ter achado que eu era liberal demais ou homossexual demais. Meu amigo, nem um nem outro, mas também não vou na conversa alheia sem estudar o assunto. Discriminação é feio mesmo e a Sociedade como um todo tem que se preparar para conviver com as diferenças, o que a Sociedade do Dunga não quis fazer. Discriminação é uma coisa, Imposição é outra. As pessoas só respeitam o próximo, as diferenças se forem educadas para isso, mas quando usam, em vão, o nome de Deus para atacar o próximo, o fazem com convicção. Mas esse não é o único problema da sociedade, é o próprio ser humano. Conheço péssimas histórias sobre gente muito boa, expoentes em nossa sociedade, que nem são evangélicos. Apenas são gente como todos nós. O pastor incentiva o Segregacionismo, a televisão incentiva o Ego, os amantes só buscam parceiros estéticamente perfeitos, a mídia vende prostituição como se fosse Amor, o Dunga assina com uma cervejaria… A culpa não é só de um grupo, mas é geral, quando você não entende que há que se respeitar as diferenças. Isso não tem nada a ver com moral, com caráter. O diferente é diferente, não é um defeito genético, é uma escolha.

Um golpe de Estado é desferido em um governante que não tem mais condições morais para governar.
O golpe é errado, as vezes é necessário. Basta você pegar o livro e estudar, não vou citar exemplos sem poder esmiuçá-los, seria leviano.

Por que ninguém tirou o Dunga da seleção em 4 anos? Os milicos tiraram o Saldanha estrategicamente, antes do embarque e o Brasil ganhou. Não importa o Saldanha, importa a Vitória.

O que o Dunga, Jorginho e os outros discúpulos fizeram? Se fecharam em uma seita secreta como os nazistas e chegaram ao poder, não com um incêndio no parlamento, mas com o apoio da CBF…
Estranho, não é? Se você chegar todo dia em casa e achar que a sua filha está chorando muito, quem você vai culpar? A empregada, é claro. Mas se a sua filha for bem no colégio, você NÃO elogiará a empregada, não é? Aí será só mérito da sua filha. É a política do resultado. Os exemplos
escondem coisas ocultas e são apenas o que são: aparências ou a ponta do iceberg.

Ao mesmo tempo, semprei achei o Bruno goleiro um bobão, mas ele defendia bem e o Flamengo foi deixando passar. O Adriano é mais simpático, mas mentiu mesmo, não respeitou muita gente e foram deixando passar. Foi o Campeão Brasileiro da Falta de Moral.

Tem uma moda de adolescente na internet que é estuprar, você sabia? Mas na sua casa pode ter outra dessas modas: trair.

Existe essa tendência em todosfutebol_dunga nós de contar com resultados e de não querer esquentar a cabeça.
Quando o Dunga convocou os seus soldados, com sólida base moral, experiência e obediência ele tentou se precaver de problemas, do caos, mas como o próprio Jung cansou de alertar, o caos faz parte da vida.

Enfim, todo chefe tem o direito de ordenar a bagunça à sua maneira e Dunga teve a chance dele.

Com ou sem Escobar, que venha o próximo.

Uma observação final: Já pensaram o que vai ser se o Uruguai ganhar a Copa de 2014 no Maracanã?

O Império do Amor Caiu; Flamengo e o Imperador
18 abr, 2010 por Carlos Lopes

A vitória do Botafogo sobre o Flamengo representa bem mais do que a conquista do Campeonato Carioca de 2010 pelo grupo alvinegro. É uma vitoria íntima, que pode ser entendida como a vitória do bem contra o mal.

O Imperador

O Imperador

Muitos se erguem contra os desmandos da polícia, da política, contra o desmatamento, vários participaram da passeata no Rio contra a tunga do Pré-Sal, mas poucos lutam por valores mais nobres, pela família, e contra a descriminalização das drogas. Se você faz parte da elite intelectual, não é de bom tom, falar contra as drogas, pega mal. Alguns assuntos espinhosos são convenientemente esquecidos ou não priorizados. A maioria não quer lidar com a verdade, todos veem, mas preferem não enxergar. E a verdade não é algo popular, dá trabalho, cansa, e além disso não dá voto, não vende jornal, não dá audiência. Ao contrário, “amarrar mulher na árvore” é manchete certa.

Alguns dias após o incidente ocorrido entre a ex-noiva do jogador Adriano e o próprio, no qual “dizem” que o jogador teria amarrado a mulher na árvore para que ela sossegasse após uma crise de ciúmes, um jornal popular carioca publicou na primeira página a foto de uma modelo amarrada vocês sabem onde, com algum texto indicando que a última moda era amarrar mulher em árvore. Piada? Chacota? Não, é o império do amor.

