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VIOLÊNCIA, VÍTIMAS OU ALGOZES?
29 set, 2009 por Carlos Lopes
Rio, Pobreza, Desespero, Solução

O caso ocorrido no mês de setembro, na zona norte do Rio de Janeiro, quando o assaltante Sérgio Ferreira Pinto Júnior manteve por 40 minutos a comerciante Ana Cristina Garrido como refém, sob a mira de uma granada, suscitou uma enxurrada de cartas de leitores em todos os meios de comunicação, textos cheios de preconceito e desespero, verdadeiramente nauseabundos defendendo o extermínio não só dele, mas de todos os bandidos.

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99% dos leitores ou palpiteiros de plantão de jornais como O Globo on line e a corja que grasseia no You Tube, se posicionaram a favor de uma solução “rápida” como a que o “sniper” ou atirador do Bope teve que praticar para salvar a vida da refém: executar sua missão ou em outras palavras, “atirar na cabeça do criminoso”, para que “não se gaste mais dinheiro hospedando vagabundo na prisão”, como foi dito em uma das cartas que li. O major Busnello, o autor do disparo fatal, fez o que se esperava dele e por isso ganhará a medalha Tiradentes, os leitores, ganharão o inferno. Isso se o lar do capeta não for aqui. Uma outra criatura, que se diz leitor, escreveu que aceitaria de bom grado, um aumento de impostos para que comprassem balas para exterminar os bandidos nas prisões. Um único ser pensante, que levantou a voz contra essa debilidade foi chamado de “viado, politicamente correto (hoje é palavrão) e petista”. Só não acrescentei ao saldo, o bolsa família e o PAC, que chegaram a citar como exemplos do “Brasil que gosta de negros e pobres.”

4 shots, início, meio, fim e término

4 shots, início, meio, fim e término

Não me cabe julgar que o bandido que nasceu em uma sociedade injusta, e que teve uma vida difícil, se ache no direito de “correr atrás do prejuízo”, como também não é justo que um inocente seja mantido refém ou roubado, porque tem mais e outros tem menos. Como muitos brasileiros, lembro de outro famoso caso policial carioca, o do ônibus 174, transmitido ao vivo pela TV, que resultou em um duplo assassinato duplamente desqualificado. De fato, esse foi o nosso 11 de setembro. E se puxar da memória e dos livros de história, o problema do “preto e pobre” começou na escravidão, emendou nas guerras do Paraguai e em Canudos e na falta de casas e soldos e por fim em uma libertação de escravos demagógica e sem a mula e o acre. Aí não dava mesmo. Fico até imaginando que devem ter debatido o assunto na época, as possíveis seqüelas, mas alguém deve ter falado “deixa que a outra geração resolve.” Pois é, nunca se quis resolver dignamente nada e o resultado se faz ver hoje, um século depois, amparado pelo pó cheirado pela classe média que se assusta com a violência praticada e financiada por ela.

Há alguns anos, bandido, pobre, negro e favelado virou sinônimo de cinema premiado no exterior e novela na Rede Record. É Zé Pequeno, é Dadinho, é Capitão Guimarães, é Vidas Opostas, é pau, é pedra, é o fim do caminho. Dar tiro na testa de bandido na vida real pode, mas a mesma classe média, que pede extermínio em massa na internet, como se fosse piada ou solução, paga o ingresso para elogiar as nossas mazelas nas telas dos cinemas, e se debulha em elogios às ONGs e ao novo Brasil, muito mais justo e humano.

Bope na moita

Bope na moita

Certa vez, um conhecido, ao ver na TV uma passeata contra as drogas na praia de Ipanema, comentou: “Eu conheço esse cara – e apontou um sujeito segurando um cartaz “Diga Não As Drogas” na tela – ele já cheirou comigo.” Essa história mostra o grau de hipocrisia. Como se pretende que exista uma “nova sociedade”, “mais justa e humana” quando só se varre o lixo para baixo do tapete? Como se pode achar normal que alguém cheire, encha a cara até cair, que fume e que “pule a cerca” e vá reclamar contra sequestro e assalto? O mais ultrajante é que todas as classes sociais estão unidas, como irmãos siameses, pelo “pior do cordão umbilical”, pois se entorpecem e traem igualmente, isso não é exclusividade da classe baixa. É fácil escrever “mete a bala na cabeça do neguinho”, como é fácil “bater uma rapa” em seguida e abrir a boca para protestar contra a violência. Assim como é normal, o aborto.

O que se diz sobre Isabella de Oliveira Nardoni, Eloá, Jéssica Picolo e muitas outras meninas, mortas por loucos, pais e namorados?

Há 70 anos, no dia 3 de setembro, a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha nazista, que executava com “um tiro na testa” os ciganos, os judeus, os inimigos e os pobres até criarem as câmaras de gás, que facilitou o trabalho e não “expunha os soldados a danos psicológicos”. Se a desculpa para a matança hoje é roubo, ontem foi outra, não importa, sempre há uma razão e um motivo para tudo.

