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Duas mulheres contra duas ditaduras
25 fev, 2009 por Carlos Lopes
Aracy de Carvalho "O Anjo de Hamburgo"

Aracy de Carvalho "O Anjo de Hamburgo"

Os mais antigos lembram da cantora Aracy de Almeida ou da atriz Aracy Balabanian quando se pronuncia o nome Aracy. Em comum só o fato de serem mulheres talentosas. A Aracy que vamos falar era esposa do escritor Guimarães Rosa, homenageado nesse carnaval 2009 pela Escola Mocidade Independente juntamente com Machado de Assis. Harold Bloom, um dos maiores críticos literários do mundo chamou Machado de “o maior escritor negro de todos os tempos”. Para o autor de “Os 100 autores mais criativos da História da Literatura” (Machado é o único brasileiro dos 100) Guimarães Rosa é “o mago da linguagem”. Só para citar.

Para explicar direitinho onde quero chegar vamos por partes como diria o doutor Frankenstein. Escrevo hoje sobre duas brasileiras que lutaram contra sistemas ditatoriais. Duas brasileiras que fizeram história.

Ficha de Dilma, antes de ter se tornado ministeriável

Ficha de Dilma, antes de ter se tornado ministeriável

A mineira (de Belo Horizonte) Dilma Rousseff, a menina que sonhava em ser bailarina e tornou-se guerrilha por sonhar demais e Ministra por sonhar certo, foi convocada para depor em maio de 2008 sobre os detalhes da montagem do dossiê com gastos do ex-presidente FHC. A
Ministra respondeu estrategicamente à insinuação feita pelo senador José Agripino dos Democratas de que se ela havia mentido antes (torturada nas mãos da Ditadura) por que não mentiria hoje? Dilma respondeu que foi torturada enquanto esteve presa em Porto Alegre: “Não havia possibilidade de diálogo civilizado. Qualquer comparação só pode partir de quem não dá valor à democracia brasileira. Eu tinha 19 anos, fui para cadeia durante três e fui barbaramente torturada”, declarou acrescentando que não entregaria seus companheiros de luta. 

Além do horizonte existe um lugar bonito e tranquilo para gente se amar

Além do horizonte existe um lugar bonito e tranquilo pra gente se amar

A paranaense Aracy de Carvalho, filha de mãe alemã e pai brasileiro, foi morar com uma tia na Alemanha em 1934 com um filho de 5 anos, após a sua separação matrimonial do alemão Johannes Edward Ludwig Tess.
Por dominar várias línguas, foi nomeada para o consulado brasileiro em Hamburgo durante o regime nazista. Aracy “O Anjo de Hamburgo” ajudou inúmeros judeus refugiados providenciando cerca de 100 “vistos” para o Brasil, sem o J de identificação, mesmo desrespeitando a circular secreta
1.127, que restringia a entrada de judeus no país do Itamaraty do presidente Getúlio Vargas, então de namoro com Hitler. Em alguns casos, o próprio cônsul adjunto à época, e seu futuro segundo marido, João Guimarães Rosa ia à bordo dos navios, para embarcar os judeus e a auxiliava distribuindo comida racionada para os judeus, de casa em casa. Em Israel, no Museu do Holocausto, há uma placa em homenagem a Aracy. Seu nome consta da relação de 18 diplomatas que ajudaram a salvar judeus, durante a Segunda Guerra. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa é a única mulher nesta lista. Durante a vigência do AI 5, auxiliou vários perseguidos pela ditadura (inclusive Geraldo Vandré) e nunca mais casou após perder o grande Rosa. Por fim essa grande brasileira cedeu ao inevitável ciclo do tempo: o Mal de Alhzeimer tomou conta de sua mente e corpo. Aos 90 anos deixou o apartamento no Rio, onde vivia sozinha, para ser amparada pelo filho em São Paulo.

Aracy 100 anos

Aracy 100 anos

Dilma, ex-torturada, utilizou a ABIN, sucessora do SNI o serviço de inteligência do regime militar para investigar e barrar mais de 20 nomes que o PMDB e o PT haviam indicado para os cargos estratégicos do setor elétrico. A ministra Dilma Rousseff da Casa Civil leu a roupa suja de cada um e mandou-os catar coquinho, não sem razão, pois comprovadamente estavam envolvidos em casos de corrupção e com alguns processos rolando na Justiça.  O objetivo atual da Abin não é espionar os outros, mas sim combater ao terrorismo (atenção), à lavagem de dinheiro e ao crime organizado.