A alcunha “Imperador” não lhe cabe como sinônimo para um governante esclarecido, equilibrado, porque na verdade seus súditos não o veem assim. Eles o idolatram como o todo poderoso que reina acima do bem e do mal, que tudo pode como se fosse um Nero déspota e louco. Ser “Imperador” não é apenas culpa de quem carrega o título, mas de todos os seus súditos, inclusive daqueles que compram o famoso papelote com a imagem do jogador estampada no pacotinho e acham graça. Isso sim é ser popular, tá nas bocas, tá nos narizes dessa gente feliz. O “imperador”, seja Nero, César, ou AdrianUS sempre é perdoado desde que forneça pão e circo ao povo em forma de gols, migalhas para os miseráveis que trafegam em trens lotados e que ganham uma miséria. Essa filosofia pessoal é suportada pelos torcedores e pelo clube no qual trabalha, e tida como uma coisa menor, excentricidade de uma celebridade milionária que encara a vida como “algo passageiro”. O ser supremo prega que “só vai trabalhar quando quer” e “bebo sim, tenho um problema, mas desejo melhorar”. É só lembrar do noticiário ligado à dupla de atacantes do “Império do Amor”, que não era dos mais familiares: amizade com traficantes armados, mulheres à beira de um ataque de nervos, alcoolismo, indisciplina, problemas pessoais, tudo isso encarado com muito carinho pelo clube, que oferta pequenas punições para satisfazer a opinião pública.

Quem não se lembra de outro jogador que foi denunciado por “brincar” com travestis em motel e cujo caso virou chacota, pois os travecos nem eram apresentáveis? E quando o presidente disse que o tal jogador estava gordinho? Sua resposta foi irritadiça, e ao invés de tratar da saúde em respeito aos torcedores, se referiu à cachaça que o comandante da nação costuma sorver.

Este texto não é uma crítica a um clube em especial, pois quem não ama o Andrade, o Zico e o Júnior?, mas é sim uma crítica frontal a uma forma de se levar a vida, que influencia jovens como se o único objetivo de alguém que sai de sua comunidade e que vence as dificuldades do seu meio ambiente é se tornar uma celebridade excêntrica.

E impérios humanos caem pois nada é eterno. As pessoas passam e as instituições ficam. Elas são eternas e sobrevivem a turbulências momentâneas. Não é porque se perde um campeonato que o mundo acaba, mas o campeonato acaba quando o clube passa a mão na cabeça de quem quer que seja, por causa de títulos, de fama, de poder.

Joel-Santana-Campeão-da-Taça-GB-2010

E antes que me esqueça, Joel Santana é um paizão, o time do Botafogo uma família e o ataque MERCOSUL, o símbolo da união do continente latino. Esses sim são valores respeitáveis.

Legendários na Rede Record será uma boa nova?
11 abr, 2010 por Carlos Lopes

TV_LOGO_LEGENDARIOS“A gente pode não mudar a TV brasileira, mas a gente vai tentar”, foi a última frase do apresentador Marcos Mion ao término do primeiro programa mezzo jornalismo jovem, mezzo humor apimentado com crítica social antenada, mezzo programa de auditório. Visivelmente animado, e talvez aliviado por ter estreado, o apresentador sabe que hoje fez a diferença na modorrenta TV aberta brasileira. Por isso, e se possível, que tenha vida longa, mas que venha para mudar e não para manter o continuísmo tão ao gosto da audiência média cansada.

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Mion Man

O grupo de “Legendários” comandados por Mion inclui o seu clone mudo, João Gordo e “os” Hermes e Renato”s”.  Por questões contratuais, “os” H. e R. não podem fazer uso dos seus personagens patenteados pela antiga emissora, que não teve o nome mencionado na nova atração – quiçá, uma boa estratégia de marketing. Farpas para a MTV saíram pelos poros para acertar o alvo, mas como se diz, a fila anda. A antiga emissora já contratou um novo grupo de humoristas e a vida prossegue, sendo que a MTV não tem a verba da Record, que por sinal, não esconde o seu grande objetivo, que é arrancar a Globo do mapa, e impor um novo tipo de imperialismo, o da audiência com objetivos religiosos.

Há uma dicotomia curiosa que rola há bastante tempo entre as duas maiores emissoras do país, ambas com qualidades e defeitos. Se a Globo nasceu de algum acordo escuso com a Time Life e por tabela, com o imperialismo norte-americano, isso já acabou, são águas passadas, pois a Globo fez mais pela cultura desse país do que todos os governos civis. A Record também não esconde que pretende alcançar a presidência da República, como a mesma Globo fez ao seu modo, quando apoiou Fernando Collor para liderar a nação, contra o ainda muito nordestino “sapo barbudo”. Enfim, eles que são brancos que se entendam, eu quero é ver TV e de preferência, de qualidade.

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Se uma coisa realmente me incomodou foi o formato de auditório, e a anaconda utilização do sexismo com dançarinas fazendo chifrinhos com as mãos. Imagino o quanto deve ter custado de debates e divergências nas reuniões de produção, para inserir tantas possibilidades dentro de um formato que pudesse ser assistido pela média da audiência. Mas essa opção, dançarinas do capeta, os aproxima dos Brothers e do Pânico, quando deveria afastá-los para crescer com independência e com um rosto realmente novo para informar e fazer rir com leveza e graça. Claro, que entendo a motivação e os lógicos argumentos para a inclusão dessas moças: a audiência masculina, mas se houvesse justiça na TV, incluiríam homens igualmente seminus e rebolativos. Mas deixando esse assunto de lado, o melhor do programa é a boa quantidade de matérias críticas como racismo e preservação do meio-ambiente. Os acertos serão feitos com o tempo e rezo para que cheguem a um consenso e que esse consenso traga à bojo a tal e desejada audiência.