Luta de Classes, Marx já dizia

Luta de Classes, Marx já dizia

Estou cansado de receber tanto lixo na porta de casa, de tantas mentiras ditas e repetidas, de tanto preconceito vagabundo. Agora mesmo ouço na TV que um restaurante em Ipanema foi assaltado por bandidos com granadas, que um militar aposentado roubou duas latas de leite em pó em um supermercado na Siqueira Campos em Copacabana, que uma professora em Duque de Caxias roubou o celular da aluna e que um prédio na zona sul do Rio, foi assaltado por 3 marginais vestidos como se fossem garis. E tudo isso entre ontem e hoje! Imagine o que não foi noticiado sobre todos os assaltos em nosso país. Acho que ninguém dormiria mais. E sobre os que gritam que o extermínio é a solução? O que a pessoa mais idiota que você conhece diria? Que “não vai ter ninguém para limpar a rua”? Muito bem, um dia também não haverá quem te venda o pó, um dia não haverá quem ouça teus gemidos durante um sequestro, ou um assalto.

Por que acham normal que os educados jovens deste Brasil varonil, brinquem com jogos nos quais posam de soldados que matam seus inimigos com metralhadoras, onde mulheres são estupradas e idosas surradas?  A falta de respeito, o egoísmo e o preconceito vão se entranhando na sua alma, pelas beiradas, subindo como erva daninha pelas paredes até tomarem a sua mente e um dia, você achará normal dar um tiro na cabeça de um criminoso, porque “você não tem nada a ver com isso” e “antes ele do que você”.

Não vou reproduzir aqui, os comentários das pessoas que me deixaram enojado, ninguém merece, não vou mais alimentar isso. Para contrabalançar, abro espaço para e-mails de amigos incógnitos (para os leitores deixo claro, pois são muito “cógnitos” para esse que vos escreve), que debateram o assunto comigo, via internet. Essas pessoas escreveram coisas profundas e que merecem ser lidas por todos. Meus amigos são gente como a gente, estão espalhados por esse grande Brasil, são humanos e pensam, não são animais e eu os agradeço publicamente por acreditarem que é possível acreditar. E digo, o mal pode ter tentado estuprar meu corpo, mas nunca abortará minha alma, meu último sacrossanto lar.

Três amigos pensando sobre a violência e as cenas transmitidas pela TV:

“O que mais me impressiona é que as pessoas se colocam como “narradores observadores” do mundo. Será que ninguém se vê fazendo parte desse mesmo mundo, sendo uma peça da engrenagem, ninguém percebe que cada gesto, por menor que seja faz com que isso tudo aconteça? Com esses depoimentos, damos de cara com o crescimento do individualismo.  Parece que nós só temos duas opções:  os idiotas dos direitos humanos X os ótimos exterminadores do mal ou os ótimos dos direitos humanos X os idiotas exterminadores do mal. A verdade é que em todos nós há um pouco do bandido que levou um tiro na cabeça, existe um pouquinho dele no desejo de cada criança que inocentemente pega o brinquedo do amiguinho, dentro de cada adolescente marginalizado que picha uma parede porque se sente injustiçado, de cada servidor público que leva pra casa uma caixa de clipes só porque não tem ninguém olhando e amanhã, num passe de mágica o almoxarifado manda outro pra ele, de cada pai de família que paga todos os impostos em dia mas comete pequenas infrações de trânsito no caminho pro trabalho e se justifica alegando que “todo mundo faz”… Não sei mais o que pensar, não sei mais o que escrever… só um suspiro e uma pergunta: será que vale a pena continuar tentando?”


“O atirador tinha algo de nobre e fascista ao mesmo tempo.  Mas não consigo só ver o bandido e sim o ser humano caindo e partindo. E a vida do cara? Se foi porque ele era um monstro,  mas quem não tem suas sombras? Os caras comemoravam e o povo aplaudia… não consigo comemorar aquilo, nem ficar com pena, apenas acho uma tragédia. Odeio ladrão de colarinho branco. Daniel Dantas é muito mais letal do que aquele ser bizarro. Sartre disse que todos nós estamos condenados a ser livres, então por que o ódio ao ladrão? Foi a opção dele ou a falta de opção…o ato de roubar para mim vai além do meandro jurídico, é espiritual mesmo…mas odeio o cara que apertou o gatilho…sniper…jamais apertaria o gatilho para Daniel Dantas. O assaltante era uma aberração, mas não consigo deixar de ver uma equação sociológica e patológica: preto, pobre, vagabundo e ordinário, mas humano… quem não ameaça quando está acuado?”