Dilma 11 e Meia

Dilma 11 e Meia

O que quero dizer é que ambas desobedeceram, se insurgiram contra convenções pré-estabelecidas, ambas lutaram por suas convicções em épocas diferentes e de uma forma simbólica se uniram, mesmo que indiretamente, contra o AI5 e a Ditadura dos Costas e Médicis.  Se Dilma usou os arapongas de plantão para limpar o terreno, não posso achar isso de todo mal, confesso. Se dependesse de mim, nenhum Presidente, Senador, Congressista, Deputador, Vereador ou Assessor ganharia mais do que 10 mil reais. Cargo público é missão e prova de amor ao país, nada mais. E o caminho que se avizinha para o Brasil é um caminho independente, obviamente desprezado pelos eleitores da centro-direita amedrontada, que ainda preferem trocar Pau Brasil por espelhos.

Para referendar o que escrevi, destilo abaixo a fichinha da Dilma feita pelo Consulado dos Estados Unidos em São Paulo e remetido para o Departamento de Estado do governo norte-americano. Esse texto foi publicado no Zero Hora de 11/5/2008.

SUMMARY.
Dilma Rousseff é uma gestora durona e exigente que vai perseguir a qualificação da implementação de políticas administrativas. Ela está menos para o político de holofote como José Dirceu, que pediu demissão semana passada em meio a um crescente escândalo de corrupção. Dilma
Vana Rousseff … se tornou ativamente envolvida com a oposição ao regime da Ditadura Militar em 1967, aos 19 anos, enquanto cursava Economia em Minas Gerais. Entrou para vários grupos clandestinos, organizou três assaltos a banco e então foi co-fundadora do grupo de
guerrilha chamado Vanguarda Revolucionária Armada de Palmares. Em 1969 ela planejou um assalto lendário conhecido como “Theft of Adhemar’s Safe”, “o roubo do cofre de Adhemar”. A operação arrombou o apartamento carioca da amante do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros, recolhendo US$ 2,5 milhões que Ademar guardava no local. Rousseff se separou do primeiro marido, Cláudio Linhares, que em janeiro de 1970 seqüestrou um avião para Cuba e permaneceu lá. Naquele mesmo mês, ela foi capturada pelo Regime e aprisionada por três anos (o oficial se referiu a ela como Joana D’arc dos subversivos), incluindo 22 dias de brutal tortura de eletrochoque. Libertada no final de 1973, Rousseff mudou-se para o Estado do Rio Grande do Sul. Quando seus direitos foram restaurados pela anistia geral de 1979, ela entrou para o PDT, partido do líder de esquerda Leonel Brizola.

Em particular a saúdam por sua disposição em ouvir e responder posições e idéias, mesmo quando está inclinada a uma conclusão diferente. Ela tem a uma reputação de negociadora dura, ser persistente e de prestar muita atenção aos detalhes. Adjetivos usados aqui por aqueles que trabalham com ela incluem exigente é  workaholic.


6 Respostas  
  • Frederico escreveu:
    fevereiro 25th, 2009 at 09:52

    O Blog está massa. Que namora com a Dilma!

  • omarteloblog escreveu:
    fevereiro 25th, 2009 at 23:07

    Não diria “namoro”… apenas gosto da histórica quase mítica de uma jovem guerrilheira candidata a presidenta :-) Não é campanha não, tá? Abraços.

  • claudete duarte escreveu:
    abril 22nd, 2009 at 19:37

    NÃO HÁ NADA A RESPEITO DESTE ASSUNTO DOS OUTROS QUE ENFRENTARAM A DITADURA – SR. JOSE SERRA – SR. FHC?

  • omarteloblog escreveu:
    abril 23rd, 2009 at 14:41

    Obrigado Claudete. Sua sugestão me inspirou. Não sou PTista, nem FHCista. Nosso país, ainda vivendo em berço esplêndido, necessita mais do que nunca atingir a sua e a nossa maioridade. Obrigado por ler, partilhar idéias e participar.

  • Machado escreveu:
    julho 13th, 2009 at 00:47

    “Não misture alho com bugalhos”

    Nossa heroína Aracy não merece ser tratada dessa maneira.
    Seria interessante criar uma página especial e de respeito para essa mulher, pois quem a conhece verdadeiramente não faz comparações.
    Essa distinta brasileira não precisa ser venerada mas sim respeitada.
    Obrigado.
    Machado.

  • omarteloblog escreveu:
    julho 14th, 2009 at 03:59

    Entendo perfeitamente o que você diz, Machado. Amo pessoas comprometidas com suas verdades, também amo estudar a condição humana. O que me toca, particularmente, no caso da Aracy não é apenas a figura humana, mas também falar sobre a velhice e o desconhecimento geral a respeito da história e vida dessa mulher. Há comparação entre Aracy e Dilma? Em tese, não, mas o fato de ambas terem decidido enfrentar os ambientes ditatoriais nos quais viveram é o que me fascinou a tecer uma comparação, até mesmo desmedida, porém apaixonada e sincera. Muito obrigado por suscitar o debate.


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