Legionários, sejam bem-vindos, desde que seja pelo não continuísmo, mas para que muitos como eu não continuem acreditando que faleceremos vendo a TV brasileira aberta, mais covarde do que já é. Derrubem os muros, façam o possível, pois a tal da fila anda.

E verdade seja dita, esta não é apenas uma análise sobre televisão, mas sim uma análise política, pois tudo na vida é política, inclusive o que você ouve ou assiste.

Semana Santa e Santo Carnaval, dois lados da mesma moeda
3 abr, 2010 por Carlos Lopes
À luz de velas em Ipanema

À luz de velas em Ipanema

Ipanema, sexta feira da paixão à noite. Não esperava encontrar uma procissão católica no meio do caminho, o caminho em meio à procissão na movimentada avenida principal do bairro. Gosto do inusitado, mesmo, e de certa forma prefiro que o acaso – de boa cepa – determine o andamento das coisas da vida. Claro que para os fiéis, não há nada de inusitado na Semana Santa, uma data aguardada e para a qual prepararam antecipadamente uma alinhada procissão. Mas eu, como muitos, não lembrei ou não priorizei a data e o encontro foi um colírio inesperado, para quem há pouco mais de um mês viu a cidade tomada por blocos carnavalescos de mijões.  Melhor, o cheiro de incenso e a luz de velas que não agridem os nossos narizes.  Não me cabe aqui questionar se a tradição religiosa é uma procissão mítica sem razão de ser. Gosto de manifestações sem gritaria, julgamentos e na maior paz. Religião, “religiosamente” tem a ver com introspecção e isso me faz bem, me faz pensar. Gritaria é bom para debates esportivos na telinha, faz mais sentido. Jogo de hunos, debate em forma de zurros.

Homens de Preto

Homens de Preto

Quando era moleque, comia carne na Semana Santa, só de implicância, mas a gente cresce e para com essas bobagens. Se quiser comer que coma, mas sem pressão de vegetarianos ou religiosos e no maior respeito.

Grandes festas populares nos são impostas como manifestações de cunho social e cultural. Na última década, o carnaval no Rio cresceu demasiadamente, tomando conta de cada rua e viela desta cidade, sem nos dar a opção da escolha. Ou dá ou desce. Quem não quer se adaptar que dê o seu jeito. Não fico dançando na rua, mas não me aborreço, a não ser com os bêbados que não estejam abertos a diálogo e a imposições a menos de um metro. Essa reflexão curiosa ocorreu na última festança de fevereiro, a imposição da festa, a imposição da alegria a qualquer custo. Seria a manifestação religiosa, a imposição da tristeza católica, da serenidade budista ou da gritaria evangélica? Do mesmo jeito, se não dá, desce. Se você é um sujeito que não gosta de carnaval, procissão, copa do mundo e eleição presidencial, é mister mudar de planeta. Não tem jeito. Agora se você sabe que tudo que começa, a dor e a amor, tem início, meio e fim, você aprendeu algo, inclusive a viver. Não dá para fazer o mundo com a nossa cara, mas dá para fazer um acordão.

As costas

As costas

Textos são peças complexas de oratória mental, entendidas como podem pelos leitores. Aqui não há ou jaz uma carta contra a alegria ou à introspecção religiosa, mas sim uma carta a favor do respeito e da liberdade de expressão. Somos todos peças de uma grande e confusa verdade universal. Na maior paz. Amém.

Vermelho e Branco

Vermelho e Branco

O nosso Brasil de Mindlin, Villa Lobos, ETs e Lula
8 mar, 2010 por Carlos Lopes

Este texto, meio que começou a nascer em um final de semana, no qual faleceram dois brasileiros supimpas: o sambista Walter Alfaiate e o bibliófilo José Mindlin. Senti que o país ficou mais pobre e isso cutucou meus brios.

José Mindlin
José Mindlin

Digo “começou a nascer” porque de fato o texto atual foi inseminado no ano passado, mas até hoje era impossível transcrevê-lo para o mundo real das palavras escritas. Há bastante tempo não escrevo, fruto de um desinteresse crônico em compartilhar idéias escritas. Tenho preferido ler (livros) e assistir filmes e documentários, estudar cada vez mais, uma das minhas paixões. Inclusive, tem sido mais fácil escrever canções e gravá-las, apesar que todo o processo envolvido, muitas vezes, te faz perder o amor pela música. Mas isso é assunto para outro texto, este agora está reservado para uns pensamentos sobre o meu Brasil.