“Isso tudo é uma tristeza. Uma tristeza.
Tristeza.
Tristeza.
Xeque-mate social.
Precisa de escola séria, com professor qualificado e bem remunerado. Precisa mais desenvolvimento regional, com menos migração interna. Precisa de mais mão-de-obra qualificada e mercado de trabalho para absorver a demanda. Precisa de um programa sério de controle de natalidade nas cidades grandes, com pais que assumam seus filhos, porque criar filho dá trabalho. Enfim, precisa controlar a corrupção e o esquema feudal que contribui muito para que nós fiquemos assim. São essas instâncias que diminuem a desigualdade social, eu acredito.
Também menos publicidade, menos fashion e mais consistência e perspectiva futura. Educação, cultura e civilidade não são frescura de “elite”. Mas estão todos desesperados: os caras que jogam pedras nos carros do alto da passarela, o cara da granada, os caras que arrastaram o menino fora do carro, os caras que atiram por nada, o policial que se sobe o morro e o que faz conchavo, as quadrilhas rivais e todos “nós” que andamos por aí, rezando pra não errar o caminho ou dar azar. “Nós” e “eles” estamos uns odiando os outros, sem mirar no real inimigo comum. Mas, apesar de tudo, o rapaz que foi morto estava armado, praticando terrorismo e ameaçando uma pessoa. No meio do nosso xeque-mate, do cansaço, desespero e sentimento de impotência geral, qual é a solução imediata?”


6 Respostas  
  • Danilo Martins escreveu:
    setembro 30th, 2009 at 08:39

    Não poderia ter havido outra solução imediata para aquela situação, que já começou a ser uma tragédia desde o momento que o ladrão quis “correr atrás do prejuízo”. Vejo como necessário – naquele momento –, mas não aplaudo, não vanglorizo, não atiro junto. Lamento o quão distorcido estão os valores, aquilo jamais será algo a ser comemorado, deveria ser sim um despertador pra quem acha que está alheio ao circo de terrorismo que se transformou nossa cidade.

    Porém, até sinto pena de quem bateu palma, muitos são gente que já esteve na mira de um revolver, só pensando na família, nos amigos, nos entes queridos e escapou pra contar a história. Só pensando que trabalhou e estudou um pouquinho mais, que fez algum esforço é verdade para ter algum bem, mas que o fez pq tbm teve oportunidade. Oportunidade essa que faltou à pessoas como o rapaz que segurava a granada e muitos outros desesperados (mas não inocentes tbm) por aí.

    Uma tragédia muito mais abrangente do que se pensa de fato.

  • Jesley Augusto escreveu:
    outubro 1st, 2009 at 21:23

    Pois é, a solução com um tiro na cabeça talvez não seja o melhor caminho. Devemos priorizar melhorar as raízes que geram tal violência.

  • Sandro Rogerio Binotti escreveu:
    outubro 4th, 2009 at 18:38

    UMA CENA HORROROSA, ME DEU NOJO;
    O TIRO NA TESTA DAQUELE RAPAZ FOI UM TIRO NA TESTA DE TODOS OS MISERÁVEIS QUE NÃO TEM PRATICAMENTE NENHUMA OPORTUNIDADE NESTE CAPITALISMO SELVAGEM.

  • Manoel escreveu:
    outubro 20th, 2009 at 02:42

    Não vi ninguém tendo pena da senhora que passou os quarenta piores minutos de sua vida entre a vida e a explosão por uma granada, da sua filha e do seu esposo. Vi, sim, um punhado desconexo de argumentações ultrapassadas, da época do bandido que roubava pra sobreviver, o bandido-vítima-do-sistema. Pergunto: quantos bandidos usam o dinheiro roubado pra comer? Por que, na opinião dos senhores, a vida do bandido vale mais do que a da vítima? E quem compra o que essas pessoas roubam? e quem cheira o pó que se trafica no Rio? Deixem o Rio viver. Parem de cheirar cocaína!

  • Cid escreveu:
    outubro 20th, 2009 at 03:02

    os Los três amigos acima usam e abusam de uma retórica infundada e tão medíocre que penso se tratar daqueles eternos homens tijolos, procurando vidraça.s.. “sniper, odeio o sniper… não atiraria em Daniel Dantas” – dane-se a vida da mulher à beira de ser feita em pedaços? Será que ela ama Daniel Dantas? É esse a culpa que ela carrega e a sentença foi estar sob judíce desse bandido? Isso é dialética para ignorantes, que não conhecem o fundamento jurídico, que se opõem pelo simples prazer de se opor ou de se destacar, lição esta levada a cabo pelo sr. carlos lopes, o homem que só aponta o dado, o homem que atira a esmo e se revolta quando é alvo. O que será desses falsos humanistas quando não houver mais bandidos? O que diz o Carlos Lopes quando está com uma arma apontada a sua cabeça? O que diz o morador da zona sul nestas horas?

  • Cid escreveu:
    outubro 20th, 2009 at 03:03

    por que fazer um blog se os pensamentos contrários são censurados?


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