
O mundo visto de Dubai
Assisti no canal Discovery a um documentário sobre Dubai nos Emirados Árabes onde só se fez questão de mostrar as qualidades: os monumentais prédios que mudam de cor e as ilhas artificiais (inclusive uma que reproduz o globo terrestre – ver foto) feitas com areia do fundo do mar. Dubai e Abu Dhabi (esse é o pai. Dubai é o filho rebelde que abriu as asas e voou) são os mais famosos dos sete Emirados Árabes governados por “príncipes” de famílias “reais” que se perpetuam no poder há gerações. Não há partido político ou oposição. Só há muito petróleo (em Abu Dhabi, não em Dubai) e muita riqueza. Dubai se transformou em um resort de super luxo para super endinheirados. Um paraíso turístico onde a moeda local, o dirham, praticamente não sofre variações, mas catso, atrelada ao dólar americano, tem sofrido as consequências. E se o dólar anda mal…

Dubai Towers: Prédios em forma de chama
Apesar do mundo viver sob o jugo de uma insuflada crise econômica e da sábia decisão de países como o Brasil procurarem alternativas energéticas para o “óleo negro” poluidor, não há uma linha de crítica na imprensa internacional a Dubai. Só elogios. O programa do Discovery foi tão acintosamente elogioso, que me lembrou de certos governos Estaduais que financiam algumas escolas de samba cariocas para propagandear as suas belezas naturais.
Mas peraí… Também não há eleição em Cuba, mas a imprensa se derrama em elogios à Dubai e critica a ilhota. Não há eleições na China, mas pisar no calo do gigante asiático é pouco produtivo para um mundo tão dependente e globalizado. Dois pesos, duas medidas.
Como pode haver tamanha fartura de investimentos em um pedaço de terra pretensamente esquecido por Deus (e requerido por Alá) em um momento em que o mundo vive uma crise sem precedentes. Uma grande causa, se não a maior, dos conflitos no século XX (e XXI)no Oriente Médio é a demarcação das fronteiras pelas potências ocidentais. Essas terras e novos países dados a reis e príncipes cooperativos marcaram o início de futuros e intermináveis conflitos. Se o mundo vive hoje sob o medo de ser devastado por árabes radicais, isso se deve principalmente à necessidade de controle. E do medo de perdê-lo.

Vela inflada
Após assistir ao documentário sobre Dubai, li um texto sobre o efeito da crise mundial no país, anteriormente imune às vicissitudes, chamado “Estrangeiros abandonam Dubai” escrito por Robert F. Worth. Para início de conversa, o repórter relata a história de Sofia, uma francesa de 34 anos. A french woman mudou-se para Dubai há um ano atrás para trabalhar em publicidade. Segura, comprou um apartamento por quase US$ 300 mil, com uma hipoteca de 15 anos. Demitida, procura emprego mas confidenciou ao repórter: “Estou muito assustada com o que pode acontecer, porque comprei um imóvel aqui. Se não puder pagar as prestações, me disseram que posso ser presa por dívidas”.

Dubai Palm Island
Segundo Worth, “os jornais informam que já existem mais de 3 mil automóveis abandonados no estacionamento do aeroporto, deixados por estrangeiros endividados que fugiram do país. Diz-se que dentro de alguns dos carros foram encontradas faturas de cartões de crédito com os limites estourados, e pedidos de desculpa colados aos para-brisas. As pessoas que perdem o emprego em Dubai também perdem seu visto de trabalho e precisam sair do país em prazo de um mês. Os preços dos imóveis despencaram e dezenas de grandes projetos de construção em Dubai foram suspensos ou cancelados. Um anteprojeto de lei de mídia, ainda em debate, pode tornar crime prejudicar a reputação ou economia do país, e a pena é de multa de até um milhão de dirhams (US$ 272 mil). Mas Dubai, ao contrário dos vizinhos Abu Dhabi e Arábia Saudita, não tem petróleo, e construiu sua reputação com os imóveis, finanças e turismo. Segundo os boatos, o Palm Jumeira (ver foto), um complexo imobiliário construído em uma ilha artificial, estaria afundando.”
Se isso não é crise, eu não sei mais o que é.