Repito e digo “o meu Brasil”, pois nem tudo pode ser repartido, pois somos pessoas com sentimentos diferentes e isso faz toda a diferença na hora de emitir um julgamento. E achismos não surgem apenas do povo iletrado, mas de profissionais esclarecidos, que acham que podem cuspir suas análises fundamentadas em racismo crônico. Se dependesse de muitos que cá nasceram, esse país seria uma colônia não mais da União Soviética do pós-guerra, como poderia ter sido antigamente, mas do mundanismo internacional. Já escrevi anteriormente que me causa repugnância quando alguém fala que “esse país é um lixo”, “só pode ser Brasil mesmo”, “país de preto” e coisas assim. Em primeira instância, essa elite que existe desde os tempos da colônia de Portugal ficou e ainda está muito fula porque, apesar dos escândalos, o PT ainda é o partido que manda no quintal e o seu porta-voz é o presidente mais popular do mundo, mesmo falando errado, coisa que horroriza a classe alta, que associa postura (o externo, o socialmente aceito) com bom comportamento. E essa associação quer nos continuar impondo presidente homem e branco. Um nordestino que fala errado não poderia, em “um país sério” sonhar em ser presidente, é o que pensam.

passado, presente e futuro
passado, presente e futuro

Se o Brasil ganhou o direito de sediar, principalmente a Olimpíada é porque Lula fez e aconteceu, colocou o Brasil no mapa. Ele soube usar a mídia a seu favor, o que no final das contas, conta a nosso favor. O sociólogo rancoroso, esse mesmo, que só sabe reclamar, não conseguiu. Por causa disso, dessa dor de cotovelo crônica, e apesar do seu francês fluente, o que ele pretende? Se hoje, americano (que ainda manda no mundo) sabe quem somos, que os brasileiros existem,é mais por causa da popularidade de Lula do que por causa dos nossos talentos. Isso se faz notar em produções cinematográficas como 2012, que despencou o nosso Cristo e com o atual seriado V (para fãs de Lost), que coloca uma nave-mãe gigante no ar falando português à frente do mesmo e popular Cristo Redentor (anexo imagem). Vejam bem: Nova Iorque, Los Angeles, Paris e… Rio.

Os ETs invadem o Rio
Os ETs invadem o Rio

Já escrevi também, que amo a ideia do Tropicalismo de Caetano e Gil e os filmes do cinema novo, que fundem o estrangeirismo com o olhar e o sentir local. O Brasil não deve se fechar, pois esse tipo de coisa gerou duas guerras mundiais, e coisas como o Iraque, o Irã e a Coreia do Norte. Há a necessidade de ensinar aos jovens, aos estudantes, e inclusive aos mais velhos, o orgulho de ser quem somos e ser como somos. Quando alguém comenta que o canto orfeônico do Villa Lobos, só foi possível em um contexto ditatorial, eu me pergunto, então por que não podemos resgatá-lo , se somos livres, e donos dos nossos narizes? Por que não voltar a ensinar música nas escolas? Para disponibilizarmos computadores em todos os colégios, é necessário educar o aluno para que ele não use a máquina (ainda mais) a serviço da futilidade.

1,2,3,4
1,2,3,4

Essa necessidade mórbida de olhar sempre para fora, se preocupar com o “primeiro” mundo e pisar no que temos de melhor, o “nosso”, aí sim, mesticismo é fruto de ignorância, medo e  covardia de deixar a pele escurecer e os cabelos encaracolarem. E o esquecimento, promovido pela mídia, faz parte dessa conspiração que pode ser alcunhada de educação regressiva, como um espelho embaçado que não reflete os nossos rostos e nem as nossas infinitas possibilidades. Muitas vezes, penso no que deve existir de baixa estima, quando o sujeito NÃO se vê na TV porque só há gente loura de olhos claros, biótipo alienígena e nazista. Isso só pode fazer o sujeito se sentir um lixo, e certamente o faz. Se você não abrir o olho, o negócio pode ficar feio mesmo, criando um ambiente para dominação cultural e inserção de valores que não são úteis para o nosso, aí sim, desenvolvimento e para a nossa liberdade, ainda que tardia. A mais perigosa das armas é a mídia, que inculta nas pessoas, o sentimento mesquinho de assimilar valores opressivos que deseducam.

Aconselho aos meus amigos leitores o excelente canal Futura, com um primor de programação; a TV Brasil, que está cada vez melhor; programas como Por Toda Minha Vida da Rede Globo e o fantástico documentário “O Homem que Engarrafava Nuvens” de Lírio Ferreira, diretor de Baile Perfumado e Cartola – Música para os Olhos sobre o compositor Humberto Teixeira (1915-1979), o “doutor do baião”, parceiro de Luiz Gonzaga.

Amigos e leitores, olhem e sintam o Brasil com outros olhos, com orgulho de quem sabe quem são. Se vocês não gostam do Brasil é porque não gostam de vocês, pois nós somos o Brasil. E ninguém mais pode ser.

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Adeus Oiticica, a Queimada da Cultura Brasileira
17 out, 2009 por Carlos Lopes

“Na realidade a sucessão de obras é para fazer inteligível o que eu sou. Eu passo a me conhecer através do que faço. Que na realidade  não sei o que sou. Porque se é invenção eu não posso saber. Se já soubesse o que seriam essas coisas não seria mais invenção. A existência delas é que possibilita a ‘concreção’ “

(Helio Oiticica)

1968 - Caetano e Parangolé de Hélio

1968 - Caetano e Parangolé de Hélio

Esse sábado certamente não amanheceu como outro qualquer, não porque há uma chuva ácida em andamento e nem porque criminosos do Morro dos Macacos na zona norte do Rio derrubaram um helicóptero da polícia.

O sábado havia começado bem ao receber a mensagem de uma amiga que está na França: “Resolvi que não vou mais entrar em museu até segunda, senão não faço outra coisa. Obs: museu de país que valoriza cultura é uma felicidade sem fim.”

Meu semblante mudou e logo depois liguei a TV.

Ingênuo que sou, coitado de mim.

Como se não bastasse o desprazer de ver um helicóptero queimado e dois policiais mortos, uma outra notícia incendiária derrubou meu sábado: o acervo de um dos fundadores do neoconcretismo, o artista Hélio Oiticica, falecido em 1980, que se queimou entre sexta e sábado.  Se fossem perdidos “meia dúzia de objetos”, a perda já seria irreparável, mas o problema é que simplesmente perdeu-se 90% das obras do artista que não estavam seguradas, um prejuízo calculado em 200 milhôes de dólares. Só se salvaram CDs e arquivos de computador. E lá se foram todos os parangolés. Queimou-se o Tropicalismo, a idéia do Brasil novo, a possibilidade do inédito, do eterno velho Brasil renovado. Fica a lição: as chamas da ignorância destroem, mas não podem vencer. Jamais.

O acervo do artista, guardado no primeiro andar da casa da família no bairro do Jardim Botânico no Rio de Janeiro, se perdeu enquanto seus parentes, que estavam no segundo andar, sentiram um forte cheiro de queimado.

Hélio em forma de Arte

Hélio em forma de Arte

O pior dessa história é que a prefeitura teve um longo entrevero com a família pela posse e preservação das obras.  Em 1981, foi criado sob responsabilidade da família, o Projeto Hélio Oiticica. Em 1996, a secretaria municipal de artes do Rio de Janeiro fundou um centro de artes para abrigar todo o acervo, mas brigas entre a família e o governo por causa de (não) pagamentos azedaram o diálogo. Em abril de 2009, os herdeiros de Hélio suspenderam uma exposição, alegando falta de pagamento, que foi regularizado, mas a família não devolveu a maior parte das obras, que estava na reserva técnica do Projeto Hélio Oiticica, que segundo eles, possuía as condições necessárias para a preservação das obras, as mesmas que foram queimadas ontem, seis meses após a contenda.

Jandira Feghali, a secretária de cultura lamentou a perda, mas declarou que a prefeitura lutou pelas obras. César, o irmão de Oiticica que se dedicou a proteger a obra do irmão, declarou emocionado que assume sua falha, apesar da sala na qual ocorreu a tragédia, ter controle de umidade e temperatura.

Para variar, quem perde é o Brasil, quem perde é a arte mundial.

VIOLÊNCIA, VÍTIMAS OU ALGOZES?
29 set, 2009 por Carlos Lopes
Rio, Pobreza, Desespero, Solução

O caso ocorrido no mês de setembro, na zona norte do Rio de Janeiro, quando o assaltante Sérgio Ferreira Pinto Júnior manteve por 40 minutos a comerciante Ana Cristina Garrido como refém, sob a mira de uma granada, suscitou uma enxurrada de cartas de leitores em todos os meios de comunicação, textos cheios de preconceito e desespero, verdadeiramente nauseabundos defendendo o extermínio não só dele, mas de todos os bandidos.

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99% dos leitores ou palpiteiros de plantão de jornais como O Globo on line e a corja que grasseia no You Tube, se posicionaram a favor de uma solução “rápida” como a que o “sniper” ou atirador do Bope teve que praticar para salvar a vida da refém: executar sua missão ou em outras palavras, “atirar na cabeça do criminoso”, para que “não se gaste mais dinheiro hospedando vagabundo na prisão”, como foi dito em uma das cartas que li. O major Busnello, o autor do disparo fatal, fez o que se esperava dele e por isso ganhará a medalha Tiradentes, os leitores, ganharão o inferno. Isso se o lar do capeta não for aqui. Uma outra criatura, que se diz leitor, escreveu que aceitaria de bom grado, um aumento de impostos para que comprassem balas para exterminar os bandidos nas prisões. Um único ser pensante, que levantou a voz contra essa debilidade foi chamado de “viado, politicamente correto (hoje é palavrão) e petista”. Só não acrescentei ao saldo, o bolsa família e o PAC, que chegaram a citar como exemplos do “Brasil que gosta de negros e pobres.”

4 shots, início, meio, fim e término

4 shots, início, meio, fim e término

Não me cabe julgar que o bandido que nasceu em uma sociedade injusta, e que teve uma vida difícil, se ache no direito de “correr atrás do prejuízo”, como também não é justo que um inocente seja mantido refém ou roubado, porque tem mais e outros tem menos. Como muitos brasileiros, lembro de outro famoso caso policial carioca, o do ônibus 174, transmitido ao vivo pela TV, que resultou em um duplo assassinato duplamente desqualificado. De fato, esse foi o nosso 11 de setembro. E se puxar da memória e dos livros de história, o problema do “preto e pobre” começou na escravidão, emendou nas guerras do Paraguai e em Canudos e na falta de casas e soldos e por fim em uma libertação de escravos demagógica e sem a mula e o acre. Aí não dava mesmo. Fico até imaginando que devem ter debatido o assunto na época, as possíveis seqüelas, mas alguém deve ter falado “deixa que a outra geração resolve.” Pois é, nunca se quis resolver dignamente nada e o resultado se faz ver hoje, um século depois, amparado pelo pó cheirado pela classe média que se assusta com a violência praticada e financiada por ela.

Há alguns anos, bandido, pobre, negro e favelado virou sinônimo de cinema premiado no exterior e novela na Rede Record. É Zé Pequeno, é Dadinho, é Capitão Guimarães, é Vidas Opostas, é pau, é pedra, é o fim do caminho. Dar tiro na testa de bandido na vida real pode, mas a mesma classe média, que pede extermínio em massa na internet, como se fosse piada ou solução, paga o ingresso para elogiar as nossas mazelas nas telas dos cinemas, e se debulha em elogios às ONGs e ao novo Brasil, muito mais justo e humano.

Bope na moita

Bope na moita

Certa vez, um conhecido, ao ver na TV uma passeata contra as drogas na praia de Ipanema, comentou: “Eu conheço esse cara – e apontou um sujeito segurando um cartaz “Diga Não As Drogas” na tela – ele já cheirou comigo.” Essa história mostra o grau de hipocrisia. Como se pretende que exista uma “nova sociedade”, “mais justa e humana” quando só se varre o lixo para baixo do tapete? Como se pode achar normal que alguém cheire, encha a cara até cair, que fume e que “pule a cerca” e vá reclamar contra sequestro e assalto? O mais ultrajante é que todas as classes sociais estão unidas, como irmãos siameses, pelo “pior do cordão umbilical”, pois se entorpecem e traem igualmente, isso não é exclusividade da classe baixa. É fácil escrever “mete a bala na cabeça do neguinho”, como é fácil “bater uma rapa” em seguida e abrir a boca para protestar contra a violência. Assim como é normal, o aborto.

O que se diz sobre Isabella de Oliveira Nardoni, Eloá, Jéssica Picolo e muitas outras meninas, mortas por loucos, pais e namorados?

Há 70 anos, no dia 3 de setembro, a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha nazista, que executava com “um tiro na testa” os ciganos, os judeus, os inimigos e os pobres até criarem as câmaras de gás, que facilitou o trabalho e não “expunha os soldados a danos psicológicos”. Se a desculpa para a matança hoje é roubo, ontem foi outra, não importa, sempre há uma razão e um motivo para tudo.

Luta de Classes, Marx já dizia

Luta de Classes, Marx já dizia

Estou cansado de receber tanto lixo na porta de casa, de tantas mentiras ditas e repetidas, de tanto preconceito vagabundo. Agora mesmo ouço na TV que um restaurante em Ipanema foi assaltado por bandidos com granadas, que um militar aposentado roubou duas latas de leite em pó em um supermercado na Siqueira Campos em Copacabana, que uma professora em Duque de Caxias roubou o celular da aluna e que um prédio na zona sul do Rio, foi assaltado por 3 marginais vestidos como se fossem garis. E tudo isso entre ontem e hoje! Imagine o que não foi noticiado sobre todos os assaltos em nosso país. Acho que ninguém dormiria mais. E sobre os que gritam que o extermínio é a solução? O que a pessoa mais idiota que você conhece diria? Que “não vai ter ninguém para limpar a rua”? Muito bem, um dia também não haverá quem te venda o pó, um dia não haverá quem ouça teus gemidos durante um sequestro, ou um assalto.

Por que acham normal que os educados jovens deste Brasil varonil, brinquem com jogos nos quais posam de soldados que matam seus inimigos com metralhadoras, onde mulheres são estupradas e idosas surradas?  A falta de respeito, o egoísmo e o preconceito vão se entranhando na sua alma, pelas beiradas, subindo como erva daninha pelas paredes até tomarem a sua mente e um dia, você achará normal dar um tiro na cabeça de um criminoso, porque “você não tem nada a ver com isso” e “antes ele do que você”.

Não vou reproduzir aqui, os comentários das pessoas que me deixaram enojado, ninguém merece, não vou mais alimentar isso. Para contrabalançar, abro espaço para e-mails de amigos incógnitos (para os leitores deixo claro, pois são muito “cógnitos” para esse que vos escreve), que debateram o assunto comigo, via internet. Essas pessoas escreveram coisas profundas e que merecem ser lidas por todos. Meus amigos são gente como a gente, estão espalhados por esse grande Brasil, são humanos e pensam, não são animais e eu os agradeço publicamente por acreditarem que é possível acreditar. E digo, o mal pode ter tentado estuprar meu corpo, mas nunca abortará minha alma, meu último sacrossanto lar.

Três amigos pensando sobre a violência e as cenas transmitidas pela TV:

“O que mais me impressiona é que as pessoas se colocam como “narradores observadores” do mundo. Será que ninguém se vê fazendo parte desse mesmo mundo, sendo uma peça da engrenagem, ninguém percebe que cada gesto, por menor que seja faz com que isso tudo aconteça? Com esses depoimentos, damos de cara com o crescimento do individualismo.  Parece que nós só temos duas opções:  os idiotas dos direitos humanos X os ótimos exterminadores do mal ou os ótimos dos direitos humanos X os idiotas exterminadores do mal. A verdade é que em todos nós há um pouco do bandido que levou um tiro na cabeça, existe um pouquinho dele no desejo de cada criança que inocentemente pega o brinquedo do amiguinho, dentro de cada adolescente marginalizado que picha uma parede porque se sente injustiçado, de cada servidor público que leva pra casa uma caixa de clipes só porque não tem ninguém olhando e amanhã, num passe de mágica o almoxarifado manda outro pra ele, de cada pai de família que paga todos os impostos em dia mas comete pequenas infrações de trânsito no caminho pro trabalho e se justifica alegando que “todo mundo faz”… Não sei mais o que pensar, não sei mais o que escrever… só um suspiro e uma pergunta: será que vale a pena continuar tentando?”


“O atirador tinha algo de nobre e fascista ao mesmo tempo.  Mas não consigo só ver o bandido e sim o ser humano caindo e partindo. E a vida do cara? Se foi porque ele era um monstro,  mas quem não tem suas sombras? Os caras comemoravam e o povo aplaudia… não consigo comemorar aquilo, nem ficar com pena, apenas acho uma tragédia. Odeio ladrão de colarinho branco. Daniel Dantas é muito mais letal do que aquele ser bizarro. Sartre disse que todos nós estamos condenados a ser livres, então por que o ódio ao ladrão? Foi a opção dele ou a falta de opção…o ato de roubar para mim vai além do meandro jurídico, é espiritual mesmo…mas odeio o cara que apertou o gatilho…sniper…jamais apertaria o gatilho para Daniel Dantas. O assaltante era uma aberração, mas não consigo deixar de ver uma equação sociológica e patológica: preto, pobre, vagabundo e ordinário, mas humano… quem não ameaça quando está acuado?”


“Isso tudo é uma tristeza. Uma tristeza.
Tristeza.
Tristeza.
Xeque-mate social.
Precisa de escola séria, com professor qualificado e bem remunerado. Precisa mais desenvolvimento regional, com menos migração interna. Precisa de mais mão-de-obra qualificada e mercado de trabalho para absorver a demanda. Precisa de um programa sério de controle de natalidade nas cidades grandes, com pais que assumam seus filhos, porque criar filho dá trabalho. Enfim, precisa controlar a corrupção e o esquema feudal que contribui muito para que nós fiquemos assim. São essas instâncias que diminuem a desigualdade social, eu acredito.
Também menos publicidade, menos fashion e mais consistência e perspectiva futura. Educação, cultura e civilidade não são frescura de “elite”. Mas estão todos desesperados: os caras que jogam pedras nos carros do alto da passarela, o cara da granada, os caras que arrastaram o menino fora do carro, os caras que atiram por nada, o policial que se sobe o morro e o que faz conchavo, as quadrilhas rivais e todos “nós” que andamos por aí, rezando pra não errar o caminho ou dar azar. “Nós” e “eles” estamos uns odiando os outros, sem mirar no real inimigo comum. Mas, apesar de tudo, o rapaz que foi morto estava armado, praticando terrorismo e ameaçando uma pessoa. No meio do nosso xeque-mate, do cansaço, desespero e sentimento de impotência geral, qual é a solução imediata?”

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Sexo, Pornografia e Falsa Liberdade.
19 set, 2009 por Carlos Lopes
descoberta

descoberta

Nesta sexta a ficha caiu.

Há um tempo, um assunto me incomodava, mas como se diz, deixava para lá, porque não era problema meu. Não assisto sexo na TV e nunca vi um filme pornô. Quero dizer, minto, só vi um, uma vez na casa de amigos adolescentes que, por uma questão de sociabilidade, tive que comparecer pela curiosidade e para exibir a minha normalidade. Claro, que todos adoraram, ou fingiram adorar e naquele ritual coletivo, todos aprendemos que as mulheres não são apenas mães, são prostitutas.

Meus pais nunca falaram sobre sexo comigo. Para meu pai, o homem devia sempre ser o “comedor” e minha mãe achava que não era conversa para se ter com filho. O que acontece é que a falta de diálogo, nos leva sempre ao lugar comum, que é ver revistas nas quais mulheres surgem como objetos fornicantes e assistir filmagens com mulheres americanizadas com implantes, e próteses serem dominadas por machos vigorosos. A partir daí, após a primeira visão distorcida da cópula, tudo está arruinado. Não há mais volta. Aprende-se tudo errado, criam-se mitos e muito pelo contrário, não se dá ao cliente a opção da escolha: apenas uma forma de se fazer sexo é imposta. O espectador já pode se considerar lobotomizado, nunca mais, em sua fase adolescente, elogiará uma comédia romântica, por medo de ser considerado baitola.  O proibido, antes que me esqueça, não tem mais nada de oculto, e está pertinho de você, aqui mesmo na internet, ao toque de um botão.

conhecimento

conhecimento

Provavelmente todos já leram aquele pensamento que diz que “quando eles vieram pegar os judeus, você não fez nada porque não era judeu, mas no dia que eles vieram te pegar, não havia ninguém para socorrê-lo”. Foi assim que me senti nesta sexta, quando a ficha caiu. Muitos querem nos fazer acreditar que o desvio de caráter e de conduta, é algo lícito, normal. E o que se esconde por trás de uma educação distorcida que exibe sexo entre duas mulheres e um homem, que exibe troca de casais como sendo a mais contundente prova de liberdade, da consumação do direito de escolha? Dinheiro, dinheiro e dinheiro. O que mais cresce nesse mundo, fora as contas e dá lucro de cornucópia? Sexo. Isso desde o início dos tempos. A diferença é que antes não havia televisão ou internet.

Assim teve início a minha sexta.

À tarde vi um programa de auditório, no qual garotas de programa falavam sobre os clientes, prioritariamente homens casados. Alguém citou uma pesquisa recente , que afirma que praticamente há um empate técnico, entre traição feminina ou masculina. Os sexos não se superam no quesito traição, há uma equivalência nas intenções, empatam quase de igual para igual. Disseram que o problema é genético, outros que é cultural. As pessoas traídas faziam papel de coitadas e as que vendem o corpo ou traem, o que dá no mesmo, se justificam, usando as palavras dinheiro e liberdade. Atenção: muitos compram liberdade com dinheiro, outros dizem que dinheiro traz felicidade. Felicidade e liberdade caminham juntas, pelo visto.

soma

soma

À noite na mesma sexta, zapeando através dos canais, passei pelo Multishow e vi uma mulher chupando outra e sendo penetrada por trás ao mesmo tempo. Se não descrever o que vi, também não posso descrever o que me passou pela cabeça. É um canal a cabo e nessa barafunda de emissoras e programações, pode-se ver sexo grupal ou um pastor pregando em nome de Jesus. A escolha é de cada um, vê quem quer. E é claro, o tal canal só exibe a sua orgia após a meia noite, horário considerado próprio para isso, mas o problema não é a exibição, são 3 palavras que há por trás dessa história: “liberdade”, “felicidade” e “dinheiro”. Concordo que cada um vê o que quer, acredita no que quiser, mas a partir dessa sexta, a tal da frase da guerra, citada anteriormente, começou a fazer muito mais sentido do que antes. Há diferenças e semelhanças entre religião e o sexo, e às vezes até confluem na mesma direção, como no tantra. Mas há coisa pior do que ver casais fornicando na televisão, e uma pequena listinha inclui egoísmo, inveja, racismo, preconceito, vício, roubo e assassinato. O problema é a educação distorcida que ensina como “se” deve fazer; a falsa educação que diz que existe diferença entre amor e sexo.

O homem que é homem trai porque é macho, não respeita casamento, não respeita amor, não respeita a dor alheia; e a mulher que trai está certa porque ela precisa “viver o momento”, “seguir sua verdade interior”, “ser livre”, “ser moderna”. É isso o que ensinam. Pois é, vê quem quer, ouve quem quer. É o preço da liberdade.

Assistir essas coisas, mulheres e homens como vieram ao mundo, eu já vi, mas nesse momento aquela imagem bateu muito forte em mim, como forte foi a minha náusea, o meu desprezo contra uma empresa de comunicação que se presta a uma papel desses, que acredita que atende a todos os segmentos do público exibindo uma “verdade” distorcida, em nome de uma hipócrita liberdade de pensamento. Censura é uma palavra ignóbil para mim, é tão pornográfica quanto a entrevista com mulheres risonhas, que praticavam o swing entre casais;  como é imundo não lidar com a verdade, e como é sujo mentir socialmente para conquistar popularidade nesse universo de culto à celebridade.

i dream of eve

i dream of eve

O problema desse comportamento, dito liberal, é que não há qualquer verdade nessa premissa: isso não é liberdade, é prisão, é hipnose, é burrice.

O amor dos séculos anteriores, onde não havia aprendizado áudio-visual, certamente era mais misterioso. No máximo, desenhos eróticos e posteriormente fotografias, ensinavam o básico aos interessados, mas nada que fosse como um curso completo de como fazer cabelo, barba e bigode. Seria então, ingênuo ou errôneo, idealizar o amor? Imaginar como se poderia retirar o espartilho da amada? É, os tempos eram outros. Nós que nascemos em um mundo áudio-visual temos as nossas próprias questões para resolver, complexamente diferentes.

Já dizia Santo Agostinho que “nada de útil pode nascer de um lugar do qual se urina”. Mas onde há luz, há trevas, também não dá para ser como Lenin, que considerava sexo uma coisa burguesa, que desviava a atenção do trabalho.

Não dá para inibir todos os nossos instintos, negar que somos falhos, mas há uma coisa que aprendi: que quando se compreende que amor não é troca de parceiros, mas aprendizado em comum, você se liberta. O amor de fato existe e quando você o sente, nunca o esquece. O amor real cria uma energia própria que te eleva não à condição do fanatismo, mas à realização da unicidade entre dois seres que se completam, da soma entre os opostos, do homem e da mulher (e até mesmo do homem com o homem, como muitos acreditam) que se transformam em deuses, que aprendem a amar juntos. O sexo mostrado como necessidade fisiológica é uma distorção da realidade, é uma mentira perpetuada por quem não deseja educar o indivíduo à liberdade de escolha.